terça-feira, 14 de agosto de 2018

O que eu perdi: "Ótta" de Sólstafir (2014)

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É difícil eu falar de álbuns antigos aqui n'O Sommelier de Tudo, mas é para isso que serve o "O que eu perdi" e esse álbum merece ressuscitar essa seção do blog.

"Ótta" é o quinto álbum dessa banda de heavy metal islandesa, o que já é o suficiente para carimbá-lo como black metal, embora eu sempre me atenha a Black metal como aquele movimento ridículo de bandas do norte da Europa nos anos 90 e tudo que veio de bom associado a esse gênero é post-metal pra mim. Aliás, tudo que é de bom vindo do black metal acaba sendo associado ao post-metal, pois eles pegam elementos estéticos do black metal e o fundem com elementos de outros gêneros e tradições nacionais, criando uma mescla digna do prefixo "post". Não é diferente com Sólstafir.

Esse álbum conceitual, do jeito que eu gosto, se baseia num antigo sistema de contagem do tempo tradicional da Islândia chamado "Eykt", que dividia o dia em 8 instâncias, cada uma com o equivalente a 3 horas. E é a partir daí que o álbum é construído e como você já pode imaginar, as primeiras musicas são as mais obscuras, com os elementos musicaia mais opressores, como as guitarras distorcidas e a bateria imponente, marcando o passo lento, criando uma atmosfera pesada. As musicas do meio são as mais rápidas e as mais agitadas, uma delas em específico ("dagmal") tem até possibilidade de ser tocada em rádios, embora eu duvido que tenha sido tocada. Essas canções são as poucas que acompanham o brilho jovem do sol, sempre associado a infância, como deixa claro uma de suas letras, para então voltar ao misticismo e transcedentalismo da noite velha, que caminha para o seu fim, culminando na ressureição e essas canções são as que mais fazem o Solstafir soar como uma banda de rock progressivo, sempre expansivas e exigentes, buscando algo além do lugar a que pertencem.

Mas não tente aplicar parâmetros ocidentais ao que se escuta nesse álbum. Esse é também o álbum mais "islandês" da banda, extremamente tradicional de sua terra, que é isolada e de difícil compreensão para nós, latinos, infundados na tradição cristã. Como a primeira música já diz "o ódio negro em seus corações é o nosso Senhor". Eles são islandeses, o sol é para sempre uma criança e a noite é ao mesmo sua mãe, seu pai, sua vida e sua morte, é tudo é para nós isso beira a incompreensão. É necessário muita dedicação para se compreender a cultura islandesa e uma dedicação que, no meu caso, se volta para outras tradições europeias e não posso fazer uma analise muito extensa de todo o simbolismo que esse álbum carrega em suas letras, mas posso dizer que beira o épico, é tradicional e puramente islandês e essa mesma incompreensão é o que faz o time nacional deles ganhar da Argentina na Copa do Mundo é o que faz qualquer intenção ocidental de os imitar parecer a mais pura forma de ignorância para qualquer um que entende o mínimo da distancia cultural entre nós e eles.

De toda forma, o álbum é uma aventura incrível aos ouvidos de qualquer um que gosta de rock. Atmosferas desoladas, com elementos tradicionais vende-se sob vocais poderosos. Um álbum digno de nota e único, eu diria.

4 pontos

domingo, 12 de agosto de 2018

Dica especial de dia dos pais 2018

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Esse ano me propus a ler uma obra poética a cada final de semana e tenho conseguido manter um nível legal nessa meta, pois quase todos os finais de semana acaba lendo um livro de poesia, alguns com mais sucesso, outros com menos.

No início do ano me deparei com uma editora fantástica chamada Everyman's Library e essa editora tem uma coleção de livros de bolso de poesia que me chamaram a atenção pela sua qualidade gráfica. No meio dessa coleção encontrei coletâneas de poemas e um deles chamou tanto minha atenção que acabou virando dica especial.

Seu nome é "Fatherhood: Poems about Fathers", organizado por Carmela Ciuraru é um livro com uma proposta clara, reunir poemas que se relacionam com a paternidade, esse substantivo tão difícil de se definir. Seu conteúdo é subdividido em outros temas, poemas de pai para filho, de pai para filha, de filhos para pais, de rivalidade entre pais e filhos e até para avôs, pois eles também são pais e não seriam avôs se não fossem.

A seleção conta com poemas de diversos períodos diferentes, clássicos, românticos, simbolistas e modernos, além de incluir poemas de uma ampla gama de lugares, Europa, África, América e Ásia. Claro que ele acaba se centrando nos anglófonos, mas contém uma variedade interessante de línguas.

Já vi críticas negativas dizendo que é uma boa ideia de má execução, mas discordo disso. Acredito que para um iniciado em poesia, que já entenda bem de temas, períodos e lugares criadores de poesia, esse livro não seja uma adição muito interessante, até porque a grande maioria de seus poemas são velhos conhecidos do público literário, no entanto, para alguém que está se aventurando por essa terra misteriosa, é uma ótima adição, que serve não só como inspiração temática, mas para auxiliar na descoberta de novos poetas.

Dessa forma, esse livro é uma ótima dica para todos aqueles que amam seus pais e valorizam muito seu espaço em suas vidas.

4 pontos e meio

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Dica literária: "Poesia" de T.S. Eliot (2015)

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T.S. Eliot é um poeta difícil, um poeta para poetas, assim como grande parte da produção literária modernista em língua inglesa do século XX. Cheio de referencias obscuras e juntando fragmentos para criar algo que seja seu, uma atitude tipicamente modernista. E é  por isso que essa edição da coleção Cultura é tão importante.

Essa edição baseia-se no ultimo livro de coleção de poesias do poeta, abrangendo toda a sua produção literária, reunindo desde os mais famosos "The Love Song of J. Alfred Pruffrock" até "The Wasteland" e indo para os menos falados "Coros de A Rocha" e "Quatro Quartetos" (de fato, a culminância final de toda a sua obra poética e, porque não?, do Ocidente), todos traduzidos pelo excelente Ivan Junqueira, que fez um maravilhoso trabalho aqui, mas comentarei sobre isso mais pra frente, numa edição linda, capa dura, a um preço muito bacana.

Os poemas de Eliot são muito importantes. Ele, aliás, foi um cara muito importante, talvez mais até pelos seus escritos teóricos, que mostram posições claras e polêmicas, porem muito sensatas de temas diversos que vão de literatura a política. No entanto, é ao se ler seus poemas que se pode ter uma visão clara de tudo o que ele queria dizer. Eliot não escreveu a toa, ele realmente tinha um plano em mente, que se consolida dentro de sua poesia. Ao conseguirmos observá-la em sua completude, claramente percebemos sua ordem.

Isso não exclui o fato de ser uma poesia de difícil compreensão, como salientam os comentaristas de sua obra e é aí que entra a importância de um volume como esse. Recheado de notas, referências e complementos às próprias referencias que Eliot havia deixado para seus poemas, esse livro consegue esclarecer diversos pontos para o leitor, não tratando-o como se ele fosse um burro, mas um amigo ao qual se conversa sobre poesia numa mesa de bar. O livro é inteligente, mas não te menospreza, muito pelo contrario, te trata com respeito.

Dessa forma, "Poesia" é um livro muito legal, inteligente e de grande auxilio não só para os iniciantes em poesia, mas também para os mais estudiosos.

5 pontos

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Dica cinematográfica: "L'Anglaise et le Duc" (2001)

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Mais uma dica de um filme deste diretor que só me impressiona, Éric Rohmer e dessa vez mais um romance histórico.

O filme se chama “A inglesa e o duque”, filme de 2001 que conta a história de Grace Elliot, uma aristocrata inglesa que vive na França do século 18, durante a Revolução Francesa. Grace não aprova os meios revolucionários, mas o duque d’Orleans, seu grande amigo, não só aprova, como deseja que os revolucionários avancem. Entre revoltas e julgamentos, Grace viaja de Paris para sua casa de campo fora da cidade, esforçando-se para conseguir fazer sentido da crise que seu país está passando.

A filmografia de Rohmer é marcada por 3 filmes históricos, “La Marquise d’O…” de 1976, “Perceval, le galois” de 1978 e, finalmente, em 2001, ele dirige “L’anglaise et le duc”. Ainda não assisti seu primeiro filme histórico, mas este filme contém uma característica muito marcante em acordo com “Perceval, le galois”. Ambos os filmes se esforçam para se distanciar do espectador através de sua montagem. Em “Perceval” tínhamos um cenário notoriamente falso, que fazia lembrar uma montagem de teatro. Aqui, Rohmer abre mão da sua característica utilização de cenários naturais, com pouca ou nenhuma modificação para as telonas e usa muitos efeitos digitais para criar os cenários. O resultado fica um pouco estranho, porque foi feito em 2001, mas foi feito de maneira propositalmente para ser falso e hoje ganha um ar de artificialidade estética meio nostálgica, não um envelhecimento tecnológico imprevisível.

Mas não é apenas a montagem desse filme que é impressionante. O mais impressionante é sua história, um retrato fiel e voraz dos horrores da Revolução Francesa, o movimento mais mal compreendido da história e que plantou sementes destrutivas que estão brotando até os dias atuais. Grace se opõe aos revolucionários, mas por não fazer parte dos círculos principais da cidade e ser estrangeira, acaba se distanciando dos horrores da revolução, mas nem por isso seu olhar deixa de presenciar a arrogância ditatorial dos jacobinos, suas injustiças, preconceitos e abusos. Ela vê suas amigas serem decapitadas, sua casa ser invadida e sofre diversos abusos psicológicos, o maior mal cometido pelos revolucionários e que, por esse motivo, os transformou em figuras lendárias, com um caráter de benevolência democrática que não poderia estar mais longe da verdade. Seus abusos psicológicos nunca poderiam ser medidos e por isso, até hoje, aprendemos nas escolas que a Revolução Francesa foi um período de grande progresso.

Aqui no filme conhecemos a face da aristocracia que não merecia passar pelo que a Revolução Francesa ocasionou e a história nos mostra que exemplos como os dela não eram a minoria. Grace ajuda os pobres e os oprimidos, dá aula para crianças escolhidas e trata seus servos com respeito. Isso não era uma minoria aritocrática, documentos históricos provam que mulheres como ela sempre existiram aos montes e eram a maioria. Eram minoria em Paris e em outros grandes centros urbanos da Europa, mas ao longo de todo o continente, a situação era diferente do que somos condicionados a acreditar e era muito parecida com o que Rohmer nos apresenta nesse petardo cinematográfico.

O contraste entre realidade e narrativa entra em choque com os diálogos entre Grace e o duque d’Orleans, revelando o porque do título; a inglesa entre em choque com o duque, a inglesa que nasceu no mesmo país de Edmund Burke, autor de “Reflexões sobre a Revolução na França”, mas uma inglesa que não abandona a França, assim como Tocqueville não abandonou. O paralelo é óbvio e provoca, de forma sutil (se não fosse sutil não seria um filme de Rohmer), mas evidente. Isso pode afastar algumas pessoas e, de fato, afasta, pois comprovei isso ao compartilhar esse filme com alguns colegas, mas ninguém deixa de admitir o seu valor artístico.

Os incríveis diálogos, os cenários bem elaborados e criativos são pontos muito positivos, sendo o único ponto realmente negativo nesse filme seu ritmo. O filme é longo e se torna cansativo, os diálogos sempre extensos e muito inteligentes não diminuem isso, a beleza de seus cenários não diminuem a densidade da obra, que exige muito de quem a assiste. De qualquer forma, o caminho é árduo, mas vale a pena.

Concluindo essa dica, só fica o recado: assista de mente aberta.

4 pontos e meio

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Dica higiênica: Papel Higiênico Neve

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A tão aguardada dica de papel higiênico finalmente chegou! Após meses de muito trabalho, pesquisa e comparação, finalmente pude chegar a conclusões interessantes que me possibilitam escrever uma dica higiênica.

O papel higiênico Neve já é figura carimbada nos mercados de todo o país. Um produto de tradição, brasileiro e que até já figurou nos intervalos das redes de televisão brasileiras. É um produto a ser respeitado, mas apenas isso não basta, pois a delicadeza de um papel higiênico é um fator de extrema importância.

De acordo com a embalagem, o papel higiênico Neve contém uma exclusiva tecnologia dermacare e ao se utilizar suas folhas duplas não resta dúvidas de que há algo diferente, ainda mais quando o comparamos com outros produtos disponíveis no mercado. Suas folhas proporcionam suavidade, delicadeza e, ao mesmo tempo, firmeza. As folhas duplas respeitam a lei da natureza de que um é pouco, dois é bom e três é demais. Os outros produtos que abusam do numero de folhas não entendem que sua excesso cidade acaba atrapalhando, mais do que ajudando. Absorção de primeira qualidade e uma amplitude que garante às suas mãos uma estabilidade de uso que quase não encontra desafios à altura nas prateleiras dos mercados.

Quase não encontra, porque existem sim produtos melhores que o Neve. Essa é uma dica isenta de patrocínio e, portanto, honesta. Porém, essa também é uma dica que procura analisar todos os parâmetros e um deles é o custo-benefício. Nessa questão, o Neve supera seus concorrentes, pois oferece um ótimo produto a um preço justo e que acaba não pesando no bolso, nem mesmo dos maiores cagões, como eu.

Dessa forma, o Neve se destaca e consegue um lugar de prestígio dentro desse tão querido blog.

4 pontos e meio

terça-feira, 31 de julho de 2018

Dica cinematográfica: "Contos das 4 Estações" de Éric Rohmer (1990-1998)

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Hoje não venho com uma dica, mas com 4 dicas cinematográficas. Como não poderia deixar de ser, é claro que uma série de 4 filmes que merecem dicas cinematográficas só poderia ter sido feitos pelo mais genial de todos os diretores de cinema de todos os tempos (e eu vou explicar o que isso quer dizer com relação ao magnânimo Truffaut): Éric Rohmer.

Produzidos nos anos 90, com dois filmes separando os dois primeiros dos dois últimos filmes da série, esses 4 filmes contam histórias de amor (sempre!) relacionando-os com as estações do ano em que as histórias se passam. Assim como as 4 estações criam um todo coerente ao qual nós chamamos ano e representam uma volta completa de nosso planeta em torno do Sol, esses quatro filmes criam um todo coeso, apesar de suas diferenças, que aparentam serem grandes, mas não são. O que podemos chamar de “essência” dos 4 filmes permanece a mesma, independente de seus personagens, suas trajetórias e históricos. Independentemente da época do ano em que a história se passa.

51v4vmnseal-_sy445_Mas antes, vamos falar dos filmes. O primeiro deles “Conte de Printemps” (ou “Conto de Primavera”) é o meu favorito dos quatro e tem um início parecido com outro favorito meu feito pelo mesmo diretor, “L’ami de mon ami”. Jeanne, uma professora de filosofia não se sente bem em ficar na casa do namorado, que está viajando e decide voltar para sua casa, esquecendo-se que havia emprestado-a para sua prima, que ainda está utilizando-a. Sem saber o que fazer, ela é convidada para uma festa na casa de uma amiga distante e lá, casualmente, faz amizade com Natacha, uma menina de 18 anos, que lhe oferece um lugar para passar a noite, sua casa, que passa quase o tempo todo vazia, já que seu pai está sempre fora da cidade e sua mãe os abandonou quando ela tinha 12 anos. Dessa relação surgem diversos diálogos extremamente inteligentes, discussões sobre a vida pessoal das duas protagonistas e uma relacionamento forçado que apresenta o seu final desastroso já nos primeiros momentos em que começa a se delinear.

768f879673d02f4849530680a6af659cO segundo filme, “Conte d’Hiver” ou “Conto de Inverno” é o meu menos favorito e ouso dizer que um dos filmes menos inspirados em toda a filmografia do diretor, embora apresente coesão dentro do contexto da tetralogia. Sua história foca em Félicie, que, durante umas férias de verão, apaixonou-se por um cozinheiro. Eles passaram por momentos extremamente apaixonados e fazem promessa de voltarem a se encontrar. No entanto, seguindo a regra de que “amor de verão não sobre a cerra”, somos jogados 6 anos no futuro e conhecemos uma Félicia que carrega uma filha, mora com a mãe e se encontra dividida entre dois homens, que nunca deixam de ser uma sombra do que foi aquele cozinheiro pelo qual ela se apaixonou anos atrás.

thumb_56443_film_poster_293x397O terceiro filme é um dos meus favoritos também e se chama “Conte d’Été” ou “Conto de Verão”. Este filme é um excelente coming-of-age, que foca em Gaspard, um jovem, recém-formado professor de matemática com muitos talentos musicais que recebe a oferta de passar o verão na casa de veraneio de um amigo. Ele aceita a proposta, dando o pontapé para um breve, mas intenso verão de amor e crescimento ao lado de uma belíssima e jovem antropóloga, que trabalha como garçonete de um restaurante local.

mv5bngflnmnimzmtzmm4nc00yjkxltg4nzctztewmmm1zdiwodhkxkeyxkfqcgdeqxvymjqzmzqzody-_v1_uy268_cr40182268_al_O quarto e último filme da tetralogia é o meu segundo favorito dos 4. Seu nome é “Conte d’Automne” ou “Conto de Outono” e conta a história de Magali, uma viticultora que é convidada para o casamento da filha da sua melhor amiga, que resolve arranjar um amante para ela. Ao mesmo, uma amiga de Magali também decide arranjar um amante para ela, já que Magali anda muito solitária e o resultado não poderia ser nada mais do que uma excelente comédia humana.

Todos os quatro filmes são românticos e tratam de triângulos amorosos, mas mais do que isso, Rohmer é também um mestre, assim como Shakespeare, em tratar do desejo humano. Ele, mais do que qualquer outro diretor, entendeu perfeitamente a relação mimética dos desejos humanos e quase a totalidade de sua obra é feita para escancarar isso aos olhos do seu público. No entanto, isso é feito da melhor forma e a melhor forma, infelizmente, passa despercebida pelos olhos e ouvidos não atentos a teoria mimética.

alexia-portalA tal teoria, elaborada por René Girard, nos diz que o desejo passa por uma relação triangular, onde o nosso desejo por qualquer objeto passa por um terceiro, o mediador, que pode ou não ser o nosso rival em busca desse objeto. Esses 4 filmes nos mostram o drama primordial de nosso desejo, a rivalidade mimética que pode surgir com nossos mediadores. Em “Conto de Primavera”, Natacha tenta atuar como mediadora entre seu pai e Jeanne, mas de maneira ingênua, sem compreender que o desejo surge de forma premeditada, mas sempre despercebida por aqueles que desejam. Desejamos pelos olhos de outros, mas sem saber disso, porque se sabemos, quebramos o desejo. É sempre uma relação que não notamos. Ao deixar bem claro suas intenções, Natacha mina todas as possibilidades que seu plano dê certo. O mesmo ocorre no quarto filme, que encerra a tetralogia da maneira como ela começa, fechando perfeitamente o ciclo. Rosine, interpretada por uma das mulheres mais belas que já pisou na face da Terra, Alexia Portal, tenta fazer Magali se apaixonar por Étienne, seu ex-professor e ex-amante. No entanto, assim como Natacha (e ironicamente, as duas são muito jovens), deixa transparecer suas intenções e ao final é lógico que não dá certo. Em “Conto de Outono”, Rohmer nos dá uma resposta e Magali vai se apaixonar apenas por aquele que não lhe foi apresentado como um amante em potencial e que tentou, até o climático final, manter essa mentira. Ao contrário do primeiro filme, Rohmer nos apresenta aqui as respostas que precisamos ouvir, a solução para o conflito mimético.

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Solução esta que foge completamente das mãos de seus personagens nos filmes do meio da tetralogia. Em “Conto de Inverno”, Félicie se vê presa num triângulo amoroso, mas apenas por que seu objeto de desejo não pode ser conquistado. Seu objeto é uma paixão de tempos atrás, que sumiu, que ele sequer sabe o nome completo e não importa quantos namorados tenha, nenhum deles poderá cumprir com as suas expectativas. O final, é claro, tem que ser feliz, como todo filme de Éric Rohmer, que envolve personagens sinceros em seu amor, mas sua solução não é realista e acaba sendo mais clássico no sentido em que cumpre, exatamente, as diretrizes de uma comédia no seu sentido como foi elaborado pelos gregos. Quanto a “Conto de Verão”, Gaspard espera a visita da namorada e como ela não começa a se apaixonar pela garçonete. No entanto, ela não está afim dele e Gaspard se envolve com uma terceira garota. Sua atitude acaba despertando a atenção da garçonete, que só esperava uma confirmação de que o garoto realmente poderia conquistar garotas. Gaspard tinha em suas mãos duas garotas, embora não soubesse disso. O problema é que sua namorada aparece e aí a situação mimética foge completamente do seu controle e o final não é desastroso, apenas porque Gaspard foge antes que a barragem seja rompida.

Ele também consegue, finalmente, a garçonete no final.

Os “Contos das 4 Estações” são uma demonstração incrível da genialidade de Rohmer, mostram sua atenção para as investigações do maior cientista da área de humanas do século XX, René Girard e, assim como Shakespeare séculos antes, cria uma obra fantástica do ponto de vista mimético, que tem vestígios em toda a sua filmografia, mas se solidifica de maneira sublime nessa tetralogia. Rohmer é, de fato, o diretor de cinema mais genial de todos os tempos e isso não diminui meus elogios a Truffaut, que pode não ter sido o mais genial, mas, com certeza, foi o mais talentoso. Truffaut fazia filmes espetaculares de maneira sutil e quase sem notar, conseguia ampliar sua vida no cinema e fazer do cinema sua vida. Ele nasceu para isso e seu talento é incomensurável. Rohmer também fazia filmes como respirava, vinham para ele de maneira natural, mas nunca conseguiu expandir sua obra para terrenos tão vastos quanto Truffaut fez e vale lembrar que iniciou sua carreira após os desbravamentos de Truffaut na sétima arte.

tumblr_otpdan2xum1wuuz0po1_500De qualquer forma, esses 4 filmes de Rohmer nos apresenta obras de fazer inveja a qualquer cineasta, de maneira simples e sem grandes orçamentos, ele cria obras naturais, filmadas em poucas semanas, até de maneira casual. Os 4 filmes contam com as marcas do Rohmer, muitos diálogos, uma montagem natural, locações que passaram por poucas alterações e músicas apenas dentro do ambiente do filme. Tudo isso gera uma estética única, típica do cinema francês da nouvelle vague, mas com os avanços tecnológicos dos anos 90.

Enfim, me faltam palavras para fazer jus a essa tetralogia, então vou deixar apenas esse último recado: faça um favor a você mesmo e vá correndo assistir esses filmes, que são ótimos.

5 pontos

terça-feira, 10 de julho de 2018

Dica musical: "Have You Considered Punk Music?" do Self Defense Family (2018)

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Felizmente saiu mais um álbum do Self Defense Family. Apesar de ser muito diferente dos materiais anteriores da banda, esse CD não deixa de carregar todos os elementos que tornam o Self Defense Family uma das melhores bandas do post-hardcore atual.

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"Have You Considered Punk Music" tem um titulo pretensioso como todo CD do Self Defense, com títulos de músicas ainda mais pretensiosos, no entanto, engana-se quem espera mais um CD do Self Defense, pois aqui temos muita mudanças, a começar pela primeira canção, que nos apresenta um acordes muito mais dispersos, uma canção mais lenta do que estamos acostumados a ouvir da banda e uma harmonia mais sentimental.

No entanto, ainda carrega a típica atmosfera bizarra, estranha e distópica que fizeram a fama do Self Defense. Além disse temos as letras de Pat Kindlon, que estão extremamente criativas. Na primeira canção, temos um relato honesto, engraçado, mas singelo de seu relacionamento com sua namorada, figura central de seu instagram.

E as outras canções seguem o mesmo ritmo. Nenhuma canção aqui apresenta riffs de guitarra dançantes e barulhentos. O álbum todo é muito silencioso para ser bem honesto. As canções são mais lentas, porém isso apenas adiciona mais à atmosfera caótica que o SDF criou ao longo dos anos.

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É claro que essa mudança de ritmo, na verdade uma diminuída no gás que movia a banda para a frente pode afastar os fãs mais antigos, no entanto, as letras melhoraram muito. Deixando a pretensão de lado, Pat abraça uma abordagem mais descritivista e com isso se aproxima mais da poética tão desejada nos últimos álbuns.

Dessa forma, este CD não deixa de ser um prato cheio para os fãs de longa data da banda, embora possa desapontar os marinheiros de primeira viagem vindos dos mares do hardcore, punk ou indie rock. Sem contar que não é melhor que o último álbum deles, um verdadeiro clássico nesse momento.

4 pontos

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Dica musical: "Live and Let's Die" do Kid, Feral (2018)

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Tá, eu não como essa banda foi parar na lista de CD's que eu tenho para ouvir, mas eu não me arrependo de ter me deparado com eles, porque a bagaça é boa demais!

Kid, Feral é uma banda punk/hardcore/scremo da Suécia, um trio pra ser mais exato, que lançou um dos álbuns mais excitantes do gênero em anos! Há uma semana falei da mudança de paradigma que o hardcore estava sofrendo e não é à toa que um dos melhores álbuns do gênero lançados nos anos recentes venha do norte da Europa, é realmente uma mudança enorme de paradigmas.

A banda acaba acrescente muitos elementos do noise-rock dentro de seu som punk, com vocais berrantes, quase ininteligíveis (em grande parte do tempo é ininteligível mesmo), mas também acabam adicionando elementos mais pop para suavizar o caos, o que quer dizer canções com mais ou menos 1 minuto e meio de duração mais lentas, com guitarras bem melódicas e vocais de spoken word, algumas apenas com elementos eletrônicos, mas tudo para culminar em mais gritaria e agressividade das boas.

É o típico som para se ouvir digladiando numa pista de dança fedendo a suor e abafada. É para poucos, mas eu gosto muito.

As letras, como não poderiam deixar de ser, são aquela "lacração" genérica de bandas punk, mas como é tudo gritaria não atrapalha de forma alguma. Sem contar que é uma "lacração", mas não chega a ser super-radical caindo no completo oposto do que eles são contra, então tudo bem.

De qualquer forma, "Live and Let's Die" é um dos trabalhos mais excitantes dentro do noise-rock/screamo/punk/hardcore/etc... e vale muito a pena escutar para quem gosta de agressividade, velocidade e gritaria em suas caixas de som.

4 pontos e meio

terça-feira, 3 de julho de 2018

Dica cinematográfica: “The Legend of Suram Fortress” (1985)

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Vindo direto de uma lista de filmes bizarros, esse daqui me chamou a atenção pela sua beleza e sutileza ao trazer para as telas um conto mitológico da Geórgia.

Produzido durante a Geórgia comunista, o filme de Sergej Parajanov (que chegou a ser preso por não concordar com as regras do regime comunista) e Dodo Abashidze (que segura um pouco a mão de seu parceiro de direção) conta a história da Fortaleza de Suram, uma fortaleza que está sempre sendo construída e está sempre ruindo. Isso até que o líder daquela terra consulta uma vidente que o diz que ele deve se sacrificar para que a fortaleza seja completada, se colocando dentro dela, como parte de sua construção.

É uma história de sacrifício por um povo, tal como já foi contada centenas de milhares de vezes ao redor do mundo, com um diferencial: aqui temos a direção de um dos mais inventivos diretores da União Soviética, um cara conhecido por produzir filmes belos. Neste caso não é diferente, pois Parajanov cria imagens dignas de pinturas. Sua utilização de câmera parada incomoda, mas acabamos relevando ao deixarmos nossos olhos serem guiados pelas belas imagens de paisagens do leste europeu, roupas tradicionais ricas em detalhes, animais exóticos e prédios antigos, mas imponentes.

Seu problema é a preocupação excessiva com as imagens, mas aí entra Abashidze, que controla um pouco os excessos de Parajanov, dando uma unidade ao filme, nem sempre sendo bem-sucedido em sua missão, mas ao menos ele tenta.

A história é dividida em capítulos e isso abre espaço para diversas cenas paradas belas e muito bem produzidas, mas a conexão entre elas nem sempre é clara e muito acaba ficando para a interpretação do espectador. Outro fator que afasta é a enorme utilização de aspectos tradicionais da Georgia, que estão muito distantes da nossa cultura e como são abordados de forma muito sutil, sem didatismo, o espectador ocidental comum acaba se afastando.

No entanto, isso não diminui de forma alguma o prazer que é assistir essa obra! Como já disse, as imagens são ricas e cheias de detalhes, a história apresenta uma unidade e apesar de levar um tempo até ela engrenar, ao final, percebemos a sensibilidade que ela cria e os laços que forma com a própria história do país a qual ela pertence.

É um filme para se conhecer a Georgia, de certa forma.

Enfim, “The Legend of Suram Fortress” é um filme muito belo, relativamente fácil de se encontrar pela internet e de um enorme conteúdo.

5 pontos

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Dica musical: “Springtime and Blind” de Fiddlehead (2018)

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O hardcore de anos atrás parece estar se desgastando, mas eu acredito ser apenas uma ilusão. Enquanto bandas classudas levam cada vez mais tempo pra lançar novos álbuns, algumas novas estão surgindo aí e mostrando que o gênero continua vivo, um bom exemplo é Fiddlehead.

Não conhecia essa banda e quando a conheci já tinham lançado esse álbum. Fui conhecer através de uma gravação em fita de um show deles pra promover esse álbum gostoso. E que álbum! Apenas punk e hardcore de primeira linha, simples, porém enérgico. Um álbum pra se ouvir balançando a cabeça.

Os vocais gritantes alongam as letras curtas e, muitas vezes, tão ambíguas que é complicado extrair algum sentido dali, mas é bacana. É o tipo de música que eu curto, não é pra todo mundo, mas eu gosto. Além disso, ainda há uma série de vozes sobrepostas nos refrãos, o que torna a música perfeita para ser gritada junto com o vocalista.

Ao final, soa bem genérico, pra ser honesto, mas é um genérico que não precisa ser melhor, assim como os álbuns do Basement. É uma música pra ser tocada alta, rápida e que te faça pular no meio de um monte de moleque suado numa danceteria abafada.

Fiddlehead traz boas memórias à mente e nos traz um suave frescor a um gênero que está tendo que se rebalancear (esqueça a soberania das bandas da Philadelphia).

4 pontos

terça-feira, 26 de junho de 2018

Dica cinematográfica: “Che cosa sono le nuvole” (1967)

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Hoje irei indicar um curta-metragem clássico, provavelmente uma das melhores coisas que Pier Paolo Pasolini já fez em sua vida e olha que ele fez muita coisa!

O nome do curta é “Che cosa sono le nuvole” ou “O que são as nuvens?” numa tradução literal e é uma adaptação muito criativa de Otelo, feita por marionetes. No filme, conhecemos um grupo de marionetes que acaba de receber a presença de Otelo, que está feliz demais por ter ganhado vida. Quando a peça começa, Otelo, atrás do palco, começa a questionar o seu papel. Por que as pessoas são ruins? Por que elas fazem coisas desagradáveis umas às outras? O que ele fez ali? E, principalmente, por que ele está ali? São questões existenciais que Otelo não entende e que o incomodam profundamente, culminando num desastre que o faz ser jogado fora. No entanto, é no lixão, ao lado de Iago, que Otelo descobre, de maneira singela, um dos poucos aspectos bons da vida.

O curta é encontrado de forma solta na internet, mas foi lançado, primeiramente, como parte da coletânea de curtos italianos “Capriccio all’italiana”. Não assisti os outros 3 filmes integrantes da coletânea, mas li comentários de que este era o melhor e não duvido. O filme é de uma beleza ímpar, muito bem produzido, contém diversos efeitos e jogos de câmera pouco comuns para a época, além de explorar temas que incomodam, mas que acabam por emocionar em seu ápice, mais para o final.

Apesar de contar pouco mais de 20 minutos, é uma obra para se admirar e assistir várias e várias vezes, podendo provocar diversos questionamentos e reflexões.

5 pontos

terça-feira, 19 de junho de 2018

Dica cinematográfica: "Trailblazers: the new zealand story" (2007)

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Hoje a dica de um documentário, algo um pouco incomum, mas que merece espaço por aqui. Eu sou um grande fã de documentários e cresci assistindo aqueles documentários de ciências da BBC. Mais velho fui me tornando mais seletivo e os documentários da BBC já não chamavam tanto a atenção, mas ainda gosto muito do gênero.

Enfim, o documentário em questão é um filme mais que essencial, principalmente para nós, brasileiros, morando nesse país lindo no famigerado ano de 2018. O documentário de cunho mais analítico do que histórico ou crítico nos apresenta a historia de como a Nova Zelândia superou uma grave crise econômica nos anos 80 e pôde se tornar um dos países mais economicamente sustentáveis, estáveis e livres do século 21.

Ao longo dos anos 80, uma série de medidas do governo começaram a prejudicar a economia da Nova Zelândia, ainda que de forma indireta, o que fez o próximo líder do país, Roger Douglas, adotar medidas drásticas e muito mal vistas, com resultados imediatos ruins, mas que a longo prazo, provaram ser extremamente efetivas. Essas medidas ficaram conhecidas como Rogernomics e envolviam menor atuação do governo nas exportações e importações, menos subsídios, privilégios e ação estatal sobre a economia. Não preciso nem dizer o quão importante é essa lição para os brasileiros atualmente, né?

Através de uma série de entrevistas com pessoas dentro e fora do governo, os produtores do documentário nos mostram como essas medidas impopulares refletiram diretamente na criatividade e produtividade dos neozelandeses, ou como eles se chamam, os kiwis. Isso acabou criando uma economia mais dinâmica, diversificada e criativa.

O mais essencial é que Roger Douglas era parte do Labour Party, um partido de centro-esquerda, uma espécie de PT de lá, portanto nunca foi libertário, como os produtores do documentário. Aliado a atitudes de liberalização da economia estava uma mente sempre preocupada com os mais necessitados, o que acabou criando uma economia sustentável. Roger Douglas mostrou que é possível se ter liberdade e preocupação social ao mesmo tempo. Isso fica claro quando o documentário mostra e compara o setor pesqueiro da Nova Zelândia com o de outros países como o Japão. Outro ponto importante é a questão social dos nativos, que não perderam sua cultura e tudo por causa da liberdade que o governo de Roger Douglas aliado ao enriquecimento da população, dando oportunidade para que todos crescessem juntos. Sem controle estatal, sem burocracia, sem leis excessivas.

A história da Nova Zelândia é uma historia fantástica de superação, criatividade e liberdade. O filme é curtinho, tem uma qualidade técnica incrível, ótima e cenas e imagens belíssimas de um dos mais belos países do mundo, com um cuidado especial para que a mensagem seja transmitida da maneira mais clara possível.

Isso sem falar na necessidade de se tomar a Nova Zelândia como um exemplo para os problemas que o nosso pais passa hoje. A Nova Zelândia é muito diferente do Brasil, mas podemos usá-la como um modelo sustentável.

5 pontos

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Dica literária: "Júlio Cesar" (1599)

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No primeiro ano da faculdade li Édipo Rei e, junto com amigos, ficamos espantados o quão bem faz ler essas obras que estão no imaginário coletivo, mas que nunca nos aventuramos em ler. A experiência é boa, pois amplia o nosso horizonte do que entendemos por literatura, sem contar que podemos criar nossa própria visão de momentos extremamente importantes da história da literatura. É o mesmo caso com esse livro aqui.

Júlio César é uma das principais tragédias de Shakespeare e conta a história dos últimos dias, ou melhor, horas do imperador romano, antes de ser traído por um de seus mais fiéis seguidores, Bruto.

Apesar do título, Shakespeare, genuinamente genial, quebra as nossas expectativas e faz com que Bruto seja o verdadeiro protagonista dessa obra, apresentando um personagem complexo, antagonizado pela história, mas que aqui, ganha ares de simpatia, fazendo o que fez pela República Romana. Entendemos o crime, mas em nenhum momento compactuamos com o ocorrido, pois Shakespeare deixa bem claro que é um crime, independente das intenções.

A obra foi recentemente lançada pela cia das letras sob o selo da penguin. Sou fã dessas edições e, apesar de não ser um entendido em traduções de Shakespeare, eu assumo que é a melhor que existe no mercado brasileiro atual.

4 pontos

terça-feira, 12 de junho de 2018

Post Especial do Dia dos Namorados

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Hoje é dia dos Namorados. Eu odeio esse dia. Odeio demonstrações públicas de afeto, então odeio esse dia, mas não vou criar um post tentando explicar de maneira racional o meu ódio irracional por um dia racional que abusa do sentimentalismo irracional de seres racionais, eu vou criar um post que irá servir a você, meu leitor que não leva jeito com garotas, do ponto de vista de alguém que também não leva jeito com mulheres, mas que tem experiência no assunto, afinal são mais de 20 anos procurando a mulher perfeita, 20 anos de foras, rachaduras no coração, DCpções e aprendizado, o que me levou a criar, no post de hoje, uma lista de sinais que indicam que ela está afim de você.

Porém, como eu já disse, tenho muito mais experiência com o outro lado da moeda, eu não sou um coach de relacionamento e acredito que aprendemos muito mais com nossos erros do que com os nossos acertos. Aprendemos muito mais com o mau exemplo e é por isso que resolvi criar uma lista com 5 sinais que você acha que indicam que ela está afim de você e 3 sinais de que ela está, realmente, afim de você.

6 sinais que você acha que a cremosa está afim de você, mas na verdade não está

  1. Ela tem gostos parecidos com os seus


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Todo adolescente já passou por isso. Você entra na escola, primeira semana de aula, de repente, a cremosinha tira da mochila um caderno do Star Wars. Você arregala os olhos e pergunta “você gosta de Star Wars?” e ela responde “Sim, pra caramba!” e no minuto seguinte você já se imaginou levando-a para uma sorveteria, beijando-a com gosto de flocos e cobertura de morango, andando de mãos dadas, apresentando-a pra sua família, casamento na catedral, 2 filhos, um cachorro, um gato e uma casa à beira da praia, mas você está errado! O simples fato da garota gostar das mesmas coisas que você não indica que ela está afim de você, muito menos se ela já gosta de algo antes de te conhecer. A verdade é que isso é mais um indicativo de que ela gosta da sua companhia, como amigo, do que como um macho alfa que irá fertiliza-la para contribuir com a sobrevivência da espécie.

  1. Vocês passam muito tempo conversando


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E por muito tempo eu quero dizer mais de 20 minutos por dia, isso é já é tempo demais. Pode conversar com qualquer cara que pega muitas meninas por aí, ele não passa horas desenrolando o assunto com a cremosa, é simplesmente pá-pum, entendeu? Se a menina passa muito tempo conversando com você não é indicativo de que ela está afim de carregar os seus filhos, muito pelo contrário, dependendo de como for a conversa é mais um sinal de que ela conversa contigo por te achar muito solitário ou então porque ela é dependente demais de uma companhia, mas não tem ninguém pra passar um tempo. Uma coisa que você tem que botar na sua cabeça é de que homens são solitários por natureza e quando saímos da nossa solidão nos misturamos com outros homens, se você passa tempo demais com mulheres, há algo errado aí.

  1. Ela te elogia


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“Fofo”, “Gentil”, “Bonito”, “Charmoso”, “Legal”, “Engraçado” são todas coisas que eu ouvi minha vida toda de uma ampla variedade de mulheres e eu nunca fiquei com uma mulher que me elogiou. Aprenda uma coisa, mulheres elogiam depois do primeiro beijo, nunca antes. Claro que isso depende um pouco do contexto, se ela te elogia, tocando no seu bíceps no meu de uma festa, talvez valha a pena investir um pouco, mas se ela te elogia no meio de uma caminhada, no intervalo entre as aulas ou na hora do almoço do trabalho, provavelmente ela só te considera uma boa pessoa mesmo, nada demais.

  1. Há um namorado entre você e ela


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Na série “Smallvile”, Clark Kent gostava de Lana Lang, a mulher que o Superman merece, mas ela tinha um namorado e durante uma conversa com Lex Luthor, Clark ouve do amigo a seguinte frase: “Ela tem um namorado colegial, Clark. Um namorado no colegial não é um obstáculo, é um desafio!”. A mensagem é clara, se a menina tem um namorado, mas vale a pena, invista, ela irá largar do namorado por você. Pobre ilusão! Eu acreditei nisso por anos e me dei muito mal. Não adianta, se uma mulher gosta de um cara, não importa o quão inútil, babaca, gordo, feio, ridículo, burro que ele seja, ela vai gostar dele até ela se convencer de que ele não vale a pena. É a lei da selva, as garotas dispõem de uma ampla oferta de homens para lhes satisfazer, quando finalmente escolhem um, o seu cérebro faz com que acreditem que realizaram a escolha ideal e não é outro homem que irá lhes convencer do contrário. Portanto, esqueça esse ideal romântico do cavalheiro que livra a princesa de seu sequestrador, se o sequestrador for do gosto dela, ela vai ficar com ele até o final e você vai chupar o dedo. Sem contar que talarico tem mais é que se fuder mesmo!

  1. Ela aceitou sair com você


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Esta é uma dica crucial, mas já se tornou quase um senso-comum em discussões amorosas, mas de uma perspectiva errada. Geralmente você vai ouvir isso de feministas radicais irritantes e mimizentas que insistem em crucificar todos os homens que ficam bravos quando a menina sai com o cara e não lhe dá nem um beijinho de despedida. O erro nessa mensagem é a abordagem, ao invés de julgar e tentar crucificar os homens, elas deveriam simplesmente explicar que as mulheres são seres altamente sociais, elas encaram o fato de sair de casa de forma diferente que os homens, para elas é uma necessidade. Quando elas vão a uma festa por exemplo, elas se sentem muito bem em só sair com as amigas e dançar a noite, já o homem se não beber, se não conhecer ao menos um cara na festa e não beijar uma garota, se sente mal por isso. Então quando a menina aceita ir ao cinema ou ao restaurante com você, provavelmente ela só quer ver um filme e comer algo diferente naquela ocasião. É claro que, se ela aceitou sair com você, já é indicativo de que ela está afim de você, mas aí leia a dica de número 2, de novo.

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3 sinais de que a cremosa está, realmente, afim de você

  1. Ela olha quando você vai embora


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Sabe aquele momento em filmes que a menina olha pro cara quando ele está indo embora e ele olha também, aí os dois correm um na direção do outro para um demorado beijo molhado? Isso é bem real, não a parte do beijo, mas o desejo. Como eu já disse, mulheres são seres sociais por natureza, então quando ela está conversando com alguém, em sua cabeça existem mais uma porrada de coisas acontecendo e ocupando seu pensamento. Se ela olhou para você, é porque realmente você a atrai, ocupa sua mente e ela queria dar uma última olhada antes da despedida.

Ou esqueceu de te falar algo, vai saber? Depende do contexto e é uma dica meio bosta, já que depende de você olhar para ela e também de uma sincronia imprevisível na situação. Por ser meio bosta, é a dica #1 dessa seção.

  1. Inesperadamente, ela inicia conversas com você


 

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Não estou falando de conselhos ou de pedidos, eu estou falando de conversas que não levam a lugar nenhum. Se do nada ela te manda uma mensagem perguntando como você está ou esse tipo de balela, é sinal de que ela está afim da sua companhia e mais do que isso, ela não sabe o motivo dessa sua necessidade. Se uma garota puxa muito assunto contigo, é melhor ir se preparando, guerreiro.

  1. Ela toca em você


Mulheres são seres altamente sociais. No entanto, no que diz respeito ao toque, elas são uma lástima. Mulheres não gostam de tocar e não gostam de ser tocadas. O estereótipo de feminilidade sensível, delicada e cuidadosa vem disso aí, elas não vão simplesmente tocando em tudo que veem pela frente, elas são mais analíticas e se uma garota toca em você frequentemente, te cutuca quando conversa contigo, passa a mão no seu ombro quando passa por você, te chama com um toque, alegre-se, campeão, pois essa mina é tua!

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Essa é, de longe, a dica mais valiosa das 3, portanto, se aguentou até aqui, parabéns! Agora você sabe o sinal mais importante que indica se uma menina está ou não afim de construir uma família contigo. O toque é o maior sinal de entrega que uma mulher consegue demonstrar, ao mesmo tempo, se ela não aceita o seu toque, desista, essa moçoila não te deseja.

E com essa valorosa dica, encerro o post especial de dia dos Namorados. Se você não tem namorada, alegre-se, guarde esse post e mantenha-se atento aos sinais que eu expus aqui. Se você tem namorada, respeite-a, trate-a como uma mulher decente, mas não seja um escravo, imponha limites e saiba quando dizer não.

Um abençoado e saudável relacionamento amoroso a todos!

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Dica literária: "Collected stories" do William Faulkner (1948)

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Em 1948, Faulkner já tinha lançado seus principais romances e seu nome já figurava entre os melhores contistas do modernismo estadunidense e, porque não?, de toda a historia americana. Ele já estava prestes a ganhar o prêmio Nobel de literatura e foi convidado a lançar um livro com suas melhores histórias curtas. O resultado é essa imensa, em todos os sentidos, obra literária.

As "historias coletadas" (tradução minha, a melhor seria "historias selecionadas", mas enfim...) de Faulkner foram divididas por tema, reunindo 42 historias que se conectam com o universo fictício de Yoknapatawpha, embora nem todas se ambientem lá, mas acabam envolvendo as mesmas temáticas, isolamento, superação, família, racismo, ostracismo, decadência sulista, enfim... qualquer analise da obra como um todo se revelará um trabalho homérico.

O importante é que essa obra reúne o que de melhor havia em Faulkner nos seus anos mais privilegiados pela crítica e funciona como uma resumo incrível de tudo o que ele fez. Dessa forma, talvez este livro seja mais produtivo para estudiosos do autor do que fãs.

A edição que tenho foi feita pela Vintage, uma das minhas editoras favoritas e apresenta uma capa brilhante para a obra. Nela vemos uma típica sala sulista, que para nós, brasileiros (principalmente se você é do sul ou sudeste) nos lembra casa da vó do interior. Nela há um clavicórdio, com um grosso livro de canções em cima, duas poltronas elegantes de um tempo que só está na memória coletiva e um quadro na parede. Feixes de luz escapam do que pode ser uma cortina cobrindo as janelas revelando um brilho de final de tarde que traz nostalgia para quem o olhar. A capa é perfeita, evocando todos os sentimentos que os mais de 40 contos irão se esforçar em revelar ao final de cada um. Uma deliciosa nostalgia por um tempo em que as coisas eram mais simples e, apesar de inalcançável, funciona como combustível para que nos lembremos de que ainda estamos vivos.

É singelo, é belo e é faulkneriano pra caramba.

5 pontos

terça-feira, 5 de junho de 2018

Dica cinematográfica: "A Quiet Place" (2018)

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Demorei para assistir esse filme e me arrependo profundamente.

"A Quiet Place" conta a historia de uma família sobrevivendo numa época pós-apocalíptica onde a Terra foi invadida por alienígenas que são guiados pelo som, então ao menor ruído humano, eles aparecem e matam seja lá quem estiver fazendo barulho. Para essa família é um pouco mais fácil, eles já tem um membro surdo-mudo, então sabem a linguagem de sinais e se comunicam bem, mas desastres acontecem e os primeiros minutos do filme já nos mostram isso.

Nós não sabemos como foi a invasão, porque ela aconteceu, nem como os seres humanos descobriram que não podiam fazer barulho. Só resta à nossa imaginação as cenas horrendas que devem ter ocorrido nas grandes cidades do mundo. De qualquer forma, os seres humanos vivem em pequenos acampamentos, se comunicam e sabem que ainda existem através de sinais de luz e se viram como podem.

Ao longo de sua projeção ficamos sabendo apenas um pouco e de forma dedutiva, como funciona o organismo desses seres terríveis (terríveis mesmo, parabéns pra equipe do cg) e ao final, do podemos deduzir mesmo que fim levou a família, embora tenhamos uma pontada de esperança.

O filme acaba reforçando alguns estereótipos masculinos, como a figura do pai como desafiadora e eu dou um bombom pra quem disser quem morre no final, ou melhor, qual o sexo humano que leva a pior? Pois é...

No entanto isso diminui pouco a qualidade do filme, que é ousado e muito criativo em sua projeção. Dessa forma, esse filme acaba por se tornar uma das melhores produções hollywoodianas desse ano, que passa por maus bocados nas mãos desses heróis que ninguém mais aguenta.

4 pontos

 

quinta-feira, 31 de maio de 2018

A melhor dica do novo álbum do Arctic Monkeys que você lerá esse mês.

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E mais uma vez o Arctic Monkeys lança um novo álbum e mais uma vez eles trocam a pele, dando razão para as minhas opiniões expressas na dica que eu fiz de "AM", um álbum que continua sendo chato, medíocre e DCpcionante como poucos nessa década foram.

No entanto, 5 anos depois, um hiato e um excelente CD do The Last Shadow Puppets no meio, a melhor banda britânica desse século lança mais um álbum, de novo totalmente diferente de tudo que eles haviam lançado no passado, de novo divide opiniões e deixa muita gente brava, mas os fãs de verdade, aqueles que até hoje escutam "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" como se tivesse sido lançado semana passada, deverão adorar essa obra de arte.

O nome do álbum é "Tranquility Base Hotel + Casino" e como o nome indica, é um álbum conceitual, que trata de um complexo hoteleiro na lua. O conceito em si já chama a atenção, mas poderia dar muito errado, não fosse a sonoridade que o acompanha, uma mistura de rock com jazz, que faz lembrar David Bowie e Elton John no seu auge, com influencias psicodélicas, adaptadas para o novo milênio, fazendo deste álbum nada menos que um autêntico produto do século 21, mas que retorna temas e sons do passado.

E então a critica e os fãs não sabem o que pensar e buscam respostas em entrevistas e no passado da banda, criando teorias e leituras que acabam fugindo do cerne da obra, a qual eu irei expor no próximo parágrafo, mas antes um aviso: essa busca por informações e suas leituras subsequentes não estão erradas, apenas incompletas e eu não estou certo, apenas estou chegando um pouco mais perto do cerne da obra. Tire as conclusões que você quiser.

O primeiro verso do álbum é já conhecido de todo mundo que acompanhou o lançamento do álbum, semanas antes de seu vazamento: "I just wanted to be one of The Strokes/Now look at the mess you made me make" é lida como o Alex Turner retomando o seu passado, uma letra autobiográfica, mas essa leitura é apenas superficial e se afasta do conceito que o álbum representa. Esse verso pode ser lido como um verso autobiográfico do álbum, e provavelmente é, mas também se encaixa como uma luva na persona que Alex Turner encarna com esse álbum, o ricaço que cria um hotel na lua com um cassino (seu nome é Mark? Tenho que escutar mais o álbum pra definir isso). Esse mesmo ricaço é o que narra, se não todas, a maioria das musicas no álbum e é a persona assumida por Alex para esse álbum. Esqueça o motoqueiro topetudo de jaqueta de couro e óculos aviador de "AM" e aceite o ricaço perturbado classudo que construiu um hotel na lua pra se sentir no topo do mundo, achou que isso seria o suficiente, mas acabou percebendo que não era. Dessa primeira compreensão podemos traçar a narrativa principal que perpetua todo o álbum. Ele construiu o hotel, continuou se sentindo insatisfeito e, no final do álbum, ficamos sabendo que ele ainda guarda as lembranças da época em que vivia na Terra, lembranças de sua amada, provavelmente, mas pode ser a família, amigos, o inglês nos permite um nível de ambiguidade extremamente alto para essas questões, embora eu ache que o Arctic Monkeys nunca foi uma banda que tratasse de família. Esse narrador, viciado em temas de ficção cientifica desde sua infância, faz da ficção a sua realidade, todo tipo de absurdo acaba virando parte da sua rotina e ele pondera seguir outros caminhos, como virar presidente, mas também se espanta com esse mundo, que em seus sonhos de infância era ideal, mas que o assusta, como o vício em tecnologias escapistas (realidade virtual) e a crise política que assola o mundo (Não, ele não está falando do Donald Trump ou do Brexxit, isso é uma leitura muito superficial, ele está falando da oclocracia disfarçada de democracia dos tempos modernos), se tornando plenamente desgostoso com o que vê, que, no final, era o que ele sempre sonhou. Os sonhos se tornam pesadelos e talvez teria sido melhor manter tudo emoldurado em sua mente.

Acompanhando a criação desse personagem temos toda a sonoridade remanescente de filmes de ficção cientifica, instrumentos de um som tipicamente futurista, embora esse futuro tenha ficado no passado. É interessante um álbum com tal conceito numa época como a nossa, porque temos a possibilidade de ver que o futuro imaginado não é muito melhor do que a situação em que as pessoas que imaginaram esse futuro viviam.

Existem planos reais para se colonizar Marte e as mulheres cristãs ainda morrem apedrejadas em determinados locais do mundo. Pessoas mencionam Kubrick, mas deixam escapar muitas outras referencias, como "Life on a Wire", de onde saiu os acordes de teclado de "Batphone". E são esses os instrumentos importantes, teclado e piano, mas não apenas porque o álbum foi todo construído em torno deles, mas porque eles conseguem construir toda a sonoridade nostálgica e futurista-retrô que o álbum intenciona em levar aos nossos ouvidos.

A sonoridade merece um paragrafo a parte, porque ela é uma bagunça. Cada instrumento parece estar tocando uma música diferente, criando um caos, mas que acaba ganhando uma certa ordem e trazendo bons momentos para o álbum como um todo.

Arctic Monkeys é a banda britânica mais importante dessa década, eles são enormes no Reino Unido e só quem acompanhou o seu crescimento ao longo da década passada é que pode atestar isso. Eis porque "AM" é um lixo, é um álbum feito para o mercado americano, é totalmente comercial, mas a criatividade volta a fluir em "Tranquility Base Hotel + Casino" nos trazendo uma sonoridade nova para a banda, um conceito extremamente criativo e músicas diversas e bem construídas que irão satisfazer em muitos momentos diferentes.

Obrigado por voltar, Macacos Árticos.

4 pontos e meio