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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Dica literária: "Eneida"


 Tomei vergonha na cara e finalmente peguei esse tijolão que estava na minha estante há muito tempo para desembalar, ler e Deus me perdoe, mas esse é o poema épico que eu mais gostei, gostei até mais do que A Divina Comédia.

Eneida é o clássico romano que conta a aventura de Eneias, guerreiro troiano, após a Guerra de Troia e sua queda em direção à Itália, onde ele acabará por fundar Roma. Não ele especificamente, mas seus descendentes, os quais por sua vez são descendentes de troianos, por consequência.

O livro foi escrito por Virgílio e, pra quem não se lembra, é o poeta que guiou Dante pelo Inferno e o Purgatório n'A Divina Comédia e a obra é, de fato, fenomenal. Acompanhamos de forma clara e concisa a trajetória de Eneias que se arrasta por anos, indo de Troia até a Itália, passando pelo Norte da África, ilhas no Mediterrâneo e fundando cidades enquanto isso. 

Ao contrário de seus irmãos de gênero poético, Eneias não é apresentado apenas como um guerreiro ou um valoroso pai de família, mas como um verdadeiro religioso e, como tal, é o responsável por fundar a civilização. Eneias tem uma fé cega em sua missão dada pelas divindades de fundar uma cidade e continuar o reino de Troia e esse é o motor de toda a sua vida pós-guerra de Troia, deixando, inclusive, uma vida feliz que poderia ter vivendo no norte da África.

E é essa sua fé que funciona como o motor para a narrativa, pois não apenas é através dela que é realizada a sua trajetória, como é também no embate divino que ela se concretiza. Isso se dá não apenas de maneira negativa, com os desafios divinos impostos ao troiano, como também de maneira positiva, através das inúmeras bençãos que ele vai recebendo.

É interessante que isso poderia causar no leitor incauto a sensação de que Eneias é um verdadeiro bundão, mas não é isso o que acontece. Eneias é um homem belo, que impressiona pela beleza e também pela sua força de vontade que guia os troianos até o novo império. Mas é na segunda metade do livro que conhecemos o Eneias guerreiro que aparece na Ilíada, liderando um exército contra a força das cidades italianas e enfim começa a verdadeira chacina.

E ainda assim, Virgílio nos apresenta um Eneias justo. Ele mata seus adversários, mas nunca é de maneira gratuita, pelo contrário, ele o faz com grande justiça e essa também é uma de suas principais características. E também não poderia ser diferente, pois para a mente pagã a figura religiosa é também a figura jurídica. Não há diferença entre religião e política e por isso Eneias funda suas cidades com sacrifícios animais e também chora em êxtase ao encontrar a vontade divina de seus deuses.

É um livro extremamente profundo, como todos os épicos, creio eu, mas a edição em português da editora 34 a qual tive acesso nos apresenta sua profundidade de maneira ainda mais impressionante, pois a tradução de Carlos Alberto Nunes tenta manter o verso hexâmetro no qual o épico foi escrito. E o faz de maneira magistral. Obviamente que eu, um mero leitor brasileiro, não saberia dizer qual a grandiosidade desse feito de tradução sublime se não fosse pela introdução de João Angelo de Oliva Neto, a qual eu li antes de começar a me aventurar pela Eneida e só aumentou ainda mais a minha atenção para essa obra fenomenal.

A referida edição ainda é bilingue, contando com os versos originais em latim, o que acrescenta uma camada ainda maior para os que gostam de se aventurar pela nossa tão bela língua de origem.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Dica teórica: "A Vida Intelectual" (1921)

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Recebi a dica de leitura desse livro de um comentário no blog e, como ouvi falar muito dele, resolvi comprar e li rapidamente. Uma ótima obra, de fato e me arrependo de não ter a lido antes.

A Vida Intelectual foi escrita em 1921 por um dos intelectuais franceses que, na primeira metade do século XXI, revolucionou o pensamento católico ao retornar a filosofia tomista, em desuso na época. É algo difícil de imaginar hoje, quando a Igreja se divide entre líderes populares feito de gato e sapato por quem está no poder e líderes modestos que repousam nos ombros dos gigantes do pensamento ocidental. No entanto, estamos falando de uma obra escrita numa época em que o doutor angélico estava completamente esquecido.

E baseando-se numa carta de Santo Tomás em que ele recomenda 16 passos para um bom estudo, Sertillanges desenvolve conselhos para desenvolver um bom estudo, angariar conhecimento e ter uma boa vida balanceada. Sim, o livro não é apenas voltado para a área da educação, mas ele engloba conselhos para toda a vida de quem tem a ambição de ser melhor, simplesmente.

O livro foca na vida de estudos e é assim que ele começa, como desenvolver uma boa vida de estudos? No entanto, para se ter uma boa vida de estudos, é preciso ter uma vida equilibrada. É preciso paciência, para não se atropelar nos conhecimentos, afinal ninguém aprende física sem antes aprender matemática e ninguém aprende raiz quadrada antes de saber multiplicar e ninguém aprende a multiplicar sem antes aprender adição. O conhecimento é como uma árvore, que tem raízes muito bem definidas, estáveis e fortes, mas que se divide em inúmeros ramos.

E esse talvez seja o principal defeito do ensino brasileiro atual, pois nossos alunos são levados a aprender coisas fora dessa linha de desenvolvimento natural. Abra qualquer livro de português do primeiro ano e veja como são ensinadas as palavras. Ao invés do aluno aprender o beabá, unindo letraspara formar sílabas e sílabas para formar palavras, ele aprende palavras dentro de contextos que, supostamente, deveriam fazer parte da sua realidade.

Nada mais errado...

Mas enfim, além de paciência, é preciso humildade, para saber reconhecer sua ignorância. Lembra dos pensadores que estão em ombros de gigantes? Pois é, os gigantes também estão repousados em algo e Sartilanges nos diz que é a Verdade. Alguém que almeja ser um pensador, levar uma vida de estudos, tem que entender que se busca a Verdade, acima de tudo, mas todo mundo começa de maneira humilde.

Além disso é necessário temperança, para não se sobrecarregar, afinal mesmo o estudo, que é algo bom, pode ser algo ruim. Pra quem é católico, é fácil identificar ensinamentos bíblicos muito populares nas diversas comunidades, como o de que não se peca apenas pelo excesso, mas também pela omissão.

Ao final, aprendemos que a vida de estudos, apesar de parecer rígida e rigorosa, é, na verdade, doce e divertida. É uma vida que todos deveriam almejar, mas alguns tem uma vocação especial para isso. E mesmo aqueles que não tem essa vocação, sempre poderão achar um espaço em sua rotina para os estudos.

A quem almeja essa vida de pensador, mesmo as horas de lazer são aproveitadas para o aprendizados, para a abstração de conhecimento, que se concentra em todas as medidas de todas as coisas. Quanto mais conhecimento, mais próximo estaremos da Verdade.

O livro tem uma popularidade renovada no Brasil. Isso é um excelente sinal, nossa cultura tem de fato evoluído para melhor e podemos encontrar essa obra em diversos formatos, tem capa dura, capa mole, edição bilíngue, enfim... é uma obra básica, como eu disse, deveria ter lido antes, teria facilitado muito minha vida, mas é também uma obra profunda.

Uma obra que merece ser revisitada muitas e muitas vezes.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Dica teórica: "Liberty or Equality: the Challenge of Our Times" de Erik von Kuehnelt-Leddihn (1952)

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Mais um livro deste excelente autor austríaco que já foi indicado aqui no blog com o estupendo Menace of the Herd, o qual já recomendei, mas reforço a recomendação.

Se em Menace of the Herd, Kuehnelt-Leddihn nos alertava sobre os malefícios de um regime da maioria e como isso pode dar errado, aqui ele aprofunda esse debate partindo da elaboração da ideia de igualdade, a qual ele prova ser incompatível com a liberdade individual. Não leva muitas páginas logo no começo do livro para ele esclarecer o seu ponto: a igualdade não deve ser confundida com equidade, um conceito que origina-se dentro do cristianismo e tem uma dimensão jurídica.

Equidade é igualdade de oportunidades, direitos e a adaptação das leis vigentes de forma a tornar a sociedade mais justa, não excluindo as qualidades intrínsecas de cada um, que pode ou não colocá-lo na frente de outro. Já igualdade é uma padronização do que seria justo para toda a sociedade, mas não é necessário pensar muito no quanto isso é problemático. Se por um lado, beneficiaremos um lado para se tornar igual ao outro, por outro temos que podar um lado para que ele se uniformize ao meio, minando assim a liberdade de diversas pessoas.

O ideal de igualdade, popularizado com a Revolução Francesa, se tornou o bastião da democracia. A partir do século 19 a função da democracia passou a ser espalhar igualdade a todos os seus cidadãos, contrariando, como bem fundamenta Kuehnelt-Leddihn, os ideais democráticos antigos, já plantados na Grécia Antiga e que motivaram a criação da constituição americana, que nunca foi democrática, mas aristocrática.

E aí o autor passa a problematizar as instituição democráticas, mostrando não só como elas são incompatíveis com a liberdade, como também são frágeis. Já que a democracia se sustenta sobre a lei da maioria e a maioria nunca é excepcional, mas ordinária, seus líderes só podem ser ordinários. Essa ordinariedade favorece um esvaziamento do conteúdo dessas posições de lideranças, se tornando vazias, cada vez mais suscetíveis a um carisma, que acaba por criar formas de governo autoritárias, cedendo ao populismo e caindo no totalitarismo. Kuehnelt-Leddihn então nos mostra que os regimes totalitários do século 20, encabeçados pela trindade malévola (nazismo, fascismo e comunismo) não são regimes excepcionais, mas consequências lógicas de uma democracia.

No entanto, isso é só o começo do livro. Ainda temos muitas páginas pela frente, onde ele discorre então sobre a possibilidade da liberdade florescer num Estado. Ao contrário da posição libertária que diz que nenhuma liberdade é possível dentro de um Estado, Kuehnelt-Leddihn mostra através de uma extensa lista de referências como a monarquia não apenas é compatível com o ideal de liberdade, como ela, de fato, favoreceu esse ideal na sua longa história junto da espécie humana.

Como é apontado nesse livro, a monarquia já existia antes do nascimento de Cristo e poderia ser encontrada de diferentes formas ao redor do mundo. Hoje temos na cabeça uma ideia de monarquia absolutista e hereditária quando pensamos no termo, tomadas pela democracia e colocadas num lugar puramente simbólico. Mas esquecemos que existiam (e de fato ainda existem) monarquias eletivas e constitucionais.

Historicamente o ideal de liberdade encontrou solo mais frutuoso em democracias. Os exemplos de abusos de poder são numerosos, mas se encontram numa escala de tempo muito maior do que a escala de tempo em que a democracia foi tomada como forma de governo ideal. E ainda que descrições da vida sob um monarca sejam consideradas abusivas para nossos padrões, muitas vezes o que nos surpreende estava perfeitamente previsto dentro da constituição de seus países. Então a discussão se torna bem menos uma questão de exemplos, mas uma questão de seguir uma linha lógica de raciocínio.

E é na estrutura dessa linha lógica que o autor se esforça e consegue montar. Tomando como exemplo a forma mais comum de monarquia (hereditária e constitucionalista), o que se conclui é a formação de uma família real que, ao se preparar para exercer o poder, obtém um conhecimento muito superior ao conhecimento médio sobre o povo que irá governar. Esse conhecimento é jurídico, geográfico, histórico e sociológico, mas com amplas possibilidades de se estender para outros ramos como economia, pintura, música, literatura, educação, saúde, entre tantos outros.

Sendo assim, um líder numa monarquia é muito mais preparado para ser líder, conhecendo assim profundamente sua área de atuação, inclusive sua limitação de poder. Isso favorece o conhecimento de uma maneira geral, pois quanto mais inteligente, mais ele poderá usar da lógica e do debate para chegar às suas conclusões. Tendo ele o seu lugar garantido, seu regime também favorece a proliferação de ideias divergentes às suas, pois ele não tem que se preocupar com o término de mandato e a construção de uma narrativa que o favorece perante os eleitores. Seu papel já está definido até os seus últimos dias. Não há a necessidade de uma homogeneização de pensamento (para se alcançar a maioria), mas uma convergência de pensamento para um bem comum.

Essa linha lógica não precisa, mas encontra exemplos históricos na longa lista de monarquias que antecederam a criação de nações-estado e sua divisão geográfica.

A explicação de Kuehnelt-Leddihn é muito maior e rico, sendo exposta aqui uma ínfima recapitulação do que mais me chamou a atenção em seu livro, até porque nos capítulos seguintes a essa elaboração da monarquia como regime aliado às liberdades individuais, recebemos uma senhora lição de sociologia com um detalhamento da natureza dos países católicos (ao mostrar que a religião é uma característica mais determinante na natureza dos povos), não apenas mais aliados às liberdades individuais, como também anárquicos, personalistas, imperativos, caridosos, independentes e intensos. A definição da natureza dos países católicos é contraditória, mas também o é a teologia católica, que, apesar de totalitária na estrutura, é liberal no trato.

E aqui podemos voltar ao conceito de equidade.

Assim o autor consegue diferenciar a natureza desses países com os países mais ao norte da Europa, que são protestantes. A partir daí ele traça uma linha que começa em John Huss, passa por Lutero, Calvino, definindo a natureza mais sentimental, rígida e secular dos países protestantes, culminando na criação das ideias que viriam a influenciar o pensamentos de nacionalistas ligados a partidos socialista na Checoslováquia.

Os líderes desses partidos iriam brigar entre si, dissolver e recriar os partidos um milhão de vezes até que o nazismo fosse criado na Alemanha. Kuehnelt-Leddihn passaria facilmente por um teórico da conspiração ao criar tantas ligações, mas é importante salientar que uma coisa não implica necessariamente na outra, por que afinal muitas implicações estão em jogo. No entanto, é importante salientar o cuidado que devemos ter com cada detalhe que falamos, pois ele pode gerar consequências desastrosas. A separação entre Igreja e Estado já se encontra na Bíblia, mas a distância foi não apenas reforçada, como solidificada pela reforma e isso deu uma abertura muito maior para ideias anti-clericais ou que buscavam uma mudança no comportamento de líderes religiosos. E é uma mudança no comportamento desses líderes que o nazismo queria com a criação do cristianismo positivo.

Como todo bom livro de contrastes de ideias políticas, Kuehnelt-Leddihn não deixa de criar a sua própria utopia, baseando-se nas repúblicas que ele via darem certo (ou o mais próximo disso) no seu tempo, que eram os Estados Unidos e a Suíça. Sua utopia é uma monarquia constitucionalista hereditária, sim, mas é também aliada a um forte federalismo, sem partidos políticos e com ingressantes na vida política participando de um treinamento de pelo menos dois anos.

O livro é genial e eu gostaria que ele estivesse vivo hoje, pois seria interessante ele ver as diferentes evoluções que os regimes totalitários sofreram, com a criação de agências de controle internacional, a dissolução de grandes ideologias e narrativas, mas principalmente, o exemplo de sucesso em países tão distintos como Botswana e Nova Zelândia.

Esse clássico pode ser baixado de graça aqui.

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Dica literária: "O Mestre e Margarida" de Mikhail Bulgákov (1967)

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O trabalho da vida de um escritor e dramaturgo ucraniano contrarrevolucionário, seguindo os passos do mestre Goethe, inspirado pelo Fausto e por uma vida desgostosa com o regimo stalinista, esse é O Mestre e Margarida, clássico de Bulgákov, que li no final do ano passado e inicio desse ano como parte do meu projeto de vida de leitura de clássicos russos no final de todo ano.

No entanto, já chegamos numa discussão complicado. Bulgákov era ucraniano, mas na época sua cidade natal, Kiev, fazia parte da União Soviética, portanto foi abraçado pela nação russa e passa despercebido por muita gente como um escritor russo, seu maior livro aparece em lista de muitas clássicos russos, mas a confusão é problemática e uma visita ao memorial ucraniano em Curitiba é o suficiente para explicitar isso.

Mas vamos ao que interessa: o livro conta as desventuras de Satã na capital da Rússia sob o regime soviético. Ele encontra com pessoas da alta classe artística de Moscou, sua identidade passando despercebida pela maioria das pessoas, mas deixando os mais sensíveis loucos, literalmente.

A obra é recheada de passagens irônicas, que marcam uma crítica mordaz a sociedade soviética, criada de maneira totalitária após a revolução russa. Para começar, iniciamos o livro com uma hilária discussão entre dois ateus com o diabo, o que nos leva para um livro dentro do livro, que nos conta a trajetória de Poncio Pilatos. Aos poucos, a história vai se desenrolando e ficamos sabendo que a sociedade artística de Moscou convidou o diabo para se apresentar a eles, Satã tem curiosidade na obra do Mestre, que conta a história de Poncio Pilatos e seu secto diabólico (formados por demônios travestidos de homens e gato) vai envolvendo Moscou em loucura e desespero.

O livro é um belo exemplo do realismo fantástico. No começo somos apresentados a realidade moscovita simples da primeira metade do século 20, mas logo as coisas fantásticas vão acontecendo, inicialmente as mortes, mas logo após passagens mais simbólicas e bizarras mesmo, que te deixam confuso e me fizeram meditar um pouco sobre isso.

Em longas discussões com minha namorada, minhas opiniões federalistas são sempre contrastadas com a "bagunça que isso iria gerar", até mesmo o maior exemplo político mundo atual, a Suíça, foi vítima dessa afirmação. Acontece que para mim é muito fácil abraçar essa bagunça, esse caos e a mesma coisa vale para a arte. O Mestre e Margarida é um livro que irá te deixar no escuro em muitas passagens e em diversos você terá que balançar os ombros e se deixar levar pela obra.

E ao se deixar levar, você irá notar que as pontas começam a se ligar, mas nem tanto, até porque a segunda parte não foi extensamente revisada como a primeira parte e isso é notável. Ainda assim, é um livro muito engraçado e muito divertido, o realismo fantástico contribui para isso.

Realismo fantástico que contrasta com o realismo socialismo, o qual o mestre é sua antítese. Não faltam críticas sutis ao regime soviético, desde simbolismos presentes nos nomes, como Ivan, o ateu que enlouquece logo nas primeiras páginas do livro e escreve um poema anti-cristão; até mesmo até os elementos soviéticos que podem passar despercebidos, como a cena onde o "gerente" do teatro tem que passar por diversos setores públicos para depositar o dinheiro que ganhou com as vendas de ingresso do teatro.

Bulgákov era extremamente descontente com a revolução russa e nunca escondeu isso, chegando a pedir pra sair do país e queimar o manuscrito deste livro, que ele sabia que jamais seria publicado em seu tempo. De fato não foi e foi publicado antes fora da Rússia comunista. De suas páginas, por baixo da sátira, encontramos uma crítica a uma realidade ímpar, mas que encontra paralelos ainda hoje, como as elites artísticas que abraçam discursos igualitários na superfície, mas totalitários na essência.

De toda forma, esse tipo de discussão é feita pós-leitura, pelo menos na minha visão. Enquanto se lê O Mestre e Margarida o melhor é se deixar levar pelos elementos fantásticos e o Satã de Bulgákov, que melhor personifica o elemento caótica que serve à Ordem.

Ótimo leitura pra começar 2020 com tudo.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Dica teórica: "A Técnica e o Riso" (1967)

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Após uma breve discussão sobre constituição com minha amada lembrei-me de Roberto Campos e suas críticas mordazes à CF de 88. Como estou sem dinheiro para fazer compras decidi procurar na biblioteca da faculdade sua coleção de ensaios contra a constituição e não o encontrei. No entanto, achei esse raro volume que me surpreendeu muito.

A Técnica e o Riso é um livro que reúne artigos de Roberto Campos unidos em torno do tema do humor. Aqui conhecemos os textos mais criativos, bem-humorados e divertidos do economista e diplomata que resolveu se enveredar pelo campo da política. São textos publicados em jornais e revistas, portanto descarregados da carga de formalidade exigida pelo meio acadêmico.

No entanto, são textos técnicos. Todos eles falam de economia, alguns até utilizam o linguajar típico de economistas, distante da realidade comum do brasileiro médio. É possível ver, de forma clara, a posição liberal de Roberto Campos, sempre antagônica num Brasil que insiste em contrariar a razão e a praticidade para adotar posições ideológicas extremistas.

Campos, apesar de ser hoje detonado pela esquerda, na época em que esse livro foi publicado, era considerado um esquerdista, por defender a privatização dos "bens nacionais", se posicionar contra o nacionalismo dos militares e se defensor ferrenho da democracia. Atacado por ambos os lados, Campos se encontrava numa posição antagônica para onde quer que fosse e a saída foi encontrada na ironia.

Como já dizia DFW, a ironia é a arma que o pássaro engaiolado usa para denunciar a gaiola. No entanto, ele nunca sai dela. Os textos são engraçados e bem-humorados, mas conforme você avança em suas páginas, descobre um Roberto Campos esperançoso com as possibilidades que se abriam para o Brasil e compara com o que temos hoje, a leitura se torna meio deprimente.

Campos não passou de um brasileirinho como todos nós, que usou o humor para escapar das maledicências da vida.

terça-feira, 12 de novembro de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt.4 - Finalizando

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E finalmente chegou o grande momento de acabar a leitura de O Senhor dos Anéis. Terminei há algumas semanas e o impacto ainda reverbera em meu ser. Em fevereiro desse ano, mais especificamente no dia cinco, e desde então fiquei envolvido nessa leitura, ora chata, ora excitante, ora cansativa, ora rejuvenecedora, ora estagnada, ora inspiradora. Quando comecei a leitura o ano letivo da faculdade nem tinha começado, passei o carnaval na fazenda de um amigo, fugindo da degeneração que assola esse país e mais gravemente a cidade em que moro, iniciei um namoro, passei por uma greve dos ind(o)ecentes, descobri uma pedra no rim e iniciei um laborioso processo de luta contra meus demônios pessoais. Não foi fácil, no meio tempo li outros livros, como Fausto e Ascent, bolei um plano de leitura que envolvia parar a leitura entre seus livros, o que prolongou ainda mais a leitura, mas enfim terminei.

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O último livro de O Senhor dos Anéis, nomeado O Retorno do Rei inicia-se com a batalha final entre os exércitos do oeste, uma aliança entre os homens de Rohan com outros grupos de guerreiros e os exércitos do leste, formado basicamente por Orcs, mas também com outras forças do mal sob a liderança de Sauron. Saruman já está derrotado e mal aparece nesse livro, que também é formado por outros dois livros, o quinto e o sexto da saga.

Li o quinto livro em uma semana tão bom ele é.

Apesar das longas descrições, Tolkien não perde tempo com filuras e nos coloca no olho do furacão da batalha, fazendo-nos sentir cada flecha que passa pelas cabeças dos bravos guerreiros que lutam pelo término do mal na Terra Média. A luta é épica e podemos ver tudo dos olhos daqueles que se encontram no meio dela, os guerreiros, os guardiões de fortaleza, os cavaleiros e, porque não? As guerreiras também.

No entanto, ao mesmo tempo em que esse livro é extremamente bom, ele também é inconclusivo, pois termina antes da batalha acabar, abrindo espaço para acompanharmos as aventuras de Frodo e Sam perto do Orodruin, no sexto e último livro da saga.

Aqui a leitura se torna muito mais cansativa. Se Tolkien é um gênio da descrição, ele também é um gênio em criar atmosferas e se isso é bom para as atmosferas belas ou sublimes, isso é terrível para as atmosferas morosas e desoladoras. A trajetória dos hobbits na busca pela destruição do anel é cansativa, devastadora para o espírito deles e a leitura acompanha esses sentimentos. Apesar de eu me incomodar com isso, pois queria logo terminar o livro, agora, pensando com calma, entendo o quão poderoso isso é e o quão genial Tolkien foi na criação do seu épico.

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E ao final, quem destrói o anel todos sabemos, foi Golum, num último grito de Tolkien para a sua própria teoria de criação literária, a eucatástrofe, aquilo que de bom e redentor que ocorre quando tudo parece estar perdido, uma espécie de Deus Ex Machina, mas baseada na ação humana em direção ao Bem Maior. É a luta diária do cristão pela Graça colocada na forma de um épico pagão grandioso e muito bem trabalhado.

Ao final, as desventuras não terminam, como também na vida real. A destruição do anel ocorre na metade do sexto livro e ainda há dúzias de páginas para serem lidas, onde os hobbits colocarão em prática tudo aquilo que aprenderam, exibindo suas cicatrizes como um sinal de aprendizado e maturidade. É só assim que o Reino dos Céus pode ser alcançado e a última viagem realizada.

Apesar de um certo tom melancólico, uma clara definição do fim de uma era onde os elfos vão embora da Terra Média para nunca mais voltar, o livro termina de maneira puramente singela. Esse é o único adjetivo que eu consigo encontrar para essa obra fenomenal, singelo.

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A leitura é altamente recomendada para todas as pessoas. O Senhor dos Anéis é um livro profundo, carregado de significado, formando uma ponte clara com o maior livro de todos os tempos, podendo mudar de fato a sua vida. Eu, infelizmente, o encontrei num momento da minha vida em que busco outras leituras, no entanto, gostei demais da obra e não me arrependo de ter perdido tantos meses da minha vida nessa leitura, aliás, não perdi, só ganhei.

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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Dica literária: "Fausto, segunda parte"

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E agora sim, a dica derradeira, a segunda parte do poema épico e trágico de Johann Wolfgang von Goethe.

A história nessa segunda parte inicia-se com Fausto deitado num gramado, uma área aberta, que irá prenunciar a amplidão que essa obra irá ganhar em comparação com seu início. Continuando seguindo o seu plano, Mefistófeles garante com que Fausto consiga tudo que ele sempre obteve, mesmo que isso envolva disfarçar-se dentro de um palácio imperial, invocar o espectro de Helena de Troia e dar a ele uma ilha inteira.

A segunda parte dá os tons épicos pelo qual Fausto é conhecido. Se na primeira parte temos muitas imagens góticas, remanescentes do romantismo, aqui o romantismo é morto, dando espaço para o neoclassicismo que Goethe passou a admirar com sua viagem para a Itália, após muitos anos de trabalho burocrático.

Temos uma nova noite de Valpúrgis, apenas com figuras mitológicas greco-romanas, a presença de Helena de Troia, uma guerra civil sendo travada sob o império desse imperador que não se apresenta e finalmente um projeto que foi expropriado por marxistas no século 20 (um tiro no pé, diga-se de passagem, mas isso não cabe nessa dica).

Mais uma vez a editora 34 faz um excelente trabalho, guiando o leitor no meio dessa amálgama de mito, religião, política, história e filosofia, com suas extensão notas de rodapé e as introduções para cada cena.

A tradução de Jenny Klabin Segall, que se confunde com a própria criação poética de Goethe (afinal a tradução de Fausto também se estendeu por quase toda a vida da tradutora, assim como a sua criação foi o projeto de vida do poeta), continuou excelente, mantendo quase todos os sentidos e, esforçando-se ao máximo para manter a estrutura e suas rimas. Foi um trabalho hercúleo admirável.

O encerramento é singelo, belo e poderoso, com imagens incríveis que retomam ao maior épico de todos os tempos, A Divina Comédia, conseguindo transpor para suas páginas quase que a mesma sensação que a obra dantesca, um espanto, uma sensação de medo, mas provocada pela grandiosidade de seu conteúdo.

Ao contrário de Dante, não sinto que Goethe estava especialmente iluminado, abençoado pelo Céu ao escrever sua obra, mas ele se revela a mim como um trabalho de um verdadeiro gênio, aquele que, nas palavras de Schiller, nem precisava se esforçar para criar uma obra incrível, imagine então quando se esforçasse? O resultado é isso aí.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dica literária: "Fausto, parte 1"

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Essa é uma dica que estou devendo há muito tempo, desde o ano passado, porque li o magnum opus de Johann Wolfgang von Goethe em 2018, mas só fui concluir a leitura da obra com sua segunda parte esse ano, retomando a leitura das duas partes.

A obra conta a história de Henrique Fausto, um erudito que, entediado com sua vida, faz uma aposta com Mefistófeles, um demônio, a qual consiste em Mefistófeles dar tudo que Fausto quiser em vida, mas Fausto irá ter que trabalhar para ele no inferno, isso, se Mefistófeles conseguir criar uma situação de felicidade tão extrema que Fausto não vai querer que ela acabe.

A partir daí inicia-se a trajetória de Fausto com Mefistófeles, elaborada como uma peça teatral versificada, proposta para ser lida, mais do que encenada, o que garante a obra seu título de poema trágico.

Seguindo os preceitos românticos que Goethe inclusive ajudou a construir, a obra concentra-se na relação entre Fausto e Margarida, fruto de sua admiração, conquista e futura tragédia, o que não garante que o pacto entre Fausto e Mefistófeles chegue ao final nessa primeira parte.

A obra é muito bem construído, com um balanceamento de elementos fantásticos e românticos perfeitos, cheia de ligações com diversas obras de arte e situações que faziam parte da vida dos leitores-alvo da época. Tudo isso cria um certo hermetismo para os leitores brasileiros de hoje, mas a edição da Editora 34 é impecável em seu trabalho de notas e introdução a cenas, que explicitam muito do conteúdo, facilitando em muito a vida de qualquer leitor.

A tradução de Jenny Klabin Segall é impecável, mantendo a estrutura dos versos, seu sentido e suas rimas, sempre que possível (e isso é quase sempre!). A linguagem é complicada como todo poema épico, mas é daquele jeito, uma vez que você se acostuma com aquele universo, consegue respirar sem o menor problema.

Quando li ano passado, já sabia que poderia esperar algo incrível com a leitura da segunda parte, mas só fui fazer isso esse ano, não sem antes reler esse fantástico volume. Como é de praxe, da segunda vez não só foi mais fácil, como muito mais proveitoso.

 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt.3

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Faz mais de um mês que terminei a leitura de As Duas Torres, mas devido a diversos problemas pessoais, fiquei adiando, empurrando essa postagem com a barriga, mas finalmente estou aqui, para fazer essa pequena resenha da segunda parte desse épico fantástico.

Compreendendo os livros 3 e 4 de toda a obra, As Duas Torres começa do ponto onde terminou A Sociedade do Anel: com o fim da sociedade. Os hobbits se perdem e Aragorn começa o livro descobrindo Boromir morto, após ouvir o último toque de sua trombeta. A partir daí, ele, Gimli e Legolas partem na aventura rumo ao leste, encontrando inimigos e fazendo novas amizades, culminando com o reencontro deles com Gandalf, magicamente revivido e agora o novo portador do manto branco e seu primeiro enfrentamento com Saruman.

No entanto, antes dessa culminação, acompanhamos ainda as desventuras de Merry e Pippin, que foram capturados ao final d'A Sociedade do Anel por um grupo de Orcs, o qual trabalha com um grupo de humanos, sob o comando de Saruman. Esse grupo acaba sendo atacado pelos Rohirrim, guerreiros de Rohan (uma espécie de cidade-estado da Terra Média), que terminam por encontrarem Gimli, Legolas e Aragorn. No entanto, Merry e Pippim aproveitam a ocasião para fugir e encontram os Ents, figuras mitológicas que lembram em tudo árvores.

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Os Ents são os grandes responsáveis por ajudar os guerreiros de Rohan, junto com o que sobrou da Sociedade do Anel, a derrotar Saruman, mas isso tem suas consequências, pois já prediz um enfrentamento ainda maior entre as forças do bem e do mal.

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O livro 4, bem diferentes do 3, foca completamente na trajetória que Frodo e Sam realizam após o final d'A Sociedade do Anel. Os dois conseguem capturar Golum e de forma sagaz, mas também inocente, fazem com que o monstrengo os guie até o Orodruin, o vulcão onde eles pretendem destruir O Anel. Entre tramoias obscuras, muitos questionamentos e até risadas, os hobbits conseguem chegar a Mordor, apenas para enfrentar uma aranha gigante e se perderem nas mãos de orcs.

Dessa vez, a leitura foi muito mais dinâmica e aqui Tolkien revela-se como mestre da narrativa, de fato. A forma como é guiada as diversas trajetórias de As Duas Torres é primorosa, sendo uma fonte de inspiração para grandes épicos até os dias atuais, afinal basta lembrar da divisão feita por Martin nos últimos livros d'As Crônicas de Gelo e Fogo.

Vemos também se delinear a linha que irá culminar na grande batalha final aqui, algo que é previsto logo nas primeiras páginas do primeiro livro, mas que não se mostra como um horizonte possível. A genialidade do trabalho de Tolkien é incrível aqui.

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No entanto, vale ressalvas. Ainda que mais dinâmica, a leitura é arrastada em diversos momentos, principalmente quando Gimli, Legolas e Aragorn ainda estão perdidos e nas cenas desoladoras de Mordor, onde Frodo e Sam se encontram. Sem contar que o retorno de Gandalf não deixa de ser um deus ex machina. Eu gostaria que houvesse uma explicação mais elaborada para isso.

De qualquer forma, a obra é muito boa, consegue amarrar os ganchos que são deixados no primeiro e abrem espaço para novas possibilidades.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Dica literária: "Ascent" de Ludwig Hohl (1975)

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A dica de hoje vem direto da Suíça, o grandioso país cuja política deveria servir como exemplo para o mundo todo, mas infelizmente não é.

"Ascent" é a história de dois alpinistas, Ull, um rapaz determinado e focado apenas em conquistar o topo da montanha e Johann, hesitante, querendo apenas curtir a subida e que, após diversos recuos, desiste de vez da subida. Resta a Ull terminar a subida e conseguir a glória sozinho, apesar da quase impossibilidade do fato.

Tratando-se de uma novela (não chega a 100 páginas), esse livrinho surpreende, conseguindo carregar muito em suas poucas página. Ludwig Hohl não é muito conhecido (acredito que inclusive não tem livros publicados em português), mas sabe escrever como poucos. Suas descrições de montanhas, céus, estrelas e qualquer outro objeto natural é magnífico, inventivo e detalhado, mas sem ser maçante.

E suas descrições de situações são carregadas de sentimentos, ora com uma urgência latante, ora com um distanciamento que cria uma atmosfera passível de meditação. Em muitos momentos, você se pegará pensando "tá, ele quer dizer algo mais com isso aqui". Se diz ou não, fica a cargo do leitor, mas o trabalho de Hohl foi feito, deixar a pulga atrás da orelha.

E não é esse o trabalho de todo escritor?

Não se deixe enganar pela brevidade do livro, isso nas mãos de Hohl vira um trunfo. Ele é um fiel seguidor da filosofia do blog: "pra bom entendedor, meia palavra basta"!

Apesar de não estar disponível em português e ser difícil de achar a edição em inglês do livro, vale a pena a procura e a espera. Como dica de compra, pode comprar pela Amazon sem medo. Demora pra chegar, porque eles aparentemente não reservam estoques desse livro, mas chega.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Dica literária: The Nine-Cloud Dream (1687)

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Vendido como A Divina Comédia do oriente, essa obra do século 17 ganha uma nova tradução esse ano, lançado pela Penguin, numa edição muito boa, amplamente anotada e nos apresenta um primor da literatura oriental.

The Nine-Cloud Dream conta a história de Hsing-Chen, um monge que recebe a missão de seu mestre de ir falar com um deus-dragão, mas no caminho de volta acaba conversando com 8 fadas, servas da imperatriz de jade. Hsing-Chen é então castigado por seu mestre, que acha que ele desrespeitou seus votos como monge budista e assim ele morre. Hsing-Chen então reencarna como Shao-yu, um rapaz valoroso do interior, que cresce para se tornar um belo e forte líder a serviço do imperador.

Há alguns paralelos metanarrativos possíveis de serem traçados com A Divina Comédia. A começar pelo seu autor, Kim Man-Jung. Um aristocrata, Kim Man-Jung conseguiu um cargo administrativo junto ao governo imperial coreano e galgou os degraus do sucesso no serviço público chegando a ser tornar um ministro. Por duas vezes foi exilado devido a desavenças políticas e esse livro foi escrito durante o seu segundo exílio, de onde não chegou a sair em vida. Assim como Dante, Kim Man-Jung tinha grande respeito entre os líderes de sua época, entrou em desavenças com eles, foi exilado e escreveu suas maior obra em exílio e no final da vida.

Na obra também há paralelos. Ambas tratam de questões espirituais e funcionam como um guia ou introdução à tradição religiosa de cada um. Para Dante, o catolicismo romano, para Kim Man-Jung, o budismo, o taoísmo e o confucianismo. Há críticas alegóricas a diversos líderes da época e ambos os trabalhos se tornaram definidores de suas línguas.

No entanto, os paralelos param por aí. A Divina Comédia pode até ser comparada, mas nunca fica em pé de igualdade com qualquer obra produzida pela humanidade. Ela é grande demais para isso, o que não diminui em nada The Nine-Cloud Dream.

Produzida em prosa e não em verso, a obra explora, através de uma intrincada trama que envolve princesas, concubinas, imperados, exércitos e famílias, diversos aspectos das três principais religiões da Coréia. Kim Man-Jung insere essas doutrinas de maneira tão sutil que o leitor ocidental dificilmente poderia captar as nuances. Portanto, a atual edição da Penguin é crucial. Provendo anotações de seu tradutor, que tem uma longa história de trabalho com a cultura coreana, a edição consegue ampliar a atenção dos leitores ocidentais para esses detalhes que passariam despercebidos. Um exemplo é uma cena em que uma imperatriz discute com uma das pretendentes a noiva de Hsing-Chen/Shao-yu. Nessa cena, há uma troca de diálogos que exemplifica o comportamento decente de uma pretendente a noiva de um servo imperial diante de uma superior. No entanto, em nenhum momento Kim Man-Jung deixa isso explícito. Para iniciados na cultura, sabem que cada palavra proferida ali tinha um significado, mas para ocidentais desavisados, tratou-se apenas de uma “encheção de linguiça”.

Não é nem preciso dizer que uma segunda leitura da obra é essencial, né?

Não posso dizer muito da tradução, pois não entendo nada de coreano e nem sou familiarizado com a cultura literária de lá, no entanto, o texto aqui é fluido, belo e, apesar de simples, carregado de significado, assim como a narrativa criado por Kim Man-Jung.

Concluindo, The Nine-Cloud Dream é uma obra fantástico (em ambos os sentidos), que pede por uma tradução para o português, mas enquanto não vem, nos contentamos com essa belíssima edição da Penguin.

4 pontos

terça-feira, 9 de julho de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt. 2

Terminei há um bom tempo a leitura de A Sociedade do Anel, mas esperei começar a ler o segundo livro para poder continuar com essa série de posts sobre o trabalho de alta fantasia mais significativo da história.

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Em A Sociedade do Anel conhecemos Frodo, sobrinho de Bilbo, o personagem principal de O Hobbit, agora idoso e pronto para ir embora do Condado após celebrar uma festa de aniversário que deu pano pra manga de fofocas do Condado por muitos meses. Bilbo deu para o seu sobrinho o anel que lhe dava poderes de invisibilidade, mas que também vinha com uma influência negativa muito forte vinda de Mordor. Gandalf, o mago cinzento, acompanha tudo de perto e logo monta uma caravana para que Frodo se livre do anel. Nessa jornada, irão acompanhar o hobbit, seus amigos de Condado, Sam, Pippin e Merry. Sob as sábias dicas de Elrond, senhor de Rivendell, os hobbits se unem aos cavaleiros Aragorn e Boromir, o elfo Legolas, o anão Gimli e claro o mago Gandald na busca da destruição do Anel em Orodruin, o único lugar onde o artefato maligno pode ser destruído.

O livro começa de maneira simples e muito relaxante, com uma descrição detalhada do aniversário de Bilbo. Para quem já leu O Hobbit, como eu, esse momento é um deleite. Ocupando diversas páginas, conhecemos muito da vida pacata dos hobbits, lembrando uma vila pitoresca do interior da Inglaterra. É legar ver que Bilbo voltou diferente da sua jornada em O Hobbit, muito mais loquaz, cheio de amigos e é considerado um maluco entre os seus colegas do Condado, mas isso não faz a menor diferença para o hobbit que sabe que o mundo é muito mais do que o Condado é.

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Depois disso somos apresentados a jornado que Frodo deverá enfrentar. Aqui entra a genialidade de Tolkien ao colocar um hobbit como o centro de suas páginas. Hobbits são acomodados, só querem viver em paz e sossego na sua terrinha querida e sair do Condado, ainda que para o bem de todos, é um peso muito grande para Frodo, que não conhece nada além do Condado. Essa é a oportunidade perfeita para apresentar toda a Terra Média como algo inédito para os leitores, já que os outros personagens que fazem parte da Socidade do Anel conhecem muito da Terra Média. Dessa forma, Tolkien nos apresenta de forma quase didática, através de poesias, canções e lendas, os pormenores da Terra Média.

A ambientação fica misteriosa e atiça a curiosidade de leitores mais nerds, como eu.

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No entanto, não é uma leitura fácil. Apesar de muito interessante, o ritmo é lento e somos arrastados por páginas e mais páginas pela Terra Média, seus personagens e mitos numa profusão de descrições e histórias que exigem um estado de espírito relaxado do leitor. Não é uma leitura para ser feita depois do almoço, muito menos antes de dormir.

A coisa fica chata mesmo (para mim) no momento em que o Elrond começa a dar as cartas na mesa. O capítulo em que ele define quem irá acompanhar Frodo e Gandalf  na trajetória que visa a destruição do Anel. O capítulo é gigantesco, formado só de diálogos longos, que vão e voltam na mesma discussão, sobrem quem vai, quem fica, porque e como... é uma discussão realista. Obviamente que essa é a realidade de quem vai pra uma guerra e Tolkien, que serviu ao exército britânico, sabe disso melhor do que ninguém, mas que também é um puta negócio chato de se ler, isso também é verdade.

Fora que há uma disparidade muito grande no tratamento da profundidade dos personagens. Enquanto que por um lado somos apresentados ao drama dos hobbits em seus pormenores enquanto eles estão em Rivendell, por outro lado Legolas e Gimli, membros de raças inimigas há séculos, viram melhores amigos numa frase! É literalmente uma frase que diz que Legolas e Gimli se aproximaram muito ao longo da jornada. Não há diálogos entre eles, nem histórias compartilhadas ou uma batalha que os força a se unir. Simplesmente temos que aceitar o fato de um anão e um elfo (inimigos há séculos) terem virado melhores amigos no meio da jornada.

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É claro que isso não é uma incongruência dentro da história. É possível, afinal. O problema é que há muita atenção para pontos chatos e pouca atenção para pontos-chave da história. Afinal, a amizade entre Legolas e Gimli é tão forte que irá perdurar até o fim de seus dias, sendo Gimli o primeiro anão a conhecer as Terras Imortais. Nós não vemos o início disso, em compensação, vemos toda uma conversa (em mais de 20 páginas) sobre quem irá ou não acompanhar Frodo na jornada.

Enfim, a leitura é cansativa e após isso não há muito o que salvar no final de A Sociedade do Anel. O ritmo nunca volta a ser animado como no começo, quando os hobbits conheceram Aragorn e outros momentos afim. A ambientação parece até acompanhar o ritmo. As montanhas que eles atravessam são estéreis e inóspitas, culminando numa desolação descomunal ao enfrentarem um Balrog dentro da antiga cidade dos anões.

Parece até que é de propósito, o que atestaria ainda mais para a genialidade de Tolkien, mas isso não sei dizer com absoluta certeza. Talvez eu tenha que reler (oh, não!!!) para saber.

Ao final de A Sociedade do Anel, a primeira impressão que ficou para mim não foi tão positiva, mas continuo na leitura. Percebo que é genial e imagino que a falha seja minha. Eu não sou nerdão o suficiente para gostar tanto assim de O Senhor dos Anéis.

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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Dica literária: Cartas de um diabo ao seu aprendiz (1942)

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C.S.Lewis foi um grande autor. Soube aliar filosofia, teologia e literatura como poucos. Suas obras constituem de grandes ensinamentos morais, mas nunca perdem o valor artístico que é tão raro encontrar em obras desse cunho, ainda mais aquelas feitas a partir do século 19, que encontrou artistas qualificados para tal atividade apenas na Mãe Rússia. Enfim, a dica de hoje é de um dos trabalhos mais significativos dessas qualidades que formam a obra de Lewis.

Cartas de um diabo a seu aprendiz é um livro que se propõe a apresentar cartas escritas pelo diabo Maldonado ao seu sobrinho Vermelindo. São mais ou menos 30 cartas que contam com conselhos diabólicos de um diabo experiente e que já assumiu um cargo de gerência na burocracia infernal, para um jovem diabo que ainda não sabe direito como atentar um ser humano. Ao longo dessas cartas conhecemos um pouco da vida pessoal do humano sendo atentado por Vermelindo, mas, principalmente, adentramos um universo de conselhos e pensamentos que exploram o lado negro da humanidade.

Pensamentos acerca das atitudes modernos, o desenvolvimento tecnológico desenfreado, políticas dominadoras e destruidoras, além de uma característica muito pertinente aos dias atuais: a inatividade. Além desses, muitos outros pensamentos menores, mas sempre muito sagazes, formam uma narrativa simples, porém profunda. Sua linguagem é fácil, mas os pensamentos provenientes de sua leitura não.

Este livro precisa ser leitura obrigatória para todos os estudantes brasileiros.

De forte cunho moral, o livro não apresenta apenas características negativas, pois também nos mostra o que fazer para escapar às tentações infernais, no entanto, sendo um livro constituinte de cartas de um diabo, essas características são apresentadas de uma maneira altamente negativa. A dicotomia criada entre o que nos é apresentado como ideal e entre o que sabemos ser ideal é marcante e gera até um certo efeito cômico ao livro.

Ao final, temos ainda a adição de um discurso de Maldanado a uma turma de diabos formandos, que mantém o tom das cartas, mas com uma profundidade ainda maior, pois nos diz sobre a tal da inação que já falei. É um chamado ao radicalismo, que já cheguei a delinear aqui no blog em outra oportunidade.

A edição que tenho é muito bonita. Capa dura e com uns desenhos em alto relevo, mas contém alguns erros de gramática no meio do livro. Nada que comprometa a leitura, mas é de se notar. Também é primeira edição, talvez tenha sido mudado já.

De qualquer forma, a leitura desse livro é essencial para qualquer pessoa que queira se tornar um ser humano melhor.

5 pontos

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Dica teórica: “O Banquete” de Platão

 

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Esta é uma leitura que estava devendo a um de meus grandes amigos há um bom tempo. Finalmente pude realizá-la.

O Banquete de Platão é um livro escrito em forma de diálogo que conta a história de um jantar realizado entre diversos pensadores gregos. Entre eles estão Fedro, o médico Erixímaco, o peta Aristófanes e, claro, o filósofo Sócrates, que discutem a natureza do belo e do amor (Eros).

Apesar de organizado na forma de um diálogo que se inicia com Apolodoro relatando o que aconteceu na casa de Agaton, o anfitrião do jantar, O Banquete trata-se mesmo de uma dispute entre os diversos pensadores. Eles expõem suas ideias acerca do belo do Eros, cada um seguindo a sua especialidade, portanto cada um tendo uma opinião e um foco diferente.

As discussões são muito frutíferas, explorando o Eros de um ponto de vista biológico, social, romanesco, culminando na interpretação filósofica de Sócrates que parece unir tudo o que foi dito antes dele. No pensamento grego, Eros não era entendido apenas como o amor entre amantes ou amigos, parentes ou mesmo o sexual, mas a essência de tudo isso e o que gera a beleza.

A beleza, eterna e nunca mutável, é o que move os seres humanos e é o guia para seguir a Eros, entendido como mais um dos deuses do Olimpo. Sem esse norte, o Eros se torna vulgar e repudiável, quando outrora é louvável e educador. O Eros é o próprio filósofo, é o intermediário entre o momento em que se encontra e o momento em que se deseja estar.

A narrativa é leve e segue de forma simples, porém, em certos momentos, densa. Exige uma segunda leitura, mas não é irritante, nem complicada. Pelo contrário, é agradável como poucas obras de filosofia antiga o são. Possivelmente pelo seu tema, que não sofreu o desgaste do tema que a política ou a metafísica sofreu, por exemplo. É ainda atual as discussões ensejadas dentro desse livro.

A edição que li foi a bilíngue da LPM Pocket. Tem a qualidade mediana de todas as edições da editora, mas uma qualidade tradutória, que eu acredito que seja, fenomenal. Se o tradutor deixa o original do lado para ser conferido, então é porque a tradução é boa. Ou o tradutor é muito corajoso.

No entanto, os comentários de DonaldoSchüler (tradutor) inspiram confiança em seu trabalho, pela humildade e atenção que ele demonstrou no trato do livro. Há uma edição bilíngue da editora 34, deve ser mais bonita, mas ela não é encontrada na biblioteca da minha faculdade.

Enfim, ler filosofia antiga é sempre um deleite, mas essa obra de Platão é especialmente boa, nos ensinando sobre a beleza e o amor, além de nos ensinar a como parar um soluço.

5 pontos

terça-feira, 21 de maio de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt.1

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Esse ano me comprometi a ler mais livros de ficção e menos não-ficção. Para cumprir tal meta resolvi ler algo que estou devendo há muito tempo: O Senhor dos Anéis!

Comprei uma edição gringa que contém todos os 3 volumes e uma caralhada de extras, portanto resolvi criar um novo hábito de leitura. A cada livro, eu paro a leitura e vou ler outro livro de ficção mais fino. Dessa forma achei melhor montar esse guia de leitura com 4 dicas do que ter que fazer uma só. Do contrário, acabaria deixando escapar agum detalhe interessante.

Se são 3 livros, então por que 4 dicas? Porque eu comprei uma edição mutio foda de O Senhor dos Anéis, a edição de luxo lançada pela editora HMH. Conta com uma capa de couro, que não é capa dura, mas é bem resistente, folhas cortadas nas pontas num formato redondo e uma fonte pequena que deixa o livro todo parecendo uma Bíblia antiga. Essa edição, além do texto integral do livro, conta com vários textos suplementes como apêndice da obra e é por eles que vou começar essas dicas de O Senhor dos Anéis.

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Um costume que adquiri nos últimos tempos é o de ler os textos suplementares dos livros que leio antes de ler o livro em si. Isso pode ser visto como trapaça e pode estragar um pouco da graça ao revelar detalhes importantes do roteiro, mas pra mim só melhora a leitura, pois não vou ao texto de mãos abanando.  Comecei a leitura de textos antigos, clássicos gregos, latinos e afins nos últimos anos e chegar a eles de mãos abanando é um desastre. Você não consegue entender sobre o que eles estão falando e se sente perdido. É muito ruim. Sendo assim, adotei a estratégia de ler os apêndices antes e isso tem me ajudado bastante. E teria me ajudado bastante na leitura de Graça Infinita.

Portanto iniciei a leitura de O Senhor do Anéis por eles e acabei descobrindo que o Tolkien foi o primeiro dos pós-modernos. Sabe aquilo que os intelectuais sempre discutem quando falam de literatura pós-moderna como ruptura com a forma do romance? E eles mencionam o uso de artifícios que contribuem para a criação de uma metanarrativa? Pois é... Tolkien fez tudo isso antes de muita gente.

Aliás, muita gente fez isso antes do pós-modernismo, mas aí já é outra discussão.

Tolkien iniciou a criação de seu mundo através da linguagem dos elfos. A língua foi o principal motivador para continuar e expandir o trabalho que ele havia feito n’O Hobbit. Como a língua é viva, pertence a um povo e se relaciona intimamente com a história, ele acabou criando diveros ramos dessa árvore que é a Terra Média para dar corpo a uma língua que ele estava criando.

Trabalho de gênio, mas também de um baita dum nerdão!

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No entanto a gente respeita, porque Tolkien era também muito criativo. Sabemos como a história foi criada por causa de outros, não dele. Nos textos que compõem o apêndice Tolkien fala como se fosse um historiador, como se tivesse descoberto os textos que temos em mãos e ele fosse apenas o tradutor. Ele fala de hobbits, elfos e guerras na Terra Média como se tudo isso existisse de fato e ele fosse apenas o responsável por desenterrar essas coisas, descobertas ao acaso, enquanto perambulava pela Inglaterra.

Nisso conhecemos um pouco da genealogia dos Hobbits, responsáveis pela criação dos textos que Tolkien “descobriu” e “traduziu”. Conhecemos muito das línguas faladas na Terra Média, suas peculiaridades e o povo que as falava também. Temos longas descrições das genealogias dos humanos, dos elfos e dos anões.

Algo que me chamou muito a atenção foi o texto dedicado aos anões, pois eu sempre gostei muito dessa raça de seres da Terra Média, mas sempre fiquei meio desapontado com o Tolkien por não focar muito neles. Ledo engano, aqui conhecemos muito deles e talvez a falta de conteúdo sobre eles seja culpa das editoras brasileiras, que não trazem muito desse conteúdo mais “pesado” do Tolkien.

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Pesado, porque é um negócio que só nerdões se interessariam em comprar e ler e tal... o leitor menos dedicado ao universo da Terra Média não vai se interessar tanto por isso.

De qualquer forma achei muito legal a inserção dos anões ali. Como raças misteriosas que são, tímidos e retraídos, não se conhece muita coisa sobre eles. Disso resulta um texto pequeno, em comparação com os outros. Ainda assim, o texto nos fornece informações muito interessantes, como a presença de mulheres entre os anões (as anãs), sua língua entre eles, suas crianças e afins.

Os elfos é basicamente uma recapitulação d’O Silmarilion e os humanos apresentam muitas casas e famílias que devem estar presentes n’O Senhor dos Anéis. É uma parte meio chata, confesso. São muitas informações repetidas, nomes estranhos e coisas que criam um grande folclore, mas não acrescentam tanto a leitura do livro, pois são raças cujo comportamento e história são amplamente difundidas.

Além disso há uns anexos de línguas, runas e um texto sobre a tradução dos textos originais para o inglês! Tolkien era um nerdão, mas também era um grande gozador que adorava brincar com seus leitores.

Após tantas informações me senti mais seguro em começar a leitura desse calhamaço e já dá pra adiantar, ajudou bastante!

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

Dica literária: “Nove Estórias” de J.D. Salinger (1953)

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Enquanto escrevo essa dica estamos, aqui onde moro, naquela época do ano em que chove descontroladamente, o céu fica nublado o dia todo e dá pra tirar os cobertores do armário pra ler Salinger o dia todo deitado na cama com um cappuccino do lado. Foi o que fiz nos últimos dois dias lendo uma obra que há muito não revisitava: Nove Estórias.

Publicada em 1953 e sei-lá-quando na 3ª edição brasileira que tenho em mãos, esse livro reúne nove dos mais aclamados contos que o autor escreveu e publicou no New Yorker quando em vida. Isso foi antes dele se tornar um chato fanático e viver em reclusão numa cidade do interior. Aqui todo a genialidade de Salinger aflora num nível que nem mesmo o mais entusiasta de O Apanhador no Campo de Centeio poderia imaginar. Chocante, transgressor e garboso, cheio de charme ao mesmo tempo, esses nove contos são pérolas que me impressionaram quando adolescente e continuam me atingindo como um raio, embora hoje as encare de uma maneira diferente do que antes.

Nenhuma delas forma um ciclo, algumas se relacionam apenas brevemente e os últimos esforços narrativos conhecidos de Salinger fizeram com que elas ganhassem um viés metaficcional dentro de seu universo familiar. No entanto, a primeira e a última compartilham um existencialismo mordaz, beira o niilismo que me deixou extasiado quando adolescente e hoje me impressiona pelo controle que Salinger tinha sobre a narrativa.

Ainda que hoje não me impressione mais com conclusões niilistas e análises cruas de uma sociedade condenável, o controle que ele demonstra ter sobre cada pequeno detalhe da história (cada descrição, diálogo ou pensamento que possa ocorrer) são louváveis. Ao término da leitura do livro fico com a sensação de que nenhuma vírgula foi em vão. Ele pensou em tudo.

Os temas são variados, mas igualmente negativos. Niilismo, desilução, alienação, controversão e sordidez recheiam as páginas dos contos que Salinger escreveu. Tudo partindo de uma visão de mundo muito particular (nobre, até mesmo burguesa, qual o problema?) que injeta camadas de beleza em cada uma de suas sentenças e é nesse ponto que reside o chamamento de cada uma de suas estórias.

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Esteticamente é um primor. A narração irônica deixa claro as origens de Salinger, que enaltecem um ideal de beleza virtuoso. Isso acaba sendo refletindo nas suas descrições de momentos mundanos, num realismo que acaba abrindo espaço para toques de Midas sabiamente orquestrados para fazer até mesmo da ponta queimada de um cigarro uma obra renascentista.

Tudo bem, eu exagero, mas é realmente bom. Neste ano, Salinger faria 100 anos se estivesse vivo. Data que praticamente passou em branco, pois a vida pessoal desse gigantesco autor foi conturbada demais para o jornalismo militante atual. De qualquer forma, esse blog tenta fazer uma singela homenagem a esse que foi um dos últimos (se não o último) grande escritor cosmopolita americano.

5 pontos

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Dica literária: “Sol e aço” de Yukio Mishima (1968)

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Não me identifico tanto com um livro desde que li O Apanhador no Campo de Centeio pela primeira vez quando ainda tinha 15 anos... quase 10 anos atrás.

Sol e Aço é um livro do escritor japonês Yukio Mishima que segue o formato de um ensaio autobiográfico. Nele Yukio conta a sua relação com o seu corpo, como ele passou a se preocupar com sua forma, as revelações que isso o levou a ter, a influência disso na sua arte e, posteriormente, na sua filosofia de vida e vida de trabalho.

Yukio Mishima é uma das figuras mais idiossincráticas da literatura mundial. Nascido no Japão durante o pós-guerra, começou a malhar ainda adolescente, se alistou no exército, entrou para a aeronáutica japonesa, brigou a vida inteira com sua (homo)sexualidade, fundou um partido político de direita, tentou aplicar um golpe de estado e cometeu sepuku.

Sempre o achei um tremendo de um babaca, mas acabei sido convencido a ler alguma obra dela por causa do Pewdiepie, que leu mais de 70 livros ano passado e eu só superei ele por um. Decidi ler mais ficção esse ano e estava atrás de coisas diferentes para ler e acabei baixando esse livro do Mishima e comecei a lê-lo durante as aulas teóricas da auto-escola. Para minha surpresa não era de ficção e para meu espanto, é um dos melhores livros que já li na vida.

Mishima tinha gostos peculiares, entre eles o gosto pelo sol, por suar, pelo exercício físico e logo descobriu como moldar o próprio corpo. Também estou passando por essa fase de descobrimento, embora tardiamente, mas foi interessante ler os pensamentos que foram se formando no fundo da minha mente escritos por outra pessoa. Parecia que eu havia descoberto algo que procurava há muito tempo sem saber.

Yukio relata a sua escalada, sua saída das sombras para ascender aos céus, em direção ao sol, forçando a sua arte (no caso, a escrita) a se tornar uma com seu corpo. Um processo criativo que fugia às noções mais clássicas, a do escritor sozinho no meio da noite. Yukio fugia desse ridículo ideal romântico e, de fato, sua escrita é diferente.

Yukio é poético, conciso, mas consegue incluir muito em poucas linhas. Neste livro, suas descrições são breves, porém marcantes e as cenas finais são de tirar o fôlego.

Infelizmente essa obra está esgotada em terras brasileiras e sem prazo pra retornar às livrarias. Nem mesmo edições estrangeiras são fáceis de serem encontradas, mas a Estante Virtual está aí pra salvar quem precisa.

Então corra atrás, que vale muito a pena essa leitura.

5 pontos

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Dica literária: “A Visita Cruel do Tempo” de Jennifer Egan (2010)

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Mais um livro lido para a faculdade e que veio saciar uma vontade que tinha há muito tempo de saciar.

“A Visita Crual do Tempo” é um livro escrito pela jornalista Jennifer Egan, que é também escritora de livros de ficção e conta uma caralhada de histórias, que se entrelaçam e mantém uma fina conexão entre si. No centro dessas histórias parece estar Sasha, uma mulher sardenta e que sofre de cleptomania, cujo passado, presente e futuro abre portas para que possamos conhecer os mais diversos personagens; seu chefe Bennie, que era o alvo das atenções de Rhea, quando eles ainda eram adolescentes e na mesma época, conheceram Lou, um figurão do rock, que caminha desde sempre para sua autodestruição e mais um monte de outros personagens secundários, mas que funcionam como narradores de acontecimentos que acabam por iluminar a história contada no livro, abrangendo mais de 30 anos de histórias.

O livro me lembrou bastante David Foster Wallace, um autor que ninguém na minha faculdade conhece (surpreendente para um bando de pessoas que se dizem “pós-modernas” o tempo todo), no que tange a escrita de Jennifer Egan. Obviamente ela foi influenciado pelo cara, chegando até a simular o seu estilo num dos capítulos do livro, mas, infelizmente, ela não chega tão longe quanto ele.

Sua genialidade não é tão profunda e nos momentos em que se propõe a ser mais filosófica acaba por ser bem rasa. No entanto, sua delicadeza é incomensurável, pois são muitos os momentos do livro que emocionam, de verdade, o leitor, com passagens subjetivas muito belas, deixando espaço para interpretação, mas entregando uma carga emocional gigante de qualquer forma.

Esse é o ponto alto do livro.

Conforme avançamos para o final na leitura, esse lado mais emocional vai sendo deixado de lado e infelizmente ele não termina numa nota alta.

Alguns aspectos também irritam. Apesar da autora não se posicionar em nenhum momento, sua ironia (ou ausência dela, em alguns momentos) incomoda, principalmente quando ela se refere a republicanos ou ao expor alguns dados do futuro, que nunca deixam claro o que ela quer dizer de fato. É algo que incomoda num nível pessoal, claro, mas eu gosto de pessoas assertivas.

Enfim, o livro não é uma obra obrigatória, mas foi uma boa leitura para encerrar minha matéria de literatura ano passado.

3 pontos

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Dica literária: “As cartas portuguesas” de Sóror Mariana Alcoforado (1669)

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Essa é uma das obras que deram o pontapé para o movimento romântico e vale muito a pena conhecer.

Mariana Alcoforado foi uma mulher que foi destinada a vida monástica pelo testamento da mãe. Sem nenhuma inclinação mística, a menina foi obrigada a ir para o convento de Nossa Senhora da Conceição em Beja. Lá conheceu o Marquês de Chamilly, um nobre francês por quem se apaixonou durante a estadia dele na região, a fim de participar de manobras no exército. Quando o marquês foi embora, ela lhe enviou 5 cartas, nunca respondidas e “As cartas portuguesas” trata-se de um compilado dessas 5 cartas.

Escritas sempre de maneira esperançosa, passando a um tom melancólico, depois irritado e, por fim, desiludido, as cartas de Mariana foram alvo de grande admiração na época de sua publicação na França. Lá foram lidas e relidas, consideradas falsificações e inspiraram muitos escritores e poetas da época, que já sofriam uma inclinação ao romantismo.

Por apresentar uma história em voga na época (amor não correspondido) do ponto de vista de uma mulher, serviram de inspiração para muitos autores. Isso também levantou dúvidas sobre a veracidade da obra, já que alguns consideravam ela bem escrita demais para ser obra de uma mulher.

Por aqui, decidimos considerar como obras da própria Mariana mesmo, porque essa versão é bem mais legal.

Os sentimentos de Mariana nunca foram correspondidos, mas ela parece ter descoberto o seu caminho para seguir na vida, já que conseguiu sucesso na vida monástica, dedicando-se ao convento e a comunidade, carregando para si o título de Sóror, uma das nomeações mais respeitadas para uma freira.

4 pontos

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Dica teórica: “Anarquia, Estado e Utopia” de Robert Nozick (1974)

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Esse é um o livro libertário mais sensato que já li e por isso está virando dica aqui no blog. Embora não tenha lido tantos livros assim, conheço a opinião dos grandes pensadores libertários e sei que a sensatez não está entre suas qualidades mais fortes. Porém, Nozick é diferente.

Elaborado como uma resposta ao “A Theory of Justice” do John Rawls, em que Rawl estabelece princípios para a defesa do “Estado de Bem-Estar Social” e as amplas garantias do governo através de programas que são muito familiares a nós, brasileiros. Nozick, contrariando Rawls desenvolve nesse livro argumentos contra tal estado, partindo de pressupostos liberais e anarquistas individualistas para comprovar que apenas um Estado Mínimo é moralmente legítimo e que esse Estado deve garantir apenas a segurança contra roubos, fraudes e o uso da força (e embaixo desse guarda-chuva entram diversas questões que não estão inicialmente ligadas pelo senso-comum ao que querem dizer, como por exemplo, se ninguém pode usar a força sobre você, ninguém pode dizer o que você deve fazer ou deixar de fazer, ficando assim proibido qualquer tipo de proibição – difícil, mas até que faz sentido, se você parar pra pensar bem -). Justificando na primeira parte do livro o que leva a população até o Estado Mínimo, explicando a seguir o que faz com que o Estado Mínimo deixe de ser um Estado Mínimo e passa a ser ilegítimo, Nozick termina o livro apresentando sua versão de uma Utopia Libertária, tentando mantê-la interessante o suficiente para que todos sejam tentados a segui-la.

O fato de Nozick ter uma estima muita maior do que muitos intelectuais libertários dentro da Academia parece comprovar que ele alcançou o seu objetivo com esse livro.

Um dos motivos para sua estima dentro da Academia é que Nozick restaura detalhes importantes da teoria de John Locke presentes, principalmente, em seu “Segundo Tratado sobre o Governo Civil”, em que Locke elabora sua teoria do direito natural, do contrato social e limites do governo, estabelecendo assim as bases para o pensamento liberal. Com essa restauração, Nozick elabora ideias acerca da organização da sociedade, nadando contra a corrente anarquista e admitindo a legitimidade do governo.

Nozick diz que, naturalmente, as pessoas se organizam numa sociedade que funciona como o que ele chama de “Micro-Estado”, um estágio anterior ao Estado Mínimo. A diferença se encontra na estrutura, já que a estrutura de um “Micro-Estado” é menor e não é tão rígida quanto as estruturas de um “Estado Mínimo”, que já contém um nível de formalidade maior, com regras escritas e afins, as quais servem para proteger seus cidadãos de roubos, fraudes e o uso de força.

Qualquer uso de força! Isso por si só já invalida a ideia de Rawls de justiça social, já que o próprio pagamento de impostos por parte de todos para a criação de programas de governo que favoreçam apenas alguns já é um exemplo de utilização de força, afinal se eu não pagar impostos sou preso, concorde eu ou não com isso.

Os argumentos libertários são bem conhecidos, mas a abordagem de Nozick é o seu grande diferencial. Logo no começo do livro, ele alerta para a utilização de princípios que são enquadrados em círculos de pensamento conhecidos como anarquistas, libertários, individualistas e liberais. Essas ideias podem não ser bem recebidas, mas ele alerta o leitor para a existência dessas premissas e que ele, Nozick, assume como muito verdadeiras. Portanto, antes de criticar (ou melhor, antes mesmo de prosseguir no livro, já que isso se encontra na introdução) tenha em mente o ponto de partida de Nozick.

Muito do que Nozick apresenta são argumentos amplamente combatidos, principalmente nos dias de hoje, como irreais e “elitistas”, mas Nozick inicia sua argumentação com estruturas muito básicas de organização social e vai expandindo seus argumentos daí. Em parte alguma ele tenta aplicar suas premissas no mundo atual e é por isso que sua argumentação acaba se tornando tão consistente.

Após derrubar o mito anarquista da ilegitimidade do Estado, Nozick combate as ideias progressistas de “Bem-Estar Social”, expondo toda a sua ilegitimidade, para então, em poucas páginas, expor sua ideia de “Utopia Libertária”, uma forma de governo em que todas as associações poderiam ser feitas espontaneamente, com abertura para as mais diversas formas de pensamento.

Na utopia de Nozick há a possibilidade de um estado comunista estar junto de um estado conservador, desde que certos princípios sejam mantidos.

Além de toda a teoria política apresentada, Nozick constrói argumentos que acabam tocando em temas diversos como economia, direitos humanos, direitos dos animais, ecologia, ataques ao utilitarismo e ética, conseguindo abrir o escopo da questão para objetos que raramente são alcançados pelas teorias libertárias, notadamente focadas na economia, o que explica a resistência que essas teorias sofrem.

De qualquer forma, o campo das ideias libertárias é novo e um livro como esse, prova que há muito campo para os libertários preencherem. Leitura obrigatória!

5 pontos