domingo, 28 de setembro de 2014

Dica cinematográfica: "Love Exposure" (2008)

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"Love Exposure" é um filme de 2008, impossível de ser classificado em um gênero só, escrito e dirigido por Sion Sono e dura 3 horas e 56 minutos.

O filme conta a história de Yu, um jovem japonês católico que tenta viver uma boa e devota vida, após a morte da mãe, que pediu para que ele encontrasse uma mulher como Maria, entregando para ele uma estátua da Virgem Maria. Seu pai, viúvo, decide virar padre, mas logo que se torna famoso na comunidade pelos seus sermões, acaba se envolvendo com uma mulher problemática, que o abandona semanas depois. Arrasado, o pai de Yu exige do filho confissões, forçando o garoto a entrar em uma vida pecaminosa, cometendo crimes com seus novos amigos, como roubar roupas, puxar brigas com estranhos e tirar fotos por baixo das saias das mulheres na rua. Após perder uma aposta, Yu sai vestido de mulher pelas ruas, encontrando uma garota em perigo, cercada por dezenas de valentões. Ainda vestido de mulher, Yu salva a garota, que também luta contra os valentões e se apaixona por ela, beijando-a e caindo fora logo em seguida. No entanto, Yoko, a garota indefesa, se apaixona pelo alter-ego de Yu, Miss Scorpion.

Essa é a abertura do filme, aquela cena curta que aparece antes do nome do filme ocupar a tela inteira... Só que não nesse filme. Essa sinopse retrata apenas a introdução do filme, que dura, incríveis, 53 minutos, aparecendo em seguida o nome do filme ocupando a tela toda.

Realmente, é uma maratona assistir "Love Exposure", mas que acaba valendo a pena, por que conta uma história muito boa, recheada de personagens, do jeito que eu gosto, desenvolvendo cada um com muita paciência. Separada em capítulos, a historia muda de pontos de vista, mas é essencialmente uma história de amor, no caso de Yu pela Yoko.

Inclusive, esse é o ponto negativo do filme: É uma história de amor. Não se engane pelas 53 minutos iniciais, que apenas servem para apresentar Yu e seu drama pessoal, mostrando-o como fez para chegar onde chegou. O filme conta com boas lutas, uma primeira hora excelente, que não te cansa de forma alguma, mas em seguida, vira uma verdadeira novela, com triângulos amorosos, desentendimentos familiares, uma conspiração religiosa e claro, aquela velha história de amor do cara que se apaixona por  uma careta, que começa bem o filme, mas na última hora do filme, só serve pra gritar e chorar.

No entanto, ainda assim a história tem suas razões. O filme se trata de uma história de amor, afinal e não é, de forma alguma, uma história rasa e bobinha, muito pelo contrário, é uma história muito bem desenvolvida, aliás. Yoko, por exemplo, que começa forte, independente e misândrica vira frágil, fraca e chorona no final; mas isso não é algo repentino, nem desnecessário à história. Ele foi abusada e usada por uma ceita religiosa em ascensão na cidade e acabou ficando desse jeito. Eu, particularmente, achei um problema se tratar de uma história de amor, pura e simplesmente por que eu não gosto de romances, mas isso é gosto, que não se discute, só se lamenta.

Em relação à parte técnica, este filme está muito bem servido. Existe uma certa granulação nas imagens que foram adicionadas como um estilo estético ou algo assim, chamando a atenção e agradando, dando uma certa tonalidade pastel à algumas cenas. Também é um filem muito estiloso, com câmeras paradas, intercalando com câmeras em movimento, além das letras sobrepostas nas cenas. Tudo isso aliado á uma ótima coreografia, com cenas de luta simplesmente incríveis.

E claro, há a trilha sonora, fenomenal, cheia de tambores, diversos instrumentos de percussão, instrumentos de sopro e de cordas, além do piano, muito usado nas cenas dramáticas e de amor, o que é meio chato, mas funciona.

Enfim, "Love Exposure" merece o título de magum opus de Sion Sono, não só pela sua duração, mas por ser o melhor filme que ele fez mesmo, contando uma história de amor, cheia de frescurices e maneirismos do gênero, mas sem deixar de lado a sua marca pessoal, imposta neste filme com maestria.

4 pontos

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Dica literária: "Sandman-Caçador de Sonhos" (1999)

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O Neil Gayman pode não ser a melhor pessoa deste mundo, nem ter a mente mais sã que já se viu, mas o cara é um baita escritor e isso ninguém pode negar.

A sua obra mais famosa provavelmente é "Sandman", originalmente criado em histórias em quadrinhos, tornando-se também um dos personagens favoritos do autor e esse livro, publicado após o final da série em HQ, reconta um antigo conto japonês sobre uma raposa que se apaixona por um monge e entra no mundo dos sonhos para salvar a sua vida.

Assim como a maioria das histórias orientais, essa trata o amor de forma delicada, não se preocupando em passar uma lição de vida que se aplique em todos os aspectos da vida ou um aspecto em comum, apenas se preocupa em narrar uma história de amor, que pode, ou não, servir como guia para a sua vida. Depende do momento em que você está vivendo.

Neil Gayman, de forma magistral, adapta este conto ao universo de Sandman, colocando os personagens em suas devidas "encarnações" japonesas e antropomórficas, aliando sua incrível habilidade de contar histórias em prosa com a sutileza dos contos japoneses.

Junto com Gayman, também faz este livro Yoshitaka Amano, um artista japonês de sucesso em terras nipônicas e que fez sua estreia no mercado ocidental com este livro. Quando Gayman o convidou, tinha em mente criar uma HQ, mas Yoshitaka Amano não trabalha com arte sequencial, ele só faz painéis ilustrativos e assim, eles desenvolveram um livro ilustrado. Sua arte, muito peculiar e etérea dá o clima perfeito para a história, que se passa em grande parte no reino dos sonhos, mas também em paisagens deslumbrantes que Amano transferiu brilhantemente para o papel.

A história, sendo uma espécie de "remake", não é genial, longe disso, mas é muito boa. Leve e instigante, com toque de realismo mágico, aplicados não só a arte escrita, mas também à arte desenhada.

4 pontos

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Dica musical: "NehruvianDOOM" de MF Doom e Bishop Nehru

Bishop Nehru & MF DOOM - NehruvianDOOM  Album Download

Esta seman, finalmente, saiu o tão aguardado álbum "NehruvianDOOM". Aguardado por se tratar de mais uma colaboração do maior rapper da atualidade: MF Doom e desta vez com um brilhante rapper em ascensão: Bishop Nehru.

MF Doom dispensa apresentações, desde os anos 80 ele faz rap, primeiro com um grupo que fundou com seu irmão e após a morte deste, colocou uma máscara e adotou a alcunha de "MF Doom" tornando-se uma das mais misteriosas e ilustres figuras na história do hip hop. Seu estilo lírico tornou-se único, unindo influências de todos os cantos, rimando palavras que parecem ter vindo de uma iluminação divina, fazendo você pensar "De onde diabos ele tirou isso?". Aliado ás suas rimas fantásticas, estão as batidas que ele cria, bebendo muito na fonte do jazz, dos clássicos aos mais obscuros, usando técnicas que hoje podem ser consideradas atrasadas, afinal qualquer um pode criar suas próprias batidas com um computador, apenas; mas é bom saber que algumas pessoas ainda preferem meios mais "analógicos" para criar suas batidas.

Já Bishop Nehru é um garoto de 17 anos e que vêm ganhando atenção de produtores e rappers em toda parte há alguns anos. Ele começou criando batidas para postar no fórum do OFWGKTA (o mesmo fórum de onde saiu Tyler, the creator, Frank Ocean, Earl Sweatshirt, Hodgy Beats e toda a trupe do Odd Future), sampleando músicas de jazz que ele achava na casa da avó (influência mais obscura impossível). Como todo mundo adora artistas que bebem em fontes obscuras de inspiração, ele logo ganhou atenção de sites especializados e ano passado lançou seu primeiro CD, contendo uma porrada de músicas, algumas medianas, outras incríveis, mas já criando um certo padrão de qualidade para suas canções.

Reconhecendo o talento do garoto, MF Doom decidiu produzir um CD colaborativo entre dois, resultando em "NehruvianDOOM".

Algumas canções são batidas de MF Doom, com Bishop Nehru rimando por cima, mas é notável que os dois tiveram participação igual no trabalho, seja pelas influências jazzísticas que os dois artistas têm, seja pelas rimas fantásticas e fabulosas de MF Doom ou pela criação de refrões que parte de Bishop Nehru, criando um álbum único, original, recheado de influências nerds até religiosas.

Como em todas as suas colaborações, MF Doom preferiu ficar mais "atrás", na produção, editando e mixando as músicas e batidas, dando muita liberdade para Bishop Nehru, ficando claro que ele ainda precisa crescer bastante. Não que ele seja ruim, ele é bom, mas ainda está longe do nível que suas influências alcançaram, mas um dia ele chega lá, se continuar assim e as músicas em que MF Doom não rima, acabam sendo também as mais fracas.

Enfim, "NehruvianDOOM" é um ótimo CD, aliás, um fantástico, que merece ser escutado várias e várias vezes (ao menos algumas de suas músicas) e pode se tornar um marco, mostrando a evolução de um grande talento que tem apenas 17 anos.

4 pontos


Obs: Só que eu que achei essa uma das melhores capas de um disco de todos os tempos?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dica cinematográfica: "City on Fire" (1987)

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"City on Fire" é um filme de 1987, criado por Ringo Lam, sendo o seu primeiro filme de sucesso que não seja comédia.

A história é centrada em Chow, um policial que trabalha infiltrado em grupos criminosos, mas faz amizade com um dos bandidos, que é morto poucos depois de descobrir que Chow era um policial infiltrado. Sentindo o peso da culpa sobre seus ombros, Chow pede dispensa do seu cargo, mas seu pedido é negado até que o distrito policial consiga prender um grupo de assaltantes de joalherias. Forçosamente, Chow aceita o trabalho, suportando a culpa e a tristeza que o consome. Enquanto isso, a polícia local vai fechando o cerco em torno do grupo, sem saber que Chow é um policial infiltrado.

Este é um clássico do cinema chinês (mais especificamente de Hong Kong), tendo sido um marco também na carreira de Ringo Lam, que até então só dirigira filmes de comédia e no ano de 1986 teve carta branca para criar o que ele quisesse. De sua mente genial, saiu este filme, que é uma obra fantástica, bebendo muito na fonte dos filmes noir, sendo isso marcado não só pelos temas envolvidos, mas também pela trilha sonora e a fotografia, muito boas por sinal.

O filme têm como protagonista um clássico personagem de filmes noir. Chow é um policial, com fantasmas de seu passado que o assombram constantemente e para se livrar disso, ele deixa seu tempo ser acumulado com trabalho (mesmo nos momentos em que ele deve se divertir, como quando vai ao bar, ele está trabalhando) e os poucos momentos de divertimento se resumem a dormir ou namorar (Eis também o motivo dele não querer assumir nada com a namorada, ele não quer mais uma responsabilidade em sua vida e talvez nem possa assumir algo como um casamento). Grande parte do filme vemos ele andando pelas ruas da cidade, com um cigarro na boca e olhar perdido no horizonte, sempre trabalhando, mas a passos lentos, desleixados, tentando livrar a sua mente das preocupações que o seu trabalho gera.

É um filme com um ótimo desenvolvimento de personagens, não só por parte de Chow, mas também pelos secundários. Seu tio, por exemplo, é um personagem muito interessante: Ele trabalha com Chow (é o chefe dele) e tenta agir como um pai para o policial, no entanto, devido a intimidade que existe entre os dois, Chow apenas o enxerga como um parceiro de trabalho ou, no máximo, um amigo mais velho conhecido há muito tempo. Outro personagem interessante é o novo chefe do distrito que trabalha junto com o tio de Chow e não pode saber que há um policial infiltrado no grupo; por essa razão, ele começa a perseguir Chow e o coloca como procurado número 1. O filme nos induz a sentir antipatia por ele, mas é impossível, pois sabemos que ele está apenas exercendo o seu dever.

Outro personagem interessante é um dos amigos criminosos de Chow, que ganha atenção apenas nos últimos momentos do filme, mas carrega uma carga dramática muito grande e a empatia do telespectador em relação à ele cresce ao longo do filme, mesmo sem sabermos qual a sua história.

Como dá pra perceber, "City on fire" é um filme com uma profundidade muito grande, mas também tem seus defeitos, em grande parte por querer tomar uma boa "liberdade poética" em toda a sua duração, com muitas cenas em que Chow fica andando pelas ruas sem rumo, além da narrativa que é bem arrastada.

No entanto, é um filme com inspirações noir afinal, ou seja, tem personagens muito interessantes, que compensam a lentidão do roteiro.

Em relação à fotografia, que eu já mencionei, está muito boa, com vários tons escuros e sombras, criando um clima urbano, porém com toques soturnos, fazendo deste um filme bem estiloso. A cena final é incrível, aliás.

A trilha sonora só complementa o filme, sendo guiada pela bom e velho jazz, muito saxofones e baterias aceleradas, criando o clime perfeito tanto para as cenas de ação quanto para as cenas mais melancólicas.

Enfim, "City on fire" é um filmaço, um clássico incrível do cinema chinês e, por que não, do cinema noir, afinal é uma história extremamente original, bem guiada, apesar das poucas falhas; mas que, de um modo geral, impressiona pela qualidade em todos os aspectos, tornando-se um desses vários casos em que o original é melhor que o remake.

4 pontos e meio

domingo, 21 de setembro de 2014

Dica cinematográfica: "Suicide Club" (2001)

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"Suicide Club" é um filme de 2001, dirigido por Sion (pronuncia-se Xion) Sono e que eu até agora não sei se o filme é muito bom ou muito ruim.

Conta a história de um monte de suicídios coletivos que assolam Tóquio e um grupo de policiais na sua jornada para descobrir o que está por trás deles.

A história se passa em 6 dias e sua narrativa é obscura, sendo negado ao telespectador a verdade por trás dos suicídios coletivos. Há também uma enorme gama de personagens, que não são bem desenvolvidos, elevando a tensão, mas também o sentimento de desolação face alguns acontecimentos ao longo do filme, como, por exemplo, a morte de algum personagem até então importante para a história, portando-se como o mocinho ou o aparecimento de um vilão, que, na verdade, não era o vilão principal, apenas queria aparecer na TV ou ainda a caminhada solitária de um jovem detetive da polícia que, aos poucos, entrega-se à loucura.

No entanto, algumas cenas são incrivelmente bem desenvolvidas, como o suicídio coletivo do começo do filme ou o segundo suicídio coletivo de estudantes ou ainda a cena em que é apresentado o vilão que só queria aparecer. São cenas fortes, mas ao mesmo são muito boas, em parte por que são chocantes, em parte por que fazem uma bela crítica social, que é outro ponto forte do filme. O filme faz uma forte crítica à vida competitiva em que os japoneses estão inseridos, questionando o por que deles viverem (trabalho? filhos? família? Ego?), sendo uma outra boa cena aquele em que a família de um dos polícias é morta e ele recebe uma ligação da responsável pelos suicídios questionando  a essência da vida dele e o por que dele estar tão desolado, mas logo que a cena acaba somos entregados à desolação maior do filme, que é ver um dos melhores personagens ser morto tão rapidamente.

E aí resido outro ponto fraco do filme, a profusão de ideias rondando esse filme é muito grande e apesar delas serem ideias boas, elas não são bem trabalhadas, não dando espaço para o desenvolvimento delas, nem para o desenvolvimento dos personagens. Do meio para o final do filme somos apresentados á mais uma crítica social, dessa vez voltado ao fanatismo por ídolos pop ou a utilização desenfreada de ídolos cada vez mais novos pela indústria da música pop e a mídia em geral ou talvez tenha sido uma crítica à perda da inocência pelas crianças?... Não sei.

Apesar do jeitão meio "trash" do filme, isso não é algo que atrapalha, muito pelo contrário, esse é um fato que engrandece essa película, podendo provocar risadas de quem o assiste, mas também pode servir para complementar a crítica social feita, gerando um jogo metalinguístico com o telespectador, afinal, por que gostamos tanto do grotesco, do absurdo, do sensacionalista? Ou talvez tenha sido só falta de recursos mesmo.

Enfim, "Suicide Club" é um filme cheio de problemas, mas que ainda assim parece ser impossível odiá-lo, principalmente pelo grande potencial que ele tem, então você fica sem saber o que pensar dele. O próprio Sion Sono pensou em fazer uma trilogia com essa história, mas pareceu ter desistido da ideia, fortalecendo a teoria de que esses "erros" foram postos de propósito, armando ganchos para as suas sequências. Eu mesmo não pensava em escrever essa dica, mas fiquei entre o amar e o odiar esse filme, então decidi ficar em cima do muro e achar esse filme "mediano", aceitando seus pontos negativos como parte da intenção do autor com esse filme e admirando os pontos positivos, que merecem ser muito bem admirados.

3 pontos

sábado, 20 de setembro de 2014

Dica literária: "Demolidor: Amor e Guerra" (1988)

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Mais uma hq de Frank Miller no blog e dessa vez, uma hq que merecia muito mais atenção do que recebe.

A esposa do Rei do Crime está doente. Desesperado, ele sequestra a esposa de um médico famoso para que ele dê total atenção à sua amada. No entanto, o sequestrador tem sérios problemas mentais, que acabam atraindo a atenção do Demolidor. Não demora muito para que o herói descubra o que está acontecendo e corra em socorro das vítimas do Rei do Crime.

Essa é uma hq normal, apenas mais um capítulo entre tantos outros que Frank Miller criou para o Demolidor, no entanto, há algo de diferente aqui: Bill Sienkiewicz olhei duas vezes a página da hq para escrever o nome dele. Mais uma vez, Bill cria quadros que extrapolam o senso comum de se criar quadrinhos, usando muitas tintas, texturas e técnicas variadas de pintura, sendo um desses caras que conseguem dar um fôlego novo para a indústria de quadrinhos como o Alex Ross.

Já Frank Miller se supera nessa hq. Talvez tenha sido a falta de espaço, talvez tenha sido a proximidade que o autor têm com o personagem, mas nessa hq ele se perde menos em divagações inúteis de personagens, abandona o pretensiosimo e decide criar uma história simples, rápida e, ao mesmo tempo, complexa, cheia de reviravoltas, diálogos muito interessantes e um final espetacular.

É fácil imaginar essa história como um filme, mas não um blockbuster pretensioso de Hollywood e sim um filme noir de investigação policial, cheio de personagens complexos, sem maniqueísmo e cenários obscuros, criados com maestria no papel pelo já mencionado Bill Sienkiewicz, que consegue criar uma atmosfera envolvente e delicada, mas ao mesmo tempo assustadora, depende do que se passa na história.

Enfim, "Amor e Guerra" é uma das melhores histórias em quadrinhos que li até hoje, contando com um personagem que eu quase não conheço e pode ser que essa hq não seja tão fiel à ele, mas que é uma hq espetacular, isso ela é, podendo contar com os mais variados adjetivos, de belíssima à perturbadora, de espetacular à grotesca, de foda à original.

4 pontos e meio

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dica literária: "Ronin" (1983)

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"Ronin" é uma HQ icônica criada por Frank Miller em 1983.

Conta a história de um samurai que perde seu mestre para o demônio Agat e se torna um ronin. Após a morte de seu mestre, ele corre atrás do demônio para matá-lo, mas os dois acabam ficando presos em uma espada. No final do século 21, em Nova Iorque, eles são libertados da espada por um cientista e o ronin acaba tomando o corpo de Billy, um homem sem pernas ou braços com poderes telecinéticos e que trabalha na empresa Aquarius, um enorme complexo criado no meio da cidade que serve para manter a população que vive ali dentro saudável e segura, longe dos males que assolam a cidade de Nova Iorque distópica do final do século.

É com essa história maluca que lhes apresento a dica de hoje. Ronin é icônico, todo fã de quadrinhos fala bem dessa HQ, que dizem ter sido inovadora para a mídia dos quadrinhos e uma das grandes responsáveis pelo quadrinho ser o que é hoje.

De fato, é em Ronin que percebemos muitas mudanças em relação à forma como os quadrinhos são feitos. Seja na forma como a narrativa é guiada, sem textos em off, com quadros mostrando apenas a movimentação de personagens, cheios de linhas de velocidade ou até mesmo na forma em que o traço é feito, bem rabiscado, sujo mesmo, buscando muita influência dos mangás.

E por falar em mangás, eis a maior influência em Ronin. Diz a lenda que Frank Miller só decidiu fazer Ronin, por que foi parar em suas mãos um exemplar de Lobo Solitário. Inclusive muitos quadros são idênticos ao do mangá de Kazuo Koike e Goseki Kojima, além do tema é claro. No entanto, é perceptível a influência de Katsuhiro Otomo em Ronin, principalmente em Billy, que lembra muito o velho maluco de Domu, mas também nos desenhos dos robôs e os cenários futuristas. Não é exagero dizer que Katsuhiro Otomo talvez seja a maior influência em Ronin e Ronin também é influência para Katsuhiro Otomo.

No entanto, Ronin não é nenhuma obra prima. A arte não é nada de extraordinária e o roteiro também não é grande coisa, ficando meio confuso ao longo da história e, por vezes, sendo chato. Aliás, esses são defeitos recorrentes nas obras de Frank Miller, mas que parecem não incomodar ninguém, além de mim.

Que Ronin é um clássico icônico, isso é verdade, mas ele serve mais como peça de museu, servindo apenas para mostrar o que os quadrinhos eram e no que eles se tornariam à partir dele.

3 pontos

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dica literária: "Aquaman-Time and Tide" (1994)

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"Aquaman-Time and Tide" é uma mini-série em quatro edições escrita por Peter David e ilustrada por Kirk Jarvinen e Brad Vancata, contando uma nova origem para o herói, rei de Atlântida.


Com os novos boatos (que eu acho que nem são mais boatos) do filme da Liga da Justiça, com a participação do Aquaman (interpretado pelo Jason Momoa, que tem tudo a ver com o personagem), decidi me aventurar pela mitologia deste herói, que é tido como um bosta por todo mundo. No entanto, gostei muito dessa história, que mostra um Aquaman mais velho, contando 4 crônicas de sua vida em um livro que está escrevendo.


A sua primeira crônica é de como ele foi apresentado ao mundo da superfície, ajudando o Flash a prender um bandido e ignorando o amor que todo mundo dava à ele, visto que era um amor nutrido por hipocrisia e arrogância.


A segunda história conta as origens do herói, do momento em que ele foi parar em uma costa marinha sujeita às variações da maré, passando pela sua adoção por um golfinho fêmea e as lições de vida que ele aprendeu por puro instinto até as que ele aprendeu com sua mãe adotiva.


Na terceira história conhecemos um Aquaman meio adolescente, que decide viajar pelo mundo e acaba parando no Alasca, onde se envolve com uma esquimó, decifrando um pouco do quebra-cabeças que era a sua história, mas decepcionando as pessoas da superfície.


Na última crônica, somos apresentado à um Aquaman mais velho, já rei de Atlântida, dando uma lição de moral em um super-vilão, mostrando também o seu lado mais paternal e familiar, visto que nessa história ele já é casado e com um filho.


As histórias são muito boas, típicas hq's de banca, que não tem um roteiro muito emaranhado, nem um arte brilhante e genial. É tudo bem básico, mas não é medíocre, de maneira alguma. A arte é bem feita, apesar de pobre, não incomodando a narrativa. As histórias são simples, há um certo humor de "A praça é nossa", cheio de "trocadalhos do carilho", mas que dá um ar divertido para as origens do herói, mostrando que o Aquaman não é um herói a ser levado à sério.


Não que isso seja ruim, afinal "Guardiões da galáxia" também não era um grupo a ser levado a sério e parece que deu certo (eu ainda não assisti). Então, eu até acho que dá pra fazer um filme com o herói, sendo ainda mais legal se a história se passar mais no fundo do mar do que na terra, o que dá espaço para cenários gigantes e lindos, cheios de cores e animais aquáticos diversos, além das lições de vida que o próprio Arthur Curry (sua identidade secreta, ou não) aprende ao longo de sua vida.


Enfim, essa é a dica de hoje, uma hq simples, divertida e interessante, de um herói que não dá pra levar a sério como o Batman ("Eu vi meus pais serem mortos na minha frente"), mas que também não é um merda.


3 pontos e meio

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Dica literária: "Bidu-Caminhos" (2014)

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Mais uma Graphic MSP foi lançada no mês passado. Desta vez, Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho tiveram a missão de apresentar a história, antes de virar história, do Bidu, o cachorro azul do Franjinha.


Nesta edição do projeto somos apresentados à história de como Bidu conheceu Franjinha, conhecendo a sua vida de cão vira-lata, fugindo da carrocinha, entrando em brigas com outros cachorros e morando num carro abandonado dentro de um terreno onde a entrada é proibida.


O mérito dessa grande história é a forma como a narrativa é guiada, sendo apresentada logo no início, de uma maneira fenomenal, o personagem, sua rotina e o ponto final onde a história irá chegar. Bidu nos fala, no final de mais um dia normal, que aquela história que ele está contando, é a história de como ele conheceu o seu melhor amigo, em uma introdução extremamente cinematográfica e, também, emocionante. À partir daí somos guiados por uma espécie de linha reta, em que mostra a trajetória de Bidu até conhecer o Franjinha, passando a morar num abrigo de cães, se perdendo no meio da cidade, encontrando outros cachorros os quais ele tem que ajudar e finalmente, concluindo a sua trajetória com um plano singelo, porém genial, de Franjinha, sem perder explicação com outros personagens e situações que podem parecer desnecessárias.


Esse é o grande trunfo da narrativa. São apresentadas personagens diversos, cada um com sua própria situação peculiar (um é um cão perdido, outro é um buldogue raivoso, um terceiro só quer aparecer), mas a história não deixa em momento nenhum de ser uma história do Bidu, tudo sendo mostrado à partir de encontros casuais com o cão azul, algo que pode ter sido feito propositalmente, pois em suas histórias o cachorro é meio egocêntrico, não dando muito espaço para outros personagens.


Já em relação à arte, o quadrinho também não deixa nada a desejar. A arte de Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho é muito boa, utilizando arte digital feita apenas com software livres, os dois conseguem criar atmosferas muito boas para suas cenas, sendo tudo muito bem colorido e belo, ao mesmo tempo em que também é bem simples.


Outro ponto de destaque neste livro são as onomatopeias, que são tão importantes quanto a narrativa e a arte para o divertimento do leitor, afinal elas foram todas inseridas à mão, saltando dos quadrinhos, complementando a ação e complementando a narrativa de uma forma muito genuína e divertida.


Enfim, mais uma edição da Graphic MSP, mais um trabalha incrível, acima da média dos quadrinhos nacionais, feito com todo o esmero e atenção que esses personagens, que fizeram parte da vida de todo brasileiro, merecem.


4 pontos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Dica cinematográfica: "Short Peace" (2013)

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Short Peace é um projeto cinematográfico de Katsuhiro Otomo, o autor de Akira, o clássico dos clássicos de ficção científica.


O filme é na verdade uma compilação de quatro curtas, mais uma abertura de poucos minutos, contando histórias diferentes envolvendo tradições e temas que remetem ao Japão. Também envolve um jogo, mas esse eu nem conheço.


A abertura do filme começa com uma garota brincando de esconde-esconde com  uma amiga e ao abrir os olhos quando a amiga diz que ela já pode olhar, depara-se com um mundo completamente diferente e divertido, para ela.


A primeira história do filme é sobre um viajante perdido numa floresta, enquanto chove, indo procurar abrigo em um templo, com uma sala, apenas. No entanto, ele descobre que essa sala pode ser moradia de coisas muito misteriosas.


No segundo curta, apresentado com um desenrolar de um rolo de papel, somos apresentados à trágica história de Owaka e Matsukichi, um casal prometido desde a infância um para o outro, mas quando Matsukichi é desonra sua família e é deserdado, os pais de Owaka não perdem tempo para achar outro marido para a menina. No entanto, os planos dela para a sua vida são bem diferentes.


A terceira história é sobre a batalha entre um ogro vermelho que anda aterrorizando uma família real japonesa e o protetor da família: Um urso branco gigante.


E a quarta e última história é sobre um esquadrão anti-bombas munidos com armas a laser e armaduras tecnológicas em uma Tóquio pós-apocalíptica onde os robôs desejam acabar com a humanidade.


Todos os filmes, apesar de serem feitos por diretores diferentes, foram feitos embaixo das asas de Katsuhiro Otomo e portanto, contam com as mesmas qualidades técnicas, sendo feitos num estilo pouco convencional, a animação 3D com uma finalização 2D, ou seja, você percebe que os personagens foram feitos em programas de modelagem 3D, mas eles contam com linhas grossas em torno de seus corpos, delineando detalhes em seus corpos, excluindo o trabalho de textura e profundidade que os animadores teria ao fazer um filme em 3D. Não é algo novo, é até bem utilizado em animações americanas, como a do Hot Wheels e em jogos nipônicos, como os jogos do Naruto ou os novos Pokémon. No entanto, eu nunca tinha visto esse estilo de animação sendo apresentado com tanta qualidade.


Os personagens parecem meio paradões, mas isso logo é quebrado com o desenrolar do filme. As cores e a movimentação de um modo geral (desde as roupas e os fios de cabelo) são muito bem feitos e característicos, dando um ar meio cartunesco à animação, mas que não atrapalha. Muito pelo contrário, acrescenta qualidade ao filme, sendo um deleite aos olhos assistir à alo que soa tão original como esse filme.


A trilha sonora não se destaca, no entanto, também não é ausente, sendo desnecessário comentá-la.


Já as histórias, essas merecem muitos comentários. Pelo fato de serem curtas, já são entregues personagens prontos e que não se perdem em enrolações desnecessários, então logo vemos a "ação" de cada história, algo extremamente agradável para quem assiste.


Enfim, "Short Peace" é um projeto ousado e até ambicioso, mas que cumpre muito bem o seu papel, sendo mais um ponto positivo no currículo desse mestre dos mangás que é Katsuhiro Otomo.


4 pontos e meio

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dica cinematográfica: "A vida marinha com Steve Zissou" (2004)

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Ontem assisti à esse filme que é considerado por alguns como o melhor filme de Wes Anderson.


O filme conta a história de um documentarista chamado Steve Zissou, que após a morte do melhor amigo, registrado no seu último documentário, lança um filme que é um fracasso, descobre que tem um filho bastardo, fato que faz sua mulher abandoná-lo, recebe um ultimato de um executivo do estúdio ao qual trabalhava e sofre terríveis críticas de jornalistas do mundo todo. Nessa situação frustrante, Steve decide fazer mais um documentário, com o objetivo de encontrar o tubarão que matou o seu melhor amigo.


Basicamente, essa é a história, que se desenrola com certa lentidão, cheios de histórias paralelas, que nascem e crescem ao longo de toda a película. É um filme de Wes Anderson e assim como todos os seus filmes as tomadas são amplas, os cenários ricos em detalhes, personagens inexpressivos e perturbados, ás vezes chatos e um certo humor negro em todas as passagens da história.


No entanto, o filme não é ruim. Muito pelo contrário, de todos os filmes que assisti do diretor, achei esse o melhor, o humor está bem colocado, a passagens entre os cenários é muito interessante e todos os personagens são bem desenvolvidos, da forma Wes Anderson de desenvolver os personagens, mas eu gostei.


A trilha sonora também é impecável, contando com a participação de Seu Jorge, como um dos tripulantes do navio de Steve, Pelé dos Santos, atuando e adaptando músicas de David Bowie para o português, o que ficou bom demais, afinal, o cara é talentoso pra caramba.


Enfim, "A vida marinha com Steve Zissou" é um ótimo filme, merecendo muito mais atenção do que recebe.


4 pontos

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Dica literária: "No. 5" de Taiyo Matsumoto (2000)

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Mais uma dica de um mangá escrito pelo fantástico Taiyo Matsumoto.


No. 5 é um instigante thriller de ficção científica que conta a história de Yuri, um ex-integrante do Conselho Arco-Íris e o número 5 na hierarquia do grupo. Após invadir o castelo de Número 1 e raptar uma misteriosa mulher chamada Matryoshka, Número 5 inicia uma fuga pelo mundo pós-apocalíptico, semi-utópico em que se passa a história. Enquanto isso, Número 1 pede para que os membros restantes do Conselho corram atrás do fugitivo e sua refém.


Basicamente essa história, que fica bem clara no primeiro volume e se desenrola das mais diversas formas ao longo de seus 8 volumes. Cada um dos integrantes do Conselho Arco-íris toma conta de uma região do mundo e através dos olhos deles e de Número 5 somos apresentados à todo o mundo fantástico, criado por mãos humanas após a devastação de todos os seres vivos da face do planeta. Muitos personagens são movidos pelo desejo de criar um futuro melhor, nem que seja impondo-o, manipulando as pessoas, a genética e a vida de um modo geral.


Outros personagens decidem escolher a liberdade de pensamento, de escolha e viver com aquilo que gostam, mesmo que escondidos, enquanto que a maioria simplesmente se rende ao poder maior e entram em uma melancólica indiferença em relação ao que fazem e ao que vêem outros fazendo.


No. 5 têm muito crédito narrativo, tendo quadros enormes, assim como seus capítulos, com muitas páginas; mas que não cansam quem o lê. Às vezes, a história se torna confusa, com perguntas que só são respondidas capítulos após serem colocadas a xeque, também conta com muitas reviravoltas e uma linha do tempo, em determinados momentos, não linear, o que te confunde, mas que não prejudica o todo.

Também têm muito crédito artístico, afinal é feito no característico estilo de Matsumoto, simples, sujo, parece que foi feito com caneta sem rascunho, nem nada, sem preocupação.No entanto, ao longo dos volumes é perceptível que Matsumoto têm cuidado ao fazer seus mangás, de um modo geral, eles são feitos de uma forma só, mas às vezes, capítulos inteiros são feitos como se tivessem sido desenhados com lápis, outros são feitos com traços grossos, ilustrando magistralmente cenas de batalha ferozes.

E assim, assumindo diversos estilos, criando uma história complexa, cheia de plot-twists e personagens carismáticos e, acima de tudo, humanos, Taiyo Matsumoto criou uma obra incrível de ficção científica, que merece mais atenção do que recebe, atualmente.

4 pontos

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Uma explicação pseudo-didática sobre a friendzone

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Há alguns meses, li um texto dizendo que a “friendzone” nada mais era que uma versão moderna de machismo, por que se baseava na troca de favores; garoto faz algo legal para uma garota e em troca exige receber prazeres afetivos dela. No entanto, tal afirmação não poderia ser mais errada, indicando uma profunda falta de conhecimento do que é a friendzone. Na semana passada, enquanto ouvia um podcast, acabei escutando a leitura de uma mensagem que dizia basicamente a mesma coisa, e mais, a friendzone, na verdade, não existe. Pensando nisso, notando que a muita falta de conhecimento da temida friendzone em alguns círculos da internet, decidi escrever esse texto, na esperança de que eu possa esclarecer um pouco sobre esse fenômeno, tão natural  e tão assombroso, que é a friendzone.

Para poder iniciar o texto e para não ficar tão chato, irei apresentar um exemplo:

João é um garoto legal, inteligente, leitor de mangás e fã de filmes de ação. No primeiro dia de aula, ele conhece Maria, um  menina esbelta e bonita, mas que, assim como ele, não se sobressai sobre ninguém. Os dois são apenas dois adolescentes normais, com o rosto cheio de cravos e espinhas, preocupados com sua forma física e estudantes do ensino fundamental. No entanto, Maria chama a atenção de João e ele decide se aproximar dizendo “oi!”

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Maria diz “oi” e  com o passar dos dias, João decide se aproximar de Maria, sentando atrás dela na classe, andando com ela e suas amigas no intervalo e até saindo juntos com alguns amigos em comum.

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Os dias se tornam semanas e logo João se vê acompanhando Maria até sua casa. Ele é uma boa companhia afinal e quando as semanas se tornam meses, João flagra Maria beijando Marcos, um dos amigos em comum que os dois tinham, na festa junina da escola.

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João fica arrasado, mas tudo bem, era só um beijo, afinal. Ele teria a sua chance. Quando Maria diz a João que Marcos a dispensou para ficar com Clarinha na festa de aniversário de Gabriel, João acha que essa é a sua chance e decide confessar o seu amor para ela, da única forma que ele sabia, falando: “Eu gosto de você, Maria!”

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No entanto, Maria não gostava de João da forma como ele gostava dela. João era um cara legal e tal, mas era tão legal como suas amigas; a companhia que acompanhava ela até a sua casa, depois da escola e não um possível namorado. Essa hipótese até poderia ter passado pela cabeça de Maria, mas não naquele momento. Naquele momento, ela só queria um ombro amigo para poder chorar e dizer à ela que tudo iria ficar bem. Por isso, Maria o dispensou.

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João fica triste, óbviamente e vai para casa, ouvir Leonard Cohen, enquanto chora segurando o travesseiro.

O que João não sabia era que, assim como o humor, o amor tem o seu timing e o dele foi há cinco parágrafos atrás. O João de nossa história errou pela inexperiência e não há nada que ele pudesse fazer sobre isso, afinal essa é a vida, vivendo e aprendendo. Se ele tivesse pensado bem, saberia que Maria não gosta de filmes de ação e nem de mangás e em uma realidade alternativa, o namoro dos dois terminou após 2 meses.

A friendzone é isso, nada mais do que uma versão muito específica de amor platônico, algo que é escrito e contado há milênios e todo mundo já sofreu um amor platônico alguma vez na vida. Alguns sofreram um caso muito específico de amor platônico como a “friendzone”, outros simplesmente não tiveram seus sentimentos correspondidos de uma forma ou de outra.

O fato é que isso é algo normal e aconteceu com qualquer um sem experiência alguma com relacionamentos, por isso é mais comum em adolescentes, que, de maneira geral, entendem pouco ou nada de relacionamentos, mas também podem acontecer com pessoas adultas, que também podem conhecer pouco ou nada de relacionamentos amorosos.

No entanto, a questão a ser discutida aqui não é sobrecom quem que isso acontece, nem como evitar isso (até por que nem eu sei como evitar a friendzone, se é que tem como evitá-la). A questão é desmistificar a teoria que diz que a friendzone é algo machista.

Como você pode perceber no exemplo acima, citamos João como referência principal, mas poderíamos muito bem inventer os papéis e colocar Maria como a personagem principal, que gosta de João e acaba ficando na friendzone.

Isso só é mais difícil, por que vivemos em uma sociedade onde mulheres são menos encorajadas a tomar a iniciativa de começar um relacionamento e por esse motivo é mais conciliar a imagem da friendzone com um homem que gosta de uma mulher e não é correspondido, do que com uma mulher.

Atenha-se a outro fato, João não fez coisas boas de Maria, esperando receber prazeres sexuais em troca, ele fez coisas boas a ela, por que queria se aproximar de Maria e enfim, achar o momento ideal de dizer que gosta dela ou, quem sabe, o momento em que ela ia gostar dele. Isso, de forma alguma, pode ser classificado como machismo, se não todos os relacionamentos teriam que ser machistas, até mesmo relacionamentos entre duas mulheres. Afinal, se você faz algo para a pessoa que você ama é pensando em agradá-la, se não você não está fazendo por ela.

Isso pode até ser confundido com o comportamento daqueles caras que dão caronas, pagam bebidas e compram presentinhos para mulheres esperando que elas deixem-os entrar em suas casas à noite e fazer o que quiserem com elas. No entanto, são comportamentos completamente diferentes.

Uma coisa é você dar uma carona para uma garota, esperando obter um passe livre para o quarto dela e enfim, o que se esconde entre suas pernas. Outra coisa é você dar carona para uma garota, por que está querendo conhecê-la melhor e se convencer de que ela pode ser a garota da sua vida.

Admito, há uma linha muito tênue separando os dois comportamentos, os dois parecem seguir o mesmo caminho, o “chaveco” usado pode até ser o mesmo, mas a diferença se encontra no objetivo. Em um, o cara quer só passar uma noite com  a garota para poder se gabar com os amigos, no outro, o cara quer realmente construir um relacionamento duradouro com a garota, quem sabe que até dê frutos, por que não?

E o primeiro cara, o que deve ser combatido e repelido pelas mulheres, não vai cair na friendzone, por que assim que ele perceber que está difícil demais, ele vai cair fora e buscar conforto em outro terreno, algum que leve menos tempo para ser conquistado. O segundo cara não vai desistir tão fácil, ele vai continuar até ser dispensado e se ele respeita a sua opinião, mesmo que depois de uma discussão, então ele não pode ser culpado na história.

Na verdade, em um caso de “friendzone” não há culpados, muito menos vítimas, apenas pessoas, que se encontraram, no lugar errado e, principalmente, na hora errada. É o famoso caso do “não era pra ser”, sabe?

A friendzone nada mais é do que um fenômeno que acontece quando alguém ainda não aprendeu a expressar seus sentimentos da maneira correta para alguém, não é machismo, não é sexismo, é apenas parte da vida. Algo que deve ser levado a sério (mas não tão a sério assim) e deve ser considerado parte de todas as lições que iremos aprender ao longo dessa coisa estranha que chamamos de vida.

 

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Dica literária: "Domu: A child's dream"

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"Domu: A child's dream" é um mangá de Katsuhiro Otomo, mesmo criador de Akira, publicado antes de sua obra mais conhecida, sendo um mangá one-shot do gênero horror e suspense.

O mangá começa com um grupo de policiais e detetives investigando o suicídio de um homem em um complexo habitacional, que havia pulado de um lugar ao qual ele não poderia ter acesso. Logo o detetive responsável pelas investigações descobre que o responsável por essa e outras mortes misteriosas é um velho chamado "Old Cho", um idoso senil, cuja maior diversão parece ser passar os dias sentado em um banco do complexo habitacional vendo as crianças brincarem, porém, a noite, o velho usa seus poderes extra sensoriais para assassinar pessoas e ficar com seus "tesouros" pessoais, objetos que ele usa à sua volta e acaba matando o investigador de polícia. Ao mesmo tempo que o investigar chefe muda, uma garota com poderes extra sensoriais se muda para o prédio e descobre o que "Old Cho" estava fazendo, exigindo, ao seu jeito, que o velho pare com o que está fazendo, pois ela sabe o que é certo e errado.

O mangá é muito bom, com uma estrutura narrativa incrível, fazendo o leitor acompanhar os quadros e a história contada como se fosse um filme, tamanho o realismo e a maestria com a qual a história é guiada por Katsuhiro Otomo. Existem muitos personagens ao longo de toda a história, cada um com seus momentos, suas falas próprias, levando a conclusão de que o próprio complexo é um personagem na história, um objeto sem vida, porém que abriga diversos outros seres pensantes, criando o seu próprio micro-cosmo. As cenas de batalha são incríveis, surpreendendo quem lê. Impossível não vê-las e imaginar um filme rolando na frente dos seus olhos.

O tema dessa história é mais focado no horror mesmo, tendo algumas cenas gore ao longo de toda a narrativa, no entanto, é uma ótima leitura, com muito suspense e ação acontecendo, fazendo o tempo passar rapidamente e quando você se dá por si, pronto a história já acabou, apesar de conter mais de 200 páginas.

Infelizmente nenhuma editora brasileira trouxe "Domu" para cá e as edições estrangeiras já estão esgotadas (talvez algumas ainda sejam publicadas como a japonesa), sendo considerado um item de colecionador e se você o achar algum dia em alguma de suas viagens pelo mundo, por favor,compre uma edição para mim,por que esse já é um dos meus mangás favoritos.

5 pontos

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dica cinematográfica: "Uma noite de crime: Anarquia" (2014)

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Já falei do primeiro filme nesse post, filme que acabei gostando no final das contas, mas nunca mais o assisti depois.

Enfim, decidi assistir o segundo, já sem muitas expectativas e o filme não surpreende, sendo apenas um bom filme de suspense/terror, bom para passar o tempo, apesar de ser superior ao primeiro.

Nessa sequência, somos apresentados ao dia da purificação de 2023, um ano depois dos acontecimentos do primeiro filme, acompanhando 3 histórias paralelas e que se unem logo no meio do filme; sendo elas: Um casal se torna alvo de um grupo de delinquentes mascarados horas antes do início da purificação, ficando perdidos no centro da cidade, o ponto mais perigoso nas 12 horas de crime que se seguem. Uma família formada por um idoso, sua filha e sua neta passam por dificuldades econômicas e o velho decide vender-se para uma família rica, enquanto sua filha e sua neta se vêem presa em casa com um maluco psicopata e um grupo de assassinos supostamente contratados pelo governo para diminuir o número de pessoas pobres na cidade. E pro fim, um homem que teve seu filho assassinado, corre atrás do responsável pelo crime.

O filme é superior ao primeiro em vários aspectos. Primeiro pela narrativa, que é guiada de forma diferente ao primeiro, apresentando 3 histórias sem ligação e ligando-as logo no meio do filme, fazendo os personagens passarem por várias situações diferentes e até frustantes, obrigando-os a unirem suas forças para poder sobreviver. Também temos um pano de fundo mais interessante, ou melhor, mais explorado tornando-se mais interessante; no primeiro filme somos apresentados à uma família rica e umas críticas mais "suaves" em relação á discriminação e à políticas absurdas. Neste, as críticas são jogadas logo no começo, sendo incluído até um líder rebelde que lidera uma espécie de frente de batalha contra a purificação, que supostamente só serve à elite do país, algo que fica muito claro do meio pro final do filme.

No entanto, se o roteiro até que impressiona pela qualidade, a parte técnica deixa a desejar um pouco. Pelo fato do filme se passar mais nas ruas, provavelmente, o filme é mais escuro, tendo uma fotografia diferente, com muitas luzes de várias cores, além de um enquadramento menos perfeccionista, mas as tomadas continuam focando nas partes mais interessantes da ação.

E por falar em ação, se o primeiro filme continua dar alguns sustos e se passar por filme de terror, mesmo que de forma leve, este se entrega totalmente à ação e ao suspense, não sendo capaz de dar um susto sequer ao longo de seus 103 minutos, mas até que consegue criar uma atmosfera de tensão e suspense bem legal.

Enfim, somos apresentados aos reais motivos do dia da purificação neste filme e eu fiquei mais animado agora para ver como irão concluir essa trilogia, apesar do filme ser bem mediano, de uma forma geral.

2 pontos e meio

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Dica literária: "Under Execution Under Jailbreak" (2005)

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"Under Execution Under Jailbreak" é um mangá de um volume só (one shot) escrito e ilustrado por Hirohiko Araki, mais conhecido por escrever e desenhar o mangá Jojo's Bizarre Adventures, que foi adaptado para anime em 2012,acho...

Nesse mangá, são compilados quatro histórias desconexas umas das outras, sendo que duas delas ocupam têm mais de um capítulo. Todas elas têm uma relação com o horror, sendo histórias que podem assombrar os seus pesadelos por alguns dias ou por algumas horas, contendo cenas fortes e um roteiro que te prende ao longo de todo o mangá.

"Under Execution Under Jailbreak" é a primeira história e eu acho que foi colocada como primeira propositalmente pois com ela já dá para se ter uma boa ideia sobre o que irá se tratar todo o mangá, contando a história de um prisioneiro condenado à morte por ter matado uma mulher e se vê preso em uma armadilha na prisão, que poderá matá-lo e isso o atormenta por mais de 50 anos. É a história mais pesada do mangá, com muito sangue, mutilação e umas coisas gore nojentas, o que resulta num enfraquecimento do terror psicológico que permeia todo o roteiro da história.

"Dolce and his master" conta a história do único sobrevivente de uma lancha que quebrou em alto-mar da perspectiva de sua gata de estimação; a Dolce. É contada em dois capítulos e guia muito bem o leitor pela insanidade do rapaz que fica preso durante uma semana numa lancha quebrada, com o corpo de uma mulher morta do lado e uma gata do outro. É a única com uma pontada de esperança no final, apesar do final trágico e muito bem bolado.

"Thus spoke Kishibe Rohan" é uma história de horror e suspense com clara influência de Edgar Allan Poe, contando a história de um mangaká que decide nos agraciar com um conto de terror que ele ouviu em sua primeira viagem á Itália.

"Deadmen's Questions" é a última e mais longa história, contando com 3 capítulos, contando a história de um homem morto, que realiza trabalhos vingativos para os vivos. Muito interessante e parece que contém uma relação direta com Jojo's Bizarre Adventure.

Nunca havia lido nada de Hirohiko Araki, nem assisti o anime que adaptou seu mangá mais famoso, mas me interessei por esse one-shot; primeiro por que é one shot (Hoje em dia é uma tarefa homérica acompanhar Jojo's Bizarre Adventure), segundo por que é terror (japoneses são os mestres nisso) e terceiro, por que a arte dele sempre me intrigou. É um estilo difícil de se classificar, com alterações fisionômicas muito acentuadas e com características masculinas marcantes, além da ênfase dada às roupas, cheias de detalhes e com muitas cores.

Não é uma arte excepcional, muito menos genial, mas tem que se admitir que é extremamente original e isso se reflete nos roteiros das histórias, que também são muito interessantes e vale a pena serem lidas.

Enfim, essa é a dica de hoje, mangá de horror, com traço original, de um autor famoso pra caramba.

4 pontos

domingo, 10 de agosto de 2014

Dica cinematográfica: "Pais & Filhos" (2013)

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Aproveitando o dia dos pais para postar uma dica de um filme que centra-se na relação de pais e filhos, mostrando a influência da figura paterna na formação dos filhos e também em como essa relação cresce independentemente da situação em que se vive.

O filme mostra Ryota, um jovem arquiteto de grande sucesso, que junto com sua jovem, bela e delicada mulher, mais o filho de 6 anos forma a família ideal para a sociedade japonesa, mas, de repente, seu mundo vira de ponta-cabeça quando ele descobre que seu filho fora trocado na maternidade do hospital com o filho de uma família pobre de um dono de uma loja e uma vendedora  de uma loja de comidas prontas (ou algo assim, não fica claro qual o trabalho dela, ainda mais por que no Japão existem trabalhos que não existem em outras partes do mundo).

O filme trata de mostrar qual a relação dos dois homens com os seus filhos e os seus ideais de família. Ryota é um homem ligado à descendência de sangue, considerando isso um filho perfeito e não consegue conciliar o amor que sente pelo filho com os ideais nos quais fora criado pelo seu pai, sua mãe e irmão. Já Yudai, o outro pai, apesar de extremamente modesto e simples,é também um cara extremamente carinhoso, um homem que perdeu muito durante toda a sua vida e agora, já na meia idade, começa a adquirir aquela boa sabedoria que só vem com a idade, considerando a sua família o maior tesouro, a única coisa que vale a pena viver, de verdade.

Os dois homens vivem em mundo completamente diferente e enquanto as estações do ano passam, eles tentam experiências diferentes com os filhos, sem grandes resultados.

O filme é mais centrado em Ryota, até por que é o personagem que mais pode aprender ao longo dessa aventura.Ele é um homem muito agarrado ao seu trabalho, às regras, à vida social e também é o que mais aprende, mesmo que da pior maneira possível, que família não tem a ver com laços de sangue, mas com laços de afetividade.

No final,  filme acaba virando um filme sobre isso mesmo, sobre a nossa verdadeira família, às vezes não somos a família de nossos irmãos, nossos pais ou mães, tios ou tias, ou avós. Somos a família de nossos amigos, de nossos parceiros que escolhemos para viver o resto da vida, nossos filhos, biológicos ou não, nossos vizinhos, chefes ou colegas de trabalho. Pessoas que amamos e queremos bem. Pessoas que nos deixam felizes quando conseguem alcançar um objetivo específico e nos entristecem quando ficam tristes.

O filme conta uma ótima fotografia, uma trilha sonora soberba e a excepcional atuação de seus atores e atrizes, até mesmo das crianças, mas tudo isso torna-se ínfimo face a mensagem que o filme passa, universal e adorável em todos os detalhes.

Enfim, assista esse filme com seu pai, sua mãe, seu irmão, seu tio, seu avô, seu amigo de classe, seu colega de trabalho, seu patrão, sua namorada ou namorado; ou seu vizinho.

Assista com a sua família.

5 pontos

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Dica televisiva: "Ping Pong: The Animation" (2014)

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Ping Pong: The Animation é um anime inspirado em mangá de mesmo nome do ano de 2014 e é muito bom.

O anime conta a história de Smile e Pelo, dois jogadores de tênis de mesa que frequentam o mesmo clube de treinamento e tem um talento natural para isso. No entanto, Peko torna-se extremamente convencido das suas habilidades excepcionais e Smile não vê mais graça no esporte. Apesar disso, o treinador da escola que os dois frequentam vê um futuro campeão em Smile, mas nenhum espírito esportivo e começa a treiná-lo com o objetivo de transformá-lo em um campeão.

O anime trata-se de um esporte que não têm muita moral no mundo: o tênis de mesa, então como ele pode ser muito bom? Simples, é um anime baseado em um mangá de Taiyo Matsumoto, o mesmo criador de Tekkon Krinkeet e Sunny, dois mangás ótimos e que merecem muito mais atenção do que recebem, tendo como trunfos a arte extremamente bela e original e a complexidade de seus personagens.

A arte é algo que chama a atenção logo no começo, "Ping Pong: The Animation" não é feito de forma convencional, assim como "Tekkon Krinkeet" (que foi feito todo a mão). Esse anime se esforça em parecer o mais fiel possível do traço fino, com detalhes semi-realistas, porém sujos de Taiyo Matsumoto, utilizando o CG apenas para as cenas em que mostram com detalhes as raquetes e as bolas de tênis de mesa; criando um anime que enche os olhos, nem tanto por ser bonito (ele é), mas o que chama a atenção é a originalidade de sua arte, além da ousadia que esse tipo de arte representa nos dias de hoje. Só para contextualizar, animar personagens e cenários com desenhos mesmo, fazendo tudo a mão, é considerada uma forma de arte atrasada e menosprezada no Japão, onde o uso de computadores e CG para animar é básico.

Outro ponto que chama a atenção, é a complexidade dos personagens. Acredite em mim quando eu digo que Taiyo Matsumoto não cria personagens rasos, todos eles são profundos, até mesmo os personagens com menos destaque, que aparecem em uma ou outra cena ao longo da série. Para começar temos dois personagens principais niilistas na história, um deles é Smile, que não vê graça no esporte, nem na vida, passando os dias jogando video-game e se escondendo dos seus problemas. O outro é Kazama, um jogador campeão mundial, mas que não está no esporte por que gosta e se diverte com aquilo e sim por obrigação, por pertencer à uma família que é dona de uma marca esportiva. Os dois perderam pessoas que amavam muito no passado e se perdem em arrogância e uma suposta superioridade em relação aos outros, mas no fundo, eles não acreditam que o esporte que praticam é útil, muito menos bom e não enxergam graça na vida. Já Peko começa como um arrogante desleixado que se convenceu de ser uma estrela, mas ao perder para um jogador chinês, chamado Weng, entra em depressão e desiste do tênis de mesa, até perceber que todos são importantes para alguém, até mesmo perdendo, o importante é a sua essência, o seu papel. Weng é um jogador chinês que foi expulso do seu país por ser um péssimo exemplo, ele é presunçoso e arrogante, apenas se importando com sua volta para a China, no entanto, ele acaba descobrindo que um pouco de trabalho e diversão são as coisas realmente importantes na vida. Outro personagem com um papel central na história é Sakama, um jogador sem talento, porém muito esforçado, mas que acaba descobrindo que não adianta você se esforçar para fazer algo que não se encaixa com você, isso nunca dará frutos. Ele começa como um personagem detestável, mas logo criamos empatia por ele, não só por ser mais uma vítima cruel da realidade, mas também por ser o primeiro a achar um equilíbrio saudável para a sua vida, tornando-se uma espécie de consciência para vários personagens.

Todos os personagens começam abusando de excessos, sejam eles bons ou ruins, como o complexo de inferioridade de Smile, que logo vira um complexo de superioridade, ora pecando pelo excesso, ora pela falta; esquecendo-se de que o saudável é manter um equilíbrio na vida. Esses são apenas alguns dos personagens, também temos +personagens secundários que foram tirados do esporte por abusar dos limites, personagens que nutrem paixões por quem não deveriam se apaixonar, enfim, temas mais simples, porém abordados de forma sutil e sagaz por esse que é um dos melhores autores da atualidade: Taiyo Matsumoto.

Enfim, "Ping Pong: The Animation" é um anime muito bom, contando não só com um estilo original e personagens complexos, apesar do roteiro simples, mas também com uma narrativa muito interessante, utilizando-se de todos os efeitos que puder usar para contar a história, como músicas, flashbacks e cortes não-lineares no meio da tela. Num primeiro momento, ele pode assustar, parecendo uma coisa ruim, pobre, mas logo você consegue descobrir a beleza das histórias de Taiyo Matsumoto.

4 pontos

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Dica musical: "Gist Is" do Adult Jazz (2014)

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Adult Jazz é uma banda formada em 2010 (acho) na cidade de Leeds e esse ano eles lançaram o surpreendente álbum "Gist Is".

Muito já se falava dessa banda, que lançava alguns vídeos no YouTube com pedaços de apresentações ao vivo e algumas músicas prontas, mostrando que o som deles não é algo que se pode ouvir todos os dias. E o álbum de estreia confirma isso.

O estilo musical é difícil de definir, talvez seja jazz, mas não é um jazz típico, com jam sessions longas recheadas de instrumentos e ritmos que crescem organicamente, ao longo das apresentações. É algo mais recente, com instrumentos eletrônicos, mais centrado nos vocais, que parecem ser a essência de todas as canções, afinal não é difícil ouvir músicas com murmúrios feitos pelo vocalista, guiando o ritmo que os instrumentos devem seguir, lembrando canções sofisticadas produzidas há muito tempo, seja pelos cantores de jazz ou pelos cantores de bossa-nova (que aliás também eram influenciados pelo jazz).

Os instrumentos também não são constantes, sendo muito diversos, indo da básica bateria à excêntrica clarineta, com guitarra, violão, trompete, saxofone e outros instrumentos no meio, gerando uma verdadeira "bagunça". No entanto, é uma bagunça deliciosa de se ouvir, criando ritmos que crescem e se desfazem naturalmente, sem forçar nada aos ouvidos de quem se aventura por esse álbum.

Uma aventura que fica clara se você decidir prestar atenção às letras, que tentam passar uma mensagem, mas se rendem ao ritmo, tornando-se desconexas, com meia-palavras e versos que terminam repentinamente e não continuam ao longo da música, criando mais uma vez uma ponta com músicos que buscavam algo além do sentido no século passado, sem preocupação com a mensagem, mas até onde iam os limites da música, da experimentação e do ritmo.

Adult Jazz abusa dos instrumentos, dos vocais e dos ritmos, criando um ambiente que engana os ouvidos, ilude e ficamos perdidos, mas é um álbum desses que pode te fazer lembrar como é bom ficar perdido.

Não é genial, nem brilhante, talvez nem inédito, mas é novo, ao menos na época em que vivemos e ousado, com certeza, mas ouça com cuidado. "Gist Is" não é um álbum para ser ouvido a qualquer hora, quando você estiver atrasado e  com pressa, é um álbum para ser ouvido com atenção, por que se não, a viagem que ele proporciona será confusa e caótica.

4 pontos

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Dica cinematográfica: "Waking Life" (2001)

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Waking Life é um desses filmes que têm que ser digerido por várias horas depois de ser assistido, talvez dias, quiçá semanas e só então pode-se falar dele. É um filme de Richard Linklater, um brilhante diretor de filmes cult como "Jovens, Loucos e Rebeldes" e "Slacker", então pode-se esperar não apenas um filme, mas uma obra de arte, que impulsiona experiências não só audiovisuais, como filosóficas também.

O filme conta a história de um garoto que se vê preso no mundo dos sonhos. Ele acorda de um sonho e percebe que continua em outro, encontrando-se com as mais diferentes pessoas, rebeldes, loucos, velhos, jovens, professores, donas de casa, diretores de cinema e líderes religiosos. Todos conversam com o garoto sobre os mais diversos temas que, provavelmente, ninguém achará respostas e por esse motivo nunca nos cansaremos de debatê-los, como o livre-arbítrio, a evolução da sociedade, o contato humano, nossos relacionamentos, nossa vida em sociedade, a liberdade de cada um, os nossos limites, a relação entre amor e desejo, o que é o bem, o que é o mal e o que há após a morte. Esses e outros temas são apresentados e discutidos em poucos minutos, conforme o garoto se encontra com as pessoas, até que ele percebe que não consegue acordar e passar a viver um sonho lúcido.

O filme é simplesmente muito bom, sendo uma dessas animações que não é feita para crianças, aliás, animação que surpreende. O diretor filmou primeiro o filme com pessoas reais e depois pediu para o diretor de arte, Bob Sabiston, transformar o filme que havia feito em uma animação, desenhando por cima o que se tornou Waking Life, algo muito inteligente.

Não há um só estilo na animação apresentado, ás vezes os personagens são apresentados de forma cubista, outras de forma realista, ou ainda de forma totalmente surrealista, desmanchando-se no meio da tela, enquanto o cenário ao fundo muda e, por vezes, a arte com a qual eles são representados combina com as discussões filosóficas que eles debatem com o protagonista, gerando uma combinação perfeita entre imagem, som e roteiro. Uma verdadeira obra de arte, digna de ser admirada.

No entanto, o filme não chega a ser pretensioso. É claro que os diálogos são inteligentes, papo cabeça mesmo, mas a forma como cada diálogo chega ao espectador não é desnecessárias, aliás a temática do filme favorece isso. Como num sonho, em que os acontecimentos chegam a nós e não nos lembramos como o sonho começou, às vezes nem como acabou, o filme também é assim. Cada personagem diz o que t~em que dizer e some, tão rápido como chegou, deixando você pensando em tudo o que ele disse, ou não... Afinal são só ideias.

Enfim, o filme é uma obra de arte maravilhosa, que merece ser assistida e admirada, fazendo eu me tornar, aos poucos, fã de Richard Linklater.

5 pontos

terça-feira, 29 de julho de 2014

Dica cinematográfica: "Watership Down" (1978)

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"A grande aventura" na tradução brasileira é um filme de animação do ano de 1978.

Conta a história de um grupo de coelhos, que sai da coelheira onde viviam, por que um deles teve a visão de um desastre que iria acontecer; mais pra frente ficamos sabendo que a floresta onde viviam havia sido loteada e construíram um condomínio por lá. Quando um pequeno grupo de coelhos foge, eles entram em uma grande aventura, enfrentando todos os inimigos naturais que têm, além de enfrentar outros coelhos, que não gostam nada dos "estrangeiros" até alcançarem a paz tão procurada em uma colina, a "Watership down" do título.

O filme é uma adaptação de um livro homônimo e é uma dessas histórias adultas mascaradas de história infantil, não se deixe guiar pelo desenho singelo e belo, típico de livros infantis do século passado e suas vozes fofas, a história é dura e segue uma abordagem meio "naturalista"; apesar do filme dar características humanas aos animais, eles ainda são guiados por instintos e agem como os animais que são, sendo agressivos e brutos em alguns momentos. Aliás, o filme não poupa em brutalidade, tendo muita situações assustadoras para crianças e até para adultos também.

A animação é bem ruinzinha se for analisar com olhares do século 21, tendo quadros parados no meio do filme, mas nesses momentos os quadros se tornam bem detalhados e bonitos, impressionando pelo realismo usado no filme, mas fica claro que o cenário foi feito de um jeito e os personagens animados por cima. No entanto, isso não atrapalha em nada a diversão.

Enfim, "Watership Down" é um filme muito recomendado, até mesmo para crianças mais velhas, pois trata de forma sensível e delicada temas como o abuso da Terra pelo homem e brigas mesquinhas por territórios, sendo um filme muito profundo e divertido.

4 pontos

sábado, 26 de julho de 2014

Dica musical: "Honeyblood" do Honeyblood (2014)

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Honeyblood é uma dessas bandas que te pega de surpresa pela originalidade, ousadia e qualidade de suas canções, sendo uma banda independente, sem apoio de ninguém e com consciência de suas limitações.

Honeyblood é uma banda formada por 2 garotas, de Manchester (acho) e seu som pode ser definido como um post-rock meio gótico meio noise. Elas já haviam lançado um EP, muito legalzinho pelo Bandcamp com algumas músicas que estão presentes nesse CD e ano passado lançaram outro, só que dessa vez por uma gravadora, mas com produção totalmente independente; pra voc~e ter uma ideia, elas gravaram o EP num banheiro, então o som é cheio de ruídos, você mal entende o que a vocalista está cantando, mas tudo foi só um "esquenta" para este CD, que conta com 12 canções que falam de garotos sendo idiotas e mulheres que querem achar o seu espaço, a canções que servem como terapia.

Como dá pra perceber não é um CD excepcional, mas há nele um frescor que bandas mais antigas e que servem como influências para elas, seja liricamente ou musicalmente, perderam a muito tempo e por esse motivo não conseguem mais fazer álbuns melhores que medianos, tornando-se bandas de um álbum só ou pior, bandas de uma música só.

Por esse motivo é gostoso ouvir o álbum de estréia de Honeyblood, um dos que eu mais aguardava esse ano e o penúltimo do ano; mas se Honeyblood vai continuar me encantando, fazendo-me gostar do som delas, isso só o tempo poderá dizer.

3 pontos e meio

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Dica musical: "Live Versions" do Tame Impala (2014)

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Este está sendo um ano ruim para a música. Enquanto que ano passado tivemos lançamentos ótimos e bons, este ano estamos tendo lançamentos medianos e ruins, a não ser por um ou outro artista que quebra a monotonia do "mais do mesmo" e da prepotência artística e acaba lançando uma jóia rara não só no cenário musical de 2014, como no cenário musical da história (ouça "Luminous" do The Horrors e "Rooms of the house" do La Dispute para entender o que eu estou falando).

Em um cenário tão monótono, nada mais justo do que ver "mais do mesmo" sendo interpretado com toques de genialidade. Essa é a proposta do Tame Impala com esse belíssimo CD chamado simplesmente de "Live Versions".

Neste CD, lançado exclusivamente para o Record Store Day, estão incluídas 9 músicas do último trabalho de estúdio da banda e uma não tão inédita, o jam session que eles fazem em todos os shows e que por isso não é mais jam session e ganhou um nome. As nove músicas já foram ouvido e re-ouvidas por todos os fãs da banda, mas nessa gravação ao vivo, ocorrida durante um show na cidade de Chicago em Outubro do ano passado, a banda dá uma renovada no espírito de cada uma das músicas, adicionando mais efeitos, improvisando nos solos e prolongando sua duração, além do uso de instrumentos diferentes.

Através dessas 9 faixas dá pra se ter uma ideia do som ao qual a banda se encaminha, cada vez mais psicodélico, cheio de sintetizadores, com uma bateria potente e o baixo sempre marcante, ou seja, cada vez mais originais e geniais.

O único ponto ruim, na minha opinião é a escolha das músicas, nesse CD apenas músicas do segundo disco estão presentes, deixando de lado obras de arte do primeiro, que foi aquele CD que abriu os olhares do mundo para o cenário musical australiano, tamanho a influência de Tame Impala por aquelas bandas, mas se a banda conseguiu elaborar um tesouro como esse com apenas algumas músicas de todo o seu repertório brilhante, imagine se ele todo estivesse incluído, seria desleal para a concorrência, aos moldes de Brasil e Alemanda na copa desse ano.

Enfim, Tame Impala é sem sombra de dúvida uma das melhores bandas no cenário musical mundial, tendo versões de estúdio brilhantes e versões ao vivo surpreendentes.

4 pontos e meio