terça-feira, 3 de maio de 2016

Dica literária: "House of Leaves" de Mark Z. Danielewski (2000)

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"House of Leaves" é um livro que eu queria ler há muito tempo, acho que desde 2009, sempre na esperança de que alguma editora fosse publicá-lo por aqui, mas isso nunca aconteceu. Este ano, tive a oportunidade de comprá-lo e desde que ele chegou ficava me assombrando da escrivaninha. Quando terminei de ler "Kafka à beira-mar", passei por cima de todos os livros que tinha empilhados para ler e comecei a me aventurar por "House of Leaves".

O livro é uma história dentro de uma história dentro de outra história. Conta a trajetória de Johnny Truant, um jovem a procura de um apartamento, que recebe uma dica de seu amigo Lude de um apartamento perto de um velho meio caduco chamado Zampanò. Após a morte do velho, Johnny descobre no apartamento dele um manuscrito que é, na verdade, um estudo acadêmico de um documentário chamado "The Navidson Record". A história, sendo tão interessante, chama a atenção do rapaz, apesar dele nunca ter achado evidência de sua existência. O tal "The Navidson Record" é um documentário feito por Will Navidson, um fotojornalista que se muda de Nova Iorque para Virgínia, com sua esposa Karen e seus filhos, Chad e Daisy. Inicialmente, Will espalha câmeras pela casa para documentar sua mudança e como sua família se adaptaria na nova casa, também para não se afastar demais de seu trabalho. No entanto, as coisas começam a ficar estranhas quando ele descobre que o espaço interno da casa é maior que o espaço externo, portas começam a surgir nos corredores e um corredor infinito surge, levando para lugar nenhum, a não ser um labirinto onde nenhuma luz atravessa.

Como dá pra notar, o livro não segue uma estrutura comum, com um layout totalmente não convencional, sendo descrito na wikipédia como um exemplo primoroso de "literatura ergódica" (seja lá o que isso quer dizer). Assim como "Graça Infinita""Graça Infinita", suas notas de rodapé, contém outras notas de rodapé, que podem levar também para os Apêndices, com suas próprias histórias e narrativas que elucidam pequenos detalhes que podem ou não auxiliar a trama principal. Além disso, o texto principal (o estudo acadêmico de Zampanò) é é recheado de citações para filmes, livros, músicas e peças de teatro que, em sua maior parte, sequer existem. Algumas páginas contém apenas algumas palavras organizadas ao longo da página para acompanhar os eventos que acontecem na história (por exemplo, uma palavra se localizar em cima da outra como uma escada ascendente).

Sendo escrito como um estudo acadêmico, ele explora uma faceta meio obscura da personalidade dos leitores de hoje em dia, que é a de achar a resenha ou o review da obra mais importante que a obra em si, o que é um puta soco no estômago e nos faz pensar no modo como lemos e consumimos literatura, no entanto, é também o principal recurso para engrandecer a obra.

É um livro que dá certo trabalho para ler e requer perseverança do leitor (talvez essa seja a maior característica da literatura ergódica), mas ao final, vale muito a pena. O que começa como uma história de horror com um nível Pinchoniano de paranoia se torna uma lição sobre sobre amor, perseverança e paixão, me arrepiando só de pensar, fazendo as horas de esforço para compreender e entender a leitura valerem muito no final.

Concordo com muitos que dizem que este é um livro muito difícil de ser adaptado para os cinemas, mas não impossível, só daria muito trabalho para quem fosse se atrever a fazer isso e a adaptação perderia um pouco do poder que o livro tem. Também acho muito difícil que uma editora traga ele para o Brasil, pois ele contém fotos coloridas no meio dele, a palavra "casa" é sempre azul e quando algum trecho faz menção ou se relaciona com o imaginário de um labirinto, todo esse trecho é vermelho e tudo isso poderia ser excluído da versão final, mas deixaria uma lacuna grandiosa e essencial para o entendimento da obra ao final.

Enfim, "House of Leaves" é um livro complicado, complicado de ler, de entender e de achar no Brasil, mas deixe ele na sua lista de comprar futuras para quando tiver a oportunidade de comprá-lo, por que eu tenho certeza que você não irá se arrepender de lê-lo.

5 pontos

domingo, 1 de maio de 2016

Dica musical: "White Hot Moon" de Pity Sex (2016)

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Pity Sex é uma banda de Michigan de rock com uma pegada meio noise e uns acordes melódicos, que confundem a cabeça de qualquer um que queira enquadrá-los em algum gênero. Pra piorar a banda tem dois vocalistas que também são guitarristas, um homem e uma mulher, que dividem os vocais em quase todas as músicas.

"White Hot Moon" é o segundo álbum de estúdio deles, seguindo na mesma pegada do primeiro CD, um som mais melódico, porém com uma pegada meio noise, vocais divididos e letras bem pessoais.

Aqui, as letras fazem, diversas vezes menção a lua, relacionando isso com um relacionamento amoroso. Tudo muito romântico, tão romântico que dá vontade de vomitar arco-íris. As letras acabam sendo um pouco piegas, mas o legal da banda é que eles sabem disso, até ironizando todo esse romantismo em versos aqui e ali ao longo do álbum.

Musicalmente, eu sempre considerei esse estilo musical meio limitado e o Pity Sex não é exceção à regra, não há grandes variações rítmica ao longo do álbum, no entanto "White Hot Moon" ainda é o álbum com a maior variação rítmica da curta carreira da banda, mostrando que eles estão, sim, crescendo e evoluindo, o que é um ponto muito positivo.

Enfim, "White Hot Moon" não é um álbum fantástico, mas é muito legal de se ouvir, as letras são boas e eles estão conseguindo evoluir o estilo musical deles, valendo a escutada.

3 pontos

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Dica cinematográfica: "Rua Cloverfield 10" (2016)

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Post tardio, mas antes tarde do que nunca, afinal, eu não podia deixar a oportunidade de falar desse filme passar.

"Rua Cloverfield 10" é a continuação "espiritual" de Cloverfield, de 2008, um dos melhores filmes da década passada, na minha opinião, um filmaço.

No entanto, "Rua Cloverfield 10" não tem relação alguma com "Cloverfield", o que inicialmente é um ponto negativo, mas falaremos disso depois.

Vamos a sinopse: uma jovem sofre um acidente na estrada a caminho da casa do seu namorado (eu acho) e acaba indo parar num bunker construído por um maluco conspiratório que diz que alienígenas marcianos invadiram a Terra. Desconfiada da história, ela tenta descobrir uma forma de se libertar daquele lugar, ao mesmo que descobre aos poucos, verdades pouco agradáveis sobre seu suposto salvador.

O filme ainda conta com outro jovem, que proporciona momentos engraçados ao longo do filme, um dos poucos momentos de relaxamento da película, que, assim como o último Godzilla, é um filme de construção do suspense. A tensão é mantida do começo ao fim e mesmo nas horas em que os personagens respiram e relaxam, há uma certa tensão escondida, algo que te deixa inseguro e apreensivo pelo que vai acontecer em seguida. John Goodman é um excelente ator para isso, que tem um porte físico assustador, ao mesmo tempo que tem um rosto meio infantil e que inspira confiança. Seu papel aqui lembra um pouco o seu papel em "Barton Fink".

Ainda assim, o filme não deixa de ser um baita de um "caça-níquel". A história por trás do filme, contada nessa página do Reddit em detalhes é que o roteiro desse filme é um desses roteiros que os estúdios compram e deixam em seu catálogo para qualquer diretor ou produtor pegar quando quiser. Seu roteiro original não tinha nenhum alienígena e seria apenas um thriller de suspense que não agradou muita gente pela sua simplicidade e até obviedade. Então entra o J.J. Abrams, que já tinha uma ideia de fazer um segundo filme de Cloverfield, mas não sabia como construir essa história e aí ele decide criar uma nova forma de franquia. E aí está o problema, além do nome, poucas coisas se relacionam entre os dois filmes, o nome da rua onde o bunker se encontra é Cloverfield e só sabemos disso no finalzinho mesmo. Nós nem sabemos que o monstro de Cloverfield é um alienígena pra poder se relacionar com os alienígenas de Rua Cloverfield, que, inclusive, um lembra um cachorro e outro um monstro de chtulhu, sem relação alguma com a aparência do monstro do primeiro filme.

Ainda assim, "Rua Cloverfield 10" é um bom filme, a tensão construída ao longo do filme é exemplar, seu aspecto técnico é primoroso, a trilha sonora trabalha em conjunto com as imagens para criar a tensão e o suspense que te prende do começo ao fim, os mistérios criados ao longo do filme são instigantes e até perturbadores, te fazendo sentir até um pouco de raiva e o final é, literalmente, explosivo, no melhor sentido da palavra. Enfim, o filme funciona e acaba sendo bom, o que até mudou minha concepção de "filmes caça-níqueis", que perdeu um pouco seu sentido pejorativo para mim, afinal, se feito direito, pode impressionar e divertir, ao mesmo tempo.

Claro que os créditos também vão para as campanhas desse filme, que esconderam sua existência até pouco tempo antes do seu lançamento, o que pode segurar um pouco as reações negativas do filme, evitando um possível boicote ou algo assim. Uma campanha de marketing parecida com a campanha de "Cloverfield", mas sem todas as teorias conspiratórias legais e o hype maneiro.

Enfim, "Rua Cloverfield 10" vale a pena, é um puta caça-níquel malandrão, mas vale a pena, pois impressiona, te manterá preso na cadeira do cinema ou no sofá de casa em toda a sua projeção e nem é tão longo assim.

4 pontos

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Dica musical: "Tiny Dots Soundtrack" de La Dispute (2016)

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Após o lançamento do ótimo documentário "Tiny Dots", a banda La Dispute lança a trilha sonora para o documentário, num belo trabalho de estúdio, expandindo seus horizontes musicais ao mesmo tempo em que agracia os fãs mais ferrenhos da banda.

"Tiny Dots" (o qual não tem dica aqui, por que eu sou um burro) foi um projeto no qual a banda se concentrou após o lançamento de Rooms of the House e durante as gravações de uma apresentação ao vivo numa igreja. O filme, que contaria apenas um pouco do processo de criação do álbum, acabou crescendo e virou um documentário sobre a história da banda, do processo de criação do álbum, da saída de Kevin Whittemore e os caminhos que eles gostariam de seguir dali pra frente, culminando com uma apresentação ao vivo na "All Saints Church", em Kingston, Reino Unido, apoiando uma associação beneficente.

Ao longo do documentário é possível ouvir algumas músicas, a introdução ao show é uma canção bem interessante também, mas não dá pra saber que são músicas do La Dispute, propriamente ditas, principalmente por soarem tão diferentes, são canções mais eletrônicas, puxando mais pelo lado da vertente ambient, com sons que se arrastam longamente e nenhuma batida para "animá-las".

Essas canções e talvez até mais, talvez menos (todas elas são nomeadas com letras do alfabeto, de A a G, mas falta a letra F) estão contidas no lado A do vinil lançado na Record Store Day, que foi nesse sábado. O lado B conta com algumas canções apresentadas no show deles na igreja, as favoritas deles e, realmente, as melhores daquele show (embora, todas as canções apresentadas sejam bem boas).

A trilha sonora de Tiny Dots, então, se apresenta como um relaxamento para a banda, uma forma de espairar as ideias e apresentar aos fãs alguns novos sons, apesar de não conter nenhuma música nova, mostrando o quão versátil e talentosos os caras do La Dispute são.

Escute apenas.

5 pontos

domingo, 17 de abril de 2016

Dica literária: "The Tipping Point" por vários artistas (2016)

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Fabrice Giger, desde criança, foi um fã de quadrinhos, no entanto, em 1974, enquanto acompanhava sua mãe fazia as compras, viu na prateleira de livros "Delirius" de Phillipe Druillets (perdoe-me se o nome estiver errado) e sua mente explodia com as elaboradas cenas de batalha e seu toque futurista. Sua mãe não comprou o livro para ele, dizendo que ele era muito novo para essas coisas (talvez até fosse mesmo), mas, como ele mesmo diz no prefácia de "The Tipping Point", a semente já estava plantada. À partir daí ele se tornou fã de artistas como Moebius e Dionnet, além de revistas como "Heavy Metal", voltando sua atenção sempre para artistas que procuram construir suas carreiras num campo de trabalho que não seja regido por grandes editoras buscando dinheiro em gêneros pré-estabelecidos, trabalhando com mais liberdade e, se der, quebrando paradigmas, misturando gêneros e até criando algo inédito, de vez em quando. Aquele dia em 1974 foi o seu momento crítico (seu tipping point). Para celebrar os 40 anos da editora Humanoids, 14 artistas diferentes do mundo inteiro foram convidados para explorar, através de histórias curtas, momentos críticos, pessoais ou não, da maneira como quisessem.

O livro conta com a participação de nomes de peso como Taiyo Matsumoto, Atsushi Kaneko, John Cassaday e Paul Pope, só para citar aqueles cujo trabalho eu já conhecia e admirava. Outros nomes não conhecia, mas chamaram a minha atenção, como Keiichi Koike, Naoki Urasawa e Emmanuel Lepage.

Alguns como Emmanuel Lepage, exploram momentos críticos de suas vidas pessoais (no caso, a descoberta de sua sexualidade), outros como Atsushi Kaneko e Keiichi Koike criam momentos críticos para os seus personagens explorados nessas curtas histórias e outros, como Taiyo Matsumoto criam momentos críticos metalinguísticos para levar o leitor a sentir, ao menos uma fração, aquilo que eles sentiram quando passaram pelo momento crítico de suas vidas.

O livro é uma verdadeira obra de arte contendo desde a arte minimalista (presente na história de Eddie Campbel) à artes mais elaboradas e detalhistas (como a Keiichi Koike e Bob Fingerman). É um compêndio excelente e impressionante apenas pela arte, mas seus artistas são realmente talentosos, criando momentos críticos que variam do drama mais profundo, passando por reflexões intensas, outras mais singelas até o humor, às vezes ácido, às vezes pastelão.

"The Tipping Point" acabou de ser lançado e pode ser adquirido em formato digital pelo site oficial e outras empresas menos legais por aí, valendo muito a pena. Eu não consegui achá-lo de forma "ilegal", mas acho que é por que é algo muito recente, realmente, mas logo logo deve figurar nas prateleiras do livro do ultra.

Enfim, leiam "The Tipping Point", uma experiência única.

5 pontos

domingo, 10 de abril de 2016

Dica musical: "Everything You've Come To Expect" do The Last Shadow Puppets (2016)

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E para a alegria geral de todos aqueles com bom gosto musical, o TLSP lançou seu tão aguardado segundo álbum (uma afirmação a qual eu tenho algumas ressalvas) e o trabalho, como já era de se esperar, não decepciona.

Muito especula-se sobre esse álbum, algumas críticas se atêm às personas de Miles Kane e Alex Turner (contestáveis desde alguns anos atrás, a de Turner desde de Sick it and See), sobre se eles conseguiriam apresentar algo "novo" através desse álbum e sobre a expectativa em cima desse projeto, mas todas essas críticas são infundadas, primeiro, por que as personas que os dois amigos assumiram são contestáveis e tal, mas isso não vem de hoje, veja as críticas feitas anos atrás dos últimos lançamentos dos dois e verá que ninguém se atentou a isso. Eu vejo essa crítica como um oportunismo sacana para esconder uma falta de talento do jornalista responsável pela crítica. Segundo, o álbum não tenta apresentar nada "novo", assim como o primeiro registro do projeto dos dois e por último, mas não menos importante, "The Age of Understatement" foi um marco, de fato, um CD excelente, mas sempre foi um projeto alternativo, algo que nenhum dos dois amigos considerava urgente, nem primário em sua lista de prioridades, então, eu mesmo, nunca esperei um segundo CD do TLSP com ansiedade, mas fiquei muito feliz com a notícia de seu lançamento.

Esclarecido esses pontos, vamos à crítica. O álbum é muito bom, continuando com aquela sonoridade mais pop, porém sofisticada, lembrando uma trilha sonora de algum filme 007 ou cantores britânicos de música pop dos anos 60 e 70, no entanto, dessa vez, eles assumem uma pegada mais vibrante, fazendo jus ao nome de Isaac Hayes, dito como principal influência dos dois amigos nesse segundo álbum. Algumas de suas canções conseguiriam caber fácil num filme blaxploitation, outras ainda conseguiriam se encaixar num filme do 007 e "Used to be my girl" parecia ter saido direto de Suck it and see.

A primeira música, "Aviation" poderia se encaixar fácil no primeiro álbum, mas logo pelo seu começo, com os violinos estridentes, marcando um tom meio sombrio, quase de filme de horror ao longo de toda a projeção da canção, já sinalizam que este é um álbum diferente, a continuação de uma trilogia, cuja terceira parte eles queriam fazer antes da segunda (o que me deixou pensando, este é a terceira parte ou a segunda? Se for a segunda, perfeito, mas não soa como uma conclusão, de forma alguma, o que daria a entender que a terceira parte já está montada, ao menos na cabeça deles ou em alguns rascunhos em suas casas).

Dessa forma, o álbum apresenta-se de maneira muito excitante e surpreendente aos nossos ouvidos, perdendo um pouco do fôlego apenas no final mesmo, quando Alex Turner parece chamar a responsabilidade para si e toca as duas músicas mais chatas do CD para finalizar com chave de tédio.

Miles Kane, o artista mais subestimado da história recente, está como de praxe, excelente neste álbum. É notável o momento em que sua guitarra entra em ação, estridente e forte, além é claro de assumir os vocais várias vezes, assim como no primeiro CD, mostrando que é tão talentoso quanto Alex Turner, talvez até mais.

Em relação às letras, elas são simplesmente fenomenais. Alex Turner, como ótimo liricista que é, cria descrições fantásticas para coisas ordinárias que sequer notamos, usa metáforas e figuras de linguagem como ninguém, criando letras poéticas ao extremo, tudo isso, usando termos dos mais diversos, até mesmo científicos para suas composições. O único ponto negativo, apontado em uma entrevista por Turner, mas sem a conotação negativa que eu acho que tem, é que eles se preocupavam menos em contar histórias com este CD, então as músicas parecem meio soltas, enquanto que no primeiro álbum elas, realmente, pareciam conectadas.

Além disso, toda a produção do álbum está muito boa, com um conjunto de cordas muito bom, que encaixa perfeitamente na temática do álbum todo, sem ofuscar os vocalistas e suas composições roqueiras.

Enfim, TLSP não decepcionou, criando a continuação perfeita para a sua "trilogia", com seus altos e baixos, Alex Turner e Miles Kane criam mais um marco na história da música, que tende só a crescer conforme escutamos mais e mais este CD.

4 pontos e meio

 

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dica musical: "Loose Grip" de Jamie Isaac (2016)

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Essa é mais uma daquelas dicas que não falam propriamente de um álbum, mas seu conteúdo é tão interessante que vale a pena ser comentado no blog.

Jamie Isaac é um música londrino de uns 20 e poucos anos, um cara que eu achava que já era um velho conhecido do blog por causa de um EP que ele lançou há uns dois anos, mas eu não indiquei-o por aqui (falha minha). Ele é do mesmo grupo de amigos do Archy Marshall, esse sim, já velho conhecido do blog pelo seu trabalho mais recente, mas cujo trabalho sob as alcunhas de King Krule (com um banda formada por alguns amigos seus de Londres) e Edgar The Beatmaker (fazendo beats, lógico) e como tal, Jamie Isaac também é um artista de neo-soul, só que muito menos influenciado pelo rap/hip hop como seus colegas da cidade, seguindo por uma trilha mais melódica, até melancólica e nostálgica, no entanto com um pé no futuro, utilizando como base para suas canções música eletrônica.

Não foi surpresa quando ele anunciou que seu próximo trabalho seria uma mixtape de remixes feitos por seus amigos de canções do seu EP. O trabalho, em si, não apresenta nada de novo, apenas variações de músicas já existentes, músicas boas por sinal.

Mas a cereja do bolo é a lista de colaboradores, pessoas que fizeram as expectativas de muitas pessoas crescer quando o King Krule estourou no mundo da música indie, como esperanças para um novo estilo de música a surgir. Logo após o lançamento do álbum de estreia de King Krule, Archy Marshall lançou um EP sob a alcunha de Edgar The Beatmaker, dando espaço para uma porrada de amigos seus rimar em cima de suas batidas. Além disso, a participação do ruivo londrino no programa "Sicknotes radio", comandado por alguns de seus amigos, ao lado de Rejjie Snow apenas aumentou as expectativas de todos, com as esperanças de um CD de Rejjie, que está levando uma vida para sair. Um grupo de jovens, talentosos, bebendo de referências muito boas, misturando gêneros musicais como numa batida muito gostosa foi algo que alimentou as esperanças de muita gente.

No entanto, o King Krule não deu sinal de lançar um CD tão recente, preferindo seguir por um caminho mais eletrônico com um projeto ousado e completamente diferente do que esperávamos. O que já é mais do que o Rejjie Snow fez, que até lança alguns clipes musicais aqui e ali, mas seu CD nem dá sinal de que um dia irá existir. Jamie Isaac lançou um EP de 4 músicas. Ragofoot aparentemente continua trabalhando, por que está falido como uma piada. A Sicknotes Radio acabou, mas o Benji B conseguiu o seu próprio programa na BBC Radio 1. MC PINTY até que lançou um CD ano passado de hip hop com batidas minimalistas, provando que ele é muito bom nas rimas, mas não chamou tanta atenção assim na época de seu lançamento. Jadasea é difícil lembrar que existe.

E todos esses caras, com exceção do Benji B, voltam para essa mixtape de Jamie Isaac e isso é sensacional. Rejjie Snow está muito bem na gravação que faz para a música de abertura. Jadasea volta produzindo o segundo remix. Archy Marshall volta como Edgar The Beatmaker, remixando 2 canções, mostrando, infelizmente, que continua seguindo por caminhos mais eletrônicos minimalistas e soturnos, criando as duas canções mais tediosas do trabalho. Ragofoot volta ao lado de Jesse James e MC PINTY cria um interlúdio memorável como um dos melhores momentos do álbum. Outros remixes ficam por conta de JJ e Mr. Malarky.

Todos eles adicionam suas marcas para o trabalho original de Jamie, mas a espacialidade, os toque jazzísticos e melancólicos continuam presentes, para você não se esquecer de que esse ainda é um projeto de Jamie Isaac.

Um projeto muito bem sucedido, por sinal.

4 pontos

sábado, 2 de abril de 2016

Dica musical: "CULT" do the caulfield cult (2016)

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Eu não sei que tipo de culto esses caras estão participando, mas eu sei que não é um que eu quero participar assiduamente.

Ontem, o the caulfield cult, banda que figurou por aqui lançou o seu novo trabalho de estúdio, um álbum completo com 11 canções, continuando com suas guitarras desritmadas, cheias de energia e letras introspectivas.

No entanto, diferente do último EP, este álbum reúne canções com letras ainda mais introspectivas, muito tristes, de verdade, debatendo temas que geralmente giram em torno de relacionamentos amorosos falidos, mas também abordando depressão, raiva, ansiedade, abandono, solidão, enfim... é um poço de tristeza esse álbum.

No entanto, eu acredito que há beleza na melancolia, já demonstrada através de tantas músicas, filmes, livros e pinturas, e para o meu gosto pessoal, esse CD até que é bem maneiro. Uma única ressalva que fica é em relação a quantidade de músicas, são 11 canções, mas poderiam ser bem menos. As 3 primeiras canções mesmo poderiam ser uma só, não apenas por serem curtas, mas por não serem tão diferentes ou se destacarem tanto assim uma da outra.

Acho que um dos problemas para isso é o fato do vocalista ser também o produtor do álbum, então eles não contam com uma opinião diferente diretamente na produção das canções, o que acaba gerando um resultado mais heterogêneo, fiel ao que o vocalista e provavelmente escritor de todas as canções pensou num primeiro momento, mas uma segunda opinião é sempre muito bem vinda, se apresentar resultados positivos.

Fora isso, o álbum é sólido, mantendo um ritmo mais lento e deprimente no começo para um crescendo, ganhando vitalidade e explodir no final com as últimas 3 canções (as melhores, para mim).

Custando apenas 5 dólares no bandcamp deles, "CULT" é um álbum legal, não decepciona se você gosta do gênero, valendo a pena o investimento.

3 pontos e meio

sexta-feira, 1 de abril de 2016

E o final de "Durarara!!"? Valeu a pena?

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Não, simplesmente não valeu pena.

Continuo mantendo as críticas que fiz no post sobre o segundo arco dessa segunda temporada de "Durarara!!": história bagunçada e animação fraca são os elementos que mais incomodaram nessa segunda temporada e, ao chegarmos ao final da série, o gosto ruim na boca que fica é disso aí.

O arco de história da Celty, por exemplo, é confuso. Os discursos das personagens envolvidas no arco são ininteligíveis e desconexos. A Celty, que era uma das personagens mais legais, simplesmente deixa de ser. Sua entrada triunfal, não tem nada de triunfal, sua saída, nem se completa. Eu entendo que muita gente gosta do romance dela com o médico, mas o final é piegas. A série mesmo diz que é uma história de amor doente, então por que mantê-la?

O arco de história do Minato é ridículo de tão nonsense, simplesmente não faz o menor sentido o seu final. Eu entendo que o personagem estava sendo usado e tal, mas a solução que deram foi fácil demais, simplesmente ridícula.

E o arco de história do Shizuo contra o Izaya é simplesmente decepcionante. O melhor personagem da série não tem o final digno que merecia e a morte mais esperada por todos (a morte do Izaya, o personagem mais odiável da série) não acontece.

Ou seja, toda essa segunda temporada não valeu de nada, por que o status quo se manteve e o pior é que isso é apresentado na série como algo bom, como se manter o status quo fosse algo legal.

Enfim, a segunda temporada de Durarara!! não valeu a pena, de forma alguma. Eu ainda não reassisti a primeira temporada (que é um dos meus animes favoritos) pra saber se minha opinião com a série mudou depois dessa segunda temporada ridícula, mas talvez eu faça isso, ou não, talvez, muito pelo contrário...

Nota: 0, não assistam essa bosta.

quinta-feira, 31 de março de 2016

Dica televisiva: "Boku Dake Ga Inai Machi" (2016)

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Muito bem, chega de enrolar, vamos pular todo o blá-blá-blá de como essa indústria (de animes e mangás) está fadada a uma morte lenta, gradual e dolorosa e falar de Boku Dake Ga Inai Machi, um dos melhores animes dos últimos anos.

Boku Dake Ga Inai Machi foi um mangá serializado entre 2012 e 2016, mas hoje eu irei falar do anime que estreou em janeiro deste ano e terminou semana passada. Trata-se de uma história de suspense seinen de Satoru Fujinuma, um desenhista de mangás que não consegue emplacar uma história sequer em alguma revista japonesa e que também tem a habilidade de voltar no tempo alguns momentos antes de alguma tragédia acontecer e assim ele consegue evitá-la. Tudo se complica quando, após o assassinato de sua mãe, ele volta no tempo 18 anos, numa época em que ele ainda era um estudante do ensino fundamental, dando a ele a oportunidade de prever um sequestro que culminou na morte de três crianças da sua idade.

O anime foi dirigido por Tomohiko Ito, um cara que é bom ficar de olho, pois tem um currículo promissor, começando como assistente de diretor em Death Note e trabalhando em um monte de séries meia boca, mas que me chamaram a atenção num primeiro momento pela qualidade de sua animação e me desanimara pela história, como Swrod Art Online, mas que, com essa série, está se provando ser um diretor foda.

Para começar, há um monte de camadas a serem desconstruídas nesse anime. De elementos mais óbvios como a voz da consciência de Satoru se misturando com a sua voz de criança, passando por alguns elementos que você precisa prestar atenção para notar (a cor vermelha sempre presente quando algo ruim de verdade está para acontecer e por que você pode ficar despreocupado quando a casa de Airi começa a pegar fogo no episódio 5), até elementos que só um olhar muito técnico notaria (em algumas cenas quando criança, o diretor faz o uso de widescreen para mostrar o quanto o mundo de Satoru, quando criança, parecia amplo antes dos acontecimentos trágicos). Tudo isso agrega um valor artístico muito forte à série, algo que é difícil de achar até mesmo nas melhores séries de animes (mesmo Cowboy Bebop, Samurai Champloo, Death Note e Fullmetal Alchemist, que são facilmente consideradas as melhores séries de anime por aí, você não encontra elementos tão distintos escondidos para ajudar a narrativa, elas são louváveis por outros pontos que Boku Dake Ga Inai Machi nem passa perto).

Mas é claro que só isso não sustenta uma série, afinal a história ainda está aí para atrair a nossa atenção. Boku Dake Ga Inai Machi é um thriller de realismo fantástico, por motivos bem óbvios. Como um thriller, seus personagens não podem contar com a sorte, mas sendo uma obra de cunho fantástico, a sorte pode nos ajudar sim, no entanto, isso não se faz presente em todos os momentos da obra, até por que, se isso acontecesse, sua narrativa perderia todo o valor e propósito. A narrativa é muito bem construída, o suspense é crescente e o mistério a ser desvendado, realmente é labiríntico, você se perde no meio dele tentando achar o culpado. Eu li e vi falaram por aí que o culpado é bem óbvio, mas não acho que ele é facilmente identificável desde o começo da série (há uma cena que muitos usaram para exemplificar isso, mas a desculpa que ele deu, acho totalmente válida, vai ver eu acredito demais no bem das pessoas). Sua culpabilidade fica mais evidente do episódio 10 em diante, eu diria. Isso é mérito do mangaká, que escreve e desenha o mangá e a história é dele, não do diretor, o que é um ponto a menos para o Tomohiko, mas eu acho que a questão é dar um bom trabalho pro cara, que ele sabe o que fazer com ele.

O final conta com um elemento meio deus ex machina, mas eu acho que não tinha outra escapatória mesmo, era aquilo ou o final seria bem decepcionante, no entanto, não deixa de ser realista, o culpado, no tempo em que a história se segue (após tantas viagens no tempo) não é culpado de nada (ele não cometeu nenhum crime) e o único erro que ele cometeu foi uma tentativa de homicídio que não deu certo.

No entanto, o final também acaba sendo muito interessante, também cheio de camadas, que eu mesmo não captei em sua totalidade, mas digo que valeu muito a pena.

Enfim, Boku Dake Ga Inai Machi é um anime com uma história intrigante, animação impecável, muitas camadas a serem analisadas e um final satisfatório. Faltou comentar que sua música de abertura é muito boa, sua trilha sonora não se destaca além da série, mas funciona perfeitamente dentro dela e a música de encerramento é chatinha como toda música de encerramento de anime.

4 pontos e meio

quinta-feira, 24 de março de 2016

Dica musical: "Live at Audiotree" do Tigerwine (2016)

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Essa dica é meio incomum, pois se trata de uma apresentação do Audiotree Live, que nada mais é que um programa de rádio online onde bandas novas são apresentadas, conheci muitos bons artistas através deles (La Dispute, Balance and Composure, Now Now, pra nomear alguns) e sem essa apresentação não teria conhecido o ótimo trabalho dos caras.

Tigerwine se define como uma banda de rock que tem a ambição de ser a banda mais barulhenta da história e parecem estar no caminho certo. Ano passado, lançaram o seu primeiro trabalho, um EP com 5 canções muito boas, guitarra e baixo distorcidos e pesados pra caramba, um baterista com excelente senso de ritmo, se destacando em todas as canções e letras críticas, inspiradas no seu passado mais tradicional (eles cresceram numa comunidade tradicional dos EUA e dizem que isso influenciou o seu senso crítico).

Na apresentação ao vivo, podemos notar o alto nível de excelência que assumem em seus instrumentais, mas o vocalista deixa um pouco a desejar, principalmente no final, quando vai perdendo o fôlego, o que é facilmente disfarçado em seu EP de estreia; "Lull". As 5 músicas do EP são cantadas nessa apresentação, numa ordem diferente da apresentada no trabalho original, o que gera uma certa dicotomia agradável entre os dois trabalhos, como se um completasse o outro.

A apresentação inteira está disponível para ser ouvida aqui, com vídeo para a música final e custa só algumas doletas pra comprar e garanto que vale a pena comprar, por que a Audiotree repassa metade do dinheiro diretamente para o artista, sem passar por nenhum patrocinador ou produtor ganancioso, o que é sempre muito bem-vindo na era em que vivemos.

3 pontos e meio

quarta-feira, 23 de março de 2016

Dica musical: "Low" de P. Morris (2016)

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P. Morris é um produto musical e beatmaker de não-sei-onde (sim, eu não sei, por que encontrei ele através de um site musical do Reino Unido, mas a gravadora pela qual ele lança seus CD's é da Califórnia e não pude encontrar nenhuma informação pessoal pelas suas mídias sociais) que acaba de lançar esse EPzinho de 5 músicas apenas, mas que acaba valendo muito a pena.

O EP chamado de "Low", acompanhando de uma arte obscura em preto e branco, além de uma frase bem curiosa, para dizer o mínimo em seu bandcamp ("Deus fez a terra, a terra não machuca"), começa de maneira bem suave, com vários trompetes sobrepostos, criando uma atmosfera obscura, porém agradável de jazz, o tipo de música que você deixaria tocando numa madrugada solitária.

À partir daí o EP toma uma guinada para o lado negro da força, com uma música totalmente eletrônica, pesada, confusa, claustrofóbica até e essa atmosfera negra e pesada não abandona o EP em nenhum momento, apesar de ganhar pontuações mais leves em "Hot Life" e "Great Expectations", até terminar de forma melódica e até meio melancólica em "Bad Habits".

Enfim, "Low" é um álbum muito bem vindo, mesclando uma porrada de gêneros, do jazz ao noise, passando por diversos gêneros da música eletrônica, fortalecendo a confusão atual em que a música como um todo se encontra, mas seguindo por caminhos mais agradáveis, interessantes e misteriosos.

Vale a pena ouvir.

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3 pontos e meio

domingo, 20 de março de 2016

Dica televisiva: "Demolidor 2ª temporada" (2016)

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E a segunda temporada de Demolidor estreou mudando os pontos de vista que a série seguiu na primeira temporada e mantendo o nível de excelência.

Nessa segunda temporada, Matt encontra-se com um novo inimigo, Frank Castle, o Justiceiro, além de reencontrar uma conhecida de seu passado, Elektra, apresentando novos inimigos a serem enfrentados, revelando que a derrota de Wilson Fisk, o Rei do Crime, era apenas um primeiro passo para liberar Nova Iorque de seus males.

A segunda temporada segue a excelência que a primeira temporada definiu, não só para Demolidor, mas todas as séries da Marvel no netflix (não assisti Jessica Jones, mas creio que sejam parecidas). Logo no terceiro episódio, há uma nova cena no corredor, que dessa vez se estende as escadas e é muito boa, apesar de bem mais exagerada.

A perspectiva que a série segue aumenta, dando muita atenção aos personagens secundários; Karen está excelente, Foggie surpreende muito, o Justiceiro rouba a cena, até mesmo Stick e o Rei do Crime têm seus momentos. A Elektra não ficou muito legal pra mim, mas eu também nunca li nada da personagem, além daquele quadrinho lisérgico do Bill Sienkiewicz.

Enfim, a segunda temporada do Demolidor vale muito a pena e como já foi lançada em sua totalidade no netflix dá pra assistir rapidinho.

4 pontos

sábado, 19 de março de 2016

Dica Literária: "Kafka à Beira-Mar" de Haruki Murakami (1987)

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É o segundo livro de Haruki Murakami que leio e começo a entender por que sua popularidade atinge níveis cósmicos pelo mundo afora.

"Kafka à Beira-Mar" conta duas histórias em um livro apenas. A primeira história a como somos apresentados é a de Kafka Tamura, um menino que acabou de fazer 15 anos e resolve fugir de casa, de um pai abusivo, uma vida enfadonha, em busca de sua mãe e sua irmã, que saíram, as duas, de casa, quando ele tinha apenas 4 anos. A segunda história é a de Satoru Nakata, um senhor de idade, aposentado e com a estranha habilidade de falar com gatos, que vive de uma aposentadoria do governo e pra ganhar um pouco mais de dinheiro, faz bicos encontrando gatos que fogem de suas casas e, no momento em que acompanhamos a história, está atrás de uma gata chamada Mimi.

Além das duas histórias principais, este livro passa por diversos gêneros, criando uma mistura agradável e muito bem elaborada, afinal Haruki Murakami sabe guiar a miscelânea que cria nas páginas de "Kafka à Beira-Mar", temos uma história de uma adolescente em crise, um romance, uma história de investigação, uma história de investigação e mistério, toques de horror e tudo permeado por um realismo fantástico assombroso, não do ponto de vista literal (falando que ele nos assusta), mas de uma ponto de vista criativo (o livro nos surpreende toda hora), é realmente impressionante como o autor consegue adicionar pontos fantásticos e surreais numa história tão pé no chão e, ao mesmo tempo, fazer isso soar extremamente palpável.

Um dos pontos negativos de "Norwegian Wood", o primeiro livro que li do autor foi o uso excessivo da exploração da sexualidade do personagem principal, tudo terminava em transa naquele livro e o personagem principal é o clássico "manezão". Aqui, Kafka também é um tremendo manezão, que quando resolve mudar, se transforma num babacão, mas não vemos tudo se transformar em sexo, talvez por que se trata de uma obra legítima de "realismo fantástico", talvez por ter duas histórias, então o autor não teve que se preocupar muito em encher linguiça com o personagem Kafka. Em compensação, a história de Nakata é um deleite, um personagem intrigante, apesar de ser extremamente simples em seu universo, podendo ter sido usada apenas a sua história e ainda assim o livro seria ótimo.

O final, além de surpreendente, é extremamente satisfatório, apesar de não entregar as respostas que esperávamos. É um final digno, além de fechar a obra com chave de ouro, mostrando que Haruki Murakami é, de verdade, um gênio da literatura.

A edição que li foi em ebook e tinha essa capa aí, não prestei atenção ao tradutor, nem ao editor do livro, nem sou entendido em japonês, mas acho que fizeram um bom trabalho. Em alguns momentos, a trama pode parecer meio dispersa, mas não creio que isso seja problema da tradução, acho que é mais uma característica da literatura japonesa, que tem suas peculiaridades mesmo.

Enfim, "Kafka à Beira-Mar" é um ótimo livro, tem lá os seus defeitos, mas eu, pelo menos, não esperava nada desse livro (por que tomava como base minha insatisfação com "Norwegian Wood") e me surpreendi em muitos pontos.

4 pontos

quinta-feira, 17 de março de 2016

Dica cinematográfica: "Death Powder" (1986)

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"Death Powder" é um desses filmes que você encontra no YouTube pra assistir, mas que quando você fala sobre ele, ninguém sabe do que se trata, a não ser aquele seu amigo estranho que morava nos fundos de uma locadora, mas é também considerado um marco no cinema, extremamente influente pra uma porrada de cineastas obscuros, no entanto o seus autores nunca receberam o devido reconhecimento. Trata-se do primeiro filme cyberpunk japonês.

O filme conta a história de um grupo de 3 cientistas que descobriram uma androide com supostas habilidades extraordinárias. Um deles foi incubido de cuidar da androide, mas parece estar enlouquecendo aos poucos. Os outros dois, um homem e uma mulher estão fugindo de uma suposta chuva radioativa que parece ter acontecido logo após a captura da androide, voltando para o esconderijo onde a androide está presa. Quando eles tentam entrar em contato com o cientista que está cuidando da androide descobrem que algo está errado.

Já adianto, não espera achar respostas neste filme. Inclusive, essa sinopse eu adaptei do filmow, por que eu mesmo não entendi bulhufas da história quando o assisti, apesar de que depois que eu li a sinopse algumas coisas passaram a fazer sentido.

No entanto, o que chama a atenção é a estética do filme e as saídas criativas que o diretor deu para o baixo orçamento que eles tinham. As cenas filmadas na rua foram feitas nas ruas mesmo, sem autorização nenhuma dos guardas e por isso você irá ver o rosto de algumas pessoas todo pixelado. As cenas, filmadas em cantos obscuros da cidade, adicionam aquele ar sujo que as obras de cyberpunk têm, além, é claro, dos painéis luminosos de Tóquio e as roupas dos personagens, que dá pra notar que são dos atores mesmo, mas as jaquetas de couro, os óculos escuros, as calças rasgadas, tudo acaba dando um ar especial de cyberpunk ao filme. O fato da equipe não ter dinheiro para mostrar "o que deu errado" no filme também geram cenas de suspense e terror psicológico muito boas, afinal, japoneses são excelentes nisso, criando uma mistura de gêneros que, pra época, era algo bem inovador.

Enfim, "Death Powder", cyberpunk de origem, filme de baixo orçamento, atores sem formação formal, efeitos criativos, 4ever.

4 pontos

quarta-feira, 16 de março de 2016

Dica cinematográfica: "Le Gai Savoir" (1969)

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Filmado originalmente para a televisão francesa, o filme "Le Gai Savoir" de Godard, que faz referência ao livro de Nietzsche foi filmado entre a revolução de maio de 68, considerada uma das revoluções mais importantes do século XX, por não se restringir a apenas uma camada da população como trabalhadores e camponeses, aderentes de ideias socialistas e comunistas, mas também a outras camadas da população, tendo uma adesão de diversos grupos étnicos, sociais e rompendo barreiras de idade, mostrando uma insatisfação geral com o governo francês daquela época. Subsequentemente, o filme foi censurado pela TV francesa e depois banido pelo governo francês da época, quando o filme foi programado para ser exibido nos cinemas.

A película acompanha os jovens Emile e Patricia em um estúdio de TV, no qual eles se reúnem todas as madrugadas para discutir sobre os temas revolucionários sobre educação, o discurso, a linguagem, imagem, som, ideologias e o caminho para a revolução.

Intercalando com a presença de Emile e Patricia, imagens, discursos e cânticos revolucionários são apresentados aos espectadores, rompendo com a narrativa formal, acrescentando diversas camadas ao filme que exploram diversos temas debatidos pelos revolucionários de 68. Num olhar raso, o filme pode ser encarado como uma obra simples do cinema militante, panfletário e socialista, mas estamos falando de Godard, não um cara qualquer.

Neste filme, Godard rompe não só com a narrativa formal do cinema e a estilização que ele inclusive ajudou a criar e que definiu a Nouvelle Vague, mas também com qualquer ideologia de esquerda ou de direita, muitas vezes criticando as formas de revolução (principalmente armada), outras vezes ridicularizando o seu discurso, mostrando o quanto esses grupos supostamente sociais se distanciavam do povo que eles tanto defendiam. As críticas ao capitalismo são fáceis e mostram a faceta cruel e, por vezes, irônica que esse sistema econômico adquire, aliando-se a qualquer tipo de ideologia política, ainda que de forma mascarada (em determinado momento do filme, Emile diz que vai roubar sonhos de artistas pop e vendê-los a tabloides sensacionalistas e o dinheiro recebido dará a causas revolucionárias, já Patricia admite que posa de lingerie para anúncios da revista L'Humanité. Eles simplesmente não conseguem escapar do sistema), é um sistema altamente adaptável.

No entanto, encontramos uma ideologia presente no filme e defendida de forma bastante racional, o desconstrutivismo literário, uma vertente pós-moderna preocupada com a relação entre palavras e seus significados, algo que hoje perdeu o seu brilho inicial, até por causa de certas abordagens ridículas feitas nos últimos anos, mas que teve sua importância, ainda mais se levarmos em conta que esse filme é do final dos anos 60.

Um filme com mais de 50 anos, com uma abordagem ainda original, com temas ainda relevantes, solto de qualquer formalismo cultural, ideológico e técnico, "Le Gai Savoir" é mais uma joia rara, uma obra maravilhosa de Godard, com um grande apelo estético e denso, muito denso em sua profusão de temas.

4 pontos e meio

terça-feira, 15 de março de 2016

Dica cinematográfica: "A vingança do Ator" (1963)

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De vez em quando eu acabou encontrando essas joias escondidas em algum canto da sétima arte e me pego surpreendido.

"A vingança do ator" conta a história de Yukinojo, um ator de uma trupe de teatro que está passando por Edo. Na excursão ele acaba encontrando os responsáveis por levarem os seus pais ao suicídio 20 anos antes. Yukinojo então começa a colocar em prática o seu plano de vingança, a começar pela filha de um deles e depois, levando-os a ruína.

Este é um filme japonês, dirigido por Kon Ichikawa, um diretor muito reverenciado do cinema japonês e foi lançado em 1963. Como tantos outros filmes antigos, principalmente do Japão, este conta com um ritmo mais lento, perdendo tempo de narrativa para explorar profundamente os seus personagens principais, como, por exemplo, mostrando a hesitação de Yukinojo ao ver abrir-se uma brecha para que ele execute o seu plano de vingança. E sendo o personagem principal um ator de teatro japonês, o filme traça alguns pontos em comum com o próprio teatro japonês, como, por exemplo, a iluminação do filme, muito pontual, mostrando, muitas vezes, apenas um detalhe do rosto do personagem principal na cena, excluindo todo o cenário e também com a presença de um personagem que atua de forma quase onisciente sobre a história, fazendo considerações sobre o que está acontecendo com os personagens.

A trilha sonora também é excelente, com diversas músicas de jazz, intercalando com canções mais tradicionais, estas, presentes ao longo de todo o filme, deixando o jazz se destacar apenas quando se trata de uma cena de mais suspense ou ação.

Enfim, "A vingança do ator" é um filme muito bom, apesar de sua narrativa mais lenta, o que não se torna um empecilho para aqueles preparados para isso e que já conheçam o cinema japonês antigo, valendo a pena cada um de seus 113 minutos.

4 pontos e meio

segunda-feira, 14 de março de 2016

Dica musical: "III 7"" de Sheer Mag (2016)

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Sheer Mag é uma banda da Filadélfia de rock, com um som que lembra as bandas de rock mais clássico dos anos 70, mas com um toque suave, porém constante do punk/hardcore que domina a cena musical da Filadélfia nos últimos anos, se duvidar, na última década.

A banda só tem lançado EP's, este mesmo, nomeado "III 7"" contém apenas 4 músicas, mas são 4 músicas muito boas, que apresentam de uma forma muito boa a que a banda veio e deixa aquele gostinho de quero mais, aquela curiosidade em descobrir o que a banda pode fazer no futuro, com mais dinheiro e uma produção melhorada.

Já dá pra perceber que o negócio deles é juntar tudo aquilo que eles gostam e fazer algo que agrade aos ouvidos deles, sendo um quinteto, o resultado acaba soando inovador, ou ao menos, inesperado, eu sei que me surpreendi.

"III 7"" é um bom trabalho, de uma banda que está começando e parece ainda ter muito a nos apresentar e pode ser ouvido inteiro no bandcamp deles.

3 pontos e meio

domingo, 13 de março de 2016

Dica musical: "Emily's D + Evolution" de Esperanza Spalding (2016)

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"Emily's D + Evolution" é um projeto musical de Esperanza Spalding, no qual ele assume o papel de Emily para elaborar um álbum aparentemente confuso e desconexo, mas que esconde uma grande beleza por trás de tudo.

Logo de início somos confrontados com guitarras distorcidas e aparentemente fora de ritmo aliados à característica voz da cantora de jazz, até que percebemos o ritmo por trás, acabando por soar como uma música noise e então somos apresentados a, provavelmente, canção preferida da artista no CD "Unconditional Love", uma canção que soa deslocada por ser a mais romântica e presa a estruturas musicais.

Então, pelo resto do CD, Esperanza volta-se contra as estruturas musicasi pré-definidas, o que nunca deixa de soar meio noise, mas conseguindo manter um ritmo gostoso ao longo de todo o CD, uma nova forma de fusion, que alias gêneros musicais ainda mais improváveis com o jazz, misturando noise, samba, bossa nova e rock.

"Emily's D + Evolution" acaba sendo uma evolução de certa forma, a evolução de Esperanza Spalding, apresentando uma nova faceta, que parece que irá se estender para outras mídias, mas eu, sinceramente, não sei por que não acompanho tanto assim o trabalho da cantora. =/

Mas, enfim, o álbum chamou a minha atenção e eu acabei gostando bastante dele, abrindo os meus ouvidos para uma nova cantora de jazz, que ousa navegar por mares misteriosos e obscuros, iluminando o caminho para futuras gerações.

3 pontos e meio

sábado, 12 de março de 2016

Dica cinematográfica: "Kung Fu Panda 3" (2016)

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Após 2 filmes em que acompanhamos a evolução constante de Pô, no primeiro filme como um discípulo em dúvida quanto ao seu potencial e que tem que provar para os outros o seu valor e num segundo filme em que seu potencial já foi provado, no entanto Pô descobre que haverá sempre alguém mais forte e habilidoso à espera de desafiá-lo, o que poderíamos esperar de Kung Fu Panda 3? Nada mais que um excepcional trabalho de animação como nunca antes feito.

Nesse 3º filme, Pô já é um grande lutador, talvez o melhor e ninguém duvida mais de suas habilidades, no entanto após a anunciada "aposentadoria" de mestre Shifu, Pô recebe a missão de ser o novo mestre do templo de jade (acho que é esse o nome). Enquanto isso, um inimigo antigo de mestre Oongway (falecido no primeiro filme), o touro Kai buscou vingança por 500 anos e quando finalmente aprisiona o chi do mestre tartaruga consegue voltar para a terra, com o infame plano de destruir o templo de jade e acabar com o novo mestre. Paralelo a isso, surge o pai biológico de Pô, o panda Li, que, ao mesmo tempo em que provoca os ciúmes do pai adotivo de Pô, o sr. Ping, representa a única chance de Pô poder derrotar Kai e transforma-lo num "mestre chi".

Essa é, de longe, a trama mais ousada dos 3 filmes, o que representa um grande desafio para os roteiristas do filme, pois além de desenvolver o drama de Pô com seus pais, ainda têm que dar conta de contar uma história que mistura ação e comédia numa dose agradável para o público, sem pesar para nenhum dos dois lados. E eles conseguem fazer isso de forma bastante competente, apresentando de forma calma cada um dos pontos principais da trama, primeiro a assunção de Pô ao cargo de mestre, depois a vitória de Kai sobre o mestre Oongway no mundo dos espíritos e, por fim, a aparição de Li, gerando uma das cenas mais engraçadas do filme. Essa última trama, inclusive, foi o gancho usado no final do segundo filme, o que me deixou com um dúvida se isso iria prestar ou não, afinal, eu, como filho adotivo, fico super-analisando o tratamento que os filmes (e não só filmes) dão ao tema, geralmente apresentando os pais biológicos como os "verdadeiros" pais, sempre bons e apresentando a "verdadeira essência" do personagem que foi adotado.

Perdoe-me pela digressão, mas acho válido apresentar o meu ponto de vista, acho isso errado, pois eu penso que pai de verdade é aquele que cuida, por melhores que possam ser as justificativas sobre o abandono de um filho (como no caso deste filme em que uma guerra foi a responsável pela separação dos dois), é impossível simplesmente se ignorar 20 anos de existência por causa da descoberta de uma suposta "essência". Afinal, o que é essa essência? É a sua personalidade? Sua nacionalidade? Seu tipo sanguíneo? Sua cor? Sua raça? Por mais que essas questões sejam importantes para o desenvolvimento de alguém, isso nunca, na minha concepção, irá superar o ambiente em que a pessoa cresceu, que acaba sendo muito mais importante para o desenvolvimento do seu modo de pensar, do seu agir, sua moral, seus desejos, anseios e medos, enfim... Aquilo que te faz único de verdade. Nesse ponto, o filme deixa a desejar. Ele até une os dois pais no final, mas em todo o filme eu não conseguia parar de pensar que isso foi uma sacanagem com o sr. Ping e que se não vivêssemos em tempos em que todo mundo tem que tomar cuidado com o diz por aí, se não grupos organizados com nomes cada vez mais bizarros caem matando em cima de você, o final do filme seria diferente (nunca pensei que iria agradecer ao politicamente correto).

Se do ponto de vista moral o filme peca, do ponto de vista narrativo é um exemplo a ser seguido, desde o início do filme a trama se amarra com os seus antecessores e apresenta respostas para as dúvidas que vão surgindo quase que instantaneamente (por que Kai não voltou antes? Por que ele passou 500 anos lutando com outros mestres kung-fu falecidos. Por que? Para absorver o seu chi. Por que? Para voltar à terra? Por que? Por vingança? Como que ele derrotou o mestre Oongwai tão fácil? Por que a cada chi que ele absorve, ele fica mais forte.), nada passa despercebido pela cabeça atenta dos roteiristas desse filme.

E nem todas as respostas estão incluídas no texto, aliás. Por que Kai demorou 500 anos? Por que o mundo espiritual é muito vasto. Como você sabe disso? Pelas imagens deslumbrantes, tudo flutua no mundo espiritual, as cenas de ação são feitas de longe, usando um plano extremamente aberto para mostrar não só a extensão do terreno, como também o potencial dos poderes dos que lutam lá, usando poderes absurdamente fortes e expansivos.

A arte inclusive é o ponto que mais chama a atenção nesse filme, aliando 3D com 2D de forma magistral, mostrando que os artistas por trás de Kung Fu Panda são verdadeiros mestres, aprimorando cada vez mais, a cada filme, sua primorosa técnica de animar. Tudo flui perfeitamente nesse filme, de forma quase irreal inclusive, o que seria um ponto negativo, não fosse pela estilização forçada, porém linda, do tipo que um filme do Tarantino seria, não fosse pelo visual colorido, alegre e jovem que a séria de filmes usa e abusa, tudo isso amplifica qualquer sensação que qualquer cena queira passar, dramatiza ainda mais os dramas, acelera ainda mais as cenas de luta, amplia ainda mais a extensão dos poderes, magnifica ainda mais seus personagens, seguindo a própria filosofia que mestre Shifu apresenta no início do filme, a de que a entrada triunfal vence uma batalha antes mesmo dela começar. Kung Fu Panda já havia ganho o meu coração (e o de muita gente, tenho certeza) só pela sua arte, na segunda cena você já está com lágrimas nos olhos agradecendo a Deus por estar vivo para poder ver tamanha beleza digna de uma parede de museu sendo feita para ser distribuída em qualquer cinema no mundo. É simplesmente exuberante.

Além disso temos ainda os pontos elogiados nos outros 2 filmes da franquia, como, por exemplo, o trabalho de seus dubladores, dessa vez sem crítica alguma, por que após 2 filmes já é de se esperar eles estarem confortáveis em seus papéis e, é claro, a trilha sonora, adaptando temas sonoros típicos de produções ocidentais para gerar suspense, drama e tensão, por exemplo, mas usando instrumentos tipicamente orientais, esqueça a bateria, o violino e o trompete, entre o taikô, o liuqin e o erhu. Se no primeiro filme ouvimos apenas experimentos com esses instrumentos, no segundo, já se via a maestria que os responsáveis pela trilha sonora tinham, criando uma atmosfera pesada, típica de filmes de guerra e muito dramática, neste terceiro filme a trilha sonora é mais leve, porém é muito bem marcada e ritmada, arrepiando os seus pelos mais de uma vez ao longo da película.

Enfim, "Kung Fu Panda 3" pode decepcionar em algum ponto (mas eu entendo que isso é uma questão de opinião e uma que não é muito popular por aí), mas em todo o resto é simplesmente maravilhoso, um excelente filme, que serve como um mais que digno encerramento para essa que pode ser a melhor trilogia de filmes animados da década.

4 pontos e meio