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terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "No Gogó do Paulinho" (2020)


 Esta é uma das comédias mais inspiradas do cinema brasileiro.

No Gogó do Paulinho é um filme brasileiro lançado em 2020 e que hoje está perdido no catálogo da Amazon Prime para ser descoberto pelos amantes de uma boa comédia trash. Sim, trash... a história do filme é uma paródia de Forrest Gump, onde o Paulinho Gogó está no lugar do Forrest e começa a contar a sua história de vida para as pessoas sentadas no banco do seu lado. A partir daí somos apresentados a uma série de esquetes onde se explora suas mais clássicas piadas e algumas tiradas sacanas com cenas do próprio Forrest Gump, mas adaptando-as para o cenário brasileiro. 

É muito bem feito.

Mas continua sendo uma comédia trash, portanto não espere o "humor inteligente", discursos políticos ou ainda sacadas espertas, não! O filme não tem nada disso, muito pelo contrário, é basicamente uma extensão (ou um compilado) de todas as passagens de Paulinho Gogó, o personagem icônico de Maurício Manfrim, n'A Praça é Nossa. 

Tudo isso feito com uma qualidade técnica que impressiona em determinados momentos. O filme é bem feito, apesar de apresentar uma certa masterização no áudio que poderia melhorar ou ainda uns efeitos digitais que poderiam ter sido melhores. Em todo caso, a qualidade técnica do filme está boa.

A concatenação entre a história do Paulinho Gogó com as piadas também é muito bem feita. Podem não ser as piadas mais engraçadas ou impressionantes que você vai ver, mas são boas piadas, que tiram ao menos um sorrisinho do canto da boca. Outras geram aquela sensação de vergonha alheia tão típica do humor d'A Praça e que eu classifico com um bom humor trash. Tudo isso sem cair numa baixaria sem noção. O filme, apesar do Paulinho Gogó, é um filme família e isso também impressiona.

Enfim, No Gogó do Paulinho é um dos filmes de comédia brasileiros mais divertidos que vi e que se apresenta como uma ótima alternativa ao humor limpinho da Globo Produções que invadiu o cinema nos últimos anos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Dica especial de Natal de 2020!

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Assisti esse belíssimo filme ano passado com minha namorado noites após o Natal e me surpreendi enormemente, pensando imediatamente que ele seria uma boa dica de natal para o blog e aqui está, a dica de natal de 2020!

Klaus é um filme de animação que conta a história de um jovem Jesper, um rico, porém nada ambicioso que vive às custas da boa relação da família como chefes do serviço de correios real. Cansada da parvoíce do filho, o patriarca da família o envia para trabalhar no local mais distante, difícil e gelado do reino. Lá o rapaz descobre, fora as dificuldades naturais, uma cidade dividida em duas, cada lado assumindo para si as brigas entre duas famílias antigas e tradicionais do local. No meio de tanta dificuldade, o jovem Jesper encontra na floresta fora da cidade a solução para seus problemas, o velho Klaus, um lenhador que fabrica brinquedos de madeira e para fazer o serviço de correspondência funcionar e assim conseguir escapar de seu penoso trabalho, Jesper espalha para as crianças que elas devem enviar cartas a Klaus e assim conseguirão brinquedos. É dessa forma que Jesper vê se aproximar dele o fim de suas tarefas ao mesmo tempo que provoca as duas briguentas famílias.

O filme vêm direto da Espanha e estreou na Netflix durante o final do ano passado, chamando a atenção de muita gente. Eu sempre duvido da opinião crítica e ainda mais da Netflix, portanto resolvi assisti-lo sem esperança alguma, mas a surpresa foi enorme.

Klaus é uma história singela, reinventando o conto de São Nicolau, a origem do Papai Noel, numa ambientação que beira o fantástico, pois em nenhum momento somos levados a crer que a história se passa no nosso mundo, embora tenha diversas semelhanças.

Sua animação é bem estilosa, seguindo um estilo 3D que deriva de antigas animações 2D americanas. É especialmente fácil de criar uma relação com o estilo de desenho criado para o desenho Atlantis, lançado em 2001, com seus personagens meio quadrados e baseados em diferentes formas geométricas, criando uma ampla diversidade de corpos e formas. Além disso temos ainda o uso de texturas que lembram giz de cera para a criação dos cenários, fazendo do filme uma verdadeira obra de arte, algo como uma ilustração para livro infantil animada.

Acima de tudo isso temos uma história que fala de cooperação e união. Todos os personagens do filme, até mesmo os vilões, encontram na União a saída para os seus problemas, sejam eles quais forem e é essa união que os mantém vivos e confiantes de que poderão realizar os seus objetivos. Ao final, é tocante a referência cristã quando Klaus alia o seu nome a um Jesper meio apagado que salienta o J de Jesus.

Belíssimo.

Divertido e tocando, o filme é uma ótima pedida para todos, mas especialmente para as crianças, pois não se trata apenas de um puro entretenimento, mas uma verdadeira obra de arte que invoca os nossos mais puros sentimentos para gerar uma verdadeira fruição, não apenas estética, mas também emocional.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "Os Exterminadores do Além contra A Loira do Banheiro" (2018)

 Esse filme deveria ter sido a dica de Halloween, mas como no Halloween eu ainda não tinha assistido essa pérola, então vai ser hoje mesmo que vou falar dele. Mas antes, é necessário dizer que, sendo um filme produzido pelo Danilo Gentili, eu já tinha conhecimento dele, mas nunca tive muita curiosidade em ver, apesar de ter gostado bastante d'O Pior Aluno da Escola. No entanto, após aquela patacoada que ele protagonizou no Flow Podcast e um comentário de um espectador lido ao final dizendo que o filme fora premiado internacionalmente e por aqui ninguém nem "tchau", resolvi ir ver, afinal, se o brasileiro não gosta, é porque deve ser bom.

O filme conta a história de Jack, Caroline e Fred, que junto com o cinegrafista Túlio, mantém um canal no Youtube fingindo que enfrentam coisas do além, igualzinho o que o SpookyHouses faz hoje em dia. E após um acidente envolvendo 2 alunos na Escola Isaac Newton, os quais invocam a Loira do Banheiro e um deles ter um "ataque epiléptico", o diretor os contrata pra gravar um vídeo e acalmar os ânimos dos alunos. O que ninguém contava é que o vídeo não contaria com a mesma produção porca de sempre da trupe de charlatões, pois a Loira não só é real, como ela querendo brincar com a vida de todo mundo.

A partir daí, o filme se desenrola num terrir maravilhoso. Cabeças explodindo, sangue jorrando pra todo lado, canibalismo, queimada assassina, telefone do mal, sexo com possuídos, ritual satânico, feto homicida e até mesmo um cocô possuído, enfim... bom gosto não define.

O filme é realmente um desses trashs incríveis que te farão gargalhar com tanta besteira, até muito mais do que as piadas. Além dessas escabrosidades todas, temos ainda uma série de participações muito boas, como a do Ratinho e do Sikêra Jr. que carregam o filme com bom humor. Dentro do filme há também uma sacada muito boa que é o núcleo formado por 2 professores, escalados pelos exterminadores do além e o diretor para aparecem no vídeo. No entanto, eles nunca são chamados para aparecer no vídeo, por causa dos acontecimentos terríveis dentro da escola e ficam alheios a toda a situação, conversando entre si sobre como dever ser organizado um filme de terror, gerando diversas piadas metalinguísticas que servem como uma boa transição entre uma cena de terrir e outra.

A produção do filme, infelizmente, ainda conta com alguns problemas técnicos (ou talvez deveríamos dizer características técnicas?) que incomodam. Uma delas é a própria direção, há cenas, como a da queimada, em que não temos dimensão de tudo o que está acontecendo, fora isso temos cortes muito abruptos nas cenas de destruição e, além disso, o som também não parece que foi bem masterizado, pois os gritos e falas muitas vezes ficam abafados em meio a trilha sonora. Tudo isso, sempre, nas cenas de terror. Talvez seja inexperiência do diretor com o gênero, talvez seja um estilo que ele decidiu adotar, porque já vi coisas assim em outras obras de terror. O que importa é que passa uma sensação de amadorismo.

No entanto, há o que se louvar nos aspectos técnicos também. A trilha sonora é excelente, a ambientação também, fizeram um filme de terror brasileiro, ou seja, nas cenas de dia tudo é muito claro, dando aquela sensação de calor que o nosso país exige. Como a maior parte do filme se passa a noite, talvez isso nem seja notado, mas é algo que chama a atenção logo no começo. Por fim, toda a construção do cenário ficou muito bem feita, cheio de pequenos easter eggs, que só os brasileiros irão captar. Tudo isso segue muito bem os parâmetros que nosso mestre, Mojica Marins estabeleceu décadas atrás e o grande recebe uma bela homenagem na obra.

E ainda assim "Os Exterminadores do Além contra A Loira do Banheiro" foi um filme muito premiado lá fora, o que me dá muito orgulho. Nossa produção nacional de filmes tem espírito criativo pra dominar o mundo, mas infelizmente não conta com todo o apoio necessário das empresas, instituições e até mesmo público e crítica nacional. Em todo caso, esse filme dá um fôlego novo para a cinematografia brasileira e, com certeza, se tornará um desses clássicos trash que iremos assistir em nossos computadores escondido e conversar com os amigos no bar, rindo muito.


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "Tenet" (2020)


 Tenet é o mais recente trabalho de Cristopher Nolan, o diretor por trás de icônicos filmes como Cavaleiro das Trevas e A Origem. Sua sobras são alvos de grande apreciamento crítico desde que lançou sua primeira obra há exatos 20 anos atrás, Memento, mas tem e tornado alvo cada vez maior de críticas vorazes não apenas pelo seu conteúdo visto como polêmico nos dias atuais, mas também pela forma ambiociosa com a qual seus roteiros são elaborados. Em todo caso, me proponho aqui a discutir esse filme e mostrar que ele é um novo Memento.

Em Tenet encontramos um membro de uma força especial dos EUA que, após falhar em uma missão internacional na qual ele entra em contato com uma tecnologia que nunca tinha visto, é escalado para fazer parte de um time que deve deter a nova Guerra Fria, utilizando uma tecnologia que reverte o tempo ao seu redor.

Tão simples quanto é essa sinopse, é o começo do filme. Em pouco tempo somos apresentados ao herói principal, sua condição que o levou a ser parte de um time obscuro de agentes e a premissa principal por trás de todo o filme; a tecnologia que reverte o tempo. O filme é rápido, não respira, uma característica dos filmes do Nolan desde o terceiro filme do Batman e que é alvo das duras críticas que ele sofre, mas é algo interessante.

Em Tenet esse recurso não é maçante, porque o filme não se perde em longas elocubrações dos elementos de ficção científica que ele explora. Ao invés de entendermos a tecnologia, somos apresentados a solução por trás dela como mero "instinto" e as condições de sua criação, sua elaboração e a forma como foram obtidas também não são complicadas, mas também não são ruins. Muito pelo contrário, a simplicidade mantém a coesão do roteiro, que não se esforça em explicar muito, mas também não exige essa explicação.

Conseguimos acompanhar a jornada do Protagonista de maneira objetiva, clara nem tanto, mas direta ao ponto. O resultado é um baita thriller de investigação, paranoia e ação, uma espécie de James Bond bebendo Pynchon no café-da-manhã e indo dar uma caminhada com a série Bourne. É bom pra caramba e entretem como poucos filmes do Nolan conseguem fazer. Não me entenda mal, eu gosto dos filmes dele, mas é difícil reassisti-los. Esse não.

Mas então ele é claro? Não. E nem todo filme precisa ser pra ser um baita filme de ação. Ele é direto em sua elaboração, porém ainda é um filme com viagem no tempo e muito coeso, mas para entendermos a coesão temos que voltar diversos momentos algumas vezes. Eu me peguei voltando o filme algumas vezes em momentos-chave pra poder entender algumas passagens, especialmente quando as viagens no tempo começam a ficar mais frequentar, a partir da terceiro quarto do filme.

Por isso eu imagino que esse filme não agradará gregos e troianos (leia-se fãs e haters). Ele é direto demais pra agradar a base de fãs cabeçudos do Nolan, que gostam de um negócio complicado pra ficarem montando teorias, elocubrações e afins. Igualmente o filme continua sendo obscuro e rápido demais para os haters do Nolan, que ainda encontrarão um filme que não respira e muitas explicações que ainda exigem voltar o filme algumas vezes. Algo que os haters odeiam, mas eu gosto. Gosto de ser desafiado pelos filmes que assisto.

Por esse e outros motivos, é uma obra que destaca dentro da filmografia do Nolan. Não é muito como as outras coisas que ele já fez por aí, bem pelo contrário, a trilha sonora, apesar de ainda ser bem minimalista e ter um jogada bem inteligente, é barulhenta, tão impositiva que sentimos o seu peso na tela. As comparações com A Origem devem borbulhar em todo canto, mas Tenet é irmão mesmo de Memento.

Eu consigo ver muitos jovens, adolescentes mesmo, assistindo Tenet e gostando demais dele, indo, a partir daí, procurar o resto da filmografia do Nolan pra assistir. Tenet é um filme do Nolan que fala com a nova geração.

Em todo caso, é um baita filme, que merece ser assistido.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "O Beijo no Asfalto" (1980)

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Vi esse filme no instagram do Pedro Sette-Câmara e fiquei curioso na obra, baseada numa peça de Nelson Rodrigues e supostamente girardiana. De Girard eu entendo e decidi ver qual é a desse filme.

O Beijo no Asfalto conta a história de Arandir, um rapaz recém-casado, trabalhador honesto e boa pinta que vê um acidente de trânsito, onde um rapaz é morto. Apenas mais um dia na cidade grande, não fosse pelo fato de que Arandir se aproximou do rapaz moribundo e o beija na boca. Nada mais estranho, não fosse pelo fato de que a cena foi presenciada pelo sogro de Arandir, que correu para a casa da filha a fim de saber se ela não notara nada estranho com o marido recentemente.

Paralelo a esse rio de estranhezas, temos um chefe de polícia que havia se envolvido num escândalo e estava correndo o risco de ver sua carreira escorrer pelo ralo e um repórter que, sabendo do acidente, decide unir forças ao policial para fazer fama solucionando um caso bizarro.

Pelo fato de ser uma obra rodrigueana e ter sido feito nos anos 80, o filme não tem nenhuma das discussões chatas que hoje geraria com relação a relacionamento homossexuais e violência policial. Ao contrário, a história nos é apresentada da maneira mais crua possível e não poderia ser melhor.

O filme é cru, frio e nada polemista, apesar do tema que trata. Tudo é apresentado com naturalidade e nós, espectadores do século 21, acostumados a ter as opiniões regurgitadas para nós a fim de uma digestão rápida, ficamos estarrecidos.

Aos poucos, a superfície normalizada a qual somos apresentados, vai se diluindo e seu momento mais marcante é quando pai e filha caçula discutem sobre uma suposta relação incestuosa que existia entre o pai e a filha mais velha. A discussão é tratada com zombaria, mas os espectadores ficam com uma pulga atrás da orelha, exceto os girardianos, que vêem isso com um sorriso no rosto, mas sabem que nas boas obras nada é entregue de bandeja assim.

O buraco é mais profundo e a cena final, de conflito, contrastes e revelações é um escândalo, mas é excelente e, neste filme, é lindamente filmada, de forma a nos apresentar um retorno ao início da obra. Deu a lógica, mas é a lógica girardiana.

Vale muito a pena conferir esse filme, que é um diamante oculto, na minha opinião. Mais uma dessas obras antigas em que se faziam filmes corajosos que nada deixavam a desejar ao cinema exterior e que, infelizmente, se perdeu no meio de trágicos investimentos públicos a comédias pastelões.

Ainda bem que existe a internet pra nos presentear com essas obras.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "Lu Over the Wall" (2017)

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Hoje a dica é de um filme que eu, lastimavelmente, perdi na época em que ele saiu.

Lu Over the Wall é mais um filme criado pelo incrível Massaki Yuasa, que já apareceu aqui no blog algumas vezes e conta com o seu característico estilo de desenho colorido, fluído e personagens alongados. Dessa vez ele nos conta uma história de amor a-lá Ponyo, mas da maneira única dele.

Logo no começo do filme começamos Kai, um típico garoto personagen principal de animes, sente-se isolado, não conversa com muita gente, senta perto da janela na escola e esconde um talento: o da música. Kai passa as noites fazendo canções, o que atrai a atenção de uma sereia que mora na baía próxima a casa dele. Curioso, ele decide ensaiar com uma banda de dois colegas de sala, os quais tinham acesso a uma enorme rocha cujas lendas diziam que protegia as sereias. Nesse dia, Kai conhece Lu, uma serei muito animada, que quando ouve música consegue transformar seu rabo em pernas e pode interagir com humanos.

A partir daí o grupo se envolve em várias desventuras, que levarão Lu a se tornar uma sensação da cidade, seu pai também aparece, ajudando os pescadores, os dois (pai e filha) serão presos, junto com Kai e seus amigos quebrarão a maldição da grande rocha e terão que se mudar.

Sim, eu entreguei o filme todo, mas não se sinta mal com isso, pois não é essa história principal o que importa. O que importa é como a narrativa é bem guiada nessa obra, coisa de mestre mesmo e que mostra o quanto o Masaaki Yuasa está próximo dos grandes nomes do cinema de animação, como Walt Disney e Hayao Miyazaki. Claro que o foco dele não são filmes para a família, mas se fosse já teria se tornado um queridinhos dos nerds e otakus de plantão.

Esse filme é a prova cabal disso.

No entanto, ele conta com seu característico estilo de animação e eu sei que isso acaba afastando muita gente da sua obra. Não entendo como, mas essa é a realidade. Tem muita gente que não gosta do seu estilo de desenho.

Já eu acho um deleite para os olhos e nessa história mais ainda, pois há a presença de muita água e se há algo que encaixa muito bem com seu estilo de animação é água. O estilo já é fluído e leve, encaixando perfeitamente com a temática, como se a animação fosse uma extensão da história, contribuindo ainda mais para a construção da narrativa.

O filme ainda conta com uma trilha sonora incrível, cheio de músicas pops reais japonesas. Mas também não poderia ser menos do que isso, porque boa parte do filme também é focado no tema da música; todos os personagens têm talentos musicais. Assim como a animação, a trilha sonora também se encaixa como uma luva no filme, transformando-se em parte integrante da narrativa e contribuindo para a sua construção.

E aí, o que mais você precisa saber pra ir assistir Lu Over the Wall?

domingo, 9 de agosto de 2020

Dica especial de dia dos pais 2020: Chichi Ariki (1942)

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Mais uma dica especial para o dia dos pais e, dessa vez, com mais um filme japonês. O diretor escolhido foi Yasujiro Ozu, um dos meus favoritos.

Contando a trajetória de um pai que abandona o seu trabalho de professor após a morte da esposa e se muda de cidade com o seu filho, Chichi Ariki nos apresenta uma bela história de amor entre um pai e filho, ambos com seus sonhos e batalhando para continuar vivendo no Japão pós-Segunda Guerra Mundial.

Filmado em preto e branco, é um filme rápido, mas muito bonito. Sua narrativa é o que mais me chamou atenção, pois ela progride muito no meio do filme, mas sofre uma boa desacelerada caminhando para o final. Dessa forma, o filme mostra o desenvolvimento da relação entre pai e filho, exibindo todo o seu mimetismo.

Para olhares contemporâneos, o filme parece caminhar toda hora para um debate acalorado, mas Yasujiro Ozu é uma mente em paz e o seu filme não é nada mais que singelo. Em nenhum momento pai e filho se rendem aos debates (ou seria melhor, combates) que a porca cinematografia contemporânea tenta enfiar goela abaixo dos espectadores. Aqui a relação é íntima, apesar de geograficamente distante. Ambos, pai e filho, nutrem um respeito mútuo grande e o que os une é a afetividade.

Esteticamente, a obra é um petardo. Filmado no característico estilo do Yasujiro Ozu; a câmera na altura de uma pessoa sentada, mais próxima ao chão, mas focando em alguns momentos no rosto dos personagens. Todo em preto e branco, o filme é muito bonito, principalmente na versão restaurada pela Criterion.

Uma ótima pedida para o dia dos pais.

5 pontos

terça-feira, 12 de maio de 2020

Trinca de dicas cinematográficas

Já não tenho mais paciência de escrever dicas aqui para o blog e nem para o Locadora TV, mas não me esqueci disso aqui e, por esse motivo, vou fazer um post com três dicas rápidas de verdadeiras obras de arte que tive o prazer de assistir numa TV de 50 polegadas nessa quarentena maldita.

Meus vizinhos, os Yamadas (1999)

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Clássico do estúdio Ghibli dirigido pelo grande Isao Takahata, mas que, lastimavelmente, não se encontra no catálogo da Netflix, por enquanto. O filme conta a história de uma família de 5 pessoas, Nonoko, a filha mais nova, Takashi, o pai, Matsuko, a mãe, Noboru, o filho mais velho e, por fim, Shige, a avó (não fica claro de quem ela é mãe). Animado de uma maneira que se tornou característica de Takahata, o filme lembra pinturas de tinta pastel e é um slice of life muito sagaz, apresentando o cotidiano de uma família comum, que briga, enfrenta problemas, mas brincam, se entendem e cantam juntos no final.

Filme muito divertido e pronto para uma noite em família.

Josey Wales - O Fora da Lei (1976)

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Dirigido e estrelado pelo magnânimo Clint Eastwood, esse filme é uma clássica história de vingança ambientado no velho oeste. Após ver sua família ser morta por gangsters, Josey Wales se une a um grupo de rebeldes sulistas no meio da Guerra Civil Americana, os quais também buscam vingança contra os gângsteres. No entanto, a guerra acaba. O norte vence, os gângsteres se unem aos políticos do norte e logo Josey Wales, que não entrega suas armas ao governo, se torna um fora da lei, por acreditar numa moral inabalável. E em nossa dessa moral inabalável, ele se une com antigos e novos amigos numa batalha mortal contra o mal.

A obra é brilhante em sua narrativa, contém uma direção fantástica, não apenas no jogo de câmeras, mas também na qualidade de suas imagens (é impressionante que um filme dos anos 70 pareça muito mais bonito que qualquer filme atual, cheio de filtros e efeitos especiais que escondem a beleza da realidade). É um filme recheado de camadas, dando pano na manga pra muitas discussões, desde o passado sujo da política norte-americana até moral e honra. Brilhante!

Rapsódia em Agosto (1991)

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Os fãs de Akira Kurosawa são criados a sangue e ódio, mas isso é apenas superficial. Grandes obras dele são Sonhos e Madadayo, mas é claro que brilham muito mais as batalhas sangrentas e discursos estoicos. Um exemplo que se encontra no extremo oposto às batalhas é Rapsódia em Agosto, que conta a história casual de uma famíia que descobre um parente distante no Havaí, o qual é visitado por seus sobrinhos, que nem sabiam da sua existência. As desventuras da família em terras americanas é acompanhada de longe pelos 4 filhos do casal de sobrinhos e a avó deles, a qual mora numa terra rural em Nagasaki. Visitando memórias antigas de um passado que eles não viveram, mas sentindo a sua presença opressora, os jovens membros da família tentam conciliar o passado de sua família com a realidade atual de sua família.

O filme nos apresenta discussões muito profundas sobre a relação entre EUA e Japão no pós-guerra, principalmente do lado japonês, o embate entre as duas nações e a regeneração de seu relacionamento. Sensacional!

 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Dica cinematográfica: "Kimi to, Nami no Noretara" (2019)

 

kimi_to_nami_ni_noretaraOu Ride Your Wave, como está no My Anime List desse filme em sua tradução, não literal, para o inglês.

O filme conta a história de amor entre Hinako e Minato. Ela é uma surfista que acaba de se mudar para uma cidade costeira a fim de estudar e ele é um bombeiro que assim que a vê surfando, diz que ela é a sua heroína e após salva-la de um incêndio inicia um frutuoso relacionamento com ela.

A obra é dirigida pelo grande Masaaki Yuasa, que é, infelizmente, conhecido pelo Devilman Crybaby, um dos piores animes recentes, mas que já produziu pérolas como Ping Pong, Kaiba e Yojouhan Shinwa Taikei, contando então com o seu característico estilo de animação. Personagens esguios, roupas estilosas, 2D e 3D lado a lado, além de uma fluidez fora do normal nas animações forçam o seu estilo e ele também, infelizmente, não é para todos os gostos.

Já ouvi muitos comentários negativos acerca do seu estilo de animação. Juro que não consigo compreender. Alguns maus gostos são compreensíveis, mas nunca consegui encontrar alguém que justificasse em termos razoáveis não gostar do estilo de animação de Yuasa.

Em todo caso, acredito que a narrativa desse filme também não será para todos. A começar pelo fato de se tratar de uma obra de realismo fantástico, misturando assim coisas impossíveis num ambiente realista, que causa confusão na mente de muitas pessoas. Este filme é uma daquelas obras que você tem que se deixar levar, ele não vai explicar tudo pra você e você não vai conseguir achar todas as respostas para os "problemas" que ele apresenta. Problemas que no filme não são problemas, só são problemas se você ficar pensando que essa história se passa num universo igual ao nosso. Não é assim.

Bom, o filme nos apresenta o casal, ligado por uma estranha profecia proferida pelo personagem masculino principal, Minato. Esse ponto é ligado mais pra frente no filme, mas até lá, você vai assistir um fofo relacionamento crescer e acabar instantaneamente, o que representa um enorme deslocamento narrativo. O que era até então um romance bem água com açúcar ambiente no Japão dos dias de hoje se transforma numa tragédia, que culmina numa comédia romântica de realismo fantástico, com fortes toques dramáticos.

É uma história triste, pra ser honesto com você, mas é uma ótima história. Temos uma animação bem feita, uma narrativa surpreendente, muitas reviravoltas, ganchos perfeitamente conectados e uma trilha sonora muito agradável e tocante que é capaz de te levar às lágrimas.

Claro, assista tendo em mente que é uma obra de realismo fantástico. Vão acontecer coisas impossíveis e elas não serão explicadas, mas se você se deixar levar, tenho certeza de que irá se divertir muito com esse filmaço japonês!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Dica cinematográfica: "Era uma vez em... Hollywood" (2019)

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Quando assisti esse filme pela primeira vez o considerei muito bom, mas fiquei comparando-o com outros filmes do Tarantino e tentando colocá-lo ao lado deles para ver o que eu achava de fato dele. A questão é que o filme foi crescendo em mim e eu descobri que ele não pode ser comparado com outras obras do aclamado diretor.

Era um vez em... Hollywood conta a história de Rick Dalton, ator de cinema frustrado com os pobres resultados obtidos em sua carreira e Cliff Booth, seu melhor amigo e dublê profissional. Acompanhamos eles enquanto eles entram e saem de trabalhos pouco rentáveis e gloriosos, ao mesmo tempo que uma grande luz parece surgir para Rick, a mudança do lendário diretor de cinema Roman Polanski para a casa ao lado da sua junto com sua mulher, Sharon Tate.

Basicamente é isso a história do filme, sem eu ter que entregar muito e ao longo de suas quase 3 horas de duração a história do filme não sai muito disso. Acompanhamos Rick na caçada por um bom emprego, tentando convencer diretores a aceitarem trabalhar com seu dublê, Cliff, após Cliff ter puxado briga com Bruce Lee, fracassos e tristezas serem compartilhados até que, finalmente, Rick se muda para a Itália, casa-se com uma italiana linda, realiza uma porrada de filmes e volta para os EUA, tudo isso acompanhando de seu dublê e melhor amigo, Cliff Booth.

A história continua, mas prosseguir seria entregar demais e eu não vou estragar mais a diversão de alguém que está lendo esse texto antes de assistir o filme, mas a questão é que esse é um filme difícil de se resumir. Primeiro, porque ele tem dois núcleos que não se encontram. Segundo, porque nada acontece de fato.

E é porque nada acontece de fato que podemos conhecer um pouco mais da genialidade de Quentin Tarantino. Enquanto que sua grande maioria de filmes acompanham uma narrativa mais ou menos linear, outros filmes não fazem isso, como Pulp Fiction e The Hateful Eight. Ainda assim, são filmes recheados de ação, especialmente Pulp Fiction, então fazer uma propaganda do filme não fica tão difícil.

Agora neste aqui, nada de fato acontece e quando já tinha se passado mais de uma hora de filme e o Brad Pitt estava consertando uma antena no telhado de uma casa sem camisa, eu pensei: "Essa porra é um slice of life!"

E por até ser, mas isso não se torna demérito, porque em mais de uma hora nada tinha acontecido e eu estava super entretido. Tarantino se tornou um mestre narrativo, se aprofundando cada vez mais nessa arte, a arte da boa narração e é por isso, pela sua maestria que ele recorre, cada vez mais, à narrações em off. Aqui acontece pouco, mas acontece e serve a um propósito meta narrativo.

Como o próprio nome do filme nos diz, o que vemos é um conto de fadas, mas ele não se revela até os últimos minutos do filme, quando a gangue de satanistas medíocres seguidores de Charles Manson decide invadir propriedades privadas, o que culminaria na trágica morte de Sharon Tate e seu bebê.

CulminarIA... ia... pois aqui não se trata da dura vida real, mas dos suaves contos de fada tão valorizados e cultuados na antiga Holywood, que não existe mais, diga-se de passagem e o próprio Tarantino teve sua parcela de culpa nisso, ao criar talvez a obra mais pós-moderna do cinema: Pulp Fiction e outras pérolas como Kill Bill e Bastardos Inglórios. São excelentes obras do cinema, mas jogam toneladas de cal sobre a antiga Hollywood dos sonhos de filmes como ...E o Vento Levou, Cantando na Chuva e A Felicidade Não Se Compra.

O que temos em Era uma vez em... Hollywood é além de um conto de fadas metamoderno, uma homenagem à antiga Hollywood, a indústria dos sonhos, que levou esperança a tantas pessoas e disso que se trata esse filme, esperança!

Era uma vez em... Hollywood começou como um filme estranho para mim, mas logo subiu no meio conceito, transformando-se no meu filme favorito do diretor.

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Dica cinematográfica: "Memórias do Subdesenvolvimento" (1968)

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Em tempos de insegurança jurídica, ignorância generalizada e ambivalência política, esse filme se torna uma obra emergencial para tirar, nem que seja um pouco, o véu que cobra nossos olhos.

Sérgio, um cubano atingindo a meia idade, decide continuar na ilha enquanto sua família parte para Miami fugindo da ditadura socialista que havia se instalado. A partir daí entramos numa viagem introspectiva pelas memórias de Sérgio que se confundem com a memória revolucionária daquela ilha que um dia teve a Paris do Caribe e hoje não passa de uma fossa, cada vez mais profunda e escura.

O filme é uma obra experimental que mistura elementos de documentário com uma narrativa intimista, mas, ao contrário de tantos outros filmes parecidos, este funciona muito bem. Acompanhamos de forma fragmentada as memórias de Sérgio antes da revolução, seu relacionamento complicado com sua mulher e os acontecimentos logo após, suas discussões com amigos contra-revolucionários e as desgraças que acometeram Cuba, como fome, guerra civil e alienação cultural.

Os monólogos de Sérgio contém diversos insights valiosos sobre a situação do país e as imagens, fotos, registros de vídeo e afins apenas reforçam o que já está sendo dito. Para nós, brasileiros, é possível extrair uma senhora lição sobre o nosso complexo de vira-lata, que nos faz ignorar os fatos, abraçar cegamente ícones subversivos e renegar nossa história para o fosso do esquecimento.

O filme é complexo e visto com carinho tanto por revolucionários quanto por contra-revolucionários, mas é interessante que, tanto de um lado quanto de outro, é um filme que se posiciona contra essa esquerda que se encontra no poder e faz de tudo para lá permanecer, nem que tenha que mudar todo o ordenamento jurídico do país ou destruir tudo.

Ultramente recomendado para aprendermos uma lição de história.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Dica especial do dia da consciência negra 2019

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Mais um dia da consciência negra e mais uma oportunidade de louvar o grande cinema de negros para negros que Hollywood conseguiu criar com seu racismo.

“Vou te pegar, Otário” é um filme de 1988 criado pelos irmãos Wayans, que se revezam nos créditos e sempre apresentam pérolas do cinema. Keenen Ivory Wayans estrela esse filme no papel de Jack Spade, que volta do exército para Nova Iorque, descobrindo que seu irmão morreu e deixou a mãe e a esposa sozinhas e indefesas. Sofrendo uma crise de “correntes de ouro”, Nova Iorque se rende ao crime e Spade, inconformado, decide convocar uma equipe de valorosos habitantes da cidade para lhe ajudar a limpar a sujeira dali.

O filme conta com uma baixa produção, mas é muito bem feito para os padrões no qual foi feito. Apesar da qualidade da imagem, saídas inteligentes foram criadas para as cenas de ação. Contamos ainda com a participação de nomes consagrados da cultura negra estadunidense como Bernie Case, Isac Hayes, Jim Brown, Chris Rock e, claro, toda a família Wayan reunida.

Unindo humor chulo com densas críticas, o filme é um petardo. Numa mesma cena vemos Spade conhecendo a verdadeira face dos Panteras Negras (preguiçosos, hipócritas e aproveitadores) e sua mãe sendo substituída por um dublê chinês para fazer alguns movimentos marciais.

É desse nível de humor que estou falando e é desse tipo de humor que gosto.

O filme conta ainda com uma excelente trilha sonora, fazendo referência a filmes de blacksploitation como “Shaft”, banhada por jazz, funk e hip hop da época.

Novamente os Wayans figurando uma dica especial para esse dia tão especial, consagrando-se como os maiores nomes da cultura negra em Hollywood.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Dica televisiva: "Invasor Zim e o Florpus" (2019)

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Essa é uma dica televisiva, porque Invasor Zim era uma série de TV e o filme foi lançado na Netflix, então é justo chamá-lo de filme para televisão.

Nessa continuação desta que foi uma das séries mais perturbadas da Nickelodeon em sua era de ouro, encontramos os velhos personagens da série após o sumiço do invasor. Dib trancou-se em seu quarto esperando o retorno de Zim, enquanto seu pai prepara a exposição de uma nova invenção no dia da paz e é supreendido com o retorno repentino de Zim à Terra. A partir daí inicia-se uma nova trajetória para nosso herói improvável contra o alienígena mais inútil do universo e que descobre ter sido apenas feito de trouxa pelo império dos altíssimos.

É um filme cheio de pequenos plot twists e a cada cena há uma nova mudança de paradigma, mas tudo é bem encaixado e concatenado, o que faz o filme parecer um conjunto de episódios da série. A familiaridade é imediata e nem há muito espaço para se sentir nostálgico. O filme não se rende a um sentimentalismo nostálgico, ele apenas faz algumas referências  no meio do filme, mas logo parte para a exploração da história que elabora e o espectador logo se vê preso na trama complexa traçada com essa película.

É um filme despretensioso, mas que, até mesmo por isso, se sai muito bem. O desenvolvimento da história é leve, apesar de complexo em sua quantidade de detalhes. É sério! A história muda de dinâmica pelo menos 5 vezes, mas pode ser bem mais, pra ser honesto. Ainda assim, tudo é feito de forma tão orgânica, que o telespectador não fica perdido.

A animação segue o estilo e a técnica usadas na série animada. Poucas coisas mudam, a não ser a qualidade da imagem que é muito superior ao que eu vi quando criança na Band. Apesar de ser uma continuação, mesmo aqueles que não assistiram toda a série podem se divertir com o que verão, inclusive crianças.

Para um filme de público mais cult, ele pode se sair muito bem com todo tipo de público.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Dica cinematográfica: "Angst" (1983)

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Este não é um filme para todos os gostos, mas eu gostei, então já vou deixando minha dica aqui.

Angst é um filme austríaco de 1983 que conta a história de um serial killer inominado ao longo do filme acabando de sair da prisão, após passar mais da metade da sua vida preso por assassinar sua mãe e entrando numa onda de assassinatos para saciar os seus desejos perturbados.

O filme é perturbador, pois nos faz entrar na mente do assassino, que narra todo o filme, contando sua história de vida, suas intenções ao longo do filme, após sair da prisão e seus planos para o futuro. A frieza com a qual somos apresentados aos seus pensamentos perversos, revela a natureza desumana de um bárbaro.

Apesar disso, o filme, assim como toda obra de arte decente, aponta uma luz no final do túnel, alertando-nos contra a leniência do sistema judicial. Não conheço o contexto da Áustria na época em que o filme foi produzido, mas ele serve muito bem para alertar os brasileiros de hoje que se rendem ao charme da bandidolatria. É necessário ter pulso firme com os criminosos.

A atuação de Erwin Leder, como o psicopata é genial, digna de prêmios e mais prêmios, pois ele consegue transmitir com todo o seu corpo o estado de selvageria a que seu personagem chega, forçando um sentimento de repulsa em todos que assistem.

A direção é igualmente perturbadora, desornada, refletindo os pensamentos débeis de um ser que nem sequer pode ser considerado humano, flutuando pelo cenário, muitas vezes acima da cabeça dos personagens, às vezes estática num ponto muito específico do cenário ou dos personagens, tirando-nos da nossa zona de conforto que espera closes amplos ou closes médios, sempre parados, deixando as ousadias para um tímido contra-plongé aqui e ali.

Esse filme é ousado.

E a trilha sonora não deixa para menos. Oscilando entre acorde agudos de teclado, longos com a intenção de gerar uma melancólica canção e bravas batidas de bateria eletrônica parecendo vir de um Cassio antigão, ela também perturba, reforçando a atmosfera de horror, desespero e inconstância que perpetua todo Angst.

A obra é um verdadeiro pitel, uma raridade que merece ser escavada para apreciação e aprendizado, com grande valor estético. Um trunfo da Áustria.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Dica cinematográfica: "The Art of Self Defense" (2019)

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Faz tempo que não vejo uma boa comédia de humor negro... ainda bem que esse filme veio!

The Art of Self Defense conta a história de Casey Davis, um loser no pior sentido da palavra. Um cara com mais de 30 anos, que mora sozinho, tem um cachorro salsicha, não tem amigos no trabalho, anda curvado e muito menos namora. Após ele sofrer um ataque de uma gangue de motoqueiros numa noite, ficar hospitalizado e perder muitos dias de trabalho, decide se matricular num curso de karatê e a partir daí sua vida irá mudar completamente, mas não necessariamente pra melhor.

O filme é muito divertido, capturando de forma magistral a crise da masculinidade atual (com os dois polos, de um lado o perdedor virjão e do outro os machões metidos) de uma maneira leve e engraçada. Imagino o filme servindo de inspiração para muitos adolescentes ainda perdidos e conseguindo encontrar um caminho saudável com base nesse filme, que nos joga numa espiral endoidecida de eventos aleatórios, o que gera o absurdo e, por consequência, o humor.

O filme é uma comédia de humor negro, então não espero grandes diálogos espirituosos, nem cenas atrapalhadas, muito menos piadas de peido. Em compensação, temos situações absurdas, muito sérias dentro do universo do filme, mas engraçadas para quem está assistindo. Nessa temática, as atuações inexpressivas de Jesse Eisenberg, Imogen Potts e Alessandro Nivola valem ouro!

O filme é muito bem dirigido e trabalhado, com cenas belíssimas, uma paleta de cores chamativas, carregando o ar da obra de estilo e audácia.

É um filme que vale a pena assistir com os amigos, com a família, com a namorada, enfim, é uma ótima pedida, que eu não via desde Maratona do Amor.

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Dica cinematográfica: "Mahjong" (1996)

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Confesso, não conheço muito da história de Edward Yang, mas desde que entrei em contato pela primeira vez com suas obras cinematográficas há uns bons 6 anos, fiquei fascinado com seus filmes obscuros, cultos e corajosos.

Mahjong é sua penúltima obra e, apesar de ser construída como uma farsa, carrega ótimos momentos dramáticos, contando a história de Red Fish que se vê numa batalha entre a máfia taiwanesa e seu pai, que emprestou uma quantia absurda de dinheiro e como não consegue pagar, decide fugir. Seu filho também é membro de uma gangue de vagabundos que vivem dando pequenos golpes e o filme se estende entre essa narrativa principal e as diversas ramificações geradas pela interação de Red Fish com outras figuras numa viva Taipei.

Taipei é o centro do filme, que não deixa de exibir a beleza moderna da cidade, principalmente nas cenas noturnas, mas são os personagens que roubam a cena, em especial, o núcleo formado por Luen-Luen e Marthe, uma francesa que vai para o extremo oriente em busca de um cara que a abandonou em Londres. O filme carrega muito do cosmopolitanismo que se formou no extremo oriente nos anos 90 e início dos anos 2000, gerando verdadeiras "cidades do mundo".

Isso gera diversos momentos de reflexão profundos, apesar de breves, como mais para o final do filme, quando o ex de Marthe expõe um diálogo dizendo que Taiwan será o ápice da civilização ocidental e vendo o que acontece hoje em Hong Kong seu monólogo ganha um tom profético.

Mas o filme não deixa o humor de lado, criando situações bizarras, beirando o absurdo e diálogos inteligentes, mas sarcásticos, carregando o filme com um certo humor negro que abre ainda mais oportunidades para reflexões, seguindo o pensamento anti-China, anti-materialista e patriótico pró-Taiwan de Edward Yang, presente também em outros filmes de sua carreira.

Tudo isso fazem de Mahjong um filme corajoso, sui generis, sublime e reflexivo. Uma pérola dentro da cinematografia de Edward Yang.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Dica cinematográfica: "Parasite" (2019)

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Não, esse filme não adapta aquele anime muito louco de um tempo atrás... eu também me confundi, mas não me arrependi.

"Parasite" conta a história de uma família de malandros. Tudo começa com Ki-woo arranjando um trabalho como professor de inglês da filha mais velha de um magnata da tecnologia. Após isso, Ki-woo arranja, através de farsas, que sua irmã, seu pai e, por fim, sua mãe também arranjem trabalhos na casa. No entanto, a realidade começa a romper quando tudo parecia se assentar num final de semana chuvoso.

O mais novo filme do gênio Bong Joo-ho foge dos gêneros aos quais ele mais se apegou e explora aqui um drama existencial familiar. Ainda que os eventos para o final do filme ganhe tons fantásticos, o drama nunca deixa de participar em sua completude da narrativa, conseguindo manter os pés no chão, as cabeças nas nuvens e o corpo bem visto.

É um filme com um pano de fundo bem crítico à sociedade sul-coreana. Infinitamente superior a sua contraparte nortenha, mas que também carrega as suas mazelas, também infinitamente superior a qualquer mazela até mesmo brasileira, pode ter certeza. Ainda assim é uma crítica válida, que carrega um fiapo de esperança, talvez, em seu final...? Não sei... você pode olhar o copo meio cheio ou meio vazio, eu sempre opto pelo meio cheio.

O filme tem mais de 2 horas de duração, mas passa rápido que é uma beleza. A forma como a narrativa é guiada através das peripécias, os acontecimentos aleatórios e alguns até fantásticos carrega leveza e muita variedade a um filme, que tem, basicamente, 2 cenários e 8 personagens. É um feito louvável o que Bong Joo-ho fez aqui.

Vale muito a pena ser visto.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Dica cinematográfica: "Le Signe du Lion" (1962)

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O primeiro filme de Eric Rohmer foi um fracasso... mas será que era pra tanto?

"Le Signe du Lion" conta a história de Pierre, um músico parisiense que recebe uma herança da avó logo na época em que seu signo entrou em leão e decide celebrar com seus amigos boêmios. No entanto, no dia seguinte, Pierre descobre que fora deserdado da fortuna, a qual fora fora toda para o seu primo, que o considera um idiota, começando assim uma profunda onda de azar.

O filme trabalha através do simbolismo astral a questão dos impropérios da vida. Começando com uma tremenda notícia para Pierre, que sai para celebrar com seus amigos, sem o menor reforço, mais um período de sorte em sua vida. Visto que sempre que seu signo entrava na casa de leão, próximo ao seu aniversário, ele recebia sorte do universo.

Ao contrário de outros anos, Pierre entra num profundo episódio de azar e nós acompanhamos ele pela cidade de Paris, enquanto perde emprego, casa, amigos, tudo. No entanto, ao final, assim como no começo improvável, a sorte de Pierre muda completamente e temos a sensação de que signos, de fato, não querem dizer nada.

A obra é singela, como muitas das outras obras de Rohmer, mas não carregam o apurado senso artístico pelo qual ele ficou conhecido em suas obras posteriores. Seu simbolismo é raso e sua extensão longa, mas vale a pena ver por se tratar de Rohmer. Eu, como fã do cara, me senti na obrigação.

 

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Dica cinematográfica: "Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw" (2019)

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Apesar de simples, este é o filme mais profundo da série Velozes e Furiosos, conseguindo se aliar às discussões do conservadorismo atual de maneira plena e sobressaindo-se sobre todos os lançamentos blockbuster deste ano do Nosso Senhor de 2019.

Como cheguei atrasado no cinema, não sei exatamente o começo, mas o filme começa com Hobbs (The Rock) comendo um lanche com sua filha, até que os dois são abordados por um agente da CIA (interpretando pelo excelente Ryan Reynolds) convocando-o para uma missão. No Velho Continente, após visitar a mãe na prisão, Shaw é convocado por outro agente da CIA para trabalhar na mesma missão. Após um desentendimento, Hobbs e Shaw descobrem que o alvo deles é a irmã de Shaw e acabam se unindo, um em prol da família, outro em prol do mundo.

Logo vemos que o filme carrega a tradicional mensagem de amor à família que sempre foi a essência de Velozes e Furiosos. Começando com uma traição que iria reverberar em todos os filmes a partir do quarto, seguindo uma abertura de seu conceito no segundo filme e explorando-a como tema central de conflito no terceiro. A série deu uma valorizada no tema, aliando-se cada vez mais ao discurso conservador, ao mesmo que se tornava uma série de ação, com carros fazendo participação especial ao invés de serem o tema central.

E apesar disso, ela não perdeu a graça e hoje em dia, principalmente com esse filme, assume-se uma comédia de ação total. Une-se dois atores carismáticos numa trama de ação com muitas piadas de situação.

No entanto, o ponto ao qual quero chamar atenção aqui é na profundidade que esse filme consegue abrir.

Primeiramente o seu vilão: interpretado pelo magnífico Idris Elba, Brixton é um ex-parceiro de guerra de Shaw e aqui aparece "ressuscitado" por uma companhia de tecnologia secreta que o transformou num super-soldado. Logo após a primeira luta é revelado que a companhia para o qual Brixton trabalha controla todas as maiores corporações de mídia do planeta.

Isso se alia imediatamente ao debate conservador que vê nas grandes companhias do vale do silício o maior inimigo. Basta vermos o que a mais recente polêmica com o Google, a infinita discussão dos banimentos no Twitter e já deixo o meu antigo post sobre os malefícios da internet atual pra se inteirar no assunto. Ao chegarmos no chilique do Brixton mais para o final do filme, em que ele culpa o aquecimento global e o capitalismo, recebemos a confirmação para tirar qualquer dúvida da nossa cabeça.

Ao final do filme, vemos ainda Hobbs indo para Samoa, onde toda a tradição milenar da ilha vence avassaladoramente a tecnologia destrutiva de Brixton. Com isso, concluímos apenas uma coisa: Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw é o filme mais conservador do ano!

Como já disse, é uma comédia de ação. Não espere carros velozes (embora a aparição deles no final tenha feito uma lágrima emotiva escorrer de meu olho, longo fã da série), nem grandes discussões, muito menos discursos emocionantes sobre a família. Aqui, a moral é rápida e rasteira, quase imperceptível e é necessário um olhar atento para captar as nuances que aprofundam a obra.

Como uma comédia de ação, Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw é um ótimo filme, aliando-se ao lado bom da história, ele diverte e satisfaz os anseios de fãs antigos que compreendem as mudanças ocorridas na série. Vale muito a pena!

4 pontos

 

 

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Dica cinematográfica: Alice (1988)

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Tenho um certo preconceito contra o Grant Morisson, mas devido a dica que recebi do meu querido amigo Johan, aceitei começar a leitura do quadrinho, através de uma edição que reúne toda a primeira saga. No prefácio àquela edição, Grant Morisson já recomenda um filme de Jan Svankmajer. Sabendo da genialidade do diretor, fui atrás e é esse filme que vira dica hoje aqui no blog.

O filme conta a história de Alice no País das Maravilhas, famoso livro de Lewis Carroll, mas com um toques de fantasia sombria. Logo no começo, Alice já encontra um coelho empalhado, que irá ganhar vida e rouba uma tesoura das mãos da menina. Inicia-se assim a perseguição de Alice pelo coelho, através de uma gaveta e enfim ao mundo mágico que todos conhecemos, mas que aqui irá se apresentar de forma inédita.

O filme mistura live-action com stop motion, no característico estilo de Svankmajer, seguindo uma estética mais sombria, tons de sépia e objetos com cores mais densas, menos vivas e escuros. Lembra um pouco filmes de horror, mas a história é a mesma de Alice no País das Maravilhas, ou seja, é uma história leve. Apenas a pegada de Svankmajer deixa o filme um pouco mais pesado, mas a verdade é que esse filme poderia ser apresentado pra qualquer criança um pouco mais madura de boa. Adolescentes, então... é livre!

A narrativa fantástica de Alice no País das Maravilhas cai como uma luva na direção de Svankmajer. O stop-motion é magistral e o filme, apesar de ter sido feito há mais de 30 anos, não ficou datado, pois a tecnologia de stop-motion não mudou tanto assim. As soluções criativas que Svankmajer dá para criar momentos que não seria possíveis de reproduzir em seu filme são incríveis e o resultado é fabuloso.

É um filmaço, essa é a verdade. Só fico pensando no que esse filme pode ter inspirado Grant Morisson?

4 pontos