quinta-feira, 22 de junho de 2017

Logan e um breve ensaio sobre gêneros, masculinidade e super-heróis

Aviso: Spoilers à frente!

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Eis que chegou a hora de fazer a dica de um filme que não dava a menor moral, mas acabou entrando no meu TOP 5 de filmes de super-heróis.

Logan é o último filme na série de filmes dos X-Men, encerrando o universo criado com X-Men, de 2000. Nele, situado em 2029, num EUA devastado, xenofóbico e quase sem mutantes, Logan, o Wolverine, é um motorista de Uber, que junta uns trocados pra comprar remédios para Xavier, que está doente e é mantido seguro num esconderijo no meio do deserto, além de remédios para ele mesmo, pois o Adamantium está, aos poucos, matando-o. Uma noite, uma mulher (Gabriela) e sua filha (Laura) pede um favor a ele, que as leve para o norte dos EUA, onde, supostamente, existe um refúgio para os mutantes, mas Logan o nega, até que não pode negar mais, já que a empresa biotecnológica que está atrás da Gabriela passa a usar de métodos sujos e Logan não consegue mais fugir de suas obrigações.

Não posso enrolar muito na história, porque há muito que se falar desse filme, mas eu vou me centrar em 3 pontos principais. O primeiro sendo o gênero desse filme; Logan não é um típico filme de super-heróis e há quem diga que ele sequer é um filme de super-heróis, no entanto, eu gostaria de saber, o que é, afinal, um filme de super-heróis? Esse gênero existe de fato? Tomemos como exemplo os filmes do Super-Homem de 1978, é uma história de aventura e familiar e tirando detalhes óbvios, não há nada que o diferencie de outros filmes de aventura familiares, como Piratas do Caribe, por exemplo. Ainda assim, de fato, Homem-Aranha, de 2002, está muito mais próximo de Super-Homem (1978) do que Logan e aí eu dou meu braço a torcer, mas vamos fazer outro exercício. Imaginemos o filme “Fogo contra fogo” (1995) de Michael Mann, é um filme policial, no entanto foi realizado como um faroeste clássico e ainda assim ninguém o nega o título de filme policial. O inverso também pode ser feito, “Kick Ass” (2010) não tem as características de um filme de super-herói, mas nunca vi ninguém negá-lo esse título.

Então, o que é Logan? Bem, é um filme de super-herói, mas ele também é um faroeste, pois contém todas as características de um. É praticamente um “Fogo contra Fogo” na era de super-heróis. Assim como os filmes policiais estavam em voga entre os anos 80 e 90, a década passada viu o crescimento e fortalecimento de filmes de super-heróis e agora “Logan” aparece, como uma resposta a isso. “Logan” é um faroeste, em sua essência. Para isso, busquemos uma afirmação em John G. Gawelti e seu ensaio “Chinatown e a transformação de gêneros em filmes recentes”, um ensaio que categoriza a organização de gêneros cinematográficos em 4, quando os filmes começam a ficar enfadonhos demais para a audiência. Chinatown é usado como exemplo de um filme que responde a uma demanda da audiência por novidades no gênero de filmes policiais/noir típicos da época. Isso é explicado melhor nesse vídeo, que eu recomendo assistir, enquanto eu passo para as conclusões.

https://www.youtube.com/watch?v=pT75YHqlD9k

Logan é uma reafirmação do mito. Gêneros de super-heróis se tornaram enfadonhos, apenas Homem de Ferro 1 presta, os filmes do Homem-Aranha com o Andrew Garfield são péssimos, se existir um terceiro Vingadores nos moldes dos dois primeiros só crianças de 10 anos irão curtir e eu nem preciso falar de “Batman v Superman”, não é? Esse é um gênero que precisa de renovação, qualquer cinéfilo que assistiu “Spiderman” do Sam Reimi e “Homem de Ferro” sabe que já assistiu tudo que filmes de super-heróis podem oferecer e ainda assim Hollywood passou quase duas décadas produzindo filmes nos mesmos moldes.

E assim como os western spaghettis na segunda metade do século XX, que apareceram para reafirmar o mito do “Herói Masculino Ideal” (aqui vale uma digressão; muitos dizem que faroestes spaghetti são um anti-western, filmes pós-modernistas do gênero faroeste, mas eles são de fato realistas, com uma boa dose de romantismo acrescido. Tome por exemplo o clássico “The Good, The Bad and The Ugly”, o final dele não tem nada de niilista ou pós-moderno, muito pelo contrário é uma pegada bem humorado do idealismo construído por décadas de filmes western clássicos, o Bom mata o Mau, salva o Feio e termina com as glórias, o mito do “Herói Masculino Ideal” não é apenas reafirmado, como se ajusta aos parâmetros modernos), “Logan” é uma reafirmação do mito dos super-heróis. Ele passa a jornada inteira negando o seu passado, briga com isso, mas no final assume o papel máximo de herói ao ponto de se sacrificar por uma causa nobre, num último ato de heroísmo, deixando ainda o exemplo para as próximas gerações. Isto é uma metáfora cristã muito maior do que qualquer filme que o Snyder possa fazer com Superman.

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Tá certo, no final, quem vence o vilão final é Laura, com uma pistola e uma bala de adamantium (vejam só, faroeste de novo!), mas isso tem a ver com o segundo ponto que eu vou falar e é mais um tema típico de “Logan”; masculinidade. Para isso, vou recorrer ao excelente Robert Bly e seu livro “João de Ferro”, que fala basicamente de ritos de passagem, mas também explora pontos da natureza masculina e, principalmente, do “Homem Selvagem”, que representa a natureza agressiva do homem, algo contido pela sociedade moderna e tema recorrente nos personagens masculinos do filme. É óbvio a relação do “Homem Selvagem” com Logan, Wolverine nega a sua natureza a todo momento, o que leva a frustração, arrependimento e um sentimento inerente de inutilidade. No final, ele aceita o seu lado selvagem e salva o dia, mas talvez a demonstração do “Homem Selvagem” seja mais interessante nos outros dois personagens masculinos principais, o professor Xavier e Caliban, o mutante albino rastreador que ajuda Logan e Xavier no começo do filme, até ser capturado e se render aos membros da corporação Alkali-Transigen.

Xavier precisa de remédios para conter seus poderes, porque se não eles saem do controle, fazendo uma espécie de parada no tempo. Já Caliban tem um problema de pele e não consegue usar seus poderes fora do esconderijo que mantém com Logan.

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Se seus poderes são uma metáfora para o “Homem Selvagem”, inerente a qualquer ser humano do sexo masculino, Caliban é o cara que nunca entrou em contato com o seu “Homem Selvagem”, de verdade, ele só usa os seus poderes dentro de um esconderijo, mais para frente no filme, ele é literalmente mantido enjaulado. Ele esconde o seu lado selvagem, o mantém preso e longe do alcance de todos, não podendo utilizar isso para o bem. No mundo real, ele seria aquele típico cara que é o maioral entre a sua turma, mas não sabe matar uma barata, trocar uma lâmpada ou cozinhar um bife. Logan é diferente, ele nega o seu lado selvagem, apesar dele transparecer a todo momento e todos conhecerem o seu lado selvagem. No mundo real, seria o cara que tem medo de assumir compromissos, ele sabe as respostas para os problemas, mas não põem suas ideias em prática, ele fica no seu canto e faz as coisas sozinho, não sabe pedir ajuda e principalmente, não reconhece suas fraquezas. Ele não aprendeu com seus erros. E Xavier, por fim, é a masculinidade que deu certo. Por uma questão narrativa, ele toma remédios para controlar os seus poderes. Quando seu lado selvagem aflora, ele prejudica os outros, os machuca e se arrepende, mas note que ele nunca deixa de usar os seus poderes, afinal é através deles que ele tem os primeiros contatos com a Laura. Isso diz muito sobre a natureza masculina, que é agressiva, violenta e áspera, nós, homens, somos naturalmente brutos, podemos machucar e prejudicar os outros por causa disso, mas é também isso que nos mantém seguros. No mundo real é o cara que deixa uma marca no braço da namorada quando a segura numa discussão, mas é também o cara que a protege de um babaca no meio da rua, é um pai que dá um tapa no filho quando ele quebra sua coleção de discos de vinil, mas é também o pai que o abraça na cama quando ele tem pesadelo. Ele é bravo e forte, mas é também paciente e prestativo. Na cena do hotel, Xavier derruba todo mundo quando seus poderes saem do controle, pede desculpas e se arrepende profundamente, mas não deixa de usar seus poderes. A natureza masculina é tempestade, mas é também nutriente para a Terra.

Para mim, isso é claro no filme e acaba sendo a resposta para a interpretação do final. É Laura quem salva Logan, mas só depois que ele aceita o “Homem Selvagem”. É só através desse momento de aceitação que ele consegue se comunicar com Laura, sua filha. Paternidade também tem a ver com agressividade, porque isso é inerente a natureza masculina e, apesar de R. Bly não explorar o feminino, elas também têm o seu lado selvagem. Na vida real, isso vem quando a garota menstrua, ali é o seu rito de passagem que lhe revela a natureza feminina, mas para o mundo além, o mundo cão, é necessário algo além. R. Bly nos diz que o baile de debutantes é esse momento, o pai dança com a filha e simbolicamente a entrega ao mundo dos adultos. Em “Logan” tudo funciona de maneira mais imediata, mas após a aceitação de seu lado selvagem, Laura se aproxima do pai e ele a entrega para o mundo adulto no final. É tudo simbólico, mas está lá.

E para terminar a grandiosidade deste filme, ainda temos uma metanarrativa fantástica rolando a todo momento. Logan olha as revistas em quadrinhos e se revolta com aquilo, é tudo baboseira, nada daquilo é verdade, é tudo coisa do passado e isso pode ser transposto para a relação dos filmes de super-heróis. Foi X-Men em 2000 quem iniciou essa onda de filmes de super-heróis e Spiderman (2002) continuou o legado. Deu tempo ainda desses filmes crescerem, melhorarem e entrarem em decadência antes da Marvel lançar o já clássico “Homem de Ferro” em 2008 e pavimentar de vez o caminho que filmes de super-heróis deveriam seguir, mas todo mundo sabia que isso não ia durar e “Vingadores: A era de Ultron” chegou para mostrar isso, mas o contrário não é a resposta. “Batman V Superman” não é a resposta. Supostamente, “Deadpool” e “Logan” são, mas, embora um filme como “Deadpool” tenha fôlego para uma continuação, “Logan” não tem e não é isso que ele representa. A morte de Logan no final não é apenas o fim de Wolverine, é o final de uma era de filmes iniciada lá em 2000 com “X-Men” e talvez seja a hora de outros assumirem a dianteira nisso.

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Tá legal, nessa terceira parte eu forcei a barra, mas o filme merece um textão desse tamanho. Ele, obviamente tem seu defeitos. Apesar de violento pra caramba e ser um filme para maiores (ao menos nos EUA), “Logan” sofre do mesmo defeito que todos os filmes e Hollywood. As cenas de luta são amplamente censuradas, cortadas e mascaradas. Alguns momentos são mostrados e são feitos pra chocar mesmo, porém veja a primeira cena, de noite, tudo escuro, mal vemos o braço ser cortado. Na primeira cena de luta da Laura, ela joga a cabeça de um cara no chão, mas quantas vezes a câmera foca em seu rosto, ao invés de focar na ação de verdade. Apenas nas últimas duas cenas de ação, a câmera se afasta para mostrar a ação em toda a sua grandiosidade, mas ainda assim, o choque é mascarado. Pense bem, existem filmes asiáticos que provocam o mesmo nível de choque com muito menos produção, filmes antigos também faziam isso. “Meu ódio será a tua herança” (1969) é até hoje violento e tem muito menos firulas. Hollywood não sabe mais fazer ação de verdade.

https://www.youtube.com/watch?v=Z1PCtIaM_GQ

Não quero deixar esse defeito como uma exigência pseudo-crítica, algo para satisfazer meu ego ou coisa do tipo. É só que isso, de fato, me incomodou e é algo que eu noto muito em filmes, o que não diminui, de forma alguma, a grandiosidade de “Logan”.

A direção do filme é fantástico, as escolhas para a posição de câmeras, o uso de metanarrativa, tudo é muito bem feito e densamente elaborado. Nada está ali por acaso e isso só mostra que poder o diretor tem.

“Logan” é o filme que mais me surpreendeu este ano e olha que este ano eu assisti excelente filmes, mas desse eu não esperava nada e, por isso, me surpreendeu tanto. Merece ser assistido, analisado e preservado para as futuras gerações.

4 pontos e meio

p.s.: Se você quer saber qual o meu TOP 5 de filmes de super-heróis, aí vai:

1 – Megamente

2 – Batman: O cavaleiro das trevas

3 – Logan

4 – Homem-Aranha 2 (2004)

5 – Os incríveis

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Dica literária: "João de Ferro" de Robert Bly (1990)

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Eis que eu reli um dos livros mais importantes já publicados no século passado e que experiência fantástica foi.

“João de Ferro” é um livro publicado inicialmente em 1990, escrito por Robert Bly, um poeta, ensaísta e líder do movimento masculinista mitopoético. Se você leu meu post sobre “The Red Pill” já sabe minhas opiniões acerca do movimento e seus extensos braços. Este livro parte de uma premissa simples, qual a importância da masculinidade para o mundo atual, no caso, o final do século XX e o seu futuro, no caso, essa época confusa em que estamos?

Os parâmetros de masculinidade que seguíamos em épocas passadas estão obsoletos, ninguém nega isso, mas as imagens atuais que temos de homens também não servem, por um lado temos homens cada vez mais egocêntricos, do outro temos homens fracos e no meio uma massa confusa que não sabe que caminho seguir e acaba se afundando num mar de impessoalidade. Robert Bly tenta entender o que aconteceu, como chegamos a esse ponto e o que devemos fazer.

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Para isso, ele começa o livro com uma pequena contextualização histórica, apontando os problemas que vieram com a Revolução Industrial, que acabou com o trabalho manual tradicional, passado de pai pra filho, de mestre pra aprendiz e levou os pais a se fecharem em fábricas e cubículos por quase metade de um dia (perceba que isso nada tem a ver com capitalismo, seu esquerdalha nojento!), depois, com a vinda de duas guerras mundiais, o número de homens abaixou drasticamente e com isso, as sociedades, como um todo, enfraqueceram. Isso foi importante para os movimentos feministas, mas o que ninguém contava era que essa negligência aos homens, em especial, aqueles que nasciam nessa época, acabaria gerando um efeito cascata devastador na sociedade como um todo.

E a partir daí, qual é a resposta que ele nos dá? Restaurar os ritos de passagem, porque a masculinidade não pode ser compreendida através de teoria, mas apenas de prática e exemplo, para tanto, precisamos de ritos de passagem. Robert Bly expõe sua importância através de exemplos de tribos, que realizam ritos de passagem até hoje, demonstrando o seu significado e simbolismo, indicando o peso que isso tem para os jovens que estão passando por tal momento.

E aí entra a história de “João de Ferro”, um conto de um ser que vive num lago, o João de Ferro, que é capturado por um caçador e mantido preso por um rei. Seu filho, o príncipe acaba libertando João de Ferro, após conseguir a chave de sua prisão, escondida embaixo do travesseiro da rainha e João de Ferro o leva para a floresta. Lá, o príncipe passa por provações, falha e é enxotado para fora da guarda de João de Ferro, mas não sem antes receber o seu respeito e garantia de proteção futura. O jovem começa a trabalhar como padeiro, depois passa a trabalhar como jardineiro do castelo do rei e lá cai nas graças da princesa. Quando o rei realiza um torneio para encontrar alguém que seja digno de se casar com sua filha, o jovem pede ajuda a João de Ferro, durante três dias, ele aparece sob três armaduras diferentes e com três cavalos diferentes (um pra cada dia) e enfim revela ser um príncipe e consegue a mão da princesa.

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Isso é um resumo bem pobre da história, que é cheio de detalhes complexos e cada um desses detalhes é importante para a análise de Robert Bly sobre a masculinidade. A começar pela descoberta de “João de Ferro” ou o “Homem Selvagem” como Robert Bly chama e a saída do lar familiar.

O primeiro passo para um garoto se tornar um homem é conhecer o “Homem Selvagem” dentro de si, conhecer o seu lado selvagem, bruto, agressivo, tão escondido e aprisionado pela sociedade moderna e que só pode ser conhecido, de verdade, com a ajuda de um mentor. Eis a necessidade do rito de passagem.

Mas não termina por aí, porque a vida de um homem não é só selvageria, embora esse seja um fator de extrema importância. Robert Bly defende a tese de arquétipos de masculinidade, o Selvagem sendo apenas uma delas, a mais antiga, sim, mas apenas uma. Em seu livro ele ainda explora o rei e o guerreiro, deixando, infelizmente, de lado, o amante, que não se encaixa na história de “João de Ferro”, no entanto, devemos lembrar que essa é uma história sobre iniciação.

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Para a alegria dos leitores, R. Bly ainda dá dicas de como exercer de forma prática essa iniciação na masculinidade, mostrando como isso pode ser simples (um final de semana entre pai e filho pode ser o suficiente) e reforçando a importância das mulheres nesse processo.

Mas ao longo de suas mais de 200 páginas, conforme o livro vai se afastando do “Homem Selvagem” para explorar outros arquétipos, ele se torna mais subjetivo, o que pode ser um defeito, mas é passageiro.

Enfim, “João de Ferro” é um clássico que serviu como base para muitos estudos sérios sobre os homens. É um livro essencial tanto para homens, quanto para mulheres; é um livro que expande horizontes e nesta segunda lida do livro, ele representou um grande marco para mim, pois me fez entender o caminho que trilhei até aqui e o que deve fazer em seguida.

Extremamente recomendado!

4 pontos e meio

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Salinger como experiência religiosa.

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Recentemente recomecei a leitura de “Franny & Zooey” de Salinger, um livro que reúne duas novelas escritas nos anos 50 pelo autor de “O Apanhador no campo de centeio” e, enquanto lia a primeira novela, que retrata um almoço frustrado entre a filha mais nova da família Glass, de 20 anos e seu namorado, me veio a necessidade latente de escrever um texto sobre este autor que tanto respeito chamado Jerome David Salinger.

Mais conhecido por “O Apanhador no Campo de Centeio”, Salinger não é um escritor para todos, ele não é um gênio da literatura mundial nos moldes de Tolstói, Dostoiévski, Poe, Kafka ou Agatha Christie. Lhe faltava o ímpeto de concluir uma narrativa de forma coesa, desenhar um círculo com suas histórias e abraçar a humanidade. Ao contrário dos maiores autores que você consegue imaginar no panteão de melhores escritores de todos os tempos, as obras de Salinger não falam com todos e essa nem era a sua intenção. “O Apanhador no Campo de Centeio”, sua história mais conhecida é um livro feito para um grupo muito seleto de seres humanos: homens, mais especificamente, garotos. É um livro para colegiais e por esse motivo eu aceito as críticas que escuto acerca deste, que é o meu livro favorito.

É a história de um garoto rico, que após ser expulso de seu colégio para garotos ricos, passa alguns dias vagando por Nova Iorque para não ter que encarar seus pais, expondo para nós, os leitores, sua visão de mundo existencialista, julgando as pessoas que não gostava, fazendo idiotices, desperdiçando tempo e dinheiro numa jornada sem rumo, porém honesta e é por isso que esse livro fala tanto com garotos colegiais. Por que apesar de Holden ser um garoto superficial, ele busca um sentido e, para ele, aquilo tudo que ele sente, superficial ou não, é real e quando somos adolescentes, tudo que sentimos, por mais superficial, negativo e infantil que seja, é real também e Salinger captou isso e o expôs de forma honesta, livre de julgamentos e impressões moralistas.

O caminho que Holden segue é linear e natural, você não segue simplesmente o personagem, você vive as experiências com ele e isso não é resultado apenas de um talento natural que o autor tinha para escrita, ele, com certeza tinha muito talento, mas também é resultado de um trabalho de conhecimento profundo de literatura e escrita e isso é algo que é notável em todos os seus trabalhos, principalmente em “Franny & Zooey”.

Salinger era muito mais leitor que escritor. Veja o número de trabalhos publicados por ele, apenas um romance, duas compilações de novelas, uma compilação de contos e outros tantos contos não compilados. É pouca coisa e apesar dele ter sido um recluso pela maior parte do seu tempo, temos que considerar apenas aquilo que foi publicado em sua vida, pois não dá pra ter certeza se ele escreveu coisas enquanto recluso ou não (apesar de tudo indicar que sim!). Ele consumia diversos autores, a maioria de ficção e narrativas, dos clássicos russos aos seus contemporâneos. Ele fez faculdade e quando serviu ao exército dos EUA durante a II Guerra Mundial não foi para a linha de batalha, servindo junto a contrainteligência do exército estadunidense pelo seu conhecimento em francês e alemão. Ele sempre fora um homem das letras e, apesar disso, seus primeiros trabalhos foram rejeitados e um de seus editores, William Shawn, comentou que sua escrita precisou ser refinada a fim de ser publicada nos moldes da The New Yorker, pois era muito formalizada e sentimental.

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Ele trabalhou para chegar onde chegou, literariamente falando, do contrário, não poderia ter sido elaborada uma passagem como essa:
“Ainda que brilhantemente ensolarada, essa manhã de sábado exigia um sobretudo e não apenas um casaco; a semana decorrera toda amena, e todo mundo esperava que se mantivesse assim para o grande fim de semana... o fim de semana do jogo com Yale. Dos vinte e poucos rapazes que aguardavam na estação a chegada de suas namoradinhas pelo trem das dez e cinquenta e dois, não mais do que seis ou sete se atreveram a ficar na plataforma fria e desabrigada. Os outros, em grupos de dois, três ou quatro, de cabeça descoberta e fumando, passeavam pela sala de espera e falavam numa voz que, quase sem exceção, soava academicamente dogmática, como se cada um dos moços, em sua estridente intervenção, estivesse resolvendo de uma vez para sempre alguma questão sumamente controvertida, uma daquelas em que o mundo não-universitário andara durante séculos metendo os pés pelas mãos, sem encontrar uma resposta – excitante ou não.”

Este é o primeiro parágrafo de “Franny”, a primeira história do livro supracitado que estou relendo e isto é um apurado exemplo de como se iniciar uma história ideal. Não temos apenas a ambientação física da história (estação de trem), como também temporal (manhã do final de semana do jogo de Yale), além do essencial dos personagens principais, já sabemos, por aí, que tipos eles são. Homens ricos, universitários, que vivem debatendo de forma infrutífera questões que assolam a humanidade desde sempre... É o típico tipo de personagem com o qual Salinger (e seus leitores) se identificavam.

No entanto, a história se centra em Franny, uma mulher universitária de 20 anos que se encontra numa crise existencial com raízes religiosas, mas isso só será debatido a fundo na segunda história do livro. Esse primeiro parágrafo é feito apenas para segurar a atenção do leitor mesmo e como isso é bem feito!

No parágrafo seguinte temos a descrição de Lane, o namorado de Franny, depois a íntegra de uma carta que a menina escrevera a ele, notamos que ele é apaixonado de verdade pela moça, conhecemos um pouco mais de sua personalidade impassível ao lermos um diálogo dele com um colega de faculdade e na quinta página do conto conhecemos Franny, finalmente. A partir daí, seria natural uma quebra de ritmo, mas a história continua, como se fosse escrita num fôlego só, com passagens brilhantes como:
“Lane localizou-a imediatamente e, apesar de tudo o que estava tentando fazer com a fisionomia, o braço que ele esticou para o alto continha toda a verdade.”

e
“Outra vez cheia de remorsos, apertou na sua mão a mão de Lane, entrelaçando carinhosamente seus dedos com os dele.”

Após isso há ainda uma transição sútil, porém notável que dá um salto de quase uma hora no tempo da história e, em seguida, uma cena fantástica, que se estende por dúzias de páginas, com diálogos e descrições de acontecimentos cotidianos, deixando implícita uma atmosfera sombria, tensa, com um crescimento exponencial de suspense até culminar na “tragédia” final e uma conclusão pra lá de ambígua.

E o mais surpreendente é que tudo isso é feito num núcleo bem seleto de personagens, ele faz problemas simples, cotidianos até, algo grande. Isso aproxima os leitores de seus personagens. Ainda que não fale com todos, é algo puramente humano, exatamente por isso. Por não falar com todos.

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Um terceiro ponto para tornar a leitura de Salinger tão prazerosa é a compreensão dos caminhos de sua carreira. Ao longo dos anos, Salinger foi perdendo o ímpeto revoltado, a urgência em contar histórias e os diálogos se tornaram mais esparsos, expondo filosofias e se aproximando dos romances religiosos tão referenciados em suas últimas histórias. É quase como se fossem as obras de maturidade do autor. Te fazem pensar aonde ele chegaria (ou chegou, se os boatos de que ele continuou escrevendo forem reais) com a família de crianças superdotadas que ele havia criado. Em “O Apanhador no Campo de Centeio” Holden nos diz que um autor bom de verdade é aquele que te faz ter vontade de ligar pra ele assim que você termina de ler seu livro. Salinger não te deixa apenas com vontade de ligar pra ele e conversar um pouco, mas te faz ter vontade de encontrar ele, inspira amizade e talvez, por isso, tenha tido tantos fãs obscessivos.

Ao mesmo tempo, ainda que os personagens não tenham a maturidade necessária para que o mundo real exige, eles, ou estão no caminho até lá, reconhecendo essa falha e/ou existe uma razão para eles serem assim, no caso da família Glass, seus personagens nunca superaram a morte do irmão mais velho, Seymour.

As histórias não são apenas extremamente bem escritas, narrativas de conteúdo simples, porém guiadas com tal maestria que fazem da sua leitura algo simples, porém recheada de conteúdo, algo conciso. As histórias são ainda sobre seres humanos, suas crises e seus dramas, por mais infrutíferos ou infantis que sejam, são reais para seus personagens, assim como coisas infrutíferas e infantis foram reais para nós um dia.

Ler Salinger é uma experiência religiosa, porque é, de fato, uma leitura que evolui com você. Não é como ler Dostoiévski, que exige que você cresça para que mais coisas sejam reveladas, para que você consiga entende-lo. Ainda assim, ela é exigente, pois tem um início marcado, é naquela fase estranha da adolescência em que você não se encaixa em lugar nenhum e tem raiva do mundo. Também é voltado para um público bem especifico, se você não tiver nascido com um par de bolas e um pênis dificilmente irá entender suas histórias (e mesmo que entender, não será por completo), então ela evolui contigo. Depois de “O apanhador no campo de centeio” e suas primeiras histórias, você passa para os contos e novelas posteriores, conhece a mão de Deus e a busca de sentido na vida se torna menos objetiva. Por fim, você se pega relendo “O apanhador no campo de centeio” com a mesma intensidade e paixão de quando tinha 15 anos, porém não é mais com a mesma identificação e sim como um colega mais novo, quem sabe o seu irmão ou ainda um “mentorado”? Você o entende, mas não concorda, ainda assim, sente uma intensa simpatia por ele, afinal, você passou a conviver com ele.

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Então, faça um favor a si mesmo e vá ler Salinger, infeliz criatura!

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Dica Audiófila: Edifier H840

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Inicio hoje um novo estilo de dica, a dica audiófila. Sendo algo novo no blog, vale a pena uma introdução ao contexto temático da dica.

Audiofilia refere-se ao ato de gostar de som, ou seja, músicas e uma busca pela alta fidelidade da reprodução de músicas. Audiófilos são as pessoas que gostam de curtir um bom som, através de equipamentos de alta qualidade, promovendo constantes adaptações, regulações e trocas de seus aparelhos de som.

Entrei nesse hobby há quase 2 anos, quando estava com dinheiro sobrando e meu fone de ouvido na época quebrou. Acabei entrando em contato com o site Mind The Headphone (voltado para o mundo audiófilo), comecei a pesquisar mais sobre o assunto e acabei adquirindo esse fone de ouvido, o Edifier H840 e já adianto, foi uma das melhores compras que fiz na vida!

O fone é classificado como tendo uma ótima relação custo x benefício, pois tem uma alta qualidade sonora por um preço bem baixo, em comparação com outros equipamentos audiófilos. É difícil achar fone na faixa dos R$100-200 e o Edifier H840 é o mais barato dentre eles. Hoje, por causa da crise econômica desastrosa que o PT deixou nesse país, o fone está beirando os R$180,00 em todos os sites que o vendem, mas na época, eu acabei comprando por R$120, 00, aproveitando uma promoção bem louca num site que não lembro o nome.

O fone é classificado como um fone de ouvido “equilibrado”, pois não puxa nem para os graves nem para os agudos, preferindo um equilíbrio entre os dois lados do espectro. Isso é uma característica dependendo de que tipo de audiófilo você seja. A maioria das pessoas prefere um fone que puxa mais para os graves, porque os sons graves são mais atraentes ao ouvido humano, enquanto os agudos incomodam mais, chegando a dar até dor de cabeça (não é à toa que as músicas pop usam e abusam dos graves, atualmente). No entanto, há quem prefira um equilíbrio maior, em parte por buscar uma maior fidelidade na reprodução das músicas, quando um fone contém um equilíbrio maior, a reprodução de todos os instrumentos acaba sendo mais fiel (o que não é um argumento muito válido se você só escuta música eletrônica, não vai fazer muita diferença) e em parte para salientar todos os instrumentos na hora de reproduzir uma canção, estilos musicais como o rock e o jazz exigem esse equilíbrio.

Em matéria de equilíbrio sonoro esse fone é 100%.

E é também muito confortável, suas conchas são espaçosas, cobrindo grande parte da orelha, mas isso tem o seu lado negativo no calor, pois suas orelhas irão suar e o couro que protege as conchas vai descascar muito rápido. Quando mudei para a casa nova não tinha ar condicionado, aí o couro estragou rapidamente com poucos meses de uso, no entanto, também já tinha esse fone há um ano quando mudei de casa. Além do conforto, as conchas ainda são dobráveis, o que aumenta a versatilidade do fone, sendo fácil de levar para viagens e afins.

Ainda que seja muito bom e confortável, o fone apresenta o problema de que seu cabo não é removível, uma falha para fones audiófilos, pois a maioria podem ser trocados (se bem que a maioria não se encontra na mesma faixa de preço que o Edifier H840) e é no cabo que o fone apresenta os maiores problemas. Eu mesmo, só tive que trocar o meu, porque o cabo começou a apresentar problemas, mas ele aguentou por nobres 2 anos e eu fiquei muito satisfeito com o produto.

Hoje em dia, o Edifier H840 está cada vez mais difícil de se encontrar e o preço aumentou muito, me levando a adquirir outro fone, de outra marca, que logo irá ser alvo de uma dica por aqui, mas eu recomendo fortemente este excelente fone.

4 pontos e meio

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Dica cinematográfica: "Koe no Katachi" (2016)

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Alguém conhece alguma explicação esotérica do porque essa safra 2016/2017 de filmes ser tão boa? Por que só nesse primeiro semestre de 2017, eu já assisti 4 filmes que entram facilmente na lista de melhores filmes da década; “La La Land”, “Até o Último Homem”, “Silêncio” e agora, essa fantástica adaptação de um dos melhores mangás que li nos últimos anos, “Koe no Katachi” ou “A Silent Voice” ou “Shape of the Silence”.

Para quem ainda não conhece (o que é uma tremenda falha de caráter), “Koe no Katachi” conta a história de Shouya, um garoto no ensino fundamental que vê seu mundo escolar de bagunças e aventuras transformar-se com a entrada de Shouko Nishimiya, uma garota surda, em sua sala. Por conta de sua limitação física, Shouko necessita de um tratamento especial e isso provoca os seus colegas, menos sensíveis à sua realidade e Shouya acaba passando dos limites, provocando tanto a garota que ela acaba saindo da escola. Quando a verdade vem à tona, os colegas de Shouya, antes coparticipantes das provocações à Shouko, abandonam o colega e deixam com que toda a culpa recaia sobre os ombros de Shouya, que se isola e acaba vendo toda a sua vida ruir, provocando uma profunda mudança em sua personalidade. Anos mais tarde, já no final do colegial, Shouya reencontra Shouko e a partir daí irá tentar restaurar a amizade com Shouko, diminuindo sua culpa e descobrindo uma nova forma de enxergar (e ouvir) o mundo.

É um dramalhão enorme, mas que se desenvolve e evolui de forma magnifica no mangá e, felizmente, no filme, não é diferente. Há uma concentração maior no casal de personagens principais, Shouko e Shouya (e não poderia ser diferente, o filme já tem 2 horas!), mas os demais personagens também têm o seu espaço e é fácil compreendê-los como personagens tridimensionais. Eles estão ali para agregar à história e isso é um mérito total da direção do filme, que usa cenas musicais e conversas rápidas, conectadas com as cenas principais, para expandir a personalidade deles, fazendo-os ganharem corpo. Muitas coisas são dispensadas, claro, isso é algo de se esperar, mas esses cortes não fazem parte para a compreensão da história e, na verdade, até contribuem para o ritmo do filme. Sua diretora, Naoko Yamada, já é figura carimbada, responsável por dois ótimos animes (K-On e Tamako Market) e parte da equipe de animes muito famosos e de ótima qualidade (Free!, Suzumiya Haruhi e Air), então é alguém com experiência e que, provavelmente, nutre um grande carinho pelo mangá de Koe no Katachi.

Outro ponto excelente na adaptação é que a história continua sendo um grande dramalhão, mas o filme não a deixa forçado, assim como no anime. As cenas são fortemente carregadas de um sentimentalismo, porém não é banal, é singelo e se você não for alguém muito sensível não irá ser levado às lágrimas a cada 15 minutos (como eu fui), porém é inegável que a história é bela e carrega uma bonita mensagem. Mensagem que não é entregada de bandeja, então isso também pode passar despercebido, por que alguns detalhes são deixados de fora da tela, ou melhor, não são explicitamente mostrados ao público, porém são de fácil captação (mesmo que você não tenha lido o mangá), seja para aumentar o dinamismo da história, seja para ter um maior aproveitamento das características narrativas que a mídia cinema pode conferir a uma história.

Enfim, nada é desperdiçado e tudo tem um significado dentro do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=Ivrq1ZwsRps

E apesar de ser um dramalhão, não é o típico dramalhão adolescente com os quais somos bombardeados todos os dias. É um drama muito romântico, mas também tem um grande pé no chão, o final não é tão água com açúcar quanto esperado, apesar de dar tudo certo para o casal principal, os desafios pós-refacção do relacionamento amistoso, continuam ali e o filme (assim como o mangá) dá apenas dicas muito sutis de como esses desafios serão enfrentados, ou seja, é uma história que retrata a vida de forma muito honesta.

Fora isso, “Koe no Katachi” não é apenas um romance, é uma história sobre amadurecimento, que fala, principalmente com homens, ao deixar Shouya no papel principal, mas também pode conversar com mulheres, pois do segundo terço em diante da história, ela trata de perdão, superação e, principalmente, interdependência. Se há algo que “Koe no Katachi” nos passa, e é universal, é a de que todo relacionamento é uma relação de interdependência. Nós temos que ser independentes, sim, temos que ser uma rocha sólida para nós mesmos, porém quando nos relacionamos com outra pessoa, essa rocha sólida deve se derreter para poder se fundir com a rocha sólida do outro e isso cria uma relação interdependente, onde você depende do outro e o outro depende de você e como cada um pode se virar sozinhos, nenhum lado pesa demais, ninguém se sobressai sobre o outro, os dois afundam um pouco juntos.

Quanto aos aspectos técnicos fica claro que o filme contou com um grande orçamento (e não poderia ser diferente, porque a história merece). Algumas cenas acabam lembrando filmes do Makoto Shinkai pelo seu cuidado excepcional com detalhes, sua animação fluída e uma sensibilidade incrível na criação da atmosfera, só que melhor, porque “Koe no Katachi” tem uma história. Foi a primeira vez que ouvi The Who ser tocado num filme de anime e isso me fez abrir um sorriso de orelha a orelha, porque além da trilha sonora ser fantástica, aqui, ela serve para contribuir à narrativa, não está simplesmente jogada. Conforme nos aproximamos do final, a trilha sonora fica mais densa e minimalista, até explodir novamente numa procissão de notas alegres e esperançosas, culminando num silêncio caloroso.

“Koe no Katachi” é um dramalhão sincero sobre a vida, uma história de crescimento e amadurecimento, perdão e interdependência. É uma história complexa, longa (apesar de ter sido publicada em poucos volumes, relativamente falando), tem muito conteúdo e não é fácil compreendê-lo de uma vez. Aos que não leram o mangá, fica a dica novamente e o filme, com certeza, merece ser assistido várias e várias vezes.

5 pontos

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Dica cinematográfica: "The Red Pill" (2016)

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Apesar de saber que iria gostar desse documentário, adiei bastante, pois, no fundo, achava que não iria descobrir nada que já não soubesse assistindo a esse filme. Pois então, após muito protelar, acabei assistindo numa tarde enfadonha o documentário mais importante produzido nesta década.

O nome do documentário é “The Red Pill” e faz alusão a um termo usado dentro do Movimento dos Direitos Masculinos (numa tradução livre, o original é Men’s Right Movement – MRA), referenciando  filme Matrix, onde Neo aceita a pílula vermelha de Morpheus e descobre a verdade por trás da realidade que conhecia. Produzido por Cassie Jay, uma atriz estadunidense que se tornou uma auto-declarada feminista após sofrer muitos abusos em Hollywood e acompanha a ex-atriz por uma viagem de desconhecido junto ao MRA. Iniciando de forma muito tímida e armada até os dentes por conceitos pré-concebidos e desinformações, ela vai, aos poucos, descobrindo que tudo que sabia acerca do movimento estava errado e, não apenas isso, começa a simpatizar com aquilo que seus ativistas defendem.

É um filme extremamente importante, de um movimento que existe há décadas, porém nunca recebeu a atenção devida. O filme não entra na história do movimento, propriamente dito, ou das necessidades históricas por trás dele, preferindo se concentrar nas questões que o movimento advoga, como os direitos de pais nos processos de divórcio, sua estigma perante a sociedade e violência doméstica, por exemplo. E isso é muito bom, pois são temas extremamente urgentes e que precisam de uma luz em cima, para que possa que possam ser debatidos, expandidos e até solucionados.

Ainda assim, é impossível escapar da história do movimento, principalmente no momento em que o filme debate os sistemas de proteção a homens que sofrem violência doméstica e aí acaba sobrando muitas críticas ao movimento feminista, que acaba agindo de forma reacionária, agressiva e totalmente intolerante quando o assunto passa a ser direitos masculinos, chegando a conclusão de que o movimento parou de ser igualitário há anos, além de atrair pessoas cada vez menos compreensivas e sensatas.

Achei impressionante como o filme tenta se distanciar do movimento “masculinista”, para manter a neutralidade, uma postura quase que totalmente imparcial, porém a empatia pelo que os diversos apoiadores do movimento (não apenas homens, para a surpresa de muitos) é construída de forma natural, seja pela extrema necessidade dos temas debatidos, seja pela simpatia com a qual os seus defensores falam ou ainda pelos exemplos utilizados. Alguns momentos no filme são profundamente emocionantes, como nos exemplos acerca dos direitos paternais. Outros momentos são extremamente revoltantes, como nas cenas em que demonstram a resistência que o movimento sofre quando tenta produzir palestras ou leituras.

Uma coisa que chama muita atenção é como esses problemas são necessários, porém majoritariamente ignorados e o filme acaba chegando a conclusão óbvia, porém fantástica, de que isso não é prejudicial apenas à homens, mas acaba sendo prejudicial às mulheres também. Quando o filme retoma a discussão sobre as ações do grupo terrorista e fundamentalista Boku Haram, que sequestrou diversas meninas e todo o mundo se mobilizou por eles, mas nunca fizeram nada quando o grupo assassinou apenas homens meses antes, percebendo que o sequestro e consequente assassinato de meninas chamaria mais atenção.

Pior: quem acabou sendo convocado para salvar essas meninas? Pois é...

Algo que percebi há tempos, depois de muito discutir com colegas (notoriamente mulheres) é a de que a sociedade não é machista, de fato. Homens têm muitas vantagens, em diversas situações, mas, pensando numa perspectiva brasileira, a sociedade acaba pesando para o lado das mulheres em muitos momentos, pegue o exemplo dos direitos paternais mesmo. As mulheres têm a custódia dos filhos por tabela. Se o pai quiser a custódia terá que lutar por isso, ele já começa em desvantagem. E que tal falarmos de estupro? Se vivemos numa “cultura do estupro”, então porque estupradores são os primeiros a sofrerem abuso na cadeia? Ninguém defende estuprador nenhum e se há o caso da menina que não consegue se defender do cara que estuprou ela, pode apostar que está em jogo uma relação muito mais profundo. Geralmente esses casos acontecem entre uma garota pobre e um cara rico e aí há uma relação de poder que deve ser combatida (a lei deveria ter o mesmo peso para todos), mas isso é outra questão, não é machismo. Quantos homens são incentivados a seguirem uma carreira acadêmica? Qual a proporção de mulheres numa faculdade e qual a de homens?

Não vivemos numa cultura machista. E essa é uma discussão que o filme acaba fazendo, conforme vai se aproximando da sua conclusão, salientando que o movimento masculinista não pretende se fazer de vítima, apenas reconhecer que a opressão ocorre dos dois lados, em diferentes dimensões e se quisermos viver numa sociedade igualitária, teremos que combater isso.

O documentário vem sofrendo muita resistência. Ataques em exibições, resistência por parte de distribuidoras e serviços de streaming, mas está conseguindo se espalhar e, hoje em dia, é muito fácil o acesso a ele do que na época de seu lançamento (acredite, eu procurei na época de lançamento e até desanimei quando meus resultados foram infrutíferos), então corra atrás. Assista-o e se informe, independentemente da sua posição ideológica.

5 pontos

p.s.: o filme termina de forma magnífica. Honesta e arrebatadora.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Dica musical: “in•ter a•li•a” do At The Drive-In (2017)

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Uma das bandas mais influentes e mais importantes para a história do rock contemporânea volta após 17 anos, criando altas expectativas e cumprindo-as brilhantemente, mas antes da dica em si, vale a pena uma pequena contextualização dessas lendas vivas do rock.

At The Drive-In é um banda estadunidense formada em 1994, lançaram 3 álbuns antes de se separar e dela surgirem outras bandas, a mais notável, The Mars Volta, uma ambiciosa banda de rock progressivo que fez muito sucesso na cena mainstream com seus CD’s conceituais. O som complexo da banda acabou popularizando e expandindo o termo post-hardcore, que acabou se solidificando com o lançamento de “Relationship of Command”, seu álbum de maior sucesso e influente em uma porrada de bandas que vieram depois, de Franz Ferdinand e Bloc Party a La Dispute e Touché Amoré.

É uma banda de peso.

Seu retorno é mais do que ansiosamente esperado, é até visto como a salvação do rock por sites mais exagerados. Salvação do rock é demais, porém o álbum apresenta uma série de canções concisas e que mantém o espírito definido em “Realtionship of Command”, ou seja, um excelente retorno.

As letras são unidas por um tema, de acordo com a própria banda, mas é difícil achar qual tema é esse. Não porque as músicas são mal escritas, mas é porque uma marca das bandas é o extenso jogo de palavras feitas em suas letras, que acabam confundindo o ouvinte/leitor numa profusão de termos, aglutinações, rimas, substantivos e adjetivos. Isso torna as canções muito ricas em conteúdo, mas dá um certo trabalho extrair o pleno significado delas, apesar de ser impossível extrair todo o significado de todas as canções.

Só para deixar claro, o álbum é sobre abuso sexual e finalmente estar hábil a falar sobre isso, no entanto, há muito mais nas entrelinhas de todas as canções, com muitas críticas sócio-políticas, de uma forma que só uma banda de latinos nerds nascidos no sul dos EUA poderiam fazer.

Já as harmonias são complexas, há riffs pesados de guitarras, dedilhados extremamente bem elaborados e saltos intensos no tempo das canções, guiados pela bateria e o baixo, além dos vocais magníficos de Cedric Bixler, que numa hora está cantando calmamente e na outra está gritando tão forte que dá pra sentir o seu pulmão quase explodindo, mas sem perder o ritmo.

É, de fato, uma amálgama de tudo o que o rock deve e pode ser nos anos mais recentes.

Além disso, há uma forte presença de experimentações, com suaves melodias eletrônicas que guiam a atmosfera de cada canção e servem como pequenos interlúdios entre determinadas partes do CD.

Enfim, At The Drive-in volta com fôlego total, mostrando que esse gênero musical que tanto amamos não é lugar pra peixe pequeno. Talvez, de novo, seja necessário muita coragem, culhões, suor e paixão pra brilhar nesse campo.

4 pontos

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Dica Televisiva: "Yu Yu Hakusho" (1992-1994)

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Hoje, uma dica animeística, um clássico da falecida Rede Manchete (tá certo isso?) e um anime que estava devendo a muito tempo no blog; “Yu Yu Hakusho”.

Originalmente um mangá de Yoshihiro Togashi (o mestre por trás de Hunter X Hunter) entre 1990 e 1994 foi trazido às telinhas em 1992, durando até 1994, com uma consistência rara de se ver no trabalho atual do autor. A série conta a história de Yusuke Urameshi, um delinquente colegial que é morto no primeiro episódio ao salvar uma criança de um atropelamento e, após uma série de testes impostas a ele pelo filho do governante do submundo, Koenma, Urameshi vira um “detetive sobrenatural”, com o dever de investigar os vários casos envolvendo demônios e fantasmas no mundo humano.

A premissa acaba escondendo alguns fatores que fizeram Yu Yu Hakusho se tornar tão popular e longevo, concentrando-se muito em torneios de artes marciais e batalhas mano a mano do que investigações propriamente ditas. Ainda assim, a série não abandona totalmente sua premissa, reunindo diversos elementos da mitologia budista, além de ter uma clara influência de filmes de terror e ocultismo.

Fora isso, que entra numa área mais subtextual, a série conta uma gama extensa de personagens, com personalidades bem distintas, de fácil diferenciação entre eles e cada um ocupando um papel importante nos arcos que acompanham toda a série. Tudo é construído pelo autor de forma hermética, deixando pouco ou nada para a imaginação do expectador.

O anime não contou com a participação do autor do mangá na sua produção, mas ele diz que ficou muito contente com o resultado final. Yu Yu Hakusho foi o trabalho de maior sucesso de Yoshihiro Togashi, sendo superado depois por Hunter X Hunter, sendo também o início do fim do autor, que mantinha uma rotina frenética de trabalho para cumprir prazos e manter controle total sobre o seu trabalho, apesar de, dizem, não haver tanta pressão editorial sobre ele.

Apesar de todo esse controle, a fórmula criada pelo autor para o desenvolvimento dos arcos é bem repetitiva, restando ao desenvolvimento dos personagens, as revelações de seus passados e suas relações dar vida ao anime.

Yu Yu Hakusho é um daqueles animes que é obrigatório ser assistido dublado em português do Brasil (pra quem é brasileiro, claro!), porque sua dublagem conta com pessoas ilustres, tendo sido exibido, no Ocidente, primeiro aqui, em nossas terrinhas calorosas. A dublagem é clássica e é um daqueles exemplos de dublagem que melhoram o anime original. Além disso, as versões brasileiras para as músicas de abertura e encerramento são brilhantes, músicas que dão gosto guardar no PC e no celular pra ficar ouvindo quando se quiser animar um pouco os ânimos.

Enfim, Yu Yu Hakusho, um clássico de todos os tempos, assista!

4 pontos e meio

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Dica gourmet: Banana prata

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Mais uma dica gourmet para acalentar o meu espírito de gordo!

Uma das frutas mais consumidas e amados pelos brasileiros (e brasileiras, HUMMMM), a banana é traiçoeira, pois vem de vários tamanhos, estilos e sabores. Eu, fã de bananas desde pequeno, tenho um  vasto conhecimento sobre essa fruta amarela e hoje irei falar da minha favorita: a banana-prata!

A banana-prata passa despercebida na feira, porque seu tamanho não se destaca na multidão, não é pequena, nem grande, é normal e seria confundida com outros tipos não fosse o seu biquinho quadrado característico no final.

Ela também é dona de um formato curioso, pois ela começa grossa e vai afinando no seu final. Sua casca é grossa e tem uma boa consistência interna, sendo também menos doce que as outras bananas disponíveis no mercado, o que muito agrada o meu paladar.

Os nutricionistas e as velhas gordas viciadas em dietas dizem que ela também é um dos tipos menos calóricos e eu, particularmente, acho muito saborosa. Outros, os “criativos culinários” (que eu chamo de “retardados de cozinha”) adoram estraga-la fazendo doces e misturando com outras asneiras, como sorvete, mas todos sabemos que isso é um pecado e uma forma de controle illuminati.

Eu tentei pesquisar sobre a história dela no Brasil e no mundo, mas não achei nada, então o post vai ficar por aqui mesmo.

5 pontos

Dica literária: "O reino de Deus está em vós" de Leon Tolstói (1894)

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Uma dica literária muito importante, um clássico de todas as eras, o livro responsável por inspirar Gandhi a reagir contra o imperialismo britânico de forma pacífica, sem agredir ou violentar alguém para isso (há questionamentos sobre a vida pessoal de Gandhi, mas para tudo deve ser considerado o contexto em que se está inserido e isso vale para pessoas também).

O nome do livro é “O reino de Deus está em vós” de Liev Tolstói e foi publicado originalmente em 1894, na Alemanha, porque foi banido em seu país de origem, a Rússia. É um marco fundamental na história do anarquismo e o livro de origem do chamado Anarco-cristianismo, seja lá o que isso queira dizer (só existem dois tipos de anarquismo, de fato, o anarquismo coletivista – do mal! – e o anarquismo individualista – a solução para todos os problemas da humanidade – ).

Este livro é considerado o Magnum Opus de não-ficção de Tolstói e não é pra menos, ele é o ápice de 30 anos do pensamento anarquista de Tólstoi, que elabora a filosofia da não-agressão (um dos pilares do anarquismo) a partir dos evangelhos cristãos e propõe uma nova organização de sociedade baseada em torno disso, chegando a conclusão de que qualquer forma de agressão é errada e anti-cristã, inclusive a agressão como forma de defesa.

Além disso, o livro não é apenas uma crítica a forma de organização política vigente nos dias de Tolstói ou nos dias de hoje, que permite ao governo coagir, prender, violentar e até matar em nome de uma suposta ordem a qual poucos concordaram em manter; é uma crítica também a religião. Nos tempos de Tolstói, a igreja católica ortodoxa russa (a qual o escrito pertencia) era intimamente ligada ao governo e por esse motivo era cúmplice de sua agressão cometida contra o povo.

Para Tolstói, é dever do cristão se opor a toda forma de agressão, mesmo que ela seja permitida pelo Estado ou pela própria igreja. Sendo assim, o cristão não só pode, mas deve se opor a igreja, em defesa dos princípios cristãos que estão na Bíblia. É dever do cristão conhecer a história, os princípios morais e os preceitos da igreja para que consiga compreender quando os próprios líderes da igreja entram em contradição (como quando é dito que todo comunista é católico, por exemplo) e assim se aproximar dos dizeres de Cristo.

O livro é cheio de análises bíblicas, pedaços de jornais, revistas, diários do próprio escritor, se aprofundando em vários temas e passagens da Bíblia, como o Sermão da Montanha, sendo, além de tudo isso, um livro muito bom de se ler, com uma argumentação sólida e fluida.

Enfim, “O reino de Deus está em vós”, leitura obrigatória para todo anarquista, cristão ou pessoas de bom senso.

5 pontos

Dica televisiva: "Hora do Rush" (2016)

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Hoje irei indicar o que foi, para mim, a melhor série do ano passado, mas falhei miseravelmente em inclui-la na minha lista de melhores do ano de 2016.

“Hora do Rush” reconta a história da melhor trilogia de comédia de ação que já existiu, “A hora do Rush” com os mestres Jackie Chan e Chris Tucker estralando-a. Nela, um policial de Hong Kong vai para os EUA numa missão e acaba conhecendo um policial da Polícia de Los Angeles e juntos solucionam um caso delicado de diplomacia. Isso é a premissa do primeiro filme, mas na série torna-se o primeiro episódio e logo após isso, acompanhamos Lee e o agente Carter trabalhando juntos em Los Angeles, enfrentando um inimigo diferente a cada episódio, mas com uma organização criminosa chinesa por trás de vários acontecimentos da série, além de um drama familiar envolvendo o Lee.

Como o primeiro episódio é, basicamente, o primeiro filme contado em 50 minutos é de se imaginar que a série parece, num primeiro momento, apressada e rasa, de fato, acaba sendo, pois os personagens denotam uma profundidade muito grande para ser explorada em tão pouco tempo. Isso é uma falha tremenda e deve ter sido o motivo principal para afastar os espectadores da série logo de início.

No entanto, os episódios seguintes consertam isso. Infelizmente não há mais espaço para um aprofundamento sério do passado dos personagens nos episódios posteriores da série, mas há espaço para a inclusão de novos personagens, como o primo do agente Carter e a cientista do laboratório de análises criminais da polícia de Los Angeles.

Com isso, a série foi criando um universo rico de personagens, personalidade e estilo que fez compensar o primeiro episódio, que, vale salientar, não é ruim, mas deixa a desejar na questão de ritmo.

Outro problema da série são os efeitos especiais, mas isso é normal. Acontece que os filmes “A Hora do Rush” são excelentes na questão de efeitos práticos, as cenas de luta são magistrais, os tiros são incríveis e as explosões tiram o fôlego, enquanto que a série se baseia muito nos efeitos especiais de computador mesmo.

Pra compensar, o ritmo da série foi melhorando conforme os episódios foram passando, provavelmente por que os atores foram ganhando mais entrosamento. A ambientação ficou fantástica, a trilha sonora é deliciosa e as piadas são hilárias.

Infelizmente,  “A Hora do Rush” (a série) foi cancelada, mas os poucos episódios que sobraram pra contar história estão eternizados na internet (e no meu HD), prontos para fazer dessa série um cult eterno, cheio de falhas, sim, mas legal ainda assim.

3 pontos e meio

Dica musical: "DAMN." de Kendrick Lamar (2017)

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E Kendrick lançou, finalmente, o sucessor de “To Pimp a Butterfly”, num momento oportuno, após lançar algumas canções, um EP/mixtape de canções que “sobraram” de seu Magnum opus e apresenta um trabalho conciso, abaixo do esperado, porém interessante e louvável como todos os seus trabalhos devem ser.

“DAMN.” é um álbum difícil de ser explorado, ele é muito mais conciso, pessoal, introvertido e obscuro do que os outros trabalhos de Kendrick. Suas letras são bem pesadas, recheadas de questionamentos, respostas agressivas às diversas polêmicas que envolveram seu nome no passado (como o infame caso da Fox News que usou uma apresentação sua para dar fôlego a um discurso todo errado sobre racismo e a influência do rap na cultura jovem estadunidense) e negatividade, mas não no sentido puro da palavra. Como tudo que Kendrick faz, aqui também há uma ambiguidade gigantesca e, ouvindo por cima, o ouvinte não capta todo o peso e negatividade que está inserida nesse álbum, apesar de a própria capa já indicar isso, ao apresentar Kendrick cabisbaixo, com um olhar desolado e sua primeira canção apresentar a história que irá conectar todas as músicas do álbum e já começa com ele morrendo.

A questão que eu estou querendo chegar é a de que esse álbum pode divertir, superficialmente, pra quem curte rap em suas formar mais tradicionais. Não que a sonoridade do álbum seja tradicional ou “pra cima”, mas ela é cheia de experimentalismos e certos maneirismos típicos do rap que um amante do estilo musical vai facilmente gostar e sacudir a cabeça ao som das batidas.

Nesse álbum, infelizmente, Kendrick abandona todo o estilo jazzístico que existia em seu álbum anterior, não há uma banda por trás dele, com músicos virtuosos, criando melodias arrasadoras, mas isso não é de todo mal, porque os experimentalismos que Kendrick faz, utilizando elementos mais contemporâneos, como as batidas graves distorcidas que fazem o nome do Death Grips, aliados a elementos bem mais “clássicos” (dentro do rap), como os scratches de discos, dão um ar fresco ao álbum, como se houvesse algo de novo ali, apesar de não existir. É só que eles estão organizados de forma tal que a harmonia que se cria soa nova.

Além disso, o conceito que une todas as músicas é surpreendente e é algo que só é compreendido quando se chega ao final do álbum. É incrível como Kendrick Lamar consegue fazer tanto sucesso comercial navegando contra a corrente mais comum do mundo da música de hoje, que é a de dar valor total ao álbum como um todo. Não são apenas músicas que entretêm, é um álbum todo criando um conceito e tentando transmitir uma mensagem, ou melhor, expor os questionamentos de seu criador.

Infelizmente, isso tudo, apesar de ser muito louvável, não consegue segurar o álbum, porque não tem tanta harmonia, nem uma mensagem tão concisa, nem técnica aprazível ou um conceito que já não foi explorado um bilhão de vezes em todas as mídias possíveis, ficando, assim, muito aquém do esperado para ser o sucessor de “To Pimp a Butterfly”, que é, provavelmente, o melhor álbum de rap da década.

2 pontos e meio

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Dica musical: "História do Brasil" por Vitor Bauer (2017)

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E assim como o Galvão na última faixa do disco, eu sou forçado a gritar: “E ACABOU!!! E ACABOU!!!” o longo e ousado projeto de Vitor Bauer, “História do Brasil”.

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Pra quem não conhece, vale uma apresentação, Vitor Bauer é o vocalista da banda que precisa voltar, Lupe de Lupe e um dos membros mais prolíficos do coletivo de artistas “Geração Perdida de Minas Gerais”. Como o próprio nome diz é uma galerinha bem triste e  pretensiosa de Minas Gerais, mas eles têm alguns caras bem legais, como o Fábio de Carvalho, a Lupe de Lupe e o próprio Vitor Bauer, que já apresentou outros álbuns em carreira solo, todos bem abaixo do que o Lupe de Lupe apresentou, mas com seu valor. “História do Brasil” foi criado com o apoio de fãs através de uma plataforma de financiamento coletivo, o disco constitui-se de 52 covers de diversas bandas brasileiras, lançado entre 2016 e 2017.

São covers simples, todos tocados no violão e alguns contam com outros elementos, como guitarra e piano, mas é só pra dar o tom à atmosfera que a música intencionava criar ou para tornar mais fácil o reconhecimento pelo ouvinte. A simplicidade de sua produção carrega o álbum de uma atmosfera mais intimista e aproxima o ouvinte do criador, que planeja transmitir através de cada uma das canções escolhidas para o projeto uma mensagem, mensagem esta que vai contra os dizeres populares dos tempos atuais.

Todos os 3 lançamentos que compõem o álbum todo e algumas músicas (que poderiam ser consideradas os singles) foram apresentados com uma espécie de “press-release”, apresentando a ideia por trás da escolha e o que o lançamento queria significar, porque as músicas foram escolhidas naquela ordem e lançadas naquele momento e não antes ou depois. E a mensagem mais interessante e que acaba unindo os 3 lançamentos como o todo é a necessidade da sinceridade que enfrentamos hoje em dia.

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Com o lançamento de “Pense em mim”, cover de Leandro e Leonardo (que por si só já se trata de uma espécie de cover), Vitor Bauer explora uma ideia que já havia sido delineada por um cara que gosto muito chamado David Foster Wallace em “E Unibus Pluram”, um ensaio sobre a ficção numa era pós-TV e pós pós-moderna. Vitor Bauer nos relata como ele está cansado da ironia pós-moderna que permeia todos os nossos relacionamentos, das pessoas que vão em shows apenas para rir de quem está no palco e para isso utiliza um cover que estaria perdido nessa coleção, não fosse o fato dele realmente gostar dessa música. Assim como eu, ele cresceu ouvindo essa música em reuniões familiares (final de ano, páscoa, aniversários...) e sua letra acabou se enraizando na sua mente e sua mensagem ganhando mais corpo, conforme ele passava por experiências que poderiam ser exemplificadas em sua letra. Não é uma música criada para ser um “produto”, mas acabou se tornando um produto e foi sendo ironizada conforme a sociedade crescia mais cínica e blasé em torno dela, inclusive por seus próprios “criadores”.

Mas Vitor Bauer é sincero ao gostar dela e é sincero ao incluí-la em “História do Brasil” e é disse que o álbum se trata: sinceridade. Vitor Bauer gosta realmente de todas as músicas e é por isso que faz um cover delas, afinal, quem não aprendeu a tocar violão com sua música preferida?

A opção por fazer covers apenas de músicas nacionais (por mais que algumas sejam cantadas em inglês, seus criadores são brasileiros ou, ao menos, enraizaram-se no Brasil) pode ter sido um fator limitador, mas se não fosse por isso, talvez o álbum não apresentasse essa unidade concisa toda e suas músicas poderiam ficar meio dispersas. Essa opção acabou dando uma identidade bem particular ao projeto de Vitor Bauer.

[bandcamp width=100% height=42 album=295962129 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=1980428311]

E sendo assim, “História do Brasil” encerra mais um ciclo na vida do artista, que partirá para novos ares, eu já confirmei presença num de seus shows da turnê que fará com Jonathan Tadeu, “Sem sair na Rolling Stones 1.5” e aguardarei paciente suas próximas empreitadas musicais.

5 pontos

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Dica Hidráulica: Conexões Krona

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Hoje a dica está hidráulica!

Krona é uma marca de tubos e conexões fundada em 1994, ou seja, tem a mesma idade que este que vos fala, mas obteve muito mais êxito em sua curta vida, contando com mais de 700 produtos fabricados de acordo com as normas ABNT (que só servem pra encher o saco) e umas das 1000 maiores empresas do Brasil de acordo com a revista Valor Econômico.

Fui conhecer essa marca quando trabalhei junto de meu pai na loja de materiais de construção que ele gerencia. Como todo bom civil, eu só conhecia a Tigre (supostamente a melhor marca de tubos e conexões) a a A-sem-perna (ou Amanco, para os não íntimos), mas ao entrar em contato com as conexões Krona foi amor à primeira vista.

A começar pela embalagem na qual elas vêm, lacradas a vácuo, as peças saem dos pacotes brilhando de tão limpas, imaculadas como uma virgem. Você sente na textura delas a firmeza e a segurança que nenhuma Tigre ou Amanco pode fornecer. As peças são brutas, mas ao mesmo tempo belas. Dá gosto empilhar um conjunto de T’s da Krona em cima do balcão.

Quanto ao preço, é muito mais barato que as peças dos concorrentes, mas nunca recebi reclamações delas. Todos os clientes terminam satisfeitos com as conexões hidráulicas Krona.

4 pontos e meio

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Dica musical: "Sick Scenes" do Los Campesinos (2017)

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Hoje a dica além de musical, é nostálgica, não por se tratar de uma banda antiga, mas por que seu som traz boas lembranças...

Los Campesinos é uma banda formada em Cardiff, País de Gales, em 2006 e passou por baixo do meu radar todos esses anos. “Sick Scenes” é o seu sexto álbum de estúdio e representa diversos marcos para a banda. A começar, é o primeiro álbum totalmente independente deles, em 2013, após o lançamento do quinto álbum,  “No Blues”, a banda entrou num hiato indefinido (como muitas outras bandas boas dessa geração) e cada membro decidiu seguir uma vida normal, com trabalhos ordinários e afazeres cotidianos e só voltaram a se reunir em 2016 para a gravação desse álbum. Outro marco é o aniversário de 10 anos da banda, que inspirou a união dos 7 amigos que formam a banda e mais 8 amigos da banda na produção do álbum como um todo, dos instrumentos a mais, a produção e a elaboração da arte da capa (muito bonita por sinal). E por fim, o álbum foi gravado ao longo de 4 semanas e meia em Fridão, Portugal.

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E então, vamos a parte que interessa: por que esse álbum merece uma dica?

Porque esse álbum é um legítimo álbum indie, honrando a tradição criada pelos músicos de Nova Iorque, iniciando lá no começo dos anos 2000 com The Strokes, passando por Yeah Yeah Yeahs, Vampire Weekend, Yeasayer, Beach Fossils e claro, Clap Your Hands, Say Yeah!. Essa banda não é de Nova Iorque, mas o som que eles criam poderia se enquadrar em qualquer filme indie de romance que se passe na cidade de Nova Iorque, filmado entre 2008 e 2012, é um ode a essa geração tão gostosa e acalentadora e que, infelizmente, não voltará mais.

Numa análise mais fria, o som é ordinário, se não medíocre, é um indie pop comum e nada mais, porém, não se fazem mais músicas assim hoje em dia e isso não é papo de velho, basta você procurar os artistas de indie hoje em dia, as bandas não tocam mais rock, os grupos de indie pop não ligam mais pra guitarras e o som está cada vez mais alienado das bases criadas lá no meio pro final dos anos 2000.

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E “Sick Scenes” junta todos esses elementos musicais ao longo de suas 11 canções, com letras românticas, irônicas, bem humoradas ou simplesmente encatadoras. Não há nada de mais aqui, mas às vezes não precisamos de algo a mais, bastam umas três ou quatro notas tocadas num teclado bem afinado, com os vocais no lugar certo, a guitarra distorcida na medida ideal e um baixo e uma bateria fazendo a sua parte pra manter o ritmo e pronto, lembramos daquelas tardes frias de inverno com nossos amigos no intervalo do colegial, na escadaria da Igreja Matriz, comendo e observando uma gostosa de salto alto passar do outro lado da rua e todo mundo babar em cima dela. Mude a melodia, insira umas palmas, com um ritmo mais dançante na outra canção e pronto, lembramos daquela festa em que estava tocando Franz Ferdinand e aquela loira gordinha da sala de repente parecia a menina mais bonita e você a beijou como nunca havia beijado ninguém. Rasgue a guitarra na canção e voilá, as memórias de quando seu amigo idiota tocava a campainha de uma casa qualquer e vocês tinham que sair correndo feito loucos pela rua num calor insuportável. É o tipo de música que te faz ter vontade de usar um Adidas Superstar, com calça jeans apertada e uma camiseta gola V listrada.

Como um álbum, “Sick Scenes” nem sólido é, pois não há algo que una todas as músicas em torno do álbum, como um tema ou uma história, porém esse desprendimento, que faz cada música ser um fim em si mesma, por si só, já respeita e honra essa entidade que é a música indie. Enfim, se me dissessem que esse álbum é de 2007 ou 2010 ou mesmo 2012 eu acreditaria, apesar dele conter alguns elementos que só viriam a ser explorados na música “mainstream” anos depois, como os trompetes e a percussão, por exemplo, mas é um álbum que nos remete a essa época.

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E essa deve ter sido a intenção da banda, ao criar um álbum que celebrasse seus 10 anos, nada melhor do que um álbum que os lembrasse do passado, desses 10 anos de estrada que tiveram tanta influência em seu som e, provavelmente, importância pessoal para cada um deles. Portanto, é um álbum que alcança sucesso no que busca e por essas e outras vale a pena escutar.

3 pontos e meio

quinta-feira, 30 de março de 2017

Dica Conspiratória: "Teoria da Terra Plana"

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A “Teoria do Ano de 2016”, uma ideia ancestral, considerada loucura por muitos, fatos por outros tantos e divino para alguns, a teoria da terra plana merece um post aqui n’O Sommelier de Tudo, não só pela sua ampla abrangência, mas também pela sua consistência.

De acordo com a teoria da terra plana, o mundo é uma espécie de disco, coberto por um domo, o firmamento do céu, que por sua vez, está por baixo do firmamento das águas (embora essa parte não seja um consenso). No centro do nosso planeta situa-se um monte de gelo ártico e em volta de nós uma enorme muralha de gelo, a Antártica (lembra uma série famosa de livros que virou uma série de TV com audiência recorde? Será que seu criador está querendo nos passar alguma mensagem subliminar?). Abaixo de nós encontram-se as colunas da Terra, provavelmente feitas de pedra. A gravidade seria originada pelo movimento ascendente que esse disco faz em meio à matéria escura que cerca a “bolha” onde o nosso disco se situa.

É uma teoria com muitas ideias e, infelizmente, eu não poderei apresentar todos os pontos (pe muita coisa, sério). Resultado de uma tradição multimilenar, com raízes profundas que podem ser traçadas até a Grécia Antiga e no Egito (embora haja insinuações sobre a esfericidade do nosso planeta em escritos do Egito Antigo). Ainda nos tempos de Plínio, o Velho, a teoria da terra plana já era amplamente rejeitada, vítima de sociedades ocultas que governam o mundo desde tempos imemoriais.

Com a passar das eras, a rejeição à teoria da terra plana não diminuiu, pois mesmo na Idade Média (o período das trevas sobre o conhecimento) a população em geral aceitava a ideia de uma terra esférica, inclusive a igreja Católica (embora o pensamento cristão medieval fosse limitado a teoria heliocêntrica, que considera o mundo o centro do universo, a ideia da terra esférica era amplamente valorizada), sendo, inclusive, um motivador para os navegantes europeus que sonhavam em dar a volta ao mundo.

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Por volta do séc. XVIII, a noção de que a Europa Medieval acreditava numa terra plana começou a ser difundida, embora não fosse baseada em fatos críveis. No século 19, Washington Irving escreve um livro que acende a fagulha inspiradora para os círculos defensores da teoria da terra plana e no século 20 é fundada a “Sociedade da Terra Plana”.

Ao mesmo tempos em que a teoria da terra plana ressurgia das cinzas da antiguidade como uma Fênix exuberante, diversos cientistas elaboravam teorias em cima de teorias que comprovam a esfericidade do nosso planeta. Teorias amplamente refutadas pelos teóricos da terra plana, mas que falham em explicar as razões para que a verdade seja escondida de nós. Alguns culpam os reptilianos, outros os illuminati e embora eles estejam conectados não há um consenso nas motivações deles, econômicas? Sociais? Políticas? Ambientais? Infelizmente, a teoria não chega tão longe e isso é uma falha, no entanto, com um histórico tão grande é só questão de tempo até que a verdade seja inteiramente desnudada perante a sociedade.

Teoria da Terra plana ganha força na internet - Terra plana e o logo da ONU

Com uma histórica rica e exuberante, defensores ferrenhos, uma organização invejável, a teoria da terra plana é um exemplo bem sucedido do que uma teoria da conspiração deve ser.

4 pontos

quinta-feira, 23 de março de 2017

Dica Musical: "Flying Microtonal Banana" de King Gizzard & The Lizard Wizard

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Já falei dessa banda aqui, mas foi na fase em que eu já não estava mais tão afim de escrever posts aqui, então vale dar uma aprofundada em quem eles são.

O King Gizzard & The Lizard Wizard é um hepteto de Melbourne, Australia, ou seja, uma banda de 7 pessoas fazendo um rock psicodélico com motivações conceituais por trás de cada um de seus 9 álbuns. O último deles, do qual vou falar hoje, é o “Flying Microtonal Banana”, um álbum que tem como principal motivo de existência uma guitarra modificada do guitarrista e vocalista da banda em microtom.

Microtom é um intervalo menor que um semitom, algo não encontrado tradicionalmente na música ocidental e que para um leigo como eu ou você quer simplesmente dizer que o som produzido pela guitarra dele é mais agudo do que o normal. Já se perguntou porque aqueles músicos indianos tocam uns instrumentos com tantas casas no braço, produzindo um som tão agudo? Pois é, em parte é por causa dos microtons, eu acho.

Mas enfim, como um instrumento afinado em microtom só pode ser tocado por outros instrumentos afinados em microtom, o vocalista da banda pagou para os outros integrantes conseguirem instrumentos modificados também e assim eles arranjaram mais guitarras microtonais, baixos microtonais e uma gaita afinada em microtom. Alia-se a isso uns sintetizadores, dois bateristas, percussão e um tradicional instrumento de sopro da Eurasia central chamado Zurna e voilá! Nasceu “Flying Microtonal Banana”.

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Ao contrário de “Nonagon Infinity”, cujo conceito era fazer um álbum em loop, que poderia ser tocado sem parar que você não saberia o começo, o final, nem quando ele começou a tocar primeiro, aqui a ideia principal é menos estrutural e mais sônica. Qualquer coisa que eles tocassem seria diferente e isso abre espaço para as letras se desenvolverem e as músicas se expandirem sozinhas.

As letras apresentam uma miríade de temas, mas todas compartilham um senso narrativo bem solto, porém notável, em que é percebido personagens se extasiando com acontecimentos brutais ou apocalípticos, assustadores e grandes demais para que eles pudessem existir. “Melting” é um bom exemplo ao nos apresentar um personagem elaborando um discurso sobre o aquecimento global e se forçarmos um pouco a barra podemos imaginá-lo no centro dos acontecimentos da canção seguinte “Open Water”, em que ele se encontra assustado com o derretimento das calotas polares e não reconhece mais a terra à beira-mar onde vive.

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As canções também respiram entre si, o que quer dizer que há um intervalo entre elas para que os temas possam se assentar. Em “Open Water”, por exemplo, somos apresentados, primeiro, ao som de ondas se chocando. Além disso, há uma grande variação de influências para cada uma das nove canções, do High-Life a trilha sonora de Spaghetti Westerns. Com seus instrumentos singulares, todas essas influências ganham um novo fôlego e evoluem naturalmente sob as asas de King Gizzard & The Lizzard Wizard.

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Enfim, “Flying Microtonal Banana” é um projeto ambicioso e bem sucedido, mas é apenas um quinto do que a banda prometeu nos apresentar esse ano, aumentando a expectativa e o padrão para o que está por vir. Esperamos que eles consigam manter o nível de excelência e a criatividade no mesmo patamar.

4 pontos

quinta-feira, 16 de março de 2017

Dica cinematográfica: "Silêncio" (2016)

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Mais um filme lançado em 2016, mas que só chegou ao Brasil em 2017. Meio chato isso, não? Pois é, mas esse filme compensa, porque é o melhor filme que eu assisti esse ano até agora.

O filme, dirigido por Martin Scorsese, estrelado por Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Yosuke Kubozuka, Tadanobu Asano e Issei Ogata, adapta o livro “Silêncio” de Shusaku Endo. A trama começa com a narração do padre Ferreira, um jesuíta que foi ao Japão e lá presencia a tortura e subsequente assassinato de diversos cristãos japoneses. Anos depois, em Portugual, é sabido que o padre Ferreira apostatou (termo usado para descrever a negação de sua fé por parte de padres) e dois padres são enviados ao Japão para investigar isso, o padre Rodrigues e o padre Garupe. Chegando lá, eles descobrem um Japão cristão devastado e comunidades minúsculas vivendo em vilas isoladas. Os padres devem manter-se trancados em uma cabana o dia todo para não serem vistos e só durante a noite podem cumprir suas obrigações de padre perante a comunidade. Um dos japoneses, Kichijiro, que já havia negado a sua fé para salvar sua vida, espalhou a notícia de que os dois padres estavam no país para uma vila próxima e o padre Rodrigues é enviado até lá. Após alguns acontecimentos, ele é preso pelo inquisidor Inoue e passa por diversas provações de sua fé, através de uma série de dilemas morais.

A premissa do filme já é instigante, adaptando um livro de um dos raros escritores cristãos do Japão, Shusaku Endo, que se preocupa em contar a história através do ponto de vista dos padres jesuítas. Infelizmente ainda não li o livro, então não posso dizer se é uma boa adaptação ou não, mas Martin Scorsese trabalha de forma magistral esse tema, muito estigmatizado e no qual afasta diversas pessoas, mas não, a Igreja Católica não é do mal, não escraviza as pessoas e os jesuítas eram pessoas bem intencionadas e que não cometiam atrocidades. Isso é mostrado de forma magistral no filme, pois ele expande e engrandece as discussões de fé, colocando em confronto a religião budista e a religião cristã católica, exposta tanto nos embates entre o padre Rodrigues e seus rivais de fé (o intérprete, o inquisidor e o padre Ferreira) quanto pelos seus monólogos internos, em que ele mesmo se questiona.

Auxiliando esse debate vem a direção fantástica de Martin Scorsese. Falar disso é chover no molhado, mas há momentos que merecem destaque, como o jogo de câmera usado na cela em que o padre Rodrigues é mantido preso. O filme é muito silencioso (piada não intencional), há uma ausência de trilha sonora, mas não chega a incomodar, pois há um embate subjetivo que cresce ao longo do filme e essa escolha, por manter os sons expostos no filme o mais natural possível, acaba engrandecendo esse embate, fazendo-o ganhar mais força e que auxilia a dar o tom épico ao final.

Além disso, como (quase) sempre, o filme é uma senhora Lição de Cinema, cheio de referências aos mestres da sétima arte da terra do sol nascente, como Akira Kurosawa (mais explícito nas cenas externas e montanhosas) e Nobuo Nakagawa (novamente, nas cenas em que Rodrigues está preso). A forma como a câmera é guiada pode parecer estranho num primeiro momento, mas se você traçar um paralelo com o cinema japonês da segunda metade do século XX irá encontrar semelhanças, podendo dizer que esse filme também é uma homenagem a essa tão tradicional e inspiradora escola de cinema.

É magistral.

Minha única ressalva é o M. Scorsese ter escolhido usar o A. Garfield como ator principal ao invés do A. Driver (que é muito mais ator) e mesmo assim o A. Garfield mandou bem, numa das melhores atuações da sua vida.

Aproveite que o filme ainda está nos cinemas (pouquíssimos é verdade) e que já tem em 1080p na Locadora do Ultra e assista sem preconceitos.

5 pontos

sexta-feira, 10 de março de 2017

Um relato de um hater do barcelona sobre o jogo de quarta-feira

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Eu sou um hater do barcelona e como tal, meus sentimentos não são baseados em razões, são simplesmente sentimentos ruins, uma torcida ao contrário (sempre torço pro barcelona, mas é para perder) e acho que todo torcedor de futebol é assim, em algum momento de sua vida. Sempre existirá aquele time pela qual sua antipatia é tão grande, que você passa a torcer pro time perder todos os jogos.

Eu era assim com o São Paulo quando era mais novo. No Ensino Fundamental II (do 6º ao 9º ano) estudei com vários são paulinos e todos eles eram pessoas detestáveis. Eu também nunca fui flor que se cheire, era meio metido, em parte, porque me achava superior aos meus colegas de classe devido aos meus conhecimentos avançados (enquanto meus colegas estavam preocupados com as festas de sábado, eu estava lendo Kafka) e em parte, porque eu era o garoto da capital morando no interior de São Paulo. Além disso tudo, era feio pra caramba, tinha gostos musicais horríveis (não para mim, mas para os outros, porque nunca gostei das músicas que tocam em rádio e afins) e nunca soube jogar futebol. Já eles eram bonitos, manjavam de futebol e basquete, eram altos e todas as garotas gostavam deles. Uma das formas que achei de vencê-los era torcer contra o time deles, o São Paulo, mas isso nunca deu muito certo.

Quanto ao barcelona, nunca fui muito de torcer pra times europeus e minha mentalidade derrotista sempre se afeiçoou mais com os times que estão por baixo, ou seja, desde que o barcelona se tornou o “rei” da Europa, com os melhores jogadores, praticamente a seleção da Espanha no time catalão minha antipatia começou a crescer. Ainda na Copa de 2010, quando a Espanha saiu vitoriosa e todo mundo falava que isso era graças ao barcelona, que montou uma categoria de base gloriosa e poderia fornecer a Espanha os melhores jogadores, minha antipatia pelo time catalão já estava formada.

No entanto, essa antipatia foi se solidificar em 2011, quando o maldito time catalão tirou o Mundial de Clubes da Fifa do meu querido time, o glorioso alvinegro praiano, o Santástico! Jamais esquecerei aquela manhã sombria, apesar de ensolarada, em que meu time foi humilhado em rede mundial no Japão, perdendo por 4 a zero e meu irmão dizendo “Ah, mas não ia ganhar mesmo!”.

Minha sorte era que eu nunca fui torcedor fanático, 2010 e 2011 tinham sido os anos em que mais havia acompanhado futebol até então e não era pra menos, o Santástico havia se consolidado como o melhor time daquela época, com Neymar, Elano, Ganso, André, Pará, Maikon Leite, Aranha, Edu Dracena, muitos em sua melhor fase. É o time que tem sua própria página na Wikipédia em inglês pra você ter noção. E pensando melhor, talvez fosse até melhor assim, o Santástico ter pedido, porque o sentimento de desolação que senti me fez ser um torcedor ainda mais racional e não um desses fanáticos malucos que choram pelo time.

Eu, graças a Deus, nunca chorei por time nenhum e fico muito feliz com isso. É essa racionalidade que me fez adorar o fatídico 7x1, mais por ficar deslumbrado com o futebol superior que a Alemanha apresentou do que por não gostar da Seleção Brasileira (mas isso é assunto pra outro post).

Ainda assim, aquele jogo, o 4x0 do barcelona em cima do Santástico consolidou minha antipatia pelo time catalão, enquanto que a crítica positiva ao time só se consolidou. É um nojo ouviu a narração da Globo dos jogos do barcelona, por exemplo. Eles nem escondem a sua torcida, chamam o Messi de gênio, glorificam cada passe do Neymar, exaltam o Suárez.

E quarta-feira não foi diferente, a narração estava um nojo, como sempre e eu sentia vergonha alheia a cada vez que o barcelona fazia um gol e dava pra sentir a criança de 10 anos sair dos narradores e invadir o microfone.

No entanto, isso não provocava meus nervos, não me deixou com raiva, porque no fundo, eu não tinha esperanças de que o PSG fosse ganhar aquele jogo, mesmo com uma vantagem de 4 gols. E isso é o que mantém meu haterismo saudável, é essa racionalidade, eu nunca vou ser torcedor do PSG, mas torcia pra ele sair vitorioso. Eu sei que o PSG é um time sem tradição alguma, enquanto o barcelona é um time com importância histórica, política e social, eles não são apenas o time da cidade barcelona, na UEFA eles representam uma nação, que busca até hoje sua independência da Espanha. Até nisso, ele é superior ao seu principal rival, o Real Madrid, isso eu reconheço, embora eu torça muito mais pro Real Madrid, não só nos clássicos Real X barça, mas também quando o time da capital espanhola enfrenta outros times da Europa.

No jogo de quarta eu sabia que as chances do PSG eram baixas, porque é um time fraco, é um time que não tem moral pra enfrentar o barcelona. E por pior que seja a situação do Messi fora do barça, na seleção argentina ele é um zé-ninguém, fora de campo é um esportista terrível, que não aceita um segundo lugar, que não sabe perder uma final. Por mais cretino que seja o Neymar, por mais descontrolado que o Suárez seja, por mais chato que o Piquet é, eles estão num time que joga sozinho, num time que não precisa de técnico, num time superior a maioria, num time que, quando perde, é um acontecimento que provoca um enorme estranhamento e com razão.

Ainda assim fiquei animado quando o PSG fez o primeiro gol. Quando o Dí Maria, que nem a pau é um jogador bom, ele é, no máximo mediano, admita, levou a bola até a grande área, eu segurei minha respiração e quase falei pra mim mesmo “se ele fizer o gol eu grito!” (só não falei, porque, no fundo, eu duvidava que ele ia marcar), mas quando ele errou, respeitei e pensei “não, esse time vai perder, é ruim demais!”.

Minhas esperanças só foram aumentar nos últimos 5 minutos e ainda assim saiu aquele gol incrível do Neymar e a atuação digna de Oscar de Suárez, que conseguiu convencer um juiz que estava armado contra ele, dando até um amarelo pro uruguaio mais lastimável da história recente do futebol.

Ainda assim, o jogo se aproximava do seu fim e teria sido bom para mim, não fossem os 5 minutos de acréscimo do juiz maldito. E o barcelona mostrou que 5 minutos é demais pra eles, é entregar o jogo pro time catalão e ganhou. Uma vitória histórica, um jogo belíssimo até pra quem entende pouco de futebol, mas entende que o que o barcelona fez é praticamente impossível, que aquele final de jogo foi eletrizante e que as estáticas provam, foi histórico.

Mas para um hater do barcelona, como eu, foi uma lástima. Não, eu não me enquadro no mesmo local que o cearense imbecil que chorou quando o PSG perdeu, eu não esperava a vitória do PSG, mas não esperava ter que admitir, mais uma vez que o barcelona é um time superior a muitos outros, que o barcelona é sim, um time fantástico.

E ainda assim, continuo sendo um hater, o barcelona pode ser superior, o Messi pode ser um gênio, o Neymar pode ser o melhor jogador brasileiro desta década, o Suárez pode ser incrível, mas eu continuo sendo um hater, o pênalti foi sim mal marcado, foi uma vitória grandiosa, mas com um asterisco, o Messi continua não sabendo perder, o Neymar continua sendo um cretino, o Suarez continua sendo um descontrolado e no meu ranking pessoal, no meu orgulho de torcedor, o Santástico continua sendo e vai continuar a ser, o melhor de todos, todos, TODOS e isso não é racional, é completamente passional, como toda opinião de hater deve ser.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Dica musical: "Drunk" de Thundercat

Thundercat - Drunk - Front & Back Cover

Após 4 anos, Thundercat, um dos músicos mais virtuosos dessa onda de artistas que ficam na linha tênue que separa o jazz do hip hop vindos do sul da Califórnia (a fim de comparação, fica aí alguns nomes: Kamasi Washington, Kendrick Lamar e Flying Lotus), volta com mais um álbum que não decepciona e até surpreende.

Eu tinha um pouco de receio com relação a esse álbum, pois não gosto muito dos outros álbuns de estúdio do baixista. “The Golden Age of Apocalypse” (2011) e “Apocalypse” (2013) não ficam apenas na linha tênue entre jazz e hip hop, mas também entre a música eletrônica. O jazz é muito distorcido e Thundercat se esforça em mostrar o quão virtuoso ele é no baixo, cometendo o mesmo “erro” que muitos roqueiros cometem que é esquecer a melodia e se concentrar na técnica. O mesmo não aconteceu em “The Beyond/Where The Giants Roam” (2015), um EP que apresenta 6 músicas com melodias soturnas, porém encantadoras, aliando a técnica com a criatividade musical.

E dois anos após o EP, Thundercat mostra que ele aprendeu muito mais. “Drunk” é um épico de 23 músicas, a maioria tendo algo em torno dos 2 minutos, sendo a mais longa de 4 minutos e várias de apenas alguns segundos, servindo como transições entre as histórias que Thundercat quer contar, mas chegaremos lá mais tarde.

Há uma grande presença de elementos eletrônicos, o baixo continua fortemente distorcido, mas o álbum não chega mais próximo da música eletrônica do que um álbum de fusion do Herbie Hancock. Há uma grande presença de melodias vindas diretamente do funk e do soul, além dos próprios vocais distorcidos de Thundercat (expansivos, suaves e agudos) reforçando diretamente essa influência musical. Em todas as canções, o baixo é o instrumento principal, dando não apenas o ritmo, mas a atmosfera às canções, seu virtuosismo ainda está presente, mas há uma concentração maior em manter a melodia, criando músicas mais sólidas.

Muitas canções são instrumentais, mas outras tantas contém letras que exploram diversos temas, de drogas a ser friendzoneado, com um senso de humor sagaz e non-sense, mesmo os temas mais pesados acabam provocando uma risada no ouvinte/leitor. A forma como esses temas são explorados, além do senso de humor tão único de Thundercat, acabam dando às letras a sensação de se tratar de um diário, mas o tamanho do álbum (são 23 músicas), com suas transições e os diferentes elementos musicais revelam algo um pouco mais profundo. O álbum pode ser encarado como uma zapeada noturna por uma porrada de canais de TV e conforme a noite vai avançando, as letras, as melodias e os elementos musicais vão ficando mais obscuros, melancólicos e claustrofóbicos.

O álbum começa de maneira fácil de ser encarado (a primeira música tem 38 segundos, a segunda pouco mais de 1 minutos e a terceira mais de 2), mas após a primeira transição os elementos se misturam cada vez mais, transformando o álbum numa obra de jazz fusion com letras bizarras, engraçadas e com um pano de fundo bem obscuro, até que há mais uma transição e o álbum vai ficando mais lento, vagaroso e pesado, culminando numa canção confusa, acompanhada de uma melodia desoladora, com uma última nota de baixo tão distorcida que te faz sentir como se estivesse perdido no espaço. “Them Changes”, a melhor música do EP lançado em 2015, aparece perdida no meio do álbum e só reforça essa ideia de busca por uma atração, dissolução entre diversos temas, referências e elementos musicais.

É um álbum impressionante, com um pano de fundo ainda mais impressionante. Há ainda uma porrada de participações especiais e muitas delas melhoram as canções onde são apresentadas (como Kendrick Lamar em “Walk On By”), mas outras só servem pra atrapalhar (Wiz Kalifa, claro...), porém isso não diminui de todo o valor do álbum.

Enfim, “Drunk” de Thundercat é um projeto ousado e o baixista consegue segurar as pontas e aproximar extremos musicais com seu virtuosismo e criatividade. Vale a pena escutar, se não pelo jazz fusion, mas pelas letras sagazes.

4 pontos

quinta-feira, 2 de março de 2017

Dica Cinematográfica: "Hacksaw Ridge" (2016)

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Rapaz, ainda bem que eu não sou crítico de cinema membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles, porque não gostaria de escolher entre “La La Land” e essa obra magnífica da qual falarei hoje.

“Hacksaw Ridge” conta a história verídica de Desmond Doss, membro da 77 ª Divisão de Infantaria e também o primeiro objetor de consciência a receber a Medalha de Honra na II Guerra Mundial, quando salvou, sozinho e desarmado, 75 homens na Batalha de Okinawa. Aliás, o filme começa já pelo final, com os parceiros de Doss retirando-o numa maca do campo de batalha e então, através de um extenso flashback, somos apresentados aos eventos mais importantes de sua infância e juventude, que o fizeram se tornar ainda mais devoto a Deus e, em especial, ao sexto mandamento; “Não matarás”. Desmond sempre esteve encantado pela profissão médica, tanto que acaba se apaixonando por um enfermeira, Dorothy Schutte. Após o alistamento de seu irmão mais velho, Doss, mesmo contrariando a vontade de sua família e de sua namorada, alista-se também, almejando tornar-se um socorrista. O único problema é que, mesmo os socorristas, são soldados e ele sofre muito quando começa o treinamento, pois recusa-se a pegar numa arma. No entanto, sua força de vontade, seus contatos e seu bom desempenho físico lhe garantem um lugar na guerra, onde Doss acaba fazendo história.

Desde os primeiros momentos, sabemos que esse será um filme de drama épico do tipo que lhe fará chorar e “Hacksaw Ridge” não deixa nada a dever aos maiores clássicos de guerra que existem. De “Sem novidade no front” a “Cartas de Iwo Jima”, passando por “O resgate do soldado Ryan”, “Nascido para matar”, “Vá e veja” e “Paisá”, esse filme não deve nada a eles. Há um subtexto poderoso, cenas brutais, uma dramaticidade enorme em cada cena (até mesmo a câmera lenta foi bem utilizada nesse filme) e, claro, aquele final com fundo preto, filmagens antigas e um textinho resumindo a vida de Desmond Doss até o final de seus dias.

A direção nesse filme foi muito bem feita e o crédito tem que ir pro Mel Gibson (inclusive, quando o filme acabou, eu fiquei indignado por ter que admitir que o Mel Gibson me fez chorar assistindo um filme!) e sua equipe de produção. Todos os elementos estão em perfeita harmonia nesse filme, os efeitos sonoros, a trilha sonora, a posição das câmeras, sua movimentação, é um filme com uma direção não apenas competente, mas surpreendente, pois algumas cenas (como a que Desmond contesta junto de sua mulher sua posição perante seus colegas de treinamento, enquanto preso ou ainda a cena em que ele contesta seu lugar na guerra e a fantástica cena final em que ele é descido da serra de Hacksaw numa maca) são tão carregadas de simbolismo, que você tem vontade de parar o filme nesses momentos só para poder analisar com calma e friamente o que aquelas imagens significam.

Vou te falar, é um filme poderoso.

Além disso, ainda temos atuações surpreendentes de atores como Andrew Garfield, que mais uma vez consegue carregar naquelas costas magrelas dele todo o peso de um papel dramático como esse (ele já o fez isso em “Silêncio”) e também de Teresa Palmer, Hugo Weaving e Vince Vaughn (a maior surpresa).

O filme não é perfeito, apresentando algumas coisas que incomodam, mas passam batido, visto sua magnitude, como as transições entre os períodos da vida de Doss e a precisão histórica (ou falta dela) em alguns momentos, como no retrato do pai de Desmond, as circunstâncias de seu casamento e a própria batalha de Okinawa, que não foi a primeira em que Desmond participou e nem durou apenas alguns dias, mas semanas. Tudo isso cai na caixa de licença poética, porque se não o filme seria enfadonho demais e seria melhor gravar uma série, o que também não é má ideia.

Enfim, “Hacksaw Ridge” é um primor de um filme, ouso dizer uma obra prima, entra fácil na lista de maiores clássicos de guerra da história, tem um subtexto incrível e, apesar dos seus defeitos (e são poucos, é coisa boba!), deveria ter sido escolha difícil para os engomadinhos da Academia que ficaram entre “La La Land” e aquele lixo do “moonlight”, mas fazer o que, né? O que importa é que daqui uns 50 anos, as pessoas irão olhar pra trás e ver “Hacksaw Ridge” e irão chorar, porque o filme é excelente, de verdade.

4 pontos e meio