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terça-feira, 27 de agosto de 2019

15 anos de As Branquelas

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Neste abençoado ano de 2019, o maior filme Anti-Cult da história completa 15 anos exatamente no dia de hoje, 27 de agosto. As Branquelas é a maior trasheira de comédia que pode existir dentro dos limites que o cinema nos proporciona e deve ser lembrado por anos e anos até o fim dos tempos.

Fruto da mente dos irmãos Wayans, é estrelado pelos dois Wayans mais novos no papel de agentes do FBI fracassados que estão a um caso de serem demitidos. Sem opção, acabam escolhendo a missão que ninguém quer aceitar, serem guarda-costas de duas patricinhas durante O final de semana nos Hamptons, uma espécie de clube para super-ricos. Infelizmente no meio do caminho um acidente acontece e as patricinhas ficam com dois cortes superficiais no rosto que estragam sua auto-estima e os irmãos Wayans decidem se passar por elas durante todo o final de semana.

A partir daí vemos um show de transformação, Terry Crews num dos seus trabalhos mais emblemáticos, piadas de peido, cenas de ação, conspirações com famílias ricas e falidas, além de uma bela lição de amizade.

No entanto, uma das coisas que sempre escapa da crítica especializada ao elogiar enormemente essa obra de arte é a cena de dança no meio. Quando as irmãs Vandergeld, inimigas número 1 das irmãs Wilson, desafiam as amigas das Wilson para uma batalha de dança, vencendo-as, as branquelas entram no final para salvar a noite.

Movido a Beyoncé e Run DMC, com muito break, danças em grupo e mulheres lindas, a cena da batalha de dança é um daqueles momentos da história do cinema que não encontram pares. É uma cena verdadeiramente única na história do cinema.

Busy Phillips lidera Jessica Cauffiel e Jennifer Carpenter contra Jaime King e Brittany Daniel. Todas aliadas com um exército de miméticas, as patricinhas Vandergeld acabam ganhando. Mas enquanto Jam-Master Jay e DMC iniciam sua canção, os irmãos Wayans aparecem com a icônica frase “Eu não acredito que as peruas acharam que tinha acabado”. Prevendo um clássico, a trilha sonora só poderia ser um clássico também.

O mais incrível é que foram os próprios Wayans a realizarem a tal cena de dança. Monstros!

https://www.youtube.com/watch?v=gEC8h3IMgXg

É incrível como mesmo após 15 anos, As Branquelas nunca perdeu sua validade. Continua relevante, surpreendente e alvo de críticas como a que essa, quase anualmente. Um filme terno e eterno.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Dica natalina: "Jesus de Nazaré" (1977)

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Natal, apesar dos pesares, é a data do nascimento de Jesus e para celebrar essa data especial, o Sommelier de Tudo preparou um post de um filme muito especial.

"Jesus de Nazaré" de 1976 é uma dessas obras incríveis que são fruto de puro amor e dedicação. Nesse caso, fruto de Franco Zefirelli, que eu, sinceramente, não sei se é católico ou não, mas criou uma obra que tem não apenas valor bíblico e mitológico, mas um valor histórico. Ele toma como ponto de partida para elaborar a história não apenas os textos bíblicos, mas textos de outras fontes também.

Dessa forma, a obra nos apresenta diversos pontos de vista, historias menos conhecidas que você não encontrará na bíblia, mas que tem valor.

Do ponto de vista técnico, é um primor. Nos apresenta imagens fantásticas, frutos das gravações no norte da África. Uma trilha sonora marcante ainda reforça o teor mítico do filme e as atuações de primeira, com ótimas representações de todas as figuras dessa historia essencial para o mundo.

O único ponto negativo é a sua extensão. Na verdade, esse filme foi exibido a primeira vez como uma mini série, no entanto foi feito como um filme. Tanto que as transições de um capitulo a outro são imperceptíveis.

Com uma ampla pesquisa sustentando sua narrativa, ótimas atuações e um primor estético, o filme se torna uma obra essencial para essa época festiva.

5 pontos

 

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Dica especial do dia da consciência negra

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Mais um ano, mais um dia da consciência negra e num ano com tantos filmes de super-heróis, o Sommelier de Tudo não poderia deixar de passar essa data sem a dica do filme do segundo herói negro a brilhar nos cinemas e o melhor de todos.

Blankman é a outra face de Darryl Walker, um genial, porém sem experiência social alguma vivendo em Nova Iorque, que inventa os mais bizarros e úteis aparelhos com sucata, mas nunca é reconhecido. Quando ele acidentalmente descobre um líquido que deixa as roupas à prova de bala, fogo e qualquer outro perigo, ele resolve que é hora de alguém dar um jeito na criminalidade cada vez maior que assola sua cidade.

Aqui temos uma formula de sucesso que foi repetida por muitos outros filmes após este, desde Kick Ass e Homem-Aranha até Batman e esse filme é de 1994, o ano que este que vos escreve nasceu.

É um filme extremamente influente.

O melhor de tudo é que veio das mentes brilhantes por trás de "As Branquelas", então é um filme com excelentes piadas de humor racial, causal e de duplo sentido, recheado ainda com muito nonsense e um romance que referencia o melhor romance da história dos quadrinhos (Superman e Louis Lane), mas de forma divertida e animada.

O filme é a paródia perfeita de filmes de super-heróis, vindo de uma época em que os filmes de super-heróis nem sonhavam em ser o que são hoje.

4 pontos

 

terça-feira, 31 de julho de 2018

Dica cinematográfica: "Contos das 4 Estações" de Éric Rohmer (1990-1998)

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Hoje não venho com uma dica, mas com 4 dicas cinematográficas. Como não poderia deixar de ser, é claro que uma série de 4 filmes que merecem dicas cinematográficas só poderia ter sido feitos pelo mais genial de todos os diretores de cinema de todos os tempos (e eu vou explicar o que isso quer dizer com relação ao magnânimo Truffaut): Éric Rohmer.

Produzidos nos anos 90, com dois filmes separando os dois primeiros dos dois últimos filmes da série, esses 4 filmes contam histórias de amor (sempre!) relacionando-os com as estações do ano em que as histórias se passam. Assim como as 4 estações criam um todo coerente ao qual nós chamamos ano e representam uma volta completa de nosso planeta em torno do Sol, esses quatro filmes criam um todo coeso, apesar de suas diferenças, que aparentam serem grandes, mas não são. O que podemos chamar de “essência” dos 4 filmes permanece a mesma, independente de seus personagens, suas trajetórias e históricos. Independentemente da época do ano em que a história se passa.

51v4vmnseal-_sy445_Mas antes, vamos falar dos filmes. O primeiro deles “Conte de Printemps” (ou “Conto de Primavera”) é o meu favorito dos quatro e tem um início parecido com outro favorito meu feito pelo mesmo diretor, “L’ami de mon ami”. Jeanne, uma professora de filosofia não se sente bem em ficar na casa do namorado, que está viajando e decide voltar para sua casa, esquecendo-se que havia emprestado-a para sua prima, que ainda está utilizando-a. Sem saber o que fazer, ela é convidada para uma festa na casa de uma amiga distante e lá, casualmente, faz amizade com Natacha, uma menina de 18 anos, que lhe oferece um lugar para passar a noite, sua casa, que passa quase o tempo todo vazia, já que seu pai está sempre fora da cidade e sua mãe os abandonou quando ela tinha 12 anos. Dessa relação surgem diversos diálogos extremamente inteligentes, discussões sobre a vida pessoal das duas protagonistas e uma relacionamento forçado que apresenta o seu final desastroso já nos primeiros momentos em que começa a se delinear.

768f879673d02f4849530680a6af659cO segundo filme, “Conte d’Hiver” ou “Conto de Inverno” é o meu menos favorito e ouso dizer que um dos filmes menos inspirados em toda a filmografia do diretor, embora apresente coesão dentro do contexto da tetralogia. Sua história foca em Félicie, que, durante umas férias de verão, apaixonou-se por um cozinheiro. Eles passaram por momentos extremamente apaixonados e fazem promessa de voltarem a se encontrar. No entanto, seguindo a regra de que “amor de verão não sobre a cerra”, somos jogados 6 anos no futuro e conhecemos uma Félicia que carrega uma filha, mora com a mãe e se encontra dividida entre dois homens, que nunca deixam de ser uma sombra do que foi aquele cozinheiro pelo qual ela se apaixonou anos atrás.

thumb_56443_film_poster_293x397O terceiro filme é um dos meus favoritos também e se chama “Conte d’Été” ou “Conto de Verão”. Este filme é um excelente coming-of-age, que foca em Gaspard, um jovem, recém-formado professor de matemática com muitos talentos musicais que recebe a oferta de passar o verão na casa de veraneio de um amigo. Ele aceita a proposta, dando o pontapé para um breve, mas intenso verão de amor e crescimento ao lado de uma belíssima e jovem antropóloga, que trabalha como garçonete de um restaurante local.

mv5bngflnmnimzmtzmm4nc00yjkxltg4nzctztewmmm1zdiwodhkxkeyxkfqcgdeqxvymjqzmzqzody-_v1_uy268_cr40182268_al_O quarto e último filme da tetralogia é o meu segundo favorito dos 4. Seu nome é “Conte d’Automne” ou “Conto de Outono” e conta a história de Magali, uma viticultora que é convidada para o casamento da filha da sua melhor amiga, que resolve arranjar um amante para ela. Ao mesmo, uma amiga de Magali também decide arranjar um amante para ela, já que Magali anda muito solitária e o resultado não poderia ser nada mais do que uma excelente comédia humana.

Todos os quatro filmes são românticos e tratam de triângulos amorosos, mas mais do que isso, Rohmer é também um mestre, assim como Shakespeare, em tratar do desejo humano. Ele, mais do que qualquer outro diretor, entendeu perfeitamente a relação mimética dos desejos humanos e quase a totalidade de sua obra é feita para escancarar isso aos olhos do seu público. No entanto, isso é feito da melhor forma e a melhor forma, infelizmente, passa despercebida pelos olhos e ouvidos não atentos a teoria mimética.

alexia-portalA tal teoria, elaborada por René Girard, nos diz que o desejo passa por uma relação triangular, onde o nosso desejo por qualquer objeto passa por um terceiro, o mediador, que pode ou não ser o nosso rival em busca desse objeto. Esses 4 filmes nos mostram o drama primordial de nosso desejo, a rivalidade mimética que pode surgir com nossos mediadores. Em “Conto de Primavera”, Natacha tenta atuar como mediadora entre seu pai e Jeanne, mas de maneira ingênua, sem compreender que o desejo surge de forma premeditada, mas sempre despercebida por aqueles que desejam. Desejamos pelos olhos de outros, mas sem saber disso, porque se sabemos, quebramos o desejo. É sempre uma relação que não notamos. Ao deixar bem claro suas intenções, Natacha mina todas as possibilidades que seu plano dê certo. O mesmo ocorre no quarto filme, que encerra a tetralogia da maneira como ela começa, fechando perfeitamente o ciclo. Rosine, interpretada por uma das mulheres mais belas que já pisou na face da Terra, Alexia Portal, tenta fazer Magali se apaixonar por Étienne, seu ex-professor e ex-amante. No entanto, assim como Natacha (e ironicamente, as duas são muito jovens), deixa transparecer suas intenções e ao final é lógico que não dá certo. Em “Conto de Outono”, Rohmer nos dá uma resposta e Magali vai se apaixonar apenas por aquele que não lhe foi apresentado como um amante em potencial e que tentou, até o climático final, manter essa mentira. Ao contrário do primeiro filme, Rohmer nos apresenta aqui as respostas que precisamos ouvir, a solução para o conflito mimético.

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Solução esta que foge completamente das mãos de seus personagens nos filmes do meio da tetralogia. Em “Conto de Inverno”, Félicie se vê presa num triângulo amoroso, mas apenas por que seu objeto de desejo não pode ser conquistado. Seu objeto é uma paixão de tempos atrás, que sumiu, que ele sequer sabe o nome completo e não importa quantos namorados tenha, nenhum deles poderá cumprir com as suas expectativas. O final, é claro, tem que ser feliz, como todo filme de Éric Rohmer, que envolve personagens sinceros em seu amor, mas sua solução não é realista e acaba sendo mais clássico no sentido em que cumpre, exatamente, as diretrizes de uma comédia no seu sentido como foi elaborado pelos gregos. Quanto a “Conto de Verão”, Gaspard espera a visita da namorada e como ela não começa a se apaixonar pela garçonete. No entanto, ela não está afim dele e Gaspard se envolve com uma terceira garota. Sua atitude acaba despertando a atenção da garçonete, que só esperava uma confirmação de que o garoto realmente poderia conquistar garotas. Gaspard tinha em suas mãos duas garotas, embora não soubesse disso. O problema é que sua namorada aparece e aí a situação mimética foge completamente do seu controle e o final não é desastroso, apenas porque Gaspard foge antes que a barragem seja rompida.

Ele também consegue, finalmente, a garçonete no final.

Os “Contos das 4 Estações” são uma demonstração incrível da genialidade de Rohmer, mostram sua atenção para as investigações do maior cientista da área de humanas do século XX, René Girard e, assim como Shakespeare séculos antes, cria uma obra fantástica do ponto de vista mimético, que tem vestígios em toda a sua filmografia, mas se solidifica de maneira sublime nessa tetralogia. Rohmer é, de fato, o diretor de cinema mais genial de todos os tempos e isso não diminui meus elogios a Truffaut, que pode não ter sido o mais genial, mas, com certeza, foi o mais talentoso. Truffaut fazia filmes espetaculares de maneira sutil e quase sem notar, conseguia ampliar sua vida no cinema e fazer do cinema sua vida. Ele nasceu para isso e seu talento é incomensurável. Rohmer também fazia filmes como respirava, vinham para ele de maneira natural, mas nunca conseguiu expandir sua obra para terrenos tão vastos quanto Truffaut fez e vale lembrar que iniciou sua carreira após os desbravamentos de Truffaut na sétima arte.

tumblr_otpdan2xum1wuuz0po1_500De qualquer forma, esses 4 filmes de Rohmer nos apresenta obras de fazer inveja a qualquer cineasta, de maneira simples e sem grandes orçamentos, ele cria obras naturais, filmadas em poucas semanas, até de maneira casual. Os 4 filmes contam com as marcas do Rohmer, muitos diálogos, uma montagem natural, locações que passaram por poucas alterações e músicas apenas dentro do ambiente do filme. Tudo isso gera uma estética única, típica do cinema francês da nouvelle vague, mas com os avanços tecnológicos dos anos 90.

Enfim, me faltam palavras para fazer jus a essa tetralogia, então vou deixar apenas esse último recado: faça um favor a você mesmo e vá correndo assistir esses filmes, que são ótimos.

5 pontos

terça-feira, 3 de julho de 2018

Dica cinematográfica: “The Legend of Suram Fortress” (1985)

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Vindo direto de uma lista de filmes bizarros, esse daqui me chamou a atenção pela sua beleza e sutileza ao trazer para as telas um conto mitológico da Geórgia.

Produzido durante a Geórgia comunista, o filme de Sergej Parajanov (que chegou a ser preso por não concordar com as regras do regime comunista) e Dodo Abashidze (que segura um pouco a mão de seu parceiro de direção) conta a história da Fortaleza de Suram, uma fortaleza que está sempre sendo construída e está sempre ruindo. Isso até que o líder daquela terra consulta uma vidente que o diz que ele deve se sacrificar para que a fortaleza seja completada, se colocando dentro dela, como parte de sua construção.

É uma história de sacrifício por um povo, tal como já foi contada centenas de milhares de vezes ao redor do mundo, com um diferencial: aqui temos a direção de um dos mais inventivos diretores da União Soviética, um cara conhecido por produzir filmes belos. Neste caso não é diferente, pois Parajanov cria imagens dignas de pinturas. Sua utilização de câmera parada incomoda, mas acabamos relevando ao deixarmos nossos olhos serem guiados pelas belas imagens de paisagens do leste europeu, roupas tradicionais ricas em detalhes, animais exóticos e prédios antigos, mas imponentes.

Seu problema é a preocupação excessiva com as imagens, mas aí entra Abashidze, que controla um pouco os excessos de Parajanov, dando uma unidade ao filme, nem sempre sendo bem-sucedido em sua missão, mas ao menos ele tenta.

A história é dividida em capítulos e isso abre espaço para diversas cenas paradas belas e muito bem produzidas, mas a conexão entre elas nem sempre é clara e muito acaba ficando para a interpretação do espectador. Outro fator que afasta é a enorme utilização de aspectos tradicionais da Georgia, que estão muito distantes da nossa cultura e como são abordados de forma muito sutil, sem didatismo, o espectador ocidental comum acaba se afastando.

No entanto, isso não diminui de forma alguma o prazer que é assistir essa obra! Como já disse, as imagens são ricas e cheias de detalhes, a história apresenta uma unidade e apesar de levar um tempo até ela engrenar, ao final, percebemos a sensibilidade que ela cria e os laços que forma com a própria história do país a qual ela pertence.

É um filme para se conhecer a Georgia, de certa forma.

Enfim, “The Legend of Suram Fortress” é um filme muito belo, relativamente fácil de se encontrar pela internet e de um enorme conteúdo.

5 pontos

terça-feira, 5 de junho de 2018

Dica cinematográfica: "A Quiet Place" (2018)

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Demorei para assistir esse filme e me arrependo profundamente.

"A Quiet Place" conta a historia de uma família sobrevivendo numa época pós-apocalíptica onde a Terra foi invadida por alienígenas que são guiados pelo som, então ao menor ruído humano, eles aparecem e matam seja lá quem estiver fazendo barulho. Para essa família é um pouco mais fácil, eles já tem um membro surdo-mudo, então sabem a linguagem de sinais e se comunicam bem, mas desastres acontecem e os primeiros minutos do filme já nos mostram isso.

Nós não sabemos como foi a invasão, porque ela aconteceu, nem como os seres humanos descobriram que não podiam fazer barulho. Só resta à nossa imaginação as cenas horrendas que devem ter ocorrido nas grandes cidades do mundo. De qualquer forma, os seres humanos vivem em pequenos acampamentos, se comunicam e sabem que ainda existem através de sinais de luz e se viram como podem.

Ao longo de sua projeção ficamos sabendo apenas um pouco e de forma dedutiva, como funciona o organismo desses seres terríveis (terríveis mesmo, parabéns pra equipe do cg) e ao final, do podemos deduzir mesmo que fim levou a família, embora tenhamos uma pontada de esperança.

O filme acaba reforçando alguns estereótipos masculinos, como a figura do pai como desafiadora e eu dou um bombom pra quem disser quem morre no final, ou melhor, qual o sexo humano que leva a pior? Pois é...

No entanto isso diminui pouco a qualidade do filme, que é ousado e muito criativo em sua projeção. Dessa forma, esse filme acaba por se tornar uma das melhores produções hollywoodianas desse ano, que passa por maus bocados nas mãos desses heróis que ninguém mais aguenta.

4 pontos

 

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Dica cinematográfica: "Perceval, o Gaulês” (1978)

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Eric Rohmer era um tradicionalista, mas também era um cidadão da segunda metade do século XX, então sua adaptação de um conto medieval francês só poderia gerar um filme descontraído, irônico e, acima de tudo, criativo ao extremo.

Em “Perceval, o Gaulês”, acompanhamos um jovem nobre gaulês que sai de casa onde vivia com a mãe para buscar uma vida de glórias como cavaleiro. Após conhecer o rei Arthur, o jovem fica fascinado com o santo Graal e parte em busca deste, mas antes aprende o real significado da cavalaria, apaixona-se por uma bela princesa e espalha a justiça por planícies e florestas, enquanto vaga na busca do santo Graal.

O filme já chama a atenção logo no começo, onde somos apresentados a um cenário de mentira, todo montado com objetos que parecem papelão, alumínio e papel machê, simulando os mais diversos terrenos, de florestas a planícies, praias e castelos. Num segundo momento, nos chama a atenção o fato dele ser todo narrado e cantado. A todo momento os personagens cantam e narram o que está acontecendo na tela, deixando para a narração os acontecimentos ao invés de mostrar a ação, uma subversão muito simples, porém ousada e criativa das convenções do cinema.

A narração, por si só, já é uma subversão das convenções mais tradicionais do cinema, mas colocar os próprios personagens, narrando os seus atos, num cenário de mentira. Isso é quase um tiro no pé, exceto quando é o Eric Rohmer, que faz isso muito bem feito.

Mas fora os aspectos criativos que são todo mérito do Rohmer e sua equipe criativa (para quem já conhece outros filmes do diretor, irá reconhecer alguns rostos apresentados), temos ainda a própria história de Perceval. Escrito por Chrétien de Troyes durante a Idade Média e inacabado, é um romance com uma complexidade significativa (talvez pela sua incompletude). O romance termina com uma narração de outro cavaleiro da Távola Redonda (Gauvain), que é adaptada dentro do filme, mas Rohmer termina com uma fantástica e simbólica cena da compreensão de Perceval sobre o santo Graal.

Ao final, “Perceval, o Gaulês” é um filme ambíguo, mas muito bem feito e extremamente criativo, revelando a genialidade desse que foi um dos melhores diretores do cinema de todos os tempos.

5 pontos

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “I Kill Giants” (2018)

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Quando eu soube que um dos meus quadrinhos favoritos seria adaptado para filme, fiquei muito contente, mas tratei logo de baixar a bola, pois sabia que a chance de decepção era alta. Felizmente me enganei.

O filme segue a história do quadrinho, que se centra em Bárbara, uma menina complicada, que tem poucos amigos e vive num mundo imaginário, onde ela é uma assassina de gigantes. Quando chega uma menina nova na cidade, Bárbara trata de apresentar os gigantes a ela e isso é o estopim para uma amizade, que é logo ameaçada, tanto com desafios reais, quanto com desafios imaginários, embora estes também tenham uma base muito real.

A história é simples e não tem muitas surpresas, embora algumas reviravoltas no roteiro possam surpreender os mais incautos. Isso acontece na HQ e acontece no filme também. Há, em todo momento, uma suspeita de que a Bárbara cria o seu próprio mundo e nunca fica muito claro o motivo, embora nós sempre suspeitemos de um. Dá pra se fazer uma boa análise psicológica desse filme, mas eu não tenho capacidade, nem tempo para isso agora.

Então vamos falar das diferenças do filme pra HQ, pois elas são poucas, porém pontuais. O filme é um indie e como tal tem aquela atmosfera soturna, situando Bárbara numa cidade bem mais fria do que a cidade da HQ. Isso não incomoda, mas é um detalhe a se considerar. Alguns personagens são cortados e outros sofrem diferenças, mas de uma maneira geral, o filme consegue se assimilar bastante a HQ, embora consiga se manter sozinho. São duas obras diferentes e ambas igualmente boas.

E “I Kill Giants” (o filme) é realmente bom. Eu tinha meu receio por se tratar de uma HQ desconhecida e um filme indie, mas tive uma agradável surpresa. Ao longo do filme, a película só foi me agradando e ao chegar no final, não decepciona. Os efeitos especiais ficaram muito bons, embora não tenha sido tão magnânimo quanto na HQ.

Outra coisa bacana foi a inclusão de um desenho do J.M.Ken Niimura, o artista da HQ. É sempre bom quando uma obra adaptada traz membros da origem para poder participar do projeto de adaptação.

Enfim, “I Kill Giants” é um ótimo filme, vindo de uma ótima HQ, que merece ser assistido.

4 pontos e meio

terça-feira, 24 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “A incrível aventura de Rick Baker” (2016)

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Há um bom tempo me foi recomendado esse filme e eu fiquei enrolando ele pra assistir, achando que ia ser legal, mas não era pra ser assistido com urgência... Ledo engano! Que filmaço eu estava perdendo.

“A incrível aventura de Rick Baker” conta a história de Rick Baker, um delinquente juvenil que nem tem 13 anos e que é levado para viver com um casal de meia-idade que vive numa fazenda no interior da Nova Zelândia. Ao entrar em contato com a simplicidade da vida no campo, Rick Baker começa a melhorar, mas sua “tia” acaba morrendo e então inicia-se uma nova crise em sua vida, acompanhando a crise na vida do “tio”, que resolve fugir para o meio da floresta. Influenciado e perdido, Rick acaba fugindo antes e se perde, mas é encontrado pelo “tio”, Hec Faulkner. O problema é que quando os dois decidem voltar para a civilização, estão sendo procurados pelo polícia e uma série de infortúnios acaba agravando a situação deles, até que ela não pode mais ser suportada.

O filme é uma comédia dramática sobre crescimento, masculinidade e, principalmente, sobre relacionamentos. Não quero me estender muito aqui, até porque isso é fácil de ser notado no filme, mas ele é basicamente um “coming-of-age”, sem os elementos românticos e adicionando elementos masculinos, dando a ele mais robustez e solidificação, pois as crises que Rick e seu tio enfrentam são crises humanas, não indicativos de uma idade apenas, mas de fases da vida, pelas quais podemos passar a qualquer momento e nunca há como se preparar para elas, embora haja uma forma de lidarmos com elas de maneira saudável.

O humor é diverso, variando do refinado para o escrachado, o que acabou me agradando muito e pode agradar tanto a gregos quanto troianos. Você pode até se ofender num momento ou outro, mas isso é passageiro, pois o filme é muito diverso nessa questão e muito maduro também. Apesar de algumas piadas serem bem escrachadas, elas não são tratadas de modo a ofender, mas ocorrem de maneira natural, imitando a vida como ela é.

A narrativa é guiada de forma natural também e o filme cresce de maneira orgânica, embora muitas de suas partes não sejam críveis, se comparadas com a vida real.

Os atores estão todos muito bem em seus papéis, a direção é muito dinâmica, cheia de cortes em momentos ideais e a trilha sonora é recheada de canções clássicas, porém desconhecidas, reforçando esse ar de “coming-of-age” mais cult e maduro.

Enfim, é um excelente filme. Não há o que discutir.

5 pontos

terça-feira, 3 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “Real – O Plano por trás da História” (2017)

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Mais um filme reaça lançado ano passado, que merece uma dica d’O Sommelier de Tudo.

Em “Real”, acompanhamos a trajetória de Gustavo Franco, economista responsável pelo Plano Real, que acabou com a hiperinflação que assolava o Brasil nos anos 90 e sua árdua trajetória pelo governo, passando por cargos importantes e culminando numa polêmica investigação conhecida como Banestado.

Já começo dizendo que, assim como o filme da Lava Jato, esse não é um ótimo filme, embora também não seja ruim, é um filme bom e nada mais. Pra começar, ele não entrega o que promete (ao menos o que foi dito nos trailers), porque, pelos trailers, temos a impressão de que irá se tratar de um filme sobe o Plano Real, mas não se engane, esse é um filme sobre Gustavo Franco.

Embora foque nos menos de 10 anos de carreira de Gustavo Franco atuante junto ao governo, é um filme que toca em questões pessoais da vida dele, o seu trato com outras pessoas, familiares e colegas de trabalho, suas posições ideológicas e suas estratégias junto ao governo para ele tentar minar a corrupção e os esquemas de politicagem que sempre existiram no nosso país e acentuaram-se a partir da segunda metade do século XX.

O filme tem ares de panfletagem, embora essa panfletagem se concentre na figura de Gustavo Franco, sendo assim, perdoável. Por exemplo, logo na primeira cena, vemos uma discussão de Gustavo com um amigo seu, carioca, rico e que está pronto para ir trabalhar em Londres para uma multinacional, mas critica Tatcher, a Perestroika, defende programas de incentivo sociais do governo e ainda vota no PT, o típico comunista hipócrita. Essa discussão é recheada de ataques tanto de um lado quanto de outro, embora o lado da esquerda sempre fique mais fraco. Esse tipo de cena ocorrerá outras vezes ao longo do filme, em que Gustavo fica no canto oposto ao seu inimigo e a câmera fica indo de um lado para o outro. É uma sacada interessante da direção e o debate acalorado carrega de tensão a cena, mas quando termina, eu não consegui deixar de sentir um cheirinho de panfletagem no ar.

Mas não é como se não pudesse escapar disso num filme desses, afinal Gustavo Franco é uma figura que divide opiniões, até mesmo pela sua trajetória conturbada, mas o filme lhe garante um status de herói. A narrativa é digna de thrillers de suspense e investigação, como filmes de jornalismo, muito comuns atualmente e prende a atenção. Você pode até não gostar de Gustavo Franco e, nesse caso, irá odiar o filme, mas os produtores, roteiristas e o diretor foram muito competentes em dinamizar uma história que só foi contada de maneira enfadonha, usando para isso tanto recursos narrativos (personagens fictícios, situações que não podem ser comprovadas, etc) e recursos técnicos (a movimentação de câmera de um lado para o outro é um ótimo exemplo disso).

Além disso, o filme conta com uma trilha sonora bacana, é genérica, mas é mais envolvente que a do filme da Lava Jato, auxiliando na dinamização da história contada pelo filme.

Enfim, é um bom filme, contando de forma nunca antes contada uma história que é encarada por todos como algo chato, mas, com esse filme, ficou legal.

3 pontos e meio

terça-feira, 27 de março de 2018

Dica cinematográfica: “Polícia Federal: A lei é para todos” (2017)

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Estava devendo esse filme, que foi uma das pontas da tríada de filmes reaças lançados ano passado (junto com “Real: O plano por trás da história” e “Jardim das Aflições) e, apesar de eu estar focado em assistir todos eles (afinal, um reacinha safado como eu tem que assistir esses filmes), nem todos irão ganhar dicas aqui. Não porque são ruins, mas porque, às vezes, não chama a minha atenção o suficiente para que eu escreva uma dica.

Não é o caso de “Polícia Federal”, filme lançado ano passado e que acabou chamando mais atenção algumas semanas antes de seu lançamento, pelo trailer e pelas críticas dos canais canhotos de informação do país.

Direcionamentos ideológicos à parte, o filme é interessante. Não diria que muito bom, tampouco é mediano, é um filme bom, um thriller policial bem classudo, que não poupa efeitos especiais, carregando o filme de uma atmosfera ultra-moderna (vide as cenas em que os personagens se encontram na sede da PF, cercados de computadores) e músicas genéricas de suspense, que dão um clima bem carregado durante toda a sua projeção.

A obra conta a história do início das investigações da Lava Jato até culminar nas investigações ao ex-presidente Lula, do ponto de vista de personagens fictícios, que servem apenas para representar figuras de dentro da Lava Jato, até porque a operação não passou nas mãos apenas de uma pequena equipe de poucas pessoas.

No entanto, esse é um recurso necessário para contar a história de uma operação que vem se arrastando há anos, descobrindo podres cada vez mais fundos e ligações cada vez mais fantásticas, no sentido de ser algo difícil de acreditar. Logo no começo do filme, somos guiados por investigações que não tinham relações entre si, inicialmente, mas acabaram se encontrando e juntas descobriram um buraco ainda mais fundo, que levou ao maior doleiro do país.

É realmente algo de outro mundo e mostra a magnitude dessa operação, que é considerada por muitos como a maior investigação de corrupção do mundo. E nesse filme, descobrimos que isso não é à toa.

Porque a operação Lava Jato se arrasta por anos, começando com um esquema simples de lavagem de dinheiro, mas chegando até o principal patamar político do país e como brasileiro não leva nada a sério, acabou criando uma mitologia em torno da operação, Sérgio Moro é o Super-homem do Brasil, o Japonês da Federal virou piada, Nestor Cerveró tá com um olho no gato e outro no rato e por aí vai... O filme chega até a enaltecer essa mitologização de suas figuras quando nos agracia com a presença do Japonês da Federal e quando o ex-presidente pergunta ao ser enquadrado “O Japonês não tá aí não, né?”.

Acaba que o filme carrega um certo humor consigo.

Mas é muito mais dramático. Desde a ficionalização das investigações até os momentos em que somos apresentados ao pano de fundo da história de seus personagens. Um dos investigadores votou em Lula e discute com o pai sobre a “perseguição política”. Momentos que não são muito profundos, mas não chegam a cansar, porque o que motiva o filme é realmente o andamento das operações.

E por falar em “perseguição política”, o filme é muito didático nesse quesito, mas sem ser panfletário, embora sofra uma queda pra esse lado no seu final.

Ao longo da projeção de “Polícia Federal” somos guiados pelos caminhos da investigação, avançando muitos anos, com o auxílio de uma narração em off do personagem principal (Ivan) e isso acaba derrubando a acusação absurda que fazem de perseguição política. O filme explica de forma natural as consequências de se investigar o Lula (80% de aprovação quando saiu do governo, não é qualquer um), a questão absurda do foro privilegiado (que deixa livre caras como o Temer e o Aécio Neves) e a importância do vazamento de áudios, que pode ser criticado, mas era um mal necessário para o país naquele momento, afinal, se você tem que arrancar um pedaço do seu corpo pra vencer o câncer, você vai arrancar uma parte do seu corpo, não é?

No entanto, o último terço do filme acaba focando muito na imagem do Lula e o torna quase uma figura central dentro da película, dando a ele (o filme) ares de panfletarismo, o que acaba afastando pessoas com uma visão mais neutra no assunto, mas com tendências a acreditar na conversa pra boi dormir da esquerda.

Outro problema do filme foi logo no começo, quando conectam o problema da corrupção do Brasil com a chegada dos portugueses à América. Ok, o problema da corrupção é inerte ao ser humano, somos animais corruptíveis e tendemos ao mal, pois é através dele (misteriosamente), que alcançamos um prazer imediato, mas bater nessa tecla é enxugar gelo. Afinal, não dá pra mudar a natureza humana, isso é algo que só pode ser feito na consciência de cada um e é inegável que durante a história do Brasil nunca tivemos um Estado tão paternalista quanto o que temos agora. O problema principal surgiu no século XX.

No entanto, superando esse começo e deixando se levar pelo final, “Polícia Federal” se apresenta como um bom filme, mais uma adição de qualidade invejável do cinema nacional, que tem sofrido um bom renascimento nos últimos anos e, o que é melhor ainda, uma virada à direita.

3 pontos e meio

terça-feira, 20 de março de 2018

Dica cinematográfica: “Small Town Crime” (2017)

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Não sei como esse filme escapou do radar ano passado, mas agora faço jus a ele com uma dica muito bacana.

“Small Town Crime” é um filme americano de 2017 que conta a história de Mike Kendall, um ex-policial e agora alcoólatra, que vive fugindo de entrevistas de emprego pra poder continuar recebendo o auxílio-desemprego e ter uma vida fútil de bebedeiras, até que se depara com um caso (um assassinato de uma jovem garota), que o faz lembrar de acontecimentos do passado que levaram ele a levar a vida que leva atualmente. Motivado para encontrar redenção, Mike decide se passar por investigador particular e começa a investigar o caso, descobrindo um buraco cada vez mais fundo que revela podres cada vez maiores, famílias desunidas, prostitutas e pedófilos.

O filme é um triller policial neo-noir com uma pitada de pós-modernismo e narrativa gótica. Há os elementos típicos de um noir clássico, o investigador particular, a montagem com muitas cenas à noite, uma investigação que revela podres cada vez piores, mas o policial não é o charmoso valentão típico das narrativas policiais clássicas, eis o neo-noir.

A atmosfera, apesar de densa, não deixa de ser bem humorada, mas não aquela ríspida ironia que popularizou os livros de Raymond Chandler, por exemplo,  e sim um humor mais pueril, muitas vezes contido na falta de habilidade do personagem principal e algumas passagens meta-narrativas, como o auxílio das músicas. Eis o pós-modernismo.

E tudo isso levado a frente por uma história de redenção, que mostra o quão falho, incapaz e culpado de seus crimes é o personagem principal. No final, ele é o culpado de tudo que aconteceu na vida dele e acaba se juntando à pessoas na mesma condição que ele para poder fazer justiça.

É um ótimo filme, com uma narrativa fantásticas, personagens interessantes e uma qualidade técnica excepcional, começando com uma canção do The Animals e nos apresentando cenas muito bem montadas, uma edição primorosa e atuações convincentes.

Em suma, é um filmaço, mas não parece ter feito muito sucesso. É um indie e acabou não chamando tanto a atenção, o que é uma pena, pois fiquei com vontade de assistir mais filmes nesse curioso universo de “Small Town Crime”.

4 pontos

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: “Cloverfield” (2008)

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Ao assistir o péssimo “The Cloverfield Paradox” (que tem um final que salva o filme inteiro, diga-se de passagem, portanto vá assisti-lo apenas para levar um susto no final), percebi que nunca havia indicado esse clássico moderno por aqui, então, antes que o próximo filme da franquia saia (que parece ser tão ruim quanto o Paradox), vamos à dica de Cloverfield, o clássico de 2008.

Em “Cloverfield”, acompanhamos a noite da invasão de um monstro (carinhosamente apelidado pelos fãs de “Clover”) à cidade de Nova Iorque pelo ponto de vista da câmera de um dos protagonistas, Rob, que junto com amigos tentam escapar da cidade com vida. Em meio ao caos causado pelo monstro ainda somos conhecemos o romance entre Rob e Beth, sua amiga de infância, através de cortes de uma gravação antiga que ele havia feito meses antes.

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O filme é um primor do gênero “fita encontrada” e “horror” e ainda chamou muita atenção na época do lançamento pela sua campanha de marketing viral que contava com sites falsos, notícias e vídeos na internet, responsáveis por criar um quebra-cabeças que até hoje não foi montado.

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Outros filmes nessa mesma pegada já haviam sido feitos, como “A Bruxa de Blair” e foram feitos depois, como “Poder Sem Limites”, mas nenhum deles conseguiu manter a longevidade que Cloverfield manteve e isso não é explicado apenas pela insistência de J.J. Abrams, a grande mente por trás desse filme, em mantê-lo vivo, acredito que o grande fato desse filme manter sua longevidade é sua qualidade excepcional como um filme de horror/ficção científica/fita encontrada mesmo.

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“Cloverfield” é um filme que não chega a ter 1h30 de duração, mas quanto ao que realmente importa, a invasão do monstro, não chega a ter 1 hora de duração, pois os créditos ocupam quase 10 minutos e temos ainda mais de 20 minutos de cenas que nos apresentam os personagens, são as cenas de Rob e Beth passando um dia de abril juntos, as cenas antes da festa e as cenas durante a festa de despedida de Rob. Isso nos faz criar uma proximidade com os personagens que apenas os melhores filmes de horror conseguem criar e é ainda mais difícil de se encontrar filmes que fazem isso com 6 personagens. Rob, Beth, Lily, Jason, Hud e Marlena ficam tão próximos de nós, em tão pouco tempo, que nós realmente torcemos para que eles consigam sair de Nova Iorque vivos e lamentamos suas mortes. Além disso, nenhum deles é um clichêzão típico de filmes de horror ou de ficção científica, claro que temos o personagem responsável, o guia do grupo, a mente madura e o alívio cômico, mas essas não são as características determinantes dele e ao final do filme, se você gostou dele, acaba lembrando dos personagens pelos seus nomes e ações durante o longa.

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São os personagens humanos e sua relação pura que fazem com que o filme ainda hoje cative os fãs. Eu acredito que seja esse o fator responsável pela longevidade de “Cloverfield”, muito além de teorias conspiratórias, efeitos especiais ou mesmo a possibilidade de expansão desse universo num multiverso.

Embora isso seja um fator importante também, mas eu acho que secundário. Na época em que assisti o filme não tive a oportunidade de vê-lo nos cinemas, então assisti num DVD em casa, junto da minha mãe e do meu irmão. Não é um filme para se ver em família, mas eu tinha uns 14 ou 15 anos e essa seria a minha primeira experiência com um filme de horror, eu simplesmente não sabia onde estava me metendo, mas conforme o filme avançava, mais afundado no sofá eu ficava e grudado na tela da TV. Minha mãe que sempre foi uma chata (mas no sentido bom) e insistia em conversar comigo e com o meu irmão após cada filme, seriado, desenho, jogo ou livro que terminávamos de consumir, disse que a única coisa que salvava esse filme era a amizade dos personagens.

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Ela, uma mulher com mais de 40 anos, que não vê valor nenhum em coisas negativas (portanto, filmes de horror, terror, violência e sexo excessivos, etc... estão completamente fora de questão nos seus gostos pessoais) captou a essência que “Cloverfield” transmite ao expectador, seja essa essência proposital ou não, afinal eu não confio muito na “genialidade” dos criadores de “Cloverfield”, que alcançaram o ápice nesse filme e nunca mais fizeram algo a sua altura.

E em volta dessa essência temos o monstro, o “Clover” não se parece com um Godzilla, mas destrói tanto quanto e abre diversas janelas para especulação apenas nesse filme, como, por exemplo, os animais que caem dele, bichos tão estranhos quanto ele, que comem humanos e se não comem, infectam com alguma coisa que nos faz explodir. Na época não dava pra entender direito o que era aquilo, seriam os filhos de Clover? No entanto, com o final de Paradox, que nos mostra uma versão do Clover ainda maior, confirmando as afirmações de J.J. Abrams de que o Clover era apenas um bebê assustado, dá pra imaginar que aqueles bichos eram apenas as pulgas de Clover. Assim como nós, Clover é um bioma que carrega em si uma série de outros seres vivos dentro de si e se ele, um bebê, já é do tamanho de arranha-céus, suas bactérias, micróbios e seres infecciosos são do nosso tamanho e podem nos destruir num piscar de olhos.

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Agora que o universo se expandiu e virou, definitivamente, um multiverso, temos ainda mais portas para especulação e coisas a serem debatidas, como as empresas que fazem parte de todo o universo, a Tagruato e a Slusho fazem parte de todos os universos, a Slusho é vista até em produções que não tem nada a ver com a série, então já podemos descarta-la, pois é apenas um “prop” deixado ali na produção. Já a Tagruato é, provavelmente a responsável pelo despertar de Clover, pois, de acordo com o universo do filme, era a empresa responsável pelo Slusho e tiravam o seu ingrediente secreto do oceano. No mangá (que eu não li) é revelado que Clover desperta no Japão antes de ir para Nova Iorque. Está tudo conectado e faz sentido, embora não seja confirmado.

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Agora, não dá pra tentar criar uma única linha temporal com todos os filmes, pois em 10 Cloverfield Lane temos alienígenas e Paradox se passa muitos anos no futuro, mas dá pra especular que os eventos em Paradox causaram uma fissura em todos os multiversos, fazendo alienígenas invadirem a Terra em um e uma civilização de monstros aparecer no fundo do oceano em outro. Em Paradox os eventos ocorrem no passar de alguns dias, mas não dá pra dizer que o tempo transcorre da mesma forma em diferentes universos. O que foi alguns dias em Paradox pode ter sido vários meses em “10 Cloverfield Lane” e várias centenas de milhares de anos em Cloverfield.

O que eu acho que foi vacilo foram os alienígenas de “10 Cloverfield Lane”, pois uma espécie de Clover aparece em Paradox, então, não é como se houvesse muita diversidade nesse multiverso.

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Sei lá, é tudo muito confuso e eu só queria expor minhas teorias por aqui, por que eu também acho legal isso, mas o post é de Cloverfield e é uma dica. O que eu posso concluir aqui é que o filme é muito bem feito, até melhor do que os mais recentes, pois contou com uma produção menor e ainda assim se manteve atual. O monstro continua sendo muito bom, a destruição é realística pra caramba e aquela cena do helicóptero desafia a compreensão de que o filme foi feito com meros 25 milhões de dólares.

“Cloverfield” é ainda um filme atual, completa 10 anos esse ano e já conseguiu o seu espaço como um clássico do horror/ficção científica, ainda cheio de mistérios, mas acima de tudo isso, é um filme humano.

5 pontos

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P.S.: Só mais uma teoria, eu gosto de pensar que a Lily sobreviveu ao ataque e seria muito bacana se ela voltasse para a franquia de alguma forma.

 

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: "The Night Is Short, Walk on Girl" (2017)

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Ou “Yoru wa Mijikashi Arukeyo Otome” se você é daqueles otakus puritanos que só falam em japonês.

Enfim, o filme mais novo de um dos diretores mais criativos do Japão atualmente, Masaaki Yuasa, é também uma espécie de continuação de um dos animes mais inventivos dos últimos tempos, Tatami Galaxy e conta a história de uma menina, Kurokami no Otome, estudante de uma universitária, durante uma noite muito louca, onde ela conhece diversas pessoas excêntricas através de festa de noivado, festival universitário, feira de livros e uma peça de teatro ilegal. Senpai é o garoto apaixonado por ela e durante essa noite passa por bizarros desafios em busca do seu amor, como enfrentar o deus dos livros usados, entrar numa competição de comida apimentada e enfrentar um resfriado halucinógeno.

A história é cheia de bizarrices, como todo anime do Masaaki Yuasa, além de contar com seu característico estilo de animação, simples, porém recheado de detalhes e muito colorido. O anime se situa no mesmo universo que Tatami Galaxy, alguns personagens da série aparecem no filme, como a Ryouko e o Seytarou, mas nenhuma semelhança é explicitamente declarada, como a recordação de eventos passados. Ainda assim, os próprios personagens principais lembram os personagens principais do Tatami Galaxy.

Os personagens são verborrágicos e é difícil acompanhar as loucuras do filme, mas o melhor a se fazer é deixar rolar, simplesmente desligar o cérebro e se deixar levar por esse universo maluco e tão criativo que foi criado ainda em Tatami Galaxy. Os acontecimentos rolam de forma fluida, mas a própria noção de tempo é distorcida, propositadamente, como nos é mostrado logo no começo ao ser comparado os relógios da personagem principal e o relógio dos velhos formandos de filosofia na festa de noivado de uma amiga dela.

Como os cenários são pequenos, todos os personagens acabam interagindo em um ponto ou outro do filme, até finalmente se unirem no final, levando a Menina até o seu tão esperando encontro com o seu Senpai.

Enfim, “The Night Is Short, Walk on Girl” é um filme muito divertido, um romance extremamente criativo que pode confundir e assustar num primeiro momento, mas assim que você se deixa levar pelas loucuras apresentadas pelo Masaaki Yuasa, a diversão é garantida!

4 pontos e meio

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: "O Sol por Testemunha" (1960)

De forma ricamente ilustrada e uma narrativa amplamente elaborada, René Clement irá te convencer que o crime não compensa.

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Em “O Sol por Testemunha”, Alain Delon encarna Tom Ripley, um jovem e belo rapaz que vira amigo do rico e igualmente jovem Phillipe Greenleaf. Tom apresenta uma personalidade curiosa, que chama a atenção de Phillipe, principalmente pelas habilidades de observação de Tom, que o levam a ser capaz de até imitar a assinatura de outras pessoas com perfeição. O que Phillipe não esperava era que as artimanhas de Tom iriam se voltar contra o jovem rico.

Este é um daqueles filmes que vão te surpreendendo conforme avança a sua projeção, pois se inicia de uma forma, passa por uma mudança de 180º no meio e dali ele parte para outro ponto que sequer estava nos planos logo no começo. Não dá pra falar muito, se não estraga o filme, mas a narrativa é elaborada, com poucas ou nenhuma falha de roteiro (eu, pelo menos, não passei por nenhum momento que me fez dizer “mas se ele fizer isso e aquilo vai evitar tal coisa – no entanto, também não reassisti o filme) e que te prende de uma forma que é difícil resistir ao seu encanto.

E não é apenas a narrativa que é um prior, pois a direção de René Clement é maravilhosa também, apresentando em imagens garbosas do sul da Itália, personagens belos e muito bem apessoados. Cada frame do filme parece ter saído de um book de alguma moda masculina famosa, estilosa e absurdamente cara, mas extasiante em sua beleza, colorida, apesar de ter sido feito até mesmo antes da nouvelle vague.

A trilha sonora, regrada a jazz, dá aquele toque final que todo filme francês dos anos 60 precisa ter, angariando aquele tom “cool” e misterioso, com o qual é difícil imaginar tal história se desenrolando.

Tenho ainda que chamar a atenção para o título do filme em português: “O Sol por Testemunha” é um título brilhante, genial mesmo, que parece não fazer nada além de atribuir um certo mistério ao filme, mas faz todo sentido quando você assiste até o final. Muito melhor que o original “Plein Soleil” (pleno sol).

Enfim, “O Sol por Testemunha” é uma fantástica obra de suspense, um triller que foge a tradição dos filmes noir, mas não esquece suas raízes, surpreendendo e tirando o fôlego daqueles que se aventuram por suas águas tortuosas.

4 pontos

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Dica cinematográgica: Blade a lâmina do imortal (2017)

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Mais uma ótima adição a excelente filmografia do gênio Takashi Miike.

“Blade: a lâmina do imortal” conta a história de Manji, um samurai fugitivo que, no dia em que sua irmã é morta e ele conquista sua vingança sobre aqueles que a assassinaram, recebe a visita de uma velha misteriosa e ela insere vermes em seu sangue que o tornam um imortal. Anos depois, Rin Asano vê o próprio pai ser assassinado, também um samurai, por membros de uma gangue criminosa e sua mãe desaparece. Desconsolada, a menina encontra a velha dos vermes que o indica um guarda-costas. Esse guarda-costas é Manji e assim se inicia a trajetória da lâmina do imortal.

Não li o mangá, então não posso dizer se é ou não uma boa adaptação, mas o filme é distribuído pela Warner do Japão, a mesma empresa que distribui uma caralhada de adaptações live action bem sucedidas de mangás como Death Note e Samurai X. Posso presumir que seja uma boa adaptação, então.

Mas posso garantir que é um bom filme, embora não seja um filme para todos os gostos. Apesar de ser um filme do Takashi Miike e um filme de ação, eu acho que ele agrada mais ao público cult que curte filmes de ação como “Ran” e “Lady Snowblood”, filmes de ação, mas que exigem um pouco mais dos expectadores do que o típico filme de ação com sangue e explosões.

Há duas razões para isso, a primeira é que o filme é um drama muito pesado. Não apenas as histórias são pesadas, como a narrativa que o filme decide seguir transforma ele numa obra pesada, difícil de assistir, o que nos leva a segunda razão, que é o ritmo, incrivelmente lento para um filme do Takashi Miike. Talvez essa decisão tenha sido feita para se aproximar do ritmo do mangá, talvez para conseguir incluir todos os arcos da história original num filme de menos de 2 horas e meia... Não sei e o resultado é exigente, mas vale a pena.

As atuações são secas e eu li críticas para elas, mas acho que isso contribuiu para o ritmo arrastado do filme, para a criação da tensão e o drama de toda a história, que é trágica até o seu momento final, já deixo avisado.

A direção de Takashi Miike está sensacional nesse filme, que conta com um orçamento muito maior que os seus clássicos, mas isso não descaracteriza a direção, pois está tudo lá, tudo que amamos nos filmes do Takashi Miike, embora aqui tenha bem menos bizarrices (por uma limitação de história mesmo, afinal, se não tem no mangá, não vai ter no filme).

As cenas de ação são o ponto alto do filme, cheias de sangue, muito bem ensaiadas e totalmente exageradas, o que dá um tom épico ao filme, que começa num ponto qualquer da história de um qualquer, salta vários anos no tempo, vira uma história de vingança contra uma gangue e logo entram clãs de lutadores tradicionais, outro imortal e até o governo japonês no meio. É trágico, com toques de épico, sob as mãos de Takashi Miike... não tem como dar errado.

Enfim, “A lâmina do imortal” não é um filme fácil de ser assistido, mas vale cada momento.

4 pontos

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Dica cinematográfica: “Winners and Sinners” (1983)

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A dica de hoje trata-se de um filme chinês de 1983, dirigido por Sammo Hung, um dos grandes parceiros de Jackie Chan, também estrelado por Sammo Hung, mas com participação de outros atores mais conhecidos na China por seu trabalho em filmes de artes marciais.

“Winners and Sinners” conta a história de cinco bandidos que se tornam amigos na prisão e quando saem decidem seguir uma vida honesta, trabalhando na empresa de limpeza familiar de um deles. No entanto, por uma obra do acaso, eles acabam conseguindo a posse de uma maleta cujo conteúdo é muito requisitado por duas poderosas gangues rivais da cidade, colocando em cheque a decisão deles de seguirem uma vida honesta e, principalmente, sua amizade.

Como um filme de ação chinês da era pós-Bruce Lee, “Winners and Sinners” mescla muitos elementos cômicos, algo que foi impulsionado por Jackie Chan, que atua também nesse filme como um policial, mas não é apenas nas estrepolias elaboradas de Sammo Hung e Jackie Chan que o filme se sustenta. É também um ótimo exemplo de narrativa bem construída.

O filme começa nos apresentando todos os personagens principais, os cinco bandidos, apontando as razões por que eles foram presos e os momentos em que foram presos, o policial interpretado por Jackie Chan (e sua vida nada fácil, mas causada pelo seu jeito desleixado, como em Police Story) e os dois chefes das gangues rivais. Cada um desses personagens ganha muito tempo em tela, o que pode até cansar aqueles que resolvem assistir o filme só pela ação, já que muitas dessas cenas são movidas pelo humor, ora físico, ora verbalizado, mas sempre simples, sem malícia.

E o filme não nos deixa esquecer nenhum deles ao longo de sua projeção, pois constantemente o foco muda para algum desses personagens centrais na trama, criando uma verdadeira malha de retalhos com as histórias de cada um, gerando um todo harmônico, divertido e ousado.

A direção de Sammo Hung não é inventiva, nem mesmo para a época, mas é ambiciosa, incluindo cenas que beiram o exagero, mas animam o espectador em momentos-chave do filme, como a cena do acidente de carros protagonizada por Jackie Chan.

Enfim, “Winners and Sinners” é mais um ótimo exemplo da vivacidade e criatividade do cinema chinês, não deixando nada a desejar para os filmes antigos do Bruce Lee ou ainda os da Shaw Brothers.

4 pontos e meio

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dica cinematográfica: “The Disaster Artist” (2018)

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Filme de 2017, mas lançado no Brasil em 2018, então a dica é de 2018. Não pude verificar o que é fato e o que é ficção nessa obra, porque eu queria escrever essa dica logo após assisti-lo, então aqui vai!

“The Disaster Artist” é uma novelização ou ficcionalização do livro “The Disaster Artist: My Life Inside The Room, The Greatest Bad Movie Ever Made” de Greg Sesteros, o Mark de “The Room” (2003), relatando seu cotidiano antes, durante e um pouco depois das gravações do filme. A adaptação do livro muda algumas coisas da história real, mas já adianto, é um excelente trabalho, com uma das melhores atuações na vida de seus atores (isso é verdade, a vida é pura ironia!) e te faz pensar... Muito!

O filme é dirigido e estrelado por James Franco, um ator, diretor, produtor, etc... que se tornou, seguramente, um dos maiores nomes do New Sincerity em Hollywood atualmente. Para aqueles que não estão familiarizados (e eu não te culpo por isso), o New Sincerity é um movimento artístico bem underground que surgiu lá em meados dos anos 2000 como uma resposta aos movimentos sociais e artísticos dos anos 90, em especial o pós-modernismo e sua onda de ironia que varreu as produções artísticas norte-americanas e hoje se encontra em toda parte. Encurtando a história, é um movimento que surgiu espontaneamente na mente de várias pessoas e logo ganhou forma e até um manifesto e sua base é a de louvar aquilo que eles gostam de maneira sincera, por mais ridículo ou estranho que seja. Seus defensores dizem que é um movimento de inclusão, pois por mais bizarro que seja o seu gosto, ele tem um espaço cativo entre os aderentes do New Sincerity, pois o importante é você ser sincero, inclusive consigo mesmo. Particularmente, eu não gosto do New Sincerity, porque eu acho que tudo tem limite, tudo bem você gostar de coisas estranhas, mas mesmo essas coisas devem respeitar um alinhamento com a realidade, se você é um cara com mais de 20 anos que gosta de um desenho feito para crianças do sexo feminino, existe alguma coisa dentro de você que não está alinhada com a realidade (atente-se ao uso de realidade e não sociedade! É simplesmente algo que precisa ser revisto), mas o New Sincerity aceita isso e usa isso como uma forma de exaltar o alcance de seu movimento.

Eu concordo com a parte da ironia, mas acho que tudo tem limite.

E um dos limites que eu gosto de falar é o limite da arte, pois a arte não é algo inclusista, muito pelo contrário, é algo exclusivista, é algo para poucos. Talento é algo raro e aqueles que não o tem, devem trabalhar duro pra conseguir fazer o que fazem, vide Goethe e Schlegel, por um momento na história ambos foram colocados lado a lado e hoje são considerados parte da cultura clássica alemã, com uma diferença, Goethe era considerado abençoado por Deus, ele tinha o talento divino e escrevia muito bem sem o menor esforço, já Schlegel não tinha o talento, mas tinha a perseverança que o fazia trabalhar muito para escrever aquilo que Goethe fazia sem suar. O resultado é claro, Goethe é conhecido por todos no mundo todo, Schlegel é relegado aos estudiosos da academia, porém ambos sobreviveram ao tempo, ambos são elementos definitivos de um momento histórico que não pode ser compreendido sem a presença de ambos.

Deu pra entender que um não é menor que o outro?

E isso é arte, então eu não pude deixar de chacoalhar a minha cabeça quando a primeira cena do filme é um conjunto de atores, diretores, produtores e roteiristas bem conhecidos do público falando bem de “The Room”, exaltando Tommy Wiseau como se ele fosse um gênio. Não, ele não é e, por ironia (olha só, voltamos a ironia) todos apresentados nessa primeira cena são conhecido por seu trabalhos de comédia, gênero este que é o que mais sofreu com o grande advento da ironia na segunda metade do século 20, transformando suas obras, que sempre serviram ao relaxamento, em grandes críticas sociais cerebrais que mais cansam do que fazem rir.

Essa exaltação de Tommy Wiseau como um grande gênio da arte de fazer cinema ruim é apenas negativa e menospreza o que é arte, de verdade, no entanto o filme, de maneira não intencional, eu diria, dá um giro de 180º nessa perspectiva e vai para o outro lado da moeda, mostrando a enorme falha que T. Wiseau é, de fato, não só como artista, mas até como pessoa. Algo que é discutido no final do livro de G. Sestero, uma meditação sobre os perigos de se perseguir os seus sonhos de maneira incondicional, um momento fácil de se encontrar no Youtube na forma de audiobook.

https://www.youtube.com/watch?v=pXSvfJzshfw

E isso torna o filme uma obra difícil de assistir, pois tudo o que T. Wiseau fez ao longo de toda essa trajetória como diretor, produtor, ator e roteirista do Melhor Filme Ruim Já Feito foi perseguir o seu sonho artístico. O começo da cena final é pesado e apesar de ser simples, surge na tela carregado de emoção e te faz pensar... Faz pensar, principalmente se você for um dos muitos escritores, atores, diretores, artistas que não conseguiram correr atrás do seu sonho, que não tem o talento ou a perseverança pra criar algo que seja eterno. É algo que fala conosco (os artistas fracassados) de uma maneira visceral, simples, porém honesta e é pela sua honestidade que ele nos captura, nos faz pensar e se emocionar, apesar de toda a história real ser patética.

Convenhamos, T. Wiseau é apenas um cara sem talento, com uma ambição fraca, mas com muito dinheiro e se há um defeito no capitalismo é esse, ele dá voz demais ao dinheiro e qualquer besta quadrada com o bolso cheio pode fazer algo grande, ainda que medíocre, mas grande o suficiente para ser notado e viver na memória coletiva por mais de 10 anos.

Acho que nessa altura do campeonato é impossível existir algum cinéfilo que não tenha, ao menos, ouvido falar de “The Room” e ouso dizer que a maioria dos cinéfilos no mundo já assistiu, ainda mais os que gostam de uma trasheira, embora “The Room” seja ruim até para uma trasheira.

Ao final, “The Room” é artificial, fraco e se há motivos para rir nele, esse motivo não é intencional, o que o torna digno de pena, mas “The Disaster Artist” faz com que sintamos até uma pontada de respeito por T. Wiseau, desmascarando o gênio, que vestiu essa armadura que criaram para ele como uma forma de sobreviver ao ambiente inóspito de seu próprio planeta.

4 pontos e meio