
Andrew Breitbart, que Deus o tenha, dizia que a política é ladeira abaixo da cultura, ou seja, a cultura é mais importante do que a agenda política. Há gente sinistra por aí que acredita que tudo é ato político, mas a real é isso que o Breitbart dizia e o Shinichiro Watanabe entende a importância da cultura perfeitamente.
O novo anime do grandioso Shinichiro Watanabe continua a explorar o universo criado por ele em Cowboy Bebop e conta a história de duas meninas adolescentes, a Carole e a Tuesday, que se encontram por acaso numa ponte e começam a cantar juntas, iniciando assim um proveitoso caminho em direção ao sucesso musical, que culminará no milagre de 7 minutos.
Apesar do meu resumo, a história não é nada simples, porque cada uma das duas personagens carregam histórias extremamente profundas. Carole é uma menina orfã terrestre, que morou num campo de refugiados toda a sua infância e hoje mora quase de favor em cima da loja de um japonês que passa os seus dias fumando um cachimbo na frente da loja. Já Tuesday é filha de uma política que está concorrendo à presidência de Marte e foge de casa pois sua mãe é muito rígida com ela, buscando uma chance no mundo da música.
Logo de cara, elas encontram Gus, um produtor musical que fora baterista de uma banda e hoje passa os dias e noites dentro de um bar, engordando e se embebedando, sem limites. Ao ouvir a música das duas, Gus se emociona e decide produzi-las. O problema é que Gus já tem um passado falho como produtor musical, o que também o força a sair de sua zona de conforto ao interagir com elas.
Junte-se a eles, Roddy, também produtor musical que está por trás de Ertegum, o maior DJ de Marte, um rapaz magro, fraco e que é levado a sair de sua zona de conforto para acompanhar a dupla de cantoras amigas. Além dele, temos ainda Angela, uma ex-atriz mirim, que agora tenta a sorte no ramo da música, forçada por sua mãe, uma trans que a força a entrar em contato com Tao, o maior produtor musical de Marte, que usa IA para melhorar a voz de Angela e calcular todos os seus movimentos de forma que ela exiba sempre sua melhor performance, com a melhor voz.
A densidade de caracterizações é enorme, com histórias de fracasso no pano de fundo, temas pesados que se relacionam com os dias atuais e uma mensagem de esperança para prosseguirmos com os nossos sonhos. Além dos personagens, encontramos em Marte uma terra de esperança, o woolong (moeda cunhada lá em Cowboy Bebop) é a moeda digital utilizada em Marte, seu clima é artificial e toda a história se passa numa cratera do planeta vermelho. Parece que o futuro deu certo para Marte, mas não para a Terra, que afunda na pobreza e, provavelmente, guerras.
Nunca é jogado na cara o pano de fundo da história. Ao que tudo indica, a linha temporal é anterior a Cowboy Bebop, mas isso só podemos assumir. A partir daí, Shinichiro Watanabe tem liberdade de criar algo que se relaciona com problemas atuais que é questão da imigração. A mãe de Tuesday é uma espécie de Trump-mulher, contra os imigrantes terrestres e isso gera muitos conflitos ao longo da série.
No entanto, ao contrário do que seria de esperar de uma série feita em parceria com a Netflix, Watanabe nos apresenta uma solução nada ortodoxa para os padrões progressistas da empresa. Somos apresentados ao deep state de Marte, com a mãe de Tuesday sendo usada por um marketeiro milionário e um membro da elite artística de Marte usando sua influência pra produzir músicas que visam transformar os eleitores de Marte em zumbis. O resultado disso é uma abordagem que fica entre o conservador e o libertário, com a mãe de Tuesday mandando esse pessoal caçar coquinho, uma espécie de FBI de Marte tomando as rédeas da situação e a esperança caindo toda sobre a cultura, no caso, a música, para que um mundo melhor possa surgir.
E como não comentar a música de Carole & Tuesday? Esse é o ponto alto da série, que aliás, foi feita para celebrar os dez anos da FlyingDog, uma gravadora japonesa e os 20 anos do estúdio Bones. As canções originais são variadas, contando com a participação de uma ampla gama de artistas, inclusive de Thundercat e Flying Lotus, finalmente fazendo uma colaboração com o mestre Shinichiro Watanabe.
Nisso há um leve problema na série, porque os artistas convidados para cantar são americanos, ou pelo menos, cantam em inglês, enquanto que a série é japonesa. O resultado é uma grande diferença entre o tom de voz dos personagens quando estão falando e quanto estão cantando, como no exemplo abaixo:
https://youtu.be/S7uk8YfDFuw
Felizmente isso não ocorre com as personagens principais. Surpreendentemente, as dubladoras e as cantoras de Carole e Tuesday não tem uma voz tão distante assim.
Mas enfim, deixarei pra comentar mais sobre as músicas nas dicas de sua trilha sonora. Por enquanto, vale dizer que a primeira metade do anime foca menos no lado pessoal, social e político dos personagens e as condições em que se encontram e mais na trajetória musical de Carole e Tuesday, o que gera discussões interessantes, como a questão do uso de IA na indústria musical e a perseguição de fãs. Fora que há muito mais música pra se aproveitar e até para se rir, como a participação especial de um Vitas do Paraguai.
O que há de negativo em Carole & Tuesday? Não sei. Me diga você nos comentários, porque eu acho esse anime quase perfeito.
https://www.youtube.com/watch?v=4QuI8Rznxfc



Comecei a gostar de anime com, surpreendentemente, Bucky, um anime bem diferente sobre um garoto que anda por um mundo fantástico com uma bola rosa que explode, encontrando outras pessoas com bolas rosas, com o objetivo de transformar todo mundo em seus escravos. Uma espécie de Pokémon escravagista e militarista que deixava a minha mãe fula, porque ela tinha que me explicar, todos os dias após os episódios, o que tinha de errado naquela série. O anime era exibido no Band Kids e eu lembro que passava Dragon Ball e tinha a Record devia passar Pokémon também, mas eu curtia mesmo era o Bucky, sem saber que ele se tratava de um anime. No entanto, uma série de características que eu encontrei em outros animes nos anos seguintes me fez ficar fissurado em animes, durante o boom do Naruto e depois eu descobri a área onde me sentia mais confortável junto dos animes, o sub-gênero (ou gênero?) seinen.
Isso simplesmente não existe e todos sabemos que um anime num nível de Cowboy Bebop é muito raro, tão raro que o seu criador é colocado ao lado de grandes nomes do cinema como um dos maiores gênios artísticos desse século e sempre que ele lança alguma coisa, todo mundo fica de orelha em pé, porque com certeza vai ser bom.















