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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Dica musical: "K.G." do King Gizzard and the Lizard Wizard


Que o King Gizzard and the Lizard Wizard é uma das melhores bandas de rock da atualidade isso ninguém nega. Agora que eles podem ser inovadores no cenário musical isso é uma questão em aberto, mas K.G. vem responder a essa questão.

Em 2017, o King Gizzard iniciou um projeto de lançar 5 álbuns naquele ano e eles cumpriram com o objetivo, lançando 5 álbuns completos, mas foi o primeiro o que mais chamou a atenção. Flying Microtonal Banana apresentava a banda explorando sons microtonais. Mais detalhes sobre eles você pode ver aqui, porque o que interessa nessa dica é que eles voltaram a explorar esses sons de maneira muito corajosa.

K.G. é o segundo álbum da banda a explorar instrumentos microtonais, mas aqui são incluídos elementos completamente (ou quase) alheios ao rock, como a presença de cítara e batidas eletrônicas. Tudo isso, cria um álbum único, que escapa inclusive do escopo do primeiro álbum microtonal da banda. Temos então não apenas um rock microtonal, mas um rock muito único, que lembra trilhas sonoras de filmes de faroeste, heavy metal, cultura cigana, elementos árabes e noise pop japonês... a mim, esse álbum me fez retornar quase que imediatamente às trilhas sonoras de Cowboy Bebop, as quais também metiam uma mistura bem singular.

Liricalmente, o álbum é bem diferente do que a banda tem produzido nos últimos tempos. Ao invés de focar em um tema apenas, o álbum é bem diverso, mas em sua maior parte se torna mais filosófico, explorando temas subjetivos e alheios à realidade objetiva. Temos canções que exploram sentimentos de alienação, lembrança histórica, alcance do seu eu interior e a vida na estrada, por exemplo.

O King Gizzard já havia explorado diversos temas diferentes em álbuns anteriores e se mostrou uma banda de rock, apenas, por ter explorado diversos subgêneros em sua discografia impressionante, mas foi a partir de 2016 que começaram a chamar atenção por seus álbuns conceituais e muito bem feitos. Em Flying Microtonal Banana eles exploraram uma técnica e tecnologia de forma inédita no gênero e agora ampliaram ela, forçando ainda mais uma abertura dentro do cenário musical atual para que novas inovações sejam feitas. A evolução tem sido lenta, mas eficaz, pois a cada exploração microtonal essa nova forma de se fazer música fica melhor.

Muito diverso, muito louco e muito bom, esse é um resumo de K.G. o mais recente álbum de King Gizzard and the Lizard Wizard.

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "No Gogó do Paulinho" (2020)


 Esta é uma das comédias mais inspiradas do cinema brasileiro.

No Gogó do Paulinho é um filme brasileiro lançado em 2020 e que hoje está perdido no catálogo da Amazon Prime para ser descoberto pelos amantes de uma boa comédia trash. Sim, trash... a história do filme é uma paródia de Forrest Gump, onde o Paulinho Gogó está no lugar do Forrest e começa a contar a sua história de vida para as pessoas sentadas no banco do seu lado. A partir daí somos apresentados a uma série de esquetes onde se explora suas mais clássicas piadas e algumas tiradas sacanas com cenas do próprio Forrest Gump, mas adaptando-as para o cenário brasileiro. 

É muito bem feito.

Mas continua sendo uma comédia trash, portanto não espere o "humor inteligente", discursos políticos ou ainda sacadas espertas, não! O filme não tem nada disso, muito pelo contrário, é basicamente uma extensão (ou um compilado) de todas as passagens de Paulinho Gogó, o personagem icônico de Maurício Manfrim, n'A Praça é Nossa. 

Tudo isso feito com uma qualidade técnica que impressiona em determinados momentos. O filme é bem feito, apesar de apresentar uma certa masterização no áudio que poderia melhorar ou ainda uns efeitos digitais que poderiam ter sido melhores. Em todo caso, a qualidade técnica do filme está boa.

A concatenação entre a história do Paulinho Gogó com as piadas também é muito bem feita. Podem não ser as piadas mais engraçadas ou impressionantes que você vai ver, mas são boas piadas, que tiram ao menos um sorrisinho do canto da boca. Outras geram aquela sensação de vergonha alheia tão típica do humor d'A Praça e que eu classifico com um bom humor trash. Tudo isso sem cair numa baixaria sem noção. O filme, apesar do Paulinho Gogó, é um filme família e isso também impressiona.

Enfim, No Gogó do Paulinho é um dos filmes de comédia brasileiros mais divertidos que vi e que se apresenta como uma ótima alternativa ao humor limpinho da Globo Produções que invadiu o cinema nos últimos anos.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Dica especial de Natal de 2020!

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Assisti esse belíssimo filme ano passado com minha namorado noites após o Natal e me surpreendi enormemente, pensando imediatamente que ele seria uma boa dica de natal para o blog e aqui está, a dica de natal de 2020!

Klaus é um filme de animação que conta a história de um jovem Jesper, um rico, porém nada ambicioso que vive às custas da boa relação da família como chefes do serviço de correios real. Cansada da parvoíce do filho, o patriarca da família o envia para trabalhar no local mais distante, difícil e gelado do reino. Lá o rapaz descobre, fora as dificuldades naturais, uma cidade dividida em duas, cada lado assumindo para si as brigas entre duas famílias antigas e tradicionais do local. No meio de tanta dificuldade, o jovem Jesper encontra na floresta fora da cidade a solução para seus problemas, o velho Klaus, um lenhador que fabrica brinquedos de madeira e para fazer o serviço de correspondência funcionar e assim conseguir escapar de seu penoso trabalho, Jesper espalha para as crianças que elas devem enviar cartas a Klaus e assim conseguirão brinquedos. É dessa forma que Jesper vê se aproximar dele o fim de suas tarefas ao mesmo tempo que provoca as duas briguentas famílias.

O filme vêm direto da Espanha e estreou na Netflix durante o final do ano passado, chamando a atenção de muita gente. Eu sempre duvido da opinião crítica e ainda mais da Netflix, portanto resolvi assisti-lo sem esperança alguma, mas a surpresa foi enorme.

Klaus é uma história singela, reinventando o conto de São Nicolau, a origem do Papai Noel, numa ambientação que beira o fantástico, pois em nenhum momento somos levados a crer que a história se passa no nosso mundo, embora tenha diversas semelhanças.

Sua animação é bem estilosa, seguindo um estilo 3D que deriva de antigas animações 2D americanas. É especialmente fácil de criar uma relação com o estilo de desenho criado para o desenho Atlantis, lançado em 2001, com seus personagens meio quadrados e baseados em diferentes formas geométricas, criando uma ampla diversidade de corpos e formas. Além disso temos ainda o uso de texturas que lembram giz de cera para a criação dos cenários, fazendo do filme uma verdadeira obra de arte, algo como uma ilustração para livro infantil animada.

Acima de tudo isso temos uma história que fala de cooperação e união. Todos os personagens do filme, até mesmo os vilões, encontram na União a saída para os seus problemas, sejam eles quais forem e é essa união que os mantém vivos e confiantes de que poderão realizar os seus objetivos. Ao final, é tocante a referência cristã quando Klaus alia o seu nome a um Jesper meio apagado que salienta o J de Jesus.

Belíssimo.

Divertido e tocando, o filme é uma ótima pedida para todos, mas especialmente para as crianças, pois não se trata apenas de um puro entretenimento, mas uma verdadeira obra de arte que invoca os nossos mais puros sentimentos para gerar uma verdadeira fruição, não apenas estética, mas também emocional.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Dica quadrinística: "Superman Smashes the Klan" (2020)


 Pense numa história clássica do Superman? Pensou? Provavelmente será uma história em que o lado mais humano do Super é explorado em contraste com a vida de diversos seres humanos comuns para nos mostrar nosso melhor lado. Esse é o poder real do Superman, algo que é encarnado de forma muito singela nessa quadrinho.

Superman Smashes the Klan é uma HQ publicada originalmente em três partes entre o final do ano passado e o início desse ano, mas compilado num encadernado esse ano e que eu só tive a oportunidade de ler agora no final do ano. Sua narrativa conta a histórias dos Lee, uma família de imigrantes chineses já na sua segunda geração e que se mudam para o subúrbio de Metrópolis após o sr. Lee conseguir um trabalho numa agência de medicamentos da cidade. As crianças enfrentam muitos empecilhos com a mudança, pois se encontram num lugar novo e tem que se habituar a mudança, mas o principal empecilho é um grupo recém-formado de seguidores da Ku Klux Klan, os quais decidem expulsar os Lee do subúrbio. O que os racistas da Klan não contavam é que o sobrinho de um dos líderes não só começa a formar uma amizade com o filho mais velho dos Lee após o seu fracassado sequestro, como também o garoto é fã do Superman. Ao mesmo tempo, Superman descobre através da filha mais nova dos Lee que deve aceitar sua natureza para poder se sentir mais em casa.

A história é baseada numa outra história, bem antiga do Superman, mas essa história não foi publicada, ela foi originalmente transmitida entre junho e julho de 1946 nas rádios de todos os EUA no programa Adventures of Superman. Talvez até por isso, esse quadrinho seja tão bom, pois não conta com uma estrutura presunçosa nem falas surrealistas para passar a sua mensagem. Ao contrário, sua mensagem é transmitida de forma natural, singela e muito bela.

Em nenhum momento as discussões entre os personagens soa como planfetagem política, algo muito comum nos dias de hoje nos quadrinhos. Pelo contrário, nós encontramos personagens que apenas não se conformam com atos de violência sendo praticados na sua frente por motivos tão estúpidos. Em nenhum momento eles nos dão uma palestra sobre aceitação ou igualdade racial, mas tudo isso nós conseguimos captar pela própria narrativa. Encontramos personagens brancos, negros, asiáticos e de todo tipo de descendência possível (os artistas fizeram um bom trabalho em exibir traços característicos de diferentes etnias) numa narrativa que reforça o quanto cada um tem a aprender com o outro e o quanto a harmonia é importante para uma sociedade sadia.

O quadrinho também é guiado de forma simples, mas que não é preguiçosa, tornando-se singelo. A narrativa não tem grande reviravoltas e nem tenta simular uma narrativa cinematográfica, ao contrário, é uma pura história em quadrinhos. Logo nas primeiras páginas somos apresentados a todos os personagens que irão figurar em suas páginas e a partir daí é só desenvolvimento de história. Tá certo que algumas reviravoltas no roteiro mais para o final são meio preguiçosas e pareceu que, talvez, a história teria sido melhor com algumas páginas a mais, mas nada disso tira o mérito de um desenvolvimento narrativo muito bom ao longo de 2 capítulos e meio.

Por fim, a simplicidade com que seus temas são tratadas reforçam a natureza humana dessa história. Conhecemos dramas reais e muito próximos de nós. Ainda que você não seja um imigrante num país hostil, você com certeza já se sentiu deslocado. E isso é algo que até mesmo (ou talvez, principalmente) o alienígena mais forte da Terra sente. Ao final, recebemos uma lição de aceitamento, compreensão e evolução de nós mesmos de maneiro muito natural e que emociona. Fiquei arrepiado diversas vezes durante a leitura.

Gostei tanto que nem liguei para o estilo de arte quase que exageradamente infantil Gurihiru. Uma breve pesquisa sobre a dupla de ilustradores japoneses me mostrou que não foi uma escolha proposital por causa da história original em que o quadrinho se baseava, mas é o estilo deles mesmo. Aliás, um estilo que tem sido cada vez mais adotado, meio inspirado no chamado CalArt. Nas primeiras páginas foi algo que me incomodou, mas a história guiada por Gene Luen Yang é magistral e sua narrativa singela acabou se encaixando como uma luva no estilo dos artistas.

Fazia tempo que não lia uma boa e verdadeira história do Superman. Boa pelos motivos já apresentados, mas verdadeiras porque ela cumpre aquele papel que toda história de ficção científica deveria cumprir: através da ficção mais distante da nossa realidade, nos fazer olhar para dentro de nós mesmos.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "Os Exterminadores do Além contra A Loira do Banheiro" (2018)

 Esse filme deveria ter sido a dica de Halloween, mas como no Halloween eu ainda não tinha assistido essa pérola, então vai ser hoje mesmo que vou falar dele. Mas antes, é necessário dizer que, sendo um filme produzido pelo Danilo Gentili, eu já tinha conhecimento dele, mas nunca tive muita curiosidade em ver, apesar de ter gostado bastante d'O Pior Aluno da Escola. No entanto, após aquela patacoada que ele protagonizou no Flow Podcast e um comentário de um espectador lido ao final dizendo que o filme fora premiado internacionalmente e por aqui ninguém nem "tchau", resolvi ir ver, afinal, se o brasileiro não gosta, é porque deve ser bom.

O filme conta a história de Jack, Caroline e Fred, que junto com o cinegrafista Túlio, mantém um canal no Youtube fingindo que enfrentam coisas do além, igualzinho o que o SpookyHouses faz hoje em dia. E após um acidente envolvendo 2 alunos na Escola Isaac Newton, os quais invocam a Loira do Banheiro e um deles ter um "ataque epiléptico", o diretor os contrata pra gravar um vídeo e acalmar os ânimos dos alunos. O que ninguém contava é que o vídeo não contaria com a mesma produção porca de sempre da trupe de charlatões, pois a Loira não só é real, como ela querendo brincar com a vida de todo mundo.

A partir daí, o filme se desenrola num terrir maravilhoso. Cabeças explodindo, sangue jorrando pra todo lado, canibalismo, queimada assassina, telefone do mal, sexo com possuídos, ritual satânico, feto homicida e até mesmo um cocô possuído, enfim... bom gosto não define.

O filme é realmente um desses trashs incríveis que te farão gargalhar com tanta besteira, até muito mais do que as piadas. Além dessas escabrosidades todas, temos ainda uma série de participações muito boas, como a do Ratinho e do Sikêra Jr. que carregam o filme com bom humor. Dentro do filme há também uma sacada muito boa que é o núcleo formado por 2 professores, escalados pelos exterminadores do além e o diretor para aparecem no vídeo. No entanto, eles nunca são chamados para aparecer no vídeo, por causa dos acontecimentos terríveis dentro da escola e ficam alheios a toda a situação, conversando entre si sobre como dever ser organizado um filme de terror, gerando diversas piadas metalinguísticas que servem como uma boa transição entre uma cena de terrir e outra.

A produção do filme, infelizmente, ainda conta com alguns problemas técnicos (ou talvez deveríamos dizer características técnicas?) que incomodam. Uma delas é a própria direção, há cenas, como a da queimada, em que não temos dimensão de tudo o que está acontecendo, fora isso temos cortes muito abruptos nas cenas de destruição e, além disso, o som também não parece que foi bem masterizado, pois os gritos e falas muitas vezes ficam abafados em meio a trilha sonora. Tudo isso, sempre, nas cenas de terror. Talvez seja inexperiência do diretor com o gênero, talvez seja um estilo que ele decidiu adotar, porque já vi coisas assim em outras obras de terror. O que importa é que passa uma sensação de amadorismo.

No entanto, há o que se louvar nos aspectos técnicos também. A trilha sonora é excelente, a ambientação também, fizeram um filme de terror brasileiro, ou seja, nas cenas de dia tudo é muito claro, dando aquela sensação de calor que o nosso país exige. Como a maior parte do filme se passa a noite, talvez isso nem seja notado, mas é algo que chama a atenção logo no começo. Por fim, toda a construção do cenário ficou muito bem feita, cheio de pequenos easter eggs, que só os brasileiros irão captar. Tudo isso segue muito bem os parâmetros que nosso mestre, Mojica Marins estabeleceu décadas atrás e o grande recebe uma bela homenagem na obra.

E ainda assim "Os Exterminadores do Além contra A Loira do Banheiro" foi um filme muito premiado lá fora, o que me dá muito orgulho. Nossa produção nacional de filmes tem espírito criativo pra dominar o mundo, mas infelizmente não conta com todo o apoio necessário das empresas, instituições e até mesmo público e crítica nacional. Em todo caso, esse filme dá um fôlego novo para a cinematografia brasileira e, com certeza, se tornará um desses clássicos trash que iremos assistir em nossos computadores escondido e conversar com os amigos no bar, rindo muito.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Dica literária: "Eneida"


 Tomei vergonha na cara e finalmente peguei esse tijolão que estava na minha estante há muito tempo para desembalar, ler e Deus me perdoe, mas esse é o poema épico que eu mais gostei, gostei até mais do que A Divina Comédia.

Eneida é o clássico romano que conta a aventura de Eneias, guerreiro troiano, após a Guerra de Troia e sua queda em direção à Itália, onde ele acabará por fundar Roma. Não ele especificamente, mas seus descendentes, os quais por sua vez são descendentes de troianos, por consequência.

O livro foi escrito por Virgílio e, pra quem não se lembra, é o poeta que guiou Dante pelo Inferno e o Purgatório n'A Divina Comédia e a obra é, de fato, fenomenal. Acompanhamos de forma clara e concisa a trajetória de Eneias que se arrasta por anos, indo de Troia até a Itália, passando pelo Norte da África, ilhas no Mediterrâneo e fundando cidades enquanto isso. 

Ao contrário de seus irmãos de gênero poético, Eneias não é apresentado apenas como um guerreiro ou um valoroso pai de família, mas como um verdadeiro religioso e, como tal, é o responsável por fundar a civilização. Eneias tem uma fé cega em sua missão dada pelas divindades de fundar uma cidade e continuar o reino de Troia e esse é o motor de toda a sua vida pós-guerra de Troia, deixando, inclusive, uma vida feliz que poderia ter vivendo no norte da África.

E é essa sua fé que funciona como o motor para a narrativa, pois não apenas é através dela que é realizada a sua trajetória, como é também no embate divino que ela se concretiza. Isso se dá não apenas de maneira negativa, com os desafios divinos impostos ao troiano, como também de maneira positiva, através das inúmeras bençãos que ele vai recebendo.

É interessante que isso poderia causar no leitor incauto a sensação de que Eneias é um verdadeiro bundão, mas não é isso o que acontece. Eneias é um homem belo, que impressiona pela beleza e também pela sua força de vontade que guia os troianos até o novo império. Mas é na segunda metade do livro que conhecemos o Eneias guerreiro que aparece na Ilíada, liderando um exército contra a força das cidades italianas e enfim começa a verdadeira chacina.

E ainda assim, Virgílio nos apresenta um Eneias justo. Ele mata seus adversários, mas nunca é de maneira gratuita, pelo contrário, ele o faz com grande justiça e essa também é uma de suas principais características. E também não poderia ser diferente, pois para a mente pagã a figura religiosa é também a figura jurídica. Não há diferença entre religião e política e por isso Eneias funda suas cidades com sacrifícios animais e também chora em êxtase ao encontrar a vontade divina de seus deuses.

É um livro extremamente profundo, como todos os épicos, creio eu, mas a edição em português da editora 34 a qual tive acesso nos apresenta sua profundidade de maneira ainda mais impressionante, pois a tradução de Carlos Alberto Nunes tenta manter o verso hexâmetro no qual o épico foi escrito. E o faz de maneira magistral. Obviamente que eu, um mero leitor brasileiro, não saberia dizer qual a grandiosidade desse feito de tradução sublime se não fosse pela introdução de João Angelo de Oliva Neto, a qual eu li antes de começar a me aventurar pela Eneida e só aumentou ainda mais a minha atenção para essa obra fenomenal.

A referida edição ainda é bilingue, contando com os versos originais em latim, o que acrescenta uma camada ainda maior para os que gostam de se aventurar pela nossa tão bela língua de origem.


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Dica cinematográfica: "Tenet" (2020)


 Tenet é o mais recente trabalho de Cristopher Nolan, o diretor por trás de icônicos filmes como Cavaleiro das Trevas e A Origem. Sua sobras são alvos de grande apreciamento crítico desde que lançou sua primeira obra há exatos 20 anos atrás, Memento, mas tem e tornado alvo cada vez maior de críticas vorazes não apenas pelo seu conteúdo visto como polêmico nos dias atuais, mas também pela forma ambiociosa com a qual seus roteiros são elaborados. Em todo caso, me proponho aqui a discutir esse filme e mostrar que ele é um novo Memento.

Em Tenet encontramos um membro de uma força especial dos EUA que, após falhar em uma missão internacional na qual ele entra em contato com uma tecnologia que nunca tinha visto, é escalado para fazer parte de um time que deve deter a nova Guerra Fria, utilizando uma tecnologia que reverte o tempo ao seu redor.

Tão simples quanto é essa sinopse, é o começo do filme. Em pouco tempo somos apresentados ao herói principal, sua condição que o levou a ser parte de um time obscuro de agentes e a premissa principal por trás de todo o filme; a tecnologia que reverte o tempo. O filme é rápido, não respira, uma característica dos filmes do Nolan desde o terceiro filme do Batman e que é alvo das duras críticas que ele sofre, mas é algo interessante.

Em Tenet esse recurso não é maçante, porque o filme não se perde em longas elocubrações dos elementos de ficção científica que ele explora. Ao invés de entendermos a tecnologia, somos apresentados a solução por trás dela como mero "instinto" e as condições de sua criação, sua elaboração e a forma como foram obtidas também não são complicadas, mas também não são ruins. Muito pelo contrário, a simplicidade mantém a coesão do roteiro, que não se esforça em explicar muito, mas também não exige essa explicação.

Conseguimos acompanhar a jornada do Protagonista de maneira objetiva, clara nem tanto, mas direta ao ponto. O resultado é um baita thriller de investigação, paranoia e ação, uma espécie de James Bond bebendo Pynchon no café-da-manhã e indo dar uma caminhada com a série Bourne. É bom pra caramba e entretem como poucos filmes do Nolan conseguem fazer. Não me entenda mal, eu gosto dos filmes dele, mas é difícil reassisti-los. Esse não.

Mas então ele é claro? Não. E nem todo filme precisa ser pra ser um baita filme de ação. Ele é direto em sua elaboração, porém ainda é um filme com viagem no tempo e muito coeso, mas para entendermos a coesão temos que voltar diversos momentos algumas vezes. Eu me peguei voltando o filme algumas vezes em momentos-chave pra poder entender algumas passagens, especialmente quando as viagens no tempo começam a ficar mais frequentar, a partir da terceiro quarto do filme.

Por isso eu imagino que esse filme não agradará gregos e troianos (leia-se fãs e haters). Ele é direto demais pra agradar a base de fãs cabeçudos do Nolan, que gostam de um negócio complicado pra ficarem montando teorias, elocubrações e afins. Igualmente o filme continua sendo obscuro e rápido demais para os haters do Nolan, que ainda encontrarão um filme que não respira e muitas explicações que ainda exigem voltar o filme algumas vezes. Algo que os haters odeiam, mas eu gosto. Gosto de ser desafiado pelos filmes que assisto.

Por esse e outros motivos, é uma obra que destaca dentro da filmografia do Nolan. Não é muito como as outras coisas que ele já fez por aí, bem pelo contrário, a trilha sonora, apesar de ainda ser bem minimalista e ter um jogada bem inteligente, é barulhenta, tão impositiva que sentimos o seu peso na tela. As comparações com A Origem devem borbulhar em todo canto, mas Tenet é irmão mesmo de Memento.

Eu consigo ver muitos jovens, adolescentes mesmo, assistindo Tenet e gostando demais dele, indo, a partir daí, procurar o resto da filmografia do Nolan pra assistir. Tenet é um filme do Nolan que fala com a nova geração.

Em todo caso, é um baita filme, que merece ser assistido.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Dica cinematográfica: "Lourdes" (2019)

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Mais um filme vindo da Lumine, que já foi indicada aqui no blog anteriormente e com uma bela surpresa.

Lourdes é um documentário que acompanha a peregrinação de algumas pessoas para o Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, um místico lugar na cidade de mesmo nome onde Santa Bernadete Soubirous viu algumas aparições da Virgem Maria no século 19.

Dirigido de forma magistral, esse documentário é um deleite para os olhos, porém também um choque para a alma. É uma dessas raras obras de arte em que sentimos a intervenção divina como fonte de inspiração para os artistas responsáveis pela obra. E nítido que a inspiração foi enorme.

Porém temos que louvar os aspectos técnicos da obra. As cenas são impecáveis, a direção de áudio, idem. É um filme que alia de maneira incrível os aspectos belos e sublimes da arte. Por óbvio, as histórias dos peregrinos são tocantes, mas elas nos são apresentadas de maneira muito sensível, leve e singela. Em outros momentos, principalmente quando somos apresentados aos elementos mais "rígidos" da fé, como, por exemplo, a cena da eucaristia, onde diversos padres são filmados com uma canção minimalista, mas crescente, criando um ambiente imponente, poderoso, temeroso, mais ou menos como Dante conseguiu fazer com o Paraíso.

É impossível não se emocionar. Me peguei chorando em diversos momentos, tocado pelas imagens, mas principalmente sentindo o sofrimento de todos os personagens que nos são apresentados. Histórias reais, muito profundas e que nos lembram da dimensão da vida humana.

Lourdes é uma obra fenomenal, muito bem feita, dirigida e guiada de forma magistral. É também um documentário necessário para os tempos negros em que a Cristandade vive.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "One Child Nation" (2019)

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Já que a China se tornou a líder mundial esse ano, porque não falarmos sobre ela aqui no blog? Afinal, nos próximos anos a influência chinesa se tornará cada vez maior e é bom nos prepararmos para o que vem aí.


Jialing Zhang é uma chinesa que emigrou para os EUA a fim de seguir uma carreira dentro da indústria cinematográfica da terra de Trump e lá ela teve seu primeiro filho. Ao visitar seus pais para lhes apresentar o neto, Zhang começou a lembrar da época em que era criança, nos anos 80, época em que a China implantou sua política de 1 filho. Ao revisitar as memórias, a diretora começa a descobrir fatos que nunca tinha se atentado e decide elaborar esse documentário sobre o tema.


A obra começa bem intimista, nos mostrando a vida de Zhang quando criança num vilarejo do interior do país, nos apresentando a forma como a política foi apresentada para os seus conterrâneos, através de uma ampla campanha propagandística que contava não apenas com os característicos outdoores e panfletos, mas também com músicas, programas na TV, no rádio e em anos recentes até na internet (os quais pertencem todos ao governo chinês). Ainda com todo esse bombardeamento de informação, a vida seguiu mais ou menos normalmente até a chegada do segundo filho de Zhang e aí as coisas começam a ficar sombrias.


A família da diretora começou a sofrer um certo ostracismo, eram vistos com maus olhos, até mesmo as outras crianças eram incentivadas a reagir com estranhamento com aquela notícia. E aí surge a pergunta: como a mentalidade de um país, que até então encarava como algo comum os casais terem vários filhos, pode mudar tão rápido e de maneira tão drástica?


A resposta é simples, mas é de difícil compreensão. O governo chinês é tão massivo, o alcance das mãos do Estado é tão imenso que eles conseguem controlar a forma como as pessoas pensam. Afinal, desde a revolução chinesa, que levou um monte de submissos a Mao a liderarem uma revolta armada e sangrenta contra o tradicional governo do país, a China se tornou uma nação de pessoas submissas ao poder de uma casta que tem garantias jurídicas de governar sobre todos. Em suma, a propaganda e o controle estatal fizeram essa mudança.


Mas isso é muito abstrato e o problema é ainda mais grave. Quando oferecem a mãe da diretora fazer um procedimento médico de infertilidade a diretora passa a investigar até onde essa influência do governo. Famílias inteiras eram ordenadas a se castrarem para que não tivessem mais filhos, afinal só há uma forma de uma lei ser imposta, é através da força e se a lei diz que você só pode ter um filho que outra forma de fazê-la valer? Castrando os casais que já tem um filho ou forçando mães a abortarem seus bebês nasciturros.


No entanto, num país com mais de 1 bilhão de pessoas, não há como realizar isso. O filme mais uma vez nos mostra a ineficiência inerte ao Estado, ainda que essa não seja a sua intenção. É impossível do Estado, mesmo o Estado mais autoritário, como o chinês, de controlar toda a sua população e o que vemos a seguir é algo ainda mais aterrador: num país com mais de 1 bilhão de pessoas, com um Estado esmagador e uma população sem virtudes, é óbvio que haverá a criação de um mercado negro.


Foi a partir dos anos 80 que programas de adoção internacional se voltaram para a China, afinal, casais não podiam ter mais que 1 filho, então eles eram deixados para adoção. Nada de errado, é até uma atitude muito bonita, mas o problema que o documentário nos mostra é que, muitas vezes, isso era feito sem a consessão dos pais. Bebês sumiam das casas, eram levados embora para nunca mais serem vistos por "fiscais", os quais oficialmente nunca foram ligados ao governo e eram vendidos a orfanatos que então negociavam com agências de adoção internacional.


O resultado é uma bagunça e um tratamento desumano de revoltar. Mães viam seus filhos irem embora para nunca mais voltar, "fiscais" recebiam dinheiro por levar bebês até orfanatos, às vezes cumprindo até uma certa cota semanal de bebês, gêmeos eram separados e enviados para famílias diferentes ao redor do mundo.


É uma crueldade sem tamanho, mas é apenas no final que chegamos ao momento mais desolador do filme. Quando a diretora do documentário já tinha descoberto tudo isso e decidiu apresentar os fatos para diversas pessoas da sua vila, pessoas que inclusive perderam seus filhos, encontra uma reação branda, um dar de ombros resignado e aceptivo para com as barbáries cometidas contra eles mesmos. E aí vem a observação que deveria ter encerrado a obra: "quando toda decisão é tomada por outra pessoa que não você a vida toda, fica difícil se sentir responsável pelo que acontece".


E essa é a realidade do povo chinês hoje. Não importa quantos crimes contra a humanidade a China cometa, seu povo não se sente responsável por isso, porque, de fato, eles não o são. São apenas peças dentro de um joguinho onde apenas Xi Jinping e seus parceiros de casta podem participar. Ninguém na China anda com as próprias pernas, levanta a cabeça sem que o governo diga para levantar, fala ou respira sem que lhe dêem permissão. É um povo submisso e vítima de qualquer tipo de barbaridade. 


Nem a mente mais maléfica poderia pensar numa realidade tão distópica, mas o mundo tratou de realizar isso para nós e nós devemos aprender e caminhar sozinhos.


A realidade brasileira não está muito distante. Infelizmente, a mentalidade popular é também submissa, abandonada ao relento, acreditamos que as pessoas ao nosso redor não conseguem caminhar sozinhos e precisam de um apoio, mas um apoio estatal é um apoio que não vai embora, é um apoio que só cresce e isso aos poucos vai nos desumanizando.


É preciso reagir.





terça-feira, 22 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "O Beijo no Asfalto" (1980)

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Vi esse filme no instagram do Pedro Sette-Câmara e fiquei curioso na obra, baseada numa peça de Nelson Rodrigues e supostamente girardiana. De Girard eu entendo e decidi ver qual é a desse filme.

O Beijo no Asfalto conta a história de Arandir, um rapaz recém-casado, trabalhador honesto e boa pinta que vê um acidente de trânsito, onde um rapaz é morto. Apenas mais um dia na cidade grande, não fosse pelo fato de que Arandir se aproximou do rapaz moribundo e o beija na boca. Nada mais estranho, não fosse pelo fato de que a cena foi presenciada pelo sogro de Arandir, que correu para a casa da filha a fim de saber se ela não notara nada estranho com o marido recentemente.

Paralelo a esse rio de estranhezas, temos um chefe de polícia que havia se envolvido num escândalo e estava correndo o risco de ver sua carreira escorrer pelo ralo e um repórter que, sabendo do acidente, decide unir forças ao policial para fazer fama solucionando um caso bizarro.

Pelo fato de ser uma obra rodrigueana e ter sido feito nos anos 80, o filme não tem nenhuma das discussões chatas que hoje geraria com relação a relacionamento homossexuais e violência policial. Ao contrário, a história nos é apresentada da maneira mais crua possível e não poderia ser melhor.

O filme é cru, frio e nada polemista, apesar do tema que trata. Tudo é apresentado com naturalidade e nós, espectadores do século 21, acostumados a ter as opiniões regurgitadas para nós a fim de uma digestão rápida, ficamos estarrecidos.

Aos poucos, a superfície normalizada a qual somos apresentados, vai se diluindo e seu momento mais marcante é quando pai e filha caçula discutem sobre uma suposta relação incestuosa que existia entre o pai e a filha mais velha. A discussão é tratada com zombaria, mas os espectadores ficam com uma pulga atrás da orelha, exceto os girardianos, que vêem isso com um sorriso no rosto, mas sabem que nas boas obras nada é entregue de bandeja assim.

O buraco é mais profundo e a cena final, de conflito, contrastes e revelações é um escândalo, mas é excelente e, neste filme, é lindamente filmada, de forma a nos apresentar um retorno ao início da obra. Deu a lógica, mas é a lógica girardiana.

Vale muito a pena conferir esse filme, que é um diamante oculto, na minha opinião. Mais uma dessas obras antigas em que se faziam filmes corajosos que nada deixavam a desejar ao cinema exterior e que, infelizmente, se perdeu no meio de trágicos investimentos públicos a comédias pastelões.

Ainda bem que existe a internet pra nos presentear com essas obras.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Dica quadrinística: "Slam Dunk" (1990-1996)

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Finalmente terminou a publicação de Slam Dunk no Brasil pela Panini numa edição de luxo que não deixa nada a desejar para as expectativas criadas em torno dela, mas será que a história valeu todo o investimento?

Slam Dunk conta a história de Hanamichi Sakuragi, um valentão que só se mete em confusão com outros valentões do escola colegial onde estuda, o Shohoku. No entanto, o rapaz tem um coração romântico e após levar mais um fora de uma menina que gostava, se apaixona por Haruko Akagi, que lhe apresenta o basquete e afim de impressionar a menina, Sakuragi entra no time de basquete do colégio.

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O problema é que o time de basquete é constituído pelo irmão mais velho de Haruko e pela sua paixão platônica, Kaede Rukawa, o qual também é um sisudo astro do basquete colegial. Takenori Akagi, o irmão mais velho de Haruko tem a ambição de fazer do Shohoku o campeão do campeonato intercolegial nacional e acaba aceitando a entrada de outros encrenqueiros no time, como Mitsui e Miyagi.

A partir daqui teremos spoiler, TEJE AVISADO!

Do começo do mangá até a entrada e formação de todo o time, acompanhamos um time desastrado lentamente entrar em ordem. E por lentamente, eu quero dizer, shonen-namente lento! As partidas de basquete, que no mundo real duram menos que a metade de uma partida de futebol, duram volumes inteiros, aprofundando-se ricamente em cada um dos personagens, cada um com seu próprio drama, passado e motivação. Essa lentidão serve pra criar uma aproximação do leitor com cada um dos membros do time e, ao final do volume 16, eu literalmente chorei.

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Imagine um filme de esporte muito emocionante... imaginou? Pois é, Slam Dunk é ainda melhor. O Shohoku é um time azarão, vindo de uma escola normal com um capitão (Akagi) que tem um sonho muito grande para a escola em que se encontra. No entanto, com a chegada de Rukawa, um astro do basquete, vê a oportunidade de entrar no campeonato. Sakuragi é um desastrado, mas suas habilidades evoluem muito e, acreditando nas palavras da irmã, Akagi decide dar uma chance para o ruivo. Por fim, Miyagi entra no time após se envolver numa briga com Sakuragi, mas se torna seu amigo e Mitsui, que havia perdido o controle de sua vida, volta para o time. Todos se reúnem em torno do técnico Anzai, que também tem seus próprios dramas, baseados num ex-aluno numa época em que era exigente demais. Aos poucos e depois de algumas derrotas feias, o time vai ganhando espaço, vencendo os jogos, conquistando campeonatos e sempre se superando. Nesse quesito é o típico shonen onde os personagens principais vão tirando poder do rabo e vencendo todos os vilões do nada, mas há uma diferença subtancial: esse não é um shonen comum.

Slam Dunk não se passa numa realidade paralela com poderes especiais, muito pelo contrário, é um mangá bem pé no chão e, ao mesmo tempo em que nos aprofundamos nos dramas pessoais de cada um dos jogadores titulares do Shohoku, mergulhamos também na arrogância dos jogadores dos times adversários que não acreditam que podem perder para um time pequeno como o Shohoku. Nós torcemos a cada página para a descoberta de novas habilidades, para a superação dos desafios e as vitórias que os azarados vão conquistando.

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E tudo tem um custo. Ao final do mangá, o time alcança um nível que, outrora, seria impossível de ser alcançado não fosse o fato de que, para isso, eles sacrificam os seus sonhos. É semifinal, se não me engano, do campeonato nacional e eles estão enfrentando o melhor time do Japão, todos dão tudo de si e nosso anti-herói ruivo sofre um acidente e, literalmente, sacrifica as costas para poder ganhar do melhor time do Japão. O jogo é incrível, super bem desenhado, com uma narrativa incrível guiada pelas sábias e talentosas mãos de Takehiko Inoue, mas é decepcionante.

Não é o jogo da final e o Shohoku acaba perdendo o campeonato. Sakuragi não joga basquete, embora ao final ele prometa para si mesmo que vai voltar a jogar, Akagi não consegue a bolsa esportiva pra jogar basquete, Rukawa não vai para os EUA e Miyagi e Mitsui são os únicos que continuam jogando basquete no Shohoku, ainda um time azarão, ainda não sendo uma potência no basquete japonês, basicamente começando tudo de novo.

É um pouco decepcionante, pois a relação que criamos com esses personagens é muito forte, mas isso é ver o copo meio cheio, pois ao longo do último jogo vemos um time que cresce unido, com jogadores confiando um nos outros e fazendo de tudo pelo time, não só por eles mesmos, mas para que todos pudessem ganhar e se dar bem. É uma baita lição de companheirismo, resiliência e vivência pela comunidade.

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O mangá é desenhado por Takehiko Inoue e é fruto da paixão do autor por basquete. Inoue tem mais fama, atualmente, pelo seu mangá de samurai, Vagabond, mas o traço dele é muito diferente em Slam Dunk. Ao invés do traço rabicado encontramos aqui um traço muito firme, detalhista e com um pé no realismo. A arte é incrível e na atual edição que a Panini acabou de lançar temos o prazer de ver rabiscos do autor e páginas coloridas. Infelizmente, na versão japonesa dessa edição de luxo, temos páginas pintadas mas apenas de vermelho, que é a cor do Shohoku e isso não foi mantido na edição brasileira. Uma pena e faz realmente muita falta, pois essas páginas são substituídas por terríveis tons de cinza bem mequetrefes, os quais não fazem jus ao preço que pagamos. Em todo caso, são detalhes que não diminuem o valor artístico dessa obra sensacional.

A sensação de ver o final dessa série que me acompanhou pelos últimos 5 anos é amarga, mas ao mesmo é um alívio não ter mais que gastar dinheiro com os quadrinhos inflacionados da Panini, como é o caso de Lobo Solitário, o outro mangá que estou colecionando.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Dica teórica: "A Vida Intelectual" (1921)

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Recebi a dica de leitura desse livro de um comentário no blog e, como ouvi falar muito dele, resolvi comprar e li rapidamente. Uma ótima obra, de fato e me arrependo de não ter a lido antes.

A Vida Intelectual foi escrita em 1921 por um dos intelectuais franceses que, na primeira metade do século XXI, revolucionou o pensamento católico ao retornar a filosofia tomista, em desuso na época. É algo difícil de imaginar hoje, quando a Igreja se divide entre líderes populares feito de gato e sapato por quem está no poder e líderes modestos que repousam nos ombros dos gigantes do pensamento ocidental. No entanto, estamos falando de uma obra escrita numa época em que o doutor angélico estava completamente esquecido.

E baseando-se numa carta de Santo Tomás em que ele recomenda 16 passos para um bom estudo, Sertillanges desenvolve conselhos para desenvolver um bom estudo, angariar conhecimento e ter uma boa vida balanceada. Sim, o livro não é apenas voltado para a área da educação, mas ele engloba conselhos para toda a vida de quem tem a ambição de ser melhor, simplesmente.

O livro foca na vida de estudos e é assim que ele começa, como desenvolver uma boa vida de estudos? No entanto, para se ter uma boa vida de estudos, é preciso ter uma vida equilibrada. É preciso paciência, para não se atropelar nos conhecimentos, afinal ninguém aprende física sem antes aprender matemática e ninguém aprende raiz quadrada antes de saber multiplicar e ninguém aprende a multiplicar sem antes aprender adição. O conhecimento é como uma árvore, que tem raízes muito bem definidas, estáveis e fortes, mas que se divide em inúmeros ramos.

E esse talvez seja o principal defeito do ensino brasileiro atual, pois nossos alunos são levados a aprender coisas fora dessa linha de desenvolvimento natural. Abra qualquer livro de português do primeiro ano e veja como são ensinadas as palavras. Ao invés do aluno aprender o beabá, unindo letraspara formar sílabas e sílabas para formar palavras, ele aprende palavras dentro de contextos que, supostamente, deveriam fazer parte da sua realidade.

Nada mais errado...

Mas enfim, além de paciência, é preciso humildade, para saber reconhecer sua ignorância. Lembra dos pensadores que estão em ombros de gigantes? Pois é, os gigantes também estão repousados em algo e Sartilanges nos diz que é a Verdade. Alguém que almeja ser um pensador, levar uma vida de estudos, tem que entender que se busca a Verdade, acima de tudo, mas todo mundo começa de maneira humilde.

Além disso é necessário temperança, para não se sobrecarregar, afinal mesmo o estudo, que é algo bom, pode ser algo ruim. Pra quem é católico, é fácil identificar ensinamentos bíblicos muito populares nas diversas comunidades, como o de que não se peca apenas pelo excesso, mas também pela omissão.

Ao final, aprendemos que a vida de estudos, apesar de parecer rígida e rigorosa, é, na verdade, doce e divertida. É uma vida que todos deveriam almejar, mas alguns tem uma vocação especial para isso. E mesmo aqueles que não tem essa vocação, sempre poderão achar um espaço em sua rotina para os estudos.

A quem almeja essa vida de pensador, mesmo as horas de lazer são aproveitadas para o aprendizados, para a abstração de conhecimento, que se concentra em todas as medidas de todas as coisas. Quanto mais conhecimento, mais próximo estaremos da Verdade.

O livro tem uma popularidade renovada no Brasil. Isso é um excelente sinal, nossa cultura tem de fato evoluído para melhor e podemos encontrar essa obra em diversos formatos, tem capa dura, capa mole, edição bilíngue, enfim... é uma obra básica, como eu disse, deveria ter lido antes, teria facilitado muito minha vida, mas é também uma obra profunda.

Uma obra que merece ser revisitada muitas e muitas vezes.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Dica quadrinística: The Complete Calvin and Hobbes (2005)

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Em meados do ano passado eu realizei uma compra absurda: gastei mais de 200 reais numa caixa com 4 livros num formato muito estranho, retangular deitado, onde se encontravam todas as tirinhas publicados de Calvin e Haroldo, precedidas de um comentário do seu autor.


Hoje, mais de um ano depois, 1450 páginas de leitura finalizadas, percebo que foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.


São 4 volumes, com quase 400 páginas cada um e logo no primeiro, temos um longo texto de apresentação do autor, Bill Watterson, contando como foi sua trajetória de vida, da sua infância numa cidade pequena do interior de Ohio até seus desentendimentos com o sindicato de cartunistas que levou a sua aposentadoria dos periódicos.


A história de vida dele é bem inspiradora. Não é daquelas com enormes e absurdos atos de heroísmo, bravura ou resistência, mas é uma história simples de muitas decepções, esforço e esperança que qualquer um pode se identificar. Formado num curso de desenho na universidade onde um dos seus artistas favoritos trabalhava, ele foi contratado por um período de teste num jornal para fazer charges políticas. No entanto, o trabalho exigia muito mais do que seu conhecimento da realidade local poderia sustentar e ele acabou sendo demitido. A partir daí começou a trabalhar numa agência de publicidade, voltou a morar com os pais, desenhava seus projetos pessoais tentando achar uma oportunidade de emprego como cartunista por 4 anos até que foi contratado por um jornal local perto da região onde cresceu e lá começou toda a história de Calvin e Haroldo.


A obra é magnífica pois nos mostra não apenas a completude das desventuras de um menino hiperativo e seu tigre de pelúcia, mas também o desenvolvimento de Watterson como artista e o desenvolvimento da indústria de histórias em quadrinhos nos EUA.


Mas vamos por parte. Falemos primeiro das aventuras de Calvin e Haroldo.


As tirinhas incluíam inicialmente apenas o garoto, mas logo Haroldo foi apresentado e aí as tirinhas deram um giro de 180 graus para o absurdo. As histórias passaram a incluir dinossauros, aventuras no espaço, aventuras de um herói genérico de capa e máscara, inimigos alienígenas, monstros embaixo da cama, viagens no tempo, mas tudo sem perder a conexão com a realidade. Em nenhum momento somos levados a crer que as aventuras fantásticas de Calvin são reais, muito pelo contrário, somos lembrados a todo momento que elas são imaginárias e que ele é, de fato, um garoto hiperativo e, tenho certeza, um estudante de psicologia dedicado iria encontrar uma série de traços neuróticos no garoto.


No entanto, isso não interessa a Bill Watterson, o que o interessa é tecer críticas e comentários ácidos sobre a condição da cultura americana e fatos do momento, mas que, mesmo hoje, com quase 30 anos de distância, continua atual e é até assustador o quão premonitório são certos comentários e atitudes do loirinho de cabelo arrepiado.


O estilo de Watterson faz um desenvolvimento incrível ao longo das aventuras e isso é o que mais me chamou a atenção ao longo dessa leitura divertida. Começando de forma simples, respeitando as formas geométricas que são a base de qualquer desenho e chegando finalmente ao estilo tão característico e copiado dele, livre, criativo, belíssimo!


E é por ser tão copiado e também por outros fatores que ele não desenha mais. As histórias de Calvin e Haroldo, muito cedo, fizeram sucesso e logo foram surgindo ofertas para serem distruidas para outros jornais e até mesmo para outras partes do mundo, o que levou a minha mãe a conhecê-lo. No entanto, Watterson sempre foi meio relutante quanto a isso e achava legal as tiras serem publicadas, mas ao mesmo tempo não queria que elas se transformassem em produtos altamente mercadológicos. Em pouco tempo surgiram propostas para ele vender os direitos de imagem para bonecos, desenhos animados e afins, mas ele nunca quis.


E então entra a pirataria. Sabe esses adesivos de carro que mostram o Calvin mijando e mostrando o dedo do meio? Pois é... Bill Watterson desperdiçou muito dinheiro pra processar todo mundo que abusava dos seus desenhos, mas chegou num ponto que ele percebeu aquilo que Holden Caulfield nos ensina: "nem em 1000 anos você poderia apagar todos os foda-se do mundo". Ele desistiu de acabar com a pirataria, mas sempre se entristeceu ao ver sua obra ser usada e abusada por aí.


A razão disso é Watterson considerava suas tirinhas mais do que apenas tiras de jornal, mas também obras de arte e tentava explorar o potencial artístico daquilo. Por essa razão sua preferência eram os quadrinhos dominicais, que eram publicados numa página inteira de jornal, coloridos e lá você percebe que ele, de fato, dedicava-se mais.


Eram nessas páginas que havia um cuidado maior com os desenhos, havia uma exploração imensa de possibilidades para enquadrar a história e, de fato, são verdadeiras obras de arte. É, de fato, o que faz o quadrinho ser considerado a nona arte.


No entanto, isso não durou muito. Logo o sindicato passou novas regras para a publicação de quadrinhos, para os valores que os autores recebiam e Watterson se revoltou contra a máfia se tornando uma das vozes mais ferozes contra eles, mas não teve como. E você percebe essa mudança nas páginas, os quadrinhos passaram a ser publicados num formato menor e padronizado. Ainda que Watterson tenha procurado explorar o formato o máximo que pode, inserindo quadrinhos de diversos tamanhos, expandindo o cenário para além das linhas de divisão de quadros e as possibilidades narrativas incluídas ali, não teve jeito. As represálias e a opressão da máfia sindicalista aumentou a um ponto em que ele desanimou completamente de desenho e entre 1994 e 95 entrou num ano sabático.


Eu não sei exatamente quando foi exatamente que os fatos que mencionarei aconteceram, mas sei que Watterson não estava sozinho e Jeff Smith foi um influência para Watterson desistir de tudo. O mercado de quadrinhos independentes já existia há tempo, mas foi só no início dos anos 90 que ele bombou e Jeff Smith se tornou uma de suas figuras mais importantes com a publicação de Bone. Smith foi o cara que decidiu montar os encadernados de seus gibis e vendê-los em livrarias. É óbvio que o negócio deu certo e seguindo a mesma ideia, sabendo que era possível, Watterson abandonou o sindicato, os jornais e decidiu publicar por conta os livros que nós conhecemos de Calvin e Haroldo.


Infelizmente essa edição histórica não está disponível em português, mas ouso dizer que vale a pena o original em inglês, pois eu identifiquei várias piadas que foram neutralizadas em português, como piadas que fazia referência ao comunismo. Portanto, em inglês, você tem ideia da total dimensão que as aventuras de Calvin e Haroldo alcançavam em sua crítica, ainda atual, à sociedade.


Uma obra de arte magnífica, um trunfo da nona arte, de valor social, história, artístico, mas principalmente, de divertimento.


A ver: Querido, sr. Watterson.





quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O que eu perdi: "You Are Beneath Me" do End of a Year (2010)

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Completando 10 anos em 2020, You Are Beneath Me é a desculpa perfeita para eu restaurar essa categoria de posts que não recebe atualizações há mais de um ano.

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You Are Beneath Me é o terceiro álbum do Self-Defense Family, que em 2010 ainda se apresenta sob a alcunha de End of A Year e é sob essa alcunha que eu lhes apresento, até porque há uma mudança na forma como a banda se comportou após a mudança de nome, pois até então eles eram muito mais hardcore puro e simples do que a banda experimental de rock que se tornaram a partir do excelente Try Me, embora os elementos que viriam a classifica-los como "rock experimental" já estivessem todos ali, em You Are Beneath Me.

A começar pela primeira faixa do álbum, a qual é simplesmente um receituário de como ouvir apropriadamente este álbum, com caixas de som ruins, distribuídas numa forma triangular ao redor da sua cabeça, além de alguns conselhos pra sua vida, como entender que seus pais merecem respeito até o momento em que eles se divorciarem e que você deve se render a mídia. Isso tudo é feito num spoken word típico do Patrick Kindlon, o talentoso vocalista que é também escritor de HQs.

Aliás, todas as canções contam com esse vocal falado, que não parece ser propositalmente colocado ali para parecer um spoken word, é apenas o jeito que o Patrick escolheu "cantar", não cantando. Para quem acompanha os outros álbuns do Self Defense Family e Drug Church (outro projeto musical do cantor), sabe que ele, hoje, tenta cantar, mas naquela época ele ainda estava pouco se lixando para isso.

[bandcamp width=100% height=42 album=451097658 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=1286611323]

Isso é claro que afasta muita gente, mas acho que poucos iriam negar que a banda é muito boa, harmonicamente falando. Contando com referências daquele estilo de hardcore que se popularizou em volta da capital dos EUA (a minha preferida sendo o Bad Brains), eles criam um som rápido, explosivo, mas não agressivo como muitas bandas mais próximas do metal. Há também uma veia mais próxima do indie, que na época já flertava com o hardcore nos EUA e iria culminar naquele excelente álbum do Cloud Nothings e no Title Fight.

Todas as canções, exceto a primeira, são nomeadas com base em pessoas que os membros da banda conheciam, mas isso é apenas um detalhe interessante, nada que afete os "conceitos" trabalhados, que não encontram nenhuma coesão. As letras falam de basicamente qualquer coisa, desde como ouvir o álbum, até os desejos humanos, a falta de explicação para porque alguns idiotas roubam e heranças. Tudo com um ar debochado típico dos descolados daquela época, sem achar um tema em comum que cole tudo junto. As letras estão mais para grandes aglomerados de ideias e pensamentos que transitavam pela mente do vocalista quando ele as escreveu, mais ou menos como um grande fluxo de consciência punk regrado a fortes e enérgicas melodias.

O álbum completa dez anos agora em 2020, mas ainda não recebeu todas as gratificações que merecia, pois ele adiantou muita coisa que viria a aparecer tanto na cena do indie rock quanto na cena do hardcore nos EUA e talvez fosse até por isso que a banda acabou aparecendo em grandes festivais de música após o lançamento.

[bandcamp width=100% height=42 album=451097658 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=19924057]

Aos que gostariam de ouvir mais, a continuação da banda como Self Defense Family não é recomendada, mas os vocais de Patrick Kindlon encontram uma continuação junto de Drug Church, que é o projeto mais próximo desse álbum no momento e é igualmente incrível.

Em todo caso, fica aqui o meu obrigado a banda por soltar essa pérola e também um parabéns por terem realizado tal projeto, que foi muito bem sucedido, envelhecendo deveras aprazível para a audição de quem curte umas boas guitarras rasgadas.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "Lu Over the Wall" (2017)

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Hoje a dica é de um filme que eu, lastimavelmente, perdi na época em que ele saiu.

Lu Over the Wall é mais um filme criado pelo incrível Massaki Yuasa, que já apareceu aqui no blog algumas vezes e conta com o seu característico estilo de desenho colorido, fluído e personagens alongados. Dessa vez ele nos conta uma história de amor a-lá Ponyo, mas da maneira única dele.

Logo no começo do filme começamos Kai, um típico garoto personagen principal de animes, sente-se isolado, não conversa com muita gente, senta perto da janela na escola e esconde um talento: o da música. Kai passa as noites fazendo canções, o que atrai a atenção de uma sereia que mora na baía próxima a casa dele. Curioso, ele decide ensaiar com uma banda de dois colegas de sala, os quais tinham acesso a uma enorme rocha cujas lendas diziam que protegia as sereias. Nesse dia, Kai conhece Lu, uma serei muito animada, que quando ouve música consegue transformar seu rabo em pernas e pode interagir com humanos.

A partir daí o grupo se envolve em várias desventuras, que levarão Lu a se tornar uma sensação da cidade, seu pai também aparece, ajudando os pescadores, os dois (pai e filha) serão presos, junto com Kai e seus amigos quebrarão a maldição da grande rocha e terão que se mudar.

Sim, eu entreguei o filme todo, mas não se sinta mal com isso, pois não é essa história principal o que importa. O que importa é como a narrativa é bem guiada nessa obra, coisa de mestre mesmo e que mostra o quanto o Masaaki Yuasa está próximo dos grandes nomes do cinema de animação, como Walt Disney e Hayao Miyazaki. Claro que o foco dele não são filmes para a família, mas se fosse já teria se tornado um queridinhos dos nerds e otakus de plantão.

Esse filme é a prova cabal disso.

No entanto, ele conta com seu característico estilo de animação e eu sei que isso acaba afastando muita gente da sua obra. Não entendo como, mas essa é a realidade. Tem muita gente que não gosta do seu estilo de desenho.

Já eu acho um deleite para os olhos e nessa história mais ainda, pois há a presença de muita água e se há algo que encaixa muito bem com seu estilo de animação é água. O estilo já é fluído e leve, encaixando perfeitamente com a temática, como se a animação fosse uma extensão da história, contribuindo ainda mais para a construção da narrativa.

O filme ainda conta com uma trilha sonora incrível, cheio de músicas pops reais japonesas. Mas também não poderia ser menos do que isso, porque boa parte do filme também é focado no tema da música; todos os personagens têm talentos musicais. Assim como a animação, a trilha sonora também se encaixa como uma luva no filme, transformando-se em parte integrante da narrativa e contribuindo para a sua construção.

E aí, o que mais você precisa saber pra ir assistir Lu Over the Wall?

domingo, 9 de agosto de 2020

Dica especial de dia dos pais 2020: Chichi Ariki (1942)

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Mais uma dica especial para o dia dos pais e, dessa vez, com mais um filme japonês. O diretor escolhido foi Yasujiro Ozu, um dos meus favoritos.

Contando a trajetória de um pai que abandona o seu trabalho de professor após a morte da esposa e se muda de cidade com o seu filho, Chichi Ariki nos apresenta uma bela história de amor entre um pai e filho, ambos com seus sonhos e batalhando para continuar vivendo no Japão pós-Segunda Guerra Mundial.

Filmado em preto e branco, é um filme rápido, mas muito bonito. Sua narrativa é o que mais me chamou atenção, pois ela progride muito no meio do filme, mas sofre uma boa desacelerada caminhando para o final. Dessa forma, o filme mostra o desenvolvimento da relação entre pai e filho, exibindo todo o seu mimetismo.

Para olhares contemporâneos, o filme parece caminhar toda hora para um debate acalorado, mas Yasujiro Ozu é uma mente em paz e o seu filme não é nada mais que singelo. Em nenhum momento pai e filho se rendem aos debates (ou seria melhor, combates) que a porca cinematografia contemporânea tenta enfiar goela abaixo dos espectadores. Aqui a relação é íntima, apesar de geograficamente distante. Ambos, pai e filho, nutrem um respeito mútuo grande e o que os une é a afetividade.

Esteticamente, a obra é um petardo. Filmado no característico estilo do Yasujiro Ozu; a câmera na altura de uma pessoa sentada, mais próxima ao chão, mas focando em alguns momentos no rosto dos personagens. Todo em preto e branco, o filme é muito bonito, principalmente na versão restaurada pela Criterion.

Uma ótima pedida para o dia dos pais.

5 pontos

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Dica musical: "No" de Boris (2020)

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Não fiquei atento às notícias e perdi o lançamento desse álbum, mas o atraso foi bem-vindo. Comecei ouvindo-o enquanto assistia às imagens do maior cosplay de Akira já feito explodir no Líbano e não há momento melhor para No do que 2020.

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Eu até hoje não entendo o que tá acontecendo, mas Boris, a lendária banda de rock pesado e outras coisas do Japão lança o álbum perfeito para esse ano, o álbum perfeito para encarar o fim do mundo que não é, afinal, o mundo parece à beira do colapso, mas não adianta espernear, é o que temos e é o que teremos pelos próximos anos. É isso aí, se acostuma que esse é o só o ano um, ainda virão muitos outros.

E entrando no ano um com um chute na porta, Boris nos entrega esse álbum que é puro hardcore do tipo mais pesado, com riffs rápidos de guitarra, bateria explosiva, baixo acelerado e vocais gritantes. É um deleite para quem curte o gênero!

No entanto, estamos falando de Boris, a banda que lançou um dos melhores álbum de punk-rock da história lança um álbum de dream-pop todo limpinho e leve, ou seja, No não é puro hardcore pesado, embora ele seja isso também. Todas as músicas passam dos dois minutos e algumas são bem longas para os padrões do hardcore, mas além disso, temos elementos vindos diretamente do metal e seus subgêneros que o Boris entende muito bem, doom, stoner e drone auxiliam na criação de uma atmosfera caótica, pesada e obscura.

[bandcamp width=100% height=42 album=577593298 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=3301014023]

Mas é do caos, do peso e da obscuridade que saem as pérolas que Boris produz. Os sons distorcidos, a gritaria e a velocidade soam como uma terapia para os tempos atuais e não é difícil encontrar adjetivos próximos a isso nas resenhas desse álbum. Afinal é disso que precisamos, algo explosivo, destrutivo, para recomeçar tudo. E No, terminando com um singelo e atmosférico interlúdio, é essa exata mensagem, um recomeçar enérgico e explosivo.

No entra para o catálogo de um dos melhores álbuns de Boris, com certeza. É uma explosão atrás de outra, um som muito pesado, com todas as marcas registradas da banda, mostrando que eles ainda tem criatividade para dar e vender.

[bandcamp width=100% height=42 album=577593298 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=469786728]

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dica musical: "Lil House" da banda mais incrível do momento, Angel Du$t

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Já está escrito no título, mas é sempre bom lembrar: Angel Du$t é a banda mais incrível do momento e o lançamento surpresa desse EP que venho indicar aqui é mais uma prova sólida disso.

Surgida como um braço do Turnstile, a banda de hardcore mais foda do momento, Angel Du$t fazia um som abrasivo, agitado, pesado e juvenil, mas que não era excepcional como a sua banda irmã fazia e deixava todos de queixo caído. E aí, ano passado, eles lançam o Pretty Buff, o melhor álbum de 2019, mas com uma sonoridade muito distante de tudo que a banda já havia testado até então.

Um pop-rock com os pés do punk, experimentando com diversos instrumentos diferentes, de maneira simples, porém criativa, sem se importar com o resultado e saiu uma belezinha.

Continuando na mesma pegada, Lil House parece um spin off de Pretty Buff, mas no melhor dos sentidos. Parece um spin off, porque segue na mesma pegada experimental e pop do álbum anterior, até se distanciando um pouco do punk com Never Ending Game, o single do EP, mas mantendo uma pegada experimentalista, testando diversos elementos, que não foram testado até então.

https://youtu.be/z0g0Rx6PVBg

O saxofone, que marcou excelentes canções no álbum do ano passado, lastimavelmente, não retornou, mas em compensação, temos alguns elementos eletrônicos antes de começar a pedrada indie rock de Turn Off The Guitar e uma percussão marcante, mas cheia de variações e texturas na música que dá o título ao EP. Por fim, o violão ocupa o papel principal no single.

Aos que ainda duvidam da genialidade da banda, prestem atenção ao ritmo das canções, que muda de tempo em muitas partes dela, dando aquele "groove" gostoso que dá vontade de dançar quando a gente escuta essas três pérolas que é o melhor que o rock tem a nos oferecer atualmente.

 

terça-feira, 16 de junho de 2020

Dica musical: "Goons Be Gone" do No Age (2020)

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Quinze anos de carreira fizeram do No Age uma sólida banda de rock enraizada no noise, mas buscando altos patamares. Há anos que o No Age deixou suas raízes noise/punk/rock de garagem para buscar sons diversos, algumas vezes mais lentos, outras mais melódicos, talvez chatos, mas nunca deixando de ser interessante.

Mas o que mais sobraria para uma dupla de rock? Afinal, não podemos esquecer que a banda é, na verdade, uma dupla. Uma banda de dois, por assim dizer e isso acarreta diversas limitações. Fazer um som barulhento pode ser ainda mais entediante e se aventurar no campo do som experimental, buscando alternativas para o som que produziram nos quase primeiros dez anos de carreira fez muito bem para o No Age entender o seu lugar dentro do mundo da música.

E seu lugar é como uma sólida banda de rock agitado, enérgico e barulhente. Em Goons Be Gone eles voltam assumindo de vez uma postura barulhenta, explosiva e cheia de energia, mas com pitadas de experimentalismo que quebram a monotonia do que uma barulheira danada pode causar. O resultado é um excelente álbum de noise, com um pé no punk e digno de figurar entre os grandes nomes do gênero, como as lendas japonesas, Boris e Melt Banana.

Porém, o álbum também engana, afinal para o ouvinte descuidado pode achar que essa é a mais nova banda de punk do momento e ao ouvir o resto das músicas irá se espantar. Não se espante, apenas deixe-se levar pelo barulho de guitarras distorcidas e batidas repetitivas de bateria, sem se importar com os resultados que isso pode trazer para a sua audição.

Vale muito a pena.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Dica musical: "Songs from Northern Torrance" de Joyce Manor (2020)

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Reunindo raros registros dos primórdios da banda, esse CD se destaca na discografia recente de Joyce Manor, pois contém algumas das mais brutais, enérgicas e sensíveis canções que eles já produziram.

Gravas entre os anos de 2008 e 2010, ou seja, há mais de uma década, as dez canções de Songs from Northern Torrance são demos, mas também registros musicais do início da carreira dos músicos californianos de uma era há muito esquecida, a de quando eram apenas um duo acústico. No entanto, apesar da falta de distorções e baterias, eles já carregavam toda a energia que consagrou o nome deles na história recente da música punk.

Agitadas, fortes e rápidas, o álbum todo não acumula mais que 20 minutos, mas são um belo conjunto de canções prontas para habitarem as playlists de qualquer fã da música punk. É uma explosão de energia atrás de outra e tão rápido ela chega, ela vai e some e você fica com aquele gosto de quero mais nos ouvidos.

No entanto, é necessário discrição, pois você irá se pegar cantando alto essas músicas na rua, balançando a cabeça e em tempos de pandemia pode muito bem ser preso por isso. Outro aviso: tenha dó dos seus vizinhos que não foram abençoados com o seu gosto musical.