sexta-feira, 29 de março de 2019

A Europa decretou data limite para a internet

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Na última semana acontecimentos relacionados a internet assustaram todos aqueles que se preocupam com a liberdade no ambiente online.

A primeira delas e mais assustadora foi a aprovação dos nefastos Artigos 13 e 11 pela União Europeia e a aproximação do início de aplicação da lei do "Passe Pornô" no Reino Unido.

Uma breve explicação das leis:

  • Artigo 11: basicamente é uma lei que permite que empresas que anunciam em sites que hospedam propagandas como Google e Facebook cobrem desses sites pelos "links perdidos" quando anunciam neles. Como o Google e o Facebook personificam as propagandas para os usuários, algumas propagandas podem aparecer muito menos do que outras, mesmo usando o mesmo plano de anúncios.

  • Artigo 13: basicamente diz que os sites são responsáveis pelo conteúdo que é publicado neles. Ou seja, se o seu site contém uma imagem da Disney publicada por um usuário qualquer, seu site é responsável e não mais apenas o usuário que publicou a imagem.


Mais informações podem ser encontradas aqui.

  • Lei de Economia Digital: exige que os usuários de site pornô comprovem a sua idade para acessar o site. A comprovação poderá ser terceirizada por empresas que já atuam com esse tipo de trabalho ou através de um "passe pornô" com um número de 16 dígitos.


Mais informações podem ser encontradas aqui.

O que essas leis irão fazer nada mais é do que acabar com dois enormes pilares de sustentação da internet livre: memes e pornografia.

A internet tornou mais fácil o consumo de pornografia e a viralização de conteúdos engraçados. Esses dois elementos se tornaram pilares enormes de sustentação da internet, pois muitas pessoas só conhecem a internet através disso. Só acessam a internet para isso.

Agora como você consegue acessar memes se não puder postar imagens do gênio do Alladin? Como acessar o pornozim se tiver que comprovar a idade toda vez que fizer isso?

Já conhecemos as diretrizes restritivas de sites como Youtube, Twitter e Facebook que não permitem diversos tipos de conteúdo viralizarem com a justificativa de que isso ofende uns e outros. O resultado é uma internet mais chata e que se resume em discussões políticas vazias, conteúdos pagos e que já não tem mais tanta diferença de uma área dominada pelo marketing.

Pensa bem, hoje em dia está cada vez mais difícil ser alguém na internet sem dinheiro. Você paga empresas pra  migrarem links para o seu site, vende conteúdo para outras, enfim... como já disse em outro post, a internet não é mais aquele terreno livre que era há uns 10, quem dirá 20 anos.

Esse post aqui não é uma defesa a sites como Google e Facebook. Muito pelo contrário. Por mim, esses sites poderiam acabar que eu não estou nem aí. O problema é que essas leis não dificultam apenas a vida dessas grandes corporações, mas a vida de todo mundo querendo criar algum site de interação online.

Se a vida de uma grande corporação como Google vai ficar mais difícil, imagina de uma plataforma como o Disqus? Imagina o que vai ser da DeviantArt? E do Imgur? São sites povoados de conteúdos criados pelos seus usuários, muitos deles paródios, fanarts e afins... O que vai ser desses sites que não podem pagar advogados que cobram U$100.000 dólares pra defender eles numa corte judicial?

Eles terão que criar diretrizes restritivas e bloquear muito conteúdo pra poder continuar existindo.

E esse post aqui não é uma defesa da pornografia. Muito pelo contrário, sou contra a pornografia, mas qual a solução pra esse problema? Dar poder ao Estado? Aos políticos britânicos??? Pois é isso que essa lei faz. Ao criar um sistema de verificação de idade, o governo acaba tendo acesso (ou pelo menos opções centralizadoras) pra poder acessar e verificar os dados de seus cidadãos.

Não se engane. Essa não é uma lei anti-pornografia, é uma lei de controle estatal. A estratégia é antiga, olha-se para um problema e propõe uma solução ruim para ele. Logo a solução ruim é usada para outro problema e mais outro e quando você vê, aquilo você faz é um problema. Não precisamos nem pensar muito, imagina quanto tempo vai levar pra você ter que comprovar idade pra jogar games de tiro? Supostamente eles são feitos apenas para maiores de 18 anos. Quanto tempo vai levar pra você ter que comprovar a idade pra ver conteúdo de cosplayers no Twitter ou Facebook? Não muito.

A internet é cheia de problemas, mas nós não podemos terceirizar a solução para eles. Nós criamos a internet e só nós podemos solucionar os seus problemas. Não é o Google, nem o Facebook, o Twitter ou o Imgur que irão solucionar esses problemas. Muito menos o governo britânico ou a União Europeia.

É triste ver a regressão que está acontecendo na Europa nos últimos anos. O berço da civilização ocidental vem caminhando para o seu fim a cada ano que passa e na última semana deram mais um passo em direção ao apocalipse cultural que se aproxima de lá.

 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Dica cinematográfica: The Night of the Hunter (1955)

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Havia um tempo em que Hollywood produzia clássicos. Não pelo cuidado que seus produtores tinham com o filme, nem com a quantidade de dinheiro despendida para fazer uma obra, mas pela sinceridade com os filmes eram feitos. Essa belezinha aqui é um exemplo maravilhoso disso.

The Night of the Hunter conta a história de um ladrão que é condenado a morte pelo assassinato de duas pessoas e por um roubo que fez. O conteúdo do roubo é mantido com seus filhos, um casal de crianças, que mantém o dinheiro longe até mesmo da própria mãe. Na prisão, o condenado conhece outro preso, um ex-pastor, que ao saber do roubo resolve se passar por bom moço na cidade do condenado, motivado a tomar o dinheiro roubado para si, nem que para isso tenha que constituir uma família. Todos passam a gostar dele, exceto pelo filho, que suspeita do falso bom moço e não irá facilitar a vida dele.

Com essa premissa, já cobrimos uma boa parte do filme, mas esse é apenas o começo. A vida familiar se torna um cenário de suspense, que cria uma rivalidade entre padrasto e filho mais velho. Um motivado pela ganância, o outro motivado pela honra da família, já baixa, mas que ele não deixará sumir.

É uma obra singela, com um grande apelo emocional, mas se ser dramática. As questões de honra, parentesco e dever são colocadas de uma maneira extremamente forte nesse filme, mas não de uma forma didática, pedante. Ao final temos a sensação de que acabamos de assistir um filme moralizante, mas também altamente divertido.

Na questão técnica, o filme também se sai muito bem. Filmado em preto e branco, ele conta com uma direção muito competente e até ousada para a época. Há longas cenas de transição que parecem filmadas numa só tomada. Há uma definição muito boa no contraste das imagens.

Em suma, The Night of the Hunter é um desses filmes antigos que te deixam pensando no que aconteceu com o cinema norte-americano. Um clássico absoluto.

5 pontos

terça-feira, 26 de março de 2019

Dica teórica: Skin in the Game de Nassim Nicholas Taleb (2018)

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Esse foi o melhor livro que li em 2018. Pena que terminei ele tarde demais para inclui-lo na minha lista de melhores do ano. Vou tentar honra-lo com essa dica, mas isso é muito difícil, já que o livro apresenta uma diversidade de ideias tão grandes que qualquer tentativa de o resumir é uma atividade quase homérica.

Mas vamos tentar.

Skin in the Game é o último livro numa série de 5 obras chamada “Incerto”. Essa série trata, basicamente, de aleatoriedades. Primeiramente no mercado financeiro, com o seu primeiro livro e depois na vida, com o livro chamado “Black Swan”, finalmente como evita-la, sendo “Antifrágil”, o título do quarto livro e Skin in the Game é o que você precisa para ser anti-frágil. Traduzido como “Arriscar a própria pele”, o livro trata de exatamente isso, botar o seu na reta, dar a cara a tapa, enfim... fazer algo que, caso não dê certo, irá te acarretar alguma perda.

Um dos argumentos iniciais é de que a nossa sociedade está recheada de pessoas que não arriscam a própria pela e pior! Nós deixamos que elas nos digam o que fazer com a nossa vida. A partir daí Taleb nos guia numa longa jornada recheada de experiências, contos, fábulas e conhecimentos práticos nos ensinando como é importante arriscar a própria pele.

A premissa é até simples, mas é a viagem que conta e esse é o ponto forte do livro. Tudo é uma enorme viagem pelo pensamento ocidental, misturando um pouco de pensamento oriental (em especial árabe) numa argumentação clara e muito bem articulada. A todo momento, você é lembrado de que se você não tiver contato com a realidade, você não receberá nada real. Skin in the Game ou arriscar a própria pele é simplesmente isso, ter contato com a realidade.

Mas o livro é muito mais do que isso, pois Taleb se aventura numa vasta gama de assuntos, do mercado financeiro até a religião, passando pelo campo linguístico, literário, político, enfim... praticamente tudo, porque se há seres humanos envolvidos, é porque algo funciona e se funciona, é porque quem tá fazendo está em contato com a realidade, se arriscando.

O livro nem é volumoso, mas a quantidade de conteúdo que ele entrega é absurda. Informações demais em cada uma de suas páginas e nunca é maçante. Taleb escreve como poucos, principalmente porque ele passou uns 30 anos trabalhando para alguém. Ele sabe como servir alguém. E serve muito bem os seus leitores.

E não pense que sua escrita é boa, porque é fácil de engolir. Não são apenas informações bonitas sendo jogadas na sua cara, mas provocações mesmo. Algumas passagens não são fáceis de aceitar, mas sua argumentação é tão concisa e bem escrita, que você não pode fazer nada a não ser admirar o seu trabalho.

Ainda não li os outros livros do cara e posso estar enganado quanto ao resumo que fiz do Incerto no começo dessa dica, mas vou ler e, provavelmente, ainda voltarei a tocar nesse assunto no futuro.

5 pontos

sexta-feira, 22 de março de 2019

Vá paralisar a pultaquiopariu!

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O Sindicato dos Vagabundos Docentes da Minha Cidade resolveu fazer uma paralisação hoje contra a Reforma da Previdência. Nem vou entrar no mérito de discutir a tal da reforma, nesse post vou focar na paralisação e provar que isso é simplesmente ridículo.

Comecemos pelo "por que". Essa paralisação está sendo feita por causa de uma reforma que está sendo discutida pelos deputados, senadores e outros membros do alto escalão do governo lá em Brasília. O que eu, um cidadão brasileiro do interior do Sul do Brasil tenho a ver com isso?

Aparentemente tudo, afinal vivemos num democracia, mas é assim que as democracias funcionam? Afinal, o que é uma paralisação? Nada mais do que um ato coletivo que visa parar uma atividade trabalhista do país mostrando para o governo a falta que a classe trabalhadora faz para o país. Afinal, se um determinado grupo de trabalhadores para, uma parcela da economia deixa de existir.

No entanto, o caso aqui é um pouco mais complicado do que isso.

[caption id="attachment_4393" align="aligncenter" width="872"]Protesto de professores em Portim„o Não vocês, né queridos?[/caption]

Primeiro, porque numa democracia o cidadão é quem manda. Se você precisa fazer uma paralisação de toda uma categoria para que uma opinião seja ouvida, é sinal de que a democracia não está funcionando.

Segundo, o grupo de trabalhadores que está parando são servidores das escolas (e em especial a universidade) públicas da cidade. Se eles pararem de trabalhar, ao invés de gerar um rombo, uma falta na economia do país, irá gerar lucro! A cada dia que esses professores trabalham o governo tem que gastar com salários, conta de água, luz, internet, manutenção e até mesmo refeição. Se a classe dos professores simplesmente decidir parar de trabalhar, o governo vai ficar feliz. É menos gasto, simples assim. Não é uma hecatombe como a paralisação dos caminhoneiros.

O único prejudicado nessa história toda (e aí chegamos ao terceiro ponto) são os alunos. São pessoas como eu que só desejam terminar a faculdade em 4 anos, entre os meses de fevereiro e novembro e não ter que repor aulas no final de semana.

Por fim, paralisações, greves e afins já se tornaram tão demodê que ninguém mais liga pra isso. Esses "docentes" dizem lutar pela classe profissional com atitudes que não melhoram em nada a imagem dos docentes perante a população. Ninguém dá muita bola pra educação no país, aí quem é responsável pela educação diz não se importar com o dinheiro, grita aos 4 cantos da Terra que é subversivo e responsável por inserir um pensamento crítico nas crianças que vai fazer elas abandonarem as "estruturas opressoras" da sociedade e ainda deixa de trabalhar sempre que aparece alguma coisa minimamente polêmica na esfera do governo federal.

É simplesmente ridículo o que esses poucos professores fazem, nadando contra inclusive uma grande parte dos professores do país, que só querem ganhar um dinheirinho pra comprar o que precisa, ensinar aquilo pelo qual eles sempre foram apaixonados na vida (seja isso números, línguas ou histórias antigas) e manter uma rotina de trabalho estável. O sindicato de docentes, em sua maioria, são um tiro no pé dessa classe de trabalhadores.

Se vocês querem valorizar a classe terão que começar a promover mudanças de baixo pra cima. Pra começar, entendam que serviço público não gera riqueza, comecem a exigir salários mais altos da iniciativa privada, menos exigências das coordenações pedagógicas e abandonem esses sindicatos que só sugam as energias dos professores de bem.

Pra finalizar, um pequeno questionamento: é curioso que essas paralisações só ocorrem na sexta-feira.

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quinta-feira, 21 de março de 2019

Dica aplicativística: Youtube Vanced

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Cansado da propagando do iFood ou de terríveis filmes quando você vai assistir vídeos no Youtube? Seus problemas acabaram e não, eu não estou falando do AdBlock, estou falando de um app que veio para revolucionar o Android.

O Youtube Vanced é, basicamente, o Youtube Premium, só que de graça. Você baixa o apk em algum lugar da internet (basta procurar no Google) e instala no seu celular Android. Pronto! Você está pronto para assistir o Youtube da maneira que você sempre deveria ter assistido, ou seja, da melhor maneira possível!

Com este app todas as propagandas do app são bloqueadas. Você até vê a marcação de onde elas estão na linha do tempo do vídeo, mas elas não são exibidas na tela. Além disso, você pode sair do app, que o vídeo não para de tocar. E uma bruxaria ainda maior é poder bloquear a tela e deixar o vídeo tocando.

Além de tudo, o Youtube Vanced ainda apresenta a opção de trocar o visual do app, de branco para preto ou vice-versa, baixar os vídeos e outras funcionalidades que eu, sinceramente, não conheço. Meu único interesse é em acabar com as propagandas nos meus vídeos e isso eu consegui.

As propagandas foram as coisas mais nefastas que surgiram no Youtube, diminuindo a liberdade dos criadores e tornando o que antes era uma plataforma livre numa plataforma escrava do sistema corporativo. O Youtube (e a Google em última instância) é o único responsável pelo seu fracasso ao adotar uma estratégia de mercado obsoleta, baseada em anúncios, pra fazer dinheiro, ao invés de adotar estratégias que se aproximem do seu público, como o sistema de financiamento coletivo, por exemplo.

Por essas e outras indico o Youtube Vanced para acabar com essa empresa que não merece o público que tem. O Youtube nunca receberia uma indicação aqui no blog, mas o Youtube Vanced recebe e ganha nota máxima.

5 pontos

terça-feira, 19 de março de 2019

Dica cinematográgica: They Shall Not Grow Old (2018)

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Este não é um filme como qualquer outro.

Este filme é sobre a I Guerra Mundial, mas é muito mais do que um filme, é muito mais do que um documentário. Na falta de palavra melhor, é o state of the art do cinema. Resultado de 3 anos de trabalho, a obra foi comissionada pelo Imperial War Museum, 14-18 Now (uma produtora de artes sobre a I Guerra Mundial) e a BBC a Peter Jackson, que reuniu cenas de arquivos da guerra para criar o melhor documentário já feito sobre o tema.

Retratando a vida de soldados que batalharam nas trincheiras, o documentário relata os momentos desde antes das batalhas até um pouco depois. Do recebimento do aviso de que a Inglaterra havia entrado em guerra com a Alemanha até o retorno ao lar.

O grande diferencial é que esse documentário não recupera apenas imagens, mas recupera também o áudio de entrevistas com sobreviventes da guerra. Entrevistas feitas pela BBC, que foram guardadas por anos até serem recuperadas para servir a essa maravilhosa obra de arte.

Munido de uma equipe de dubladores, restauradores e especialistas em leitura labial, Jackson recriou nesse documentário a I Guerra Mundial de um ponto de vista único. O ponto de vista daqueles que viveram um dos eventos mais devastadores do século XX. Além da narração feita pelos sobreviventes, o filme nos apresenta cenas de arquivos tratadas e coloridas, com efeitos sonoros adicionados e a dublagem de alguns dos soldados capturados em vídeo.

A obra é emocionante, do começo ao fim.

Além de ser um dos eventos mais conhecidos, porém menos comentados, a I Guerra Mundial nunca havia sido tratada da maneira que deveria ser tratada no cinema. O que esse filme faz é não apenas elucidar um momento tão determinantes para a história, mas honrar a participação de todos que estavam lá.

Ao final da obra, é cortante o comentário de que um dos sobreviventes dizendo que eles seriam esquecidos, mas nunca serão, nem deverão deixar de ser. O próprio avô de Jackson lutou na guerra e o filme é dedicado a ele.

Por esse documentário, Peter Jackson não merece um Oscar, ele merece uma medalha de honra.

5 pontos

sexta-feira, 15 de março de 2019

Contra a Astrologia

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Ontem, conversando com um casal de amigos muito bons, cheguei a conclusão de que desprezo mais as pessoas que acreditam em astrologia do que terraplanistas.

Não sei exatamente como essa conversa começou, mas creio que foi quando minha amiga recapitulava o momento em que um grupo de colegas da sala dela tentavam criar o mapa astral do futuro filho de sua professora. Tanto ela, quanto eu e meu amigo achamos isso um absurdo, católicos que somos.

As pessoas estavam tentando saber como seria o filho de uma professora que eles mal conhecem. Tudo baseado no dia em que o bebê irá nascer... a criança nem nasceu ainda! Por algum motivo meu amigo acabou falando que isso era pior do que afirmar que a Terra é plana e a conclusão lógica a que cheguei é: pessoas que acreditam em horóscopo são mais desprezíveis do que terraplanistas.

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Pensa bem, quem você gostaria que estivesse do seu lado: a pessoa que não gosta do seu filho, porque ele nasceu no “dia errado” ou a pessoa que quer entrar em órbita com um estilingue gigante? Um não vai nem na festa de aniversário da sua prole, o outro vai ter um protótipo de parque de diversões amalucado no quintal.

Diga para uma pessoa que acredita em astrologia que você é ariano e ela lhe fará cara feia. Diga para um terraplanista que você acredita que a Terra é mais ou menos esférica e que Newton estava certo e ele irá lhe perguntar “como você tem certeza?”.

A única coisa que um terraplanista faz é questionar aquilo que você tem como certeza na vida e eu lhe pergunto: não era exatamente isso que Diógenes fazia em 300 a.C.? Eles são os herdeiros de um pensamento científico que, em certa medida, é mais produtivo do que uma crença num exoterismo barato.

Não seja um trouxa, nunca! Mas se for para ser trouxa, seja um trouxa que não divide as pessoas em 12 castas celestiais.

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quinta-feira, 14 de março de 2019

Dica teórica: A Ética da Redistribuição de Bertrand de Jouvenel (1951)

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No final de 2018 fiz a promessa de não comprar mais livros até que terminasse de ler a pilha de livros ainda lacrados que tinha no armário. Durante a Black Friday da Amazon não resisti e acabei comprando essa belezinha aqui.

A Ética da Redistribuição é um livro do filósofo Bertrand de Jouvenel, pouco conhecido, mas com ideias muito sábias e que influencia bastante gente por aí, como o Paul Joseph Watson e o Nassim Nicholas Taleb, gente grande e pesada, com ideias fortes, mas muito sensatas. Neste livro, Jouvenel se dispõe a falar da redistribuição de recursos, entre eles, a renda, investigando a moral por trás de tal ato.

Como ele se propõe a investigar a moral por trás da redistribuição de recursos, ele não entra em detalhes econômicos. Muito pelo contrário, Jouvenel deixa bem claro que ignora esse aspecto, até porque não tem conhecimento sobre isso. O resultado é uma obra filosófica, que explora a lógica da redistribuição, sua motivação, consequências e, por fim, se há justificativa válida para isso ou não.

Não preciso dizer que a resposta de Jouvenel é negativa, né?

O autor vai no âmago da questão, deixando de lado questões de cunho mais funcionalista, mostrando que não há uma moral a ser defendida quando o assunto se trata de redistribuição. Não vou dar spoiler da obra, mas posso adiantar que é uma questão que vai da legítima posse de objetos até o roubo.

Jouvenel era uma pessoa muito sábia.

A edição que adquiri é a do Instituto Mises, que já lança livros nessa linha há um bom tempo. Aqui a crítica é a mesma que foi feita no “A Lei”, também publicado por eles. Há vários erros de português e a escolha de não separar as partes do texto pulando para a próxima página me incomoda. Dessa vez, o texto foi traduzido de seu original, já que o texto de Jouvenel foi publicado em inglês.

Em suma, é um livro obrigatório para se ter na estante de qualquer um que almeja ser inteligente.

5 pontos

terça-feira, 12 de março de 2019

Dica cinematográgica: Johnny English Strikes Again (2018)

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E Johnny English volta e volta com tudo para mais um filme que poderia agraciar as nossas tardes de domingo.

Nesse terceiro filme, Johnny English é um professor de uma tradicional escola inglesa, que contraria as expectativas dos pais de seus alunos, colegas professores e o diretor da escola, ensinando para as crianças técnicas de espionagem. Contente com seu novo trabalho, ele prontamente o abandona para servir o seu país, quando a Inglaterra se vê ameaçada por um hacker.

A partir daí acompanhamos Johnny English, o último espião que resta na Inglaterra após o hacker ter revelado as identidades de todos os espiões não aposentados pelo governo. Nadando contra a corrente do mundo tecnológico, Johnny English adota todos os métodos antigos dos espiões, provocando controvérsias dentro do governo, enquanto corre atrás de uma linha conspiratória que envolve espiãs russas, magnatas da tecnologia e o orgulho de ser britânico.

Há várias camadas a serem investigadas aqui. Como filme de comédia, ele trabalha através da sátira. Colocando a mídia num papel secundário, ela é basicamente feita de palhaça numa piada metalinguística. Ao colocar uma espiã russa que não representa grande perigo, o filme faz uma sátira com as últimas notícias que colocam a Rússia como o grande bode expiatório da mídia.

Outra questão que gostei muito foi a forma de utilizar as novas tecnologias como um grande inimigo. O vilão principal é um hacker, Johnny English rejeita todas as novas tecnologias e resolve usar um carro que polui o meio ambiente, pega em armas e usa equipamentos antigos para completar suas missões. Claro, ele sempre se atrapalha e nada sai como o planejado, mas em nenhum momento o filme se curva às novas tecnologias.

Para quem suspeita de inteligência artificial, o final é um deleite.

E o orgulho britânico está presente de uma maneira sutil, mas chamativa. Acompanhando as tendências atuais de explorar o conservadorismo de uma maneira leve e irônica, o filme caçoa das políticas de segurança e ambientais atuais, rejeita um magnata politicamente correto dos EUA, coloca a primeira-ministra num ridículo papel secundário, mostrando toda a sua insegurança e falta de saber e ainda nos apresenta um herói vestindo uma armadura medieval.

É claro, é necessário ter um senso de humor elevado pra apreciar esse filme, mas se você não for um chato, vai rir muito com essas conexões metalinguísticas.

Não podemos esquecer que é um filme do Rowan Atkinson, então o principal foco do humor aqui é na ação. Seguindo uma tradição que tem início lá com Charles Chaplin, R. Atinkson nos apresenta situações engraçadíssimas, prontas para aparecer em qualquer tarde de domingo com a família. É um filme para crianças e adultos, igualmente.

O filme tem alguns momentos que poderiam ter sido dispensados, como, por exemplo, a cena da dança; em compensação poderia ter trazido alguns personagens de volta, como o agente Tucker, mas fazer o que, né? O filme ficou muito bom e é isso que importa.

Em suma, é isso mesmo, um ótimo filme para a família e que merece mais destaque do que recebe. Rowan Atkinson é o melhor comediante que a Inglaterra já deu para o mundo.

5 pontos

quinta-feira, 7 de março de 2019

Dica musical: WORKING PEOPLE (PART 1) do Self Defense Family (2018)

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Assim como o Monster Rally, na surdina o Self Defense Family lança um EP para encerrar 2018 numa nota melancólica, mas calorosa.

Utilizando os elementos do sul estadunidense, flertando com a música country, WORKING PEOPLE (PART 1) começa num tom melancólico, mas caloroso com “Full Literalism”. Essa canção é recheada com uma crítica ao nossa inabilidade em abstrair um sentido pleno da nossa realidade. Após tanta relativização, já não escutamos mais as músicas, nem conseguimos separar o joio do trigo. Seu sentido é negativo, mas o ritmo nos lembra um fim de tarde pensativo.

E assim entramos na noite escura e assustadora de “It Can’t Happen Here”, cheia de guitarras distorcidas, elementos eletrônicos e sons harmoniosos que criam uma atmosfera pesada, até mesmo desoladora. É notável o crescimento do Self Defense Family, pois esse álbum cria uma atmosfera muito linear, que vai do calor melancólico ao gélido e temeroso, desembocando no singelo e belo som de “What Would the Community Think”, cover da música já eclética do Cat Power.

Na versão de Self Defense Family, a canção deixa de ser um início de álbum para virar o encerramento digno de um EP, ganhando mais corpo e força na voz de Patrick Kindlon. Não há como não lembrar das homenagens feita a namorada do vocalista no último álbum da banda, tendo ainda mais significado, lembrando um nascer do sol amistoso.

WORKING PEOPLE (PART 1) é um dos melhores EP’s do Self Defense Family, se tornando o melhor lançamento da banda no ano. Excepcional.

5 pontos

terça-feira, 5 de março de 2019

Assistindo Shoa – pt.2

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Continuando a assistir Shoa, essa segunda parte levei mais tempo para ver e ainda mais tempo para digerir. Ao contrário do que eu pensava, essa segunda parte não começa de onde a primeira parte parou. Ela começa com Franz Suchomell, o nazista entrevistado por Lanzmann para nos mostrar a desumanidade viva.

Nesta segunda parte, Franz nos agracia com seus talentos musicais, cantando e sorrindo, mas ninguém parece compartilhar de suas lembranças.

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Seu linguajar acompanha a desumanização que ele ajudou a proporcionar no planeta. Ao invés de mortos, Franz utiliza a palavra “processados” para se referir aos judeus colocados nas câmaras de gás. Dezenas de milhares eram “processados” em mais de 12 horas de trabalho. Um trabalho o qual ele, definitivamente, não parece mostrar remorsos.

 

Mesmo assim, havia vida dentro dos campos de concentração. O relato de Abraham Bomba nos obriga a alcançar os limites da nossa imaginação ao nos dizer como era ser cabeleireiro dentro dos campos. Os nazistas recrutavam pessoas presas dentro do campo para fazer os trabalhos que eles não podiam realizar. Aos encarcerados era uma forma de escapar da “solução final”. De maneira crua, ele nos relata como era cortar o cabelo dos outros presos e chora ao relatar o dia em que seu amigo cortou o cabelo de sua mulher e filha.

Eu também chorei. Inevitável.

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Após isso, ainda falta mais da metade do filme para ver. Surpreendentemente ainda há o que ser relatado, como os planos de uma rebelião dentro de Auschwitz. O plano não foi para frente e os relatos são terríveis, envolvendo escolhas tão duras que os encarcerados preferiam morrer do que chegar ao final daquilo.

Nessa parte da obra acho possível realizar uma associação com Viktor Frankl, pois muitos dos relatos tratam do sentido de se estar ali. A única que os motivava era a criação de um sentido para continuar ali dentro, seja a esperança de encontrar algo lá fora, a lembrança da família ou algum problema não solucionado. Era essa busca de sentido que os motivava a continuar, a planejar uma rebelião, a se organizar e fazer de tudo para continuar vivo, mesmo que se sujeitando aos nazistas.

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O filme não entrevista Frankl, que inclusive foi enviado a um campo de concentração e elaborou sua teoria da busca de sentido com colegas de cárcere, mas é latente que o filme só reforça a tese do austríaco.

Todos os dias presos era uma nova busca por sentido. Foi isso que fez os sobreviventes continuar a seguir a vida deles após os acontecimentos terríveis. Como nos diz Ithzak Zuckermann: “se pudesse lamber meu coração cairia envenenado” e apenas a busca por um sentido poderia arrefecer tanta amargura.

O filme termina num tom mais do que triste, lúgubre, niilista e não poderia ser diferente. A história humana nos levou a essa conclusão. Termina em silêncio. Não há mais nada a comentar.

5 pontos

sexta-feira, 1 de março de 2019

Post de apreciação do MC Gorila para o Carnaval 2019

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É o Carnaval mais uma vez. A festa mais odiosa do ano, onde a promiscuidade, a depravação e o caos imperam. A orgia carnavalesca que louva a Baco resulta apenas em violência, desastres e desencantes para o povo desse nobre país, no entanto, já está encravado em nossa cultura e reverter sua influência nefasta é uma tarefa que nem mesmo Hércules poderia enfrentar.

Eu, como todo cidadão de bem, fugirei para alguma fazenda longe dessa bacante devastadora, mas não podemos deixar de esquecer que todo ano um dos maiores gênios da MPB organiza o seu próprio bloquinho no RJ. Há muito tempo já planejava fazer um post de apreciação a esse mestre da música popular brasileira e agora tenho a oportunidade perfeita de lembrar da genialidade desse monstro, através de um Top 10 insano!!!

10 – Mamou Todos Nós

Parabéns por rimar “Jegue” com “Mick Jagger”

https://youtu.be/h_HEoktQFCA

9 – Você conhece a Kelly?

Merece um segundo parabéns por ressuscitar essa piada diretamente da 5ª série.

https://youtu.be/ukh8yChrE2w

8 – Gordelícia

Gordofobia aqui não!

https://youtu.be/FRZqcLbBTeg

7 – Sou um Jumento

As músicas do MC Gorila são um repositório de sabedoria popular, afinal não importa ter pau grande, tem que ter a cara de pau grande.

https://youtu.be/It0N1txZydE

6 – Deixa se Fuder

E é também uma oportunidade para repensarmos nossas atitudes. Não tenha olho grande!

https://youtu.be/51vzmOzQUyo

5 – Tava Cagado

Numa determinada altura da carreira, o MC Gorila focou na narrativa, criando histórias cheias de intriga, questões morais e desafios que tocam o âmago de qualquer ser humano.

https://youtu.be/VxZTA7IuzPg

4 – Meu Gato

Mas foi com essa música, feita em parceria com o rapper americano Akon, que o ápice narrativo foi alcançado. Palavras não conseguem exprimir a emoção que essa canção nos passa.

https://youtu.be/LHiA-98LPzc

3 – Cheio de Sal

Essa música foi uma das responsáveis por restaurar o status do MC Gorila nos últimos anos. Um clássico moderno!

https://youtu.be/N4Q4j1oSdUU

2 – As Novinha de Hoje em Dia

Você não recebe seu selo de internauta brasileiro sem ter assistido esse vídeo ao menos uma vez na vida.

https://youtu.be/Rbk5ysEzFgA

1 – Os Bonitin

Sei que deveria ter colocado Cheio de Sal ou As Novinha de Hoje em Dia em primeiro, mas, apesar da alta carga de ironia que esse post carrega, eu sou realmente fã do MC Gorila e acho que na fase atual de sua carreira ele está pronto pra se tornar um artista de renome mundial. E essa última fase teve início com esse clássico:

https://youtu.be/AycrgGE9iBw

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Dica cinematográfica: Phase IV de Saul Bass (1974)

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Saul Bass foi um gênio do design gráfico, responsável por criar o letreiramento e identidade visual de clássicos do cinema como The Man with the Golden Arm e Vertigo. Seu espírito criativo o tornou figura essencial para a história do cinema, mas ele também nos deixou um filme: eis que a dica de hoje é o clássico Phase IV.

Após um alinhamento planetário acidentes envolvendo formigas inteligentes começam a pipocar nos EUA. Dois cientistas se dispõem a investigar um caso de formigas no meio do deserto que fez uma cidade inteira ser esvaziada. A partir daí eles passam a interagir com elas, expondo-se a riscos cada vez maiores numa guerra que parece ser muito maior do que eles esperavam.

Mesclando ficção científica com horror, o filme é uma obra magnífica. Seguindo uma narrativa linear, muito clara e bem estrutura, ele não deixa falhas. Não há pontas soltas no filme, que consegue prender sua atenção do começo ao fim, mesmo com as explicações científicas cheia de termos técnicos.

O final é aberto e abre espaço pra uma ampla especulação, mas esse é um dos pontos altos do filme. Dessa forma, o primeiro e único filme de Saul Bass termina numa nota crescente que impressiona o espectador que vai sem expectativas encarar essa belezura.

E belezura é o melhor adjetivo para Phase IV. O filme é muito bem trabalhado na questão estética. Se formos analisar do ponto de vista Burkeano, esse filme é um primor do sublime. Logo no começo, intercalando uma cena fantástica de planetas se alinhando com uma cena explorando as atividades ordenadas de seres minúsculos, já temos uma pequena amostra de sua grandiloquência. Saul Bass foi detalhista e criou uma obra de uma beleza inigualável. Ainda mais se considerarmos a época em que foi feita.

Em suma, Phase IV é uma obra obrigatória para todos os fãs de ficção científica. Sua mescla com o horror é ainda garantia de que irá agradar a outros públicos e impressiona a todos que forem ver o filme de mente aberta.

5 pontos

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dica teórica: Contra o Aborto de Francisco Razzo (2018)

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Terminei de ler esse livro num final de semana tamanha a qualidade que ele carrega.

Contra o Aborto é a segunda obra do filósofo Francisco Razzo e o seu título é autoexplicativo. O livro se propõe a ser um ataque ao aborto e é exatamente isso que ele faz, no entanto, de uma maneira elegante e dialética.

A obra se inicia com uma explicação de seus conceitos. Já que se trata de uma obra de cunho filosófico, é de se esperar que seja uma leitura difícil, mas Razzo manteve-se o mais próximo possível de uma linguagem coloquial, embora seus argumentos pertençam a escola ética de filosofia. Nessa obra, Razzo também assume, de antemão, uma postura polêmica, ao considerar moral e ética a mesma coisa. Isso pode gerar controvérsias dentro do mundo filosófico acadêmico. A escolha, como o própria admite, foi feita para facilitar o entendimento do leitor, ainda assim pode atrapalhar aqueles filósofos mais cri-cris.

Após isso, o livro expõe uma série de respostas a argumentos a favor da vida, quebrando cada parede colocada por aqueles que defendem o aborto, destruindo toda a construção que se criou ao redor desse tema nos últimos anos, em especial no Brasil, embora o tema seja universal. Finalizando o livro, Razzo explica por que ser contra o aborto, partindo da concepção de pessoa.

O livro é bom demais, não apenas por tratar de um tema polêmico, cercado de concepções errôneas e, provado pelo próprio livro, que não é debatido de fato. O livro é bom pela sua linguagem, a extensa lista de leituras secundárias no final (também filosóficas, objetivas e algumas apresentando dados empíricos) e sua argumentação sólida. É difícil discordar de Razzo quando se adentra esse excelente livro.

Não tema o seu título, crie coragem e leia-o, porque vale muito a pena.

5 pontos

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Dica musical: Starlight do Monster Rally (2018)

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E na surdina, o Monster Rally lança mais uma pérola.

Starlight é sua mais nova obra. Um EP consistindo de 4 músicas que mesclam elementos sonoros orientais com batidas ocidentais que lembram o hip hop old school das ruas sujas do Harlem. Tudo isso com um toque de Califórnia que só o Monster Rally consegue incluir em suas músicas.

Nas últimas dicas que fiz de seus álbuns reforcei que o Monster Rally é um criador de EP’s muito melhor do que de álbuns. Enquanto que nos ábuns, as músicas vão se tornando repetitivas e cansativas, nos EP’s elas deixam aquele gostinho de quero mais que nos faz retornar várias e várias vezes para eles.

Quando não deixam o gostinho de quero mais, nos deixam satisfeitos e Starlight é um EP para satisfazer. O ritmo ocidental, guiado por elementos orientais conta com uma mixagem lo-fi, a qual faz parecer que estamos ouvindo um LP antigo. É possível também notar a busca por alternativas. Esse EP parece explorar elementos da música africana e do oriente médio, gerando uma mescla ainda mais eclética do que já tínhamos visto nos últimos lançamentos de Ted Feighan (o gênio por trás do Monster Rally).

No geral, o EP não chega a 15 minutos em sua totalidade, mas vale muito a pena ouvir. Suas canções breves criam uma atmosfera relaxante e vívida. Você irá se sentir numa praia paradisíaca.

4 pontos e meio

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Dica cinematográfica: “Trump @War” (2018)

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Com um ano de administração na Casa Branca, Barack Obama ganhou o prêmio Nobel da Paz simplesmente por ser o primeiro presidente negro dos EUA. Sendo assim, com dois anos de administração, já é seguro fazer o balanço de Donald J. Trump no comando dos EUA e foi para corresponder a essa missão que Stephen “Steve” Bannon criou esse documentário, disponível de graça no Youtube.

O documentário, de pouco mais de 1 hora começa com as declarações de guerra ao sr. Trump por parte de jornalistas, comediantes, artistas e líderes de movimentos sociais nos EUA. As imagens são recheadas de violência, tanto verbal quanto física, mostrando que não são atos dispersos, mas orquestrados, vindos de um pensamento que desce todas as camadas sociais, das elites política e artística até o povão que vai pra rua protestar. É saindo desse panorama dividido que Bannon inicia o documentário de fato, mostrando os fatos e suas consequências, começando em 2008, com o início da administração Obama.

Após dois mandatos, a situação americana ia de mal a pior, altas taxas de desemprego, um descaso com as comunidades periféricas (negros e latinos), uma política externa covarde e um enfoque em medidas que não se relacionavam com a realidade vivida pelo país, tudo isso mascarado pelos dois grandes centros urbanos a leste e oeste (Nova Iorque e Los Angeles). Usando esse cenário como escada, Trump lança sua candidatura e busca falar com quem se encontra no meio de tudo isso e estava sendo esmagado por uma narrativa falaciosa.

Trump contraria todas as expectativas e vai para estados que eram conhecidos pelo apoio aos democratas (partido rival ao dele), ganha apoio da população, se aproxima das pessoas, dos micro e pequenos empresários, dos trabalhadores braçais e o resultado nós já sabemos.

Foi surpreendente.

A partir daí o documentário nos mostra os resultados de sua administração. Logo após o primeiro ano, a taxa de desemprego é uma das menores do país, seu sucesso como um legítimo conservador só é comparado a Ronald Reagan, acarretando numa melhora de vida para todos os setores da sociedade, inclusive os mais pobres, os negros, os latinos e os imigrantes legais. De educação e saúde até formas de entretenimento, de repente, por causa de políticas que desburocratizam os processos governamentais, diminuem os impostos e retiram o governo da frente da livre iniciativa das pessoas, tudo fica ao alcance do povo.

Além disso, sua guerra ao terror se mostra muito mais efetiva do que qualquer atitude da administração Bush e, obviamente, melhor que a atitude complacente da administração Obama. Somos apresentados a números concretos que indicam o enfraquecimento do ISIS no Oriente Médio.

Sua política externa é uma das melhores que os EUA já viu, pondo um fim a ameaças reais contra todo tipo de liberdade no mundo.

Em suma, a administração Trump anda uma maravilha, mas ainda assim reclamam e continuarão reclamando, pois como foi-nos apresentado no começo, o stablishment declarou guerra a Donald Trump. É uma guerra cultural, uma guerra de narrativas e não conseguimos mais ter certeza de quem vai ganhar.

O documentário foi produzido antes das eleições de midterm nos EUA (basicamente elege os políticos de baixo escalão, que aprovam leis e projetos antes de ir para o presidente e, entre outras coisas, aprovam ou não impeachments), um momento considerado histórico para os EUA, embora eu ache que não precisa de tanto alarde. Apesar de Trump correr um rico real, sua administração vai bem e esse documentário veio em ótima hora.

Além do conteúdo, o exterior desse documentário também é muito bom. Muito bem produzido, conta com ótimas entrevistas de pessoas muito inteligentes, de várias partes e condições dos EUA, mostrando a pluralidade que Trump atingiu. Bannon já tem experiência na produção de documentários e esse é tecnicamente um petardo.

A brevidade dele só mostrando a urgência com que as verdades ditas aqui precisam ser expostas.

4 pontos e meio

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Dica musical: “Bark Your Head Off, Dog” do Hop Along (2018)

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Hop Along é uma banda de indie/post-punk/folk formada em 2005 no grandioso estado da Pensilvânia, EUA, mesma terra de outras excelentes bandas como Title Fight e Balance and Composure. Descobri essa banda numa postagem do instagram do Joyce Manor, que revelava que a figurante da capa do CD “Never Hungover Again” é a vocalista do Hop Along.

Em 2018, lançaram esse CDzinho gostoso chamado de “Bark Your Head Off, Dog”. Hop Along é conhecida pelo seu som idiossincrático que mistura os vocais expansivos de Frances Quinlan com instrumentais que compreendem uma ampla gama de estilos, eis porque a classificação do estilo da banda foi tão complicada no primeiro parágrafo.

Com esse álbum, a mistura continua marcando presença, embora a solidez seja maior em torno de um som voltado ao indie, ao contrário do seu álbum de estreia, que tinha um enfoque maior no folk. De qualquer forma, Hop Along não deixa de lado as suas origens punk e acabam criando um som remanescente de bandas como Pavement.

As letras são o ponto alto, mostrando uma maturidade crescente ao criar verdadeiras narrativas em cada música, que faz com que o álbum se assemelhe a um livro de contos. O título do álbum, inclusive, se relaciona com uma das canções, que não tem uma relação direta com o resto das músicas.

Os vocais de Frances também me deixam encantado com essa mulher. A voz dela tem um alcance muito alto, indo de um tom suave e melódico para um grito vibrante em questão de segundos numa mesma canção, enquanto as guitarras invertem e revertem lógicas musicais a cada acorde. É notável a influência de Joanna Newsom no estilo que ela canta... pelo menos é o que eu acho.

É um som único de fato e que eu gostei demais!

5 pontos

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Dica literária: “A Visita Cruel do Tempo” de Jennifer Egan (2010)

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Mais um livro lido para a faculdade e que veio saciar uma vontade que tinha há muito tempo de saciar.

“A Visita Crual do Tempo” é um livro escrito pela jornalista Jennifer Egan, que é também escritora de livros de ficção e conta uma caralhada de histórias, que se entrelaçam e mantém uma fina conexão entre si. No centro dessas histórias parece estar Sasha, uma mulher sardenta e que sofre de cleptomania, cujo passado, presente e futuro abre portas para que possamos conhecer os mais diversos personagens; seu chefe Bennie, que era o alvo das atenções de Rhea, quando eles ainda eram adolescentes e na mesma época, conheceram Lou, um figurão do rock, que caminha desde sempre para sua autodestruição e mais um monte de outros personagens secundários, mas que funcionam como narradores de acontecimentos que acabam por iluminar a história contada no livro, abrangendo mais de 30 anos de histórias.

O livro me lembrou bastante David Foster Wallace, um autor que ninguém na minha faculdade conhece (surpreendente para um bando de pessoas que se dizem “pós-modernas” o tempo todo), no que tange a escrita de Jennifer Egan. Obviamente ela foi influenciado pelo cara, chegando até a simular o seu estilo num dos capítulos do livro, mas, infelizmente, ela não chega tão longe quanto ele.

Sua genialidade não é tão profunda e nos momentos em que se propõe a ser mais filosófica acaba por ser bem rasa. No entanto, sua delicadeza é incomensurável, pois são muitos os momentos do livro que emocionam, de verdade, o leitor, com passagens subjetivas muito belas, deixando espaço para interpretação, mas entregando uma carga emocional gigante de qualquer forma.

Esse é o ponto alto do livro.

Conforme avançamos para o final na leitura, esse lado mais emocional vai sendo deixado de lado e infelizmente ele não termina numa nota alta.

Alguns aspectos também irritam. Apesar da autora não se posicionar em nenhum momento, sua ironia (ou ausência dela, em alguns momentos) incomoda, principalmente quando ela se refere a republicanos ou ao expor alguns dados do futuro, que nunca deixam claro o que ela quer dizer de fato. É algo que incomoda num nível pessoal, claro, mas eu gosto de pessoas assertivas.

Enfim, o livro não é uma obra obrigatória, mas foi uma boa leitura para encerrar minha matéria de literatura ano passado.

3 pontos

Assistindo “Shoah” (1985) – parte 1

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“Shoah” é um documentário francês de 1985 tratando do Holocausto (também chamado de “Shoah”, coisa que aprendi junto com esse filme), dirigido por Claude Lanzmann e que se expande por mais de 9 horas.

Devido ao seu extenso tamanho, o filme foi divido em 2 partes pelo diretor e é comercializado numa versão para DVD com 4 CD’s (não tenho conhecimento da versão Blu-Ray), alcançando uma densidade alta demais para ser discutida num post apenas. É por essa razão que irei dividir a dica desse filme em dois, dessa forma, eu mesmo posso entender melhor essa obra monumental.

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O filme começa nos apresentando a história de Simon Srebnik, um sobrevivente de Chelmno, um dos campos de concentração nazista estabelecido na Polônia. Quando tinha apenas 13 anos, Simon viu a invasão nazista da Polônia, seu pai ser morto num gueto, foi preso com a mãe, que foi morta numa câmara de gás

e só permaneceu vivo, pois sabia cantar e os soldados nazistas gostavam disso. Quando o campo foi liberado pelos sovietes, Simon levou um tiro na cabeça, mas conseguiu sobreviver, pois a bala não acertou nenhum ponto vital. Após isso, fugiu para Israel.

A partir daí, começam as histórias intercaladas com outros sobreviventes do Holocausto, de diferentes campos de concentração. O filme inteiro é formado por essas entrevistas, descritivas e levemente soltas. Lanzmann não se preocupa em criar uma narrativa linear com essas histórias, ele apenas quer nos apresentar os fatos de acordo com aqueles que viram tudo o que aconteceu.

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Mais ou menos aos 48 minutos de filme, somos apresentados a Henryk Gawkowski, um condutor de trem polonês que trabalhou durante a invasão nazista levando, entre outras coisas, prisioneiros para o campo de concentração de Treblinka. A partir daí conhecemos o lado de pessoas comuns vizinhas aos campos de concentração.

A Polônia é conhecida pela sua “covardia” durante o período nazista e este filme é criticado sob esse ponto de vista, pois nos apresenta relatos realmente perturbadores de poloneses que viam judeus sendo enviados para os campos de concentração e acenavam para eles que iriam morrer. Mas como nos diz Gawkowski, era trabalhar ou morrer. Esse pensamento está presente em praticamente todos os testemunhos de polonoses no filme, a escolha que eles fizeram foi pela vida e não dá pra culpar alguém por isso.

Ainda assim, Lanzmann mantém-se fora do julgamento, fazendo apenas questionamentos, alguns ferozes, que entregam sua indignação com a atitude complacente dos poloneses comuns. Essas partes foram as que mais me chamaram a atenção no filme, pois não me lembro de ter visto esse lado da história num documentário, de maneira tão crua.

Os depoimentos assustam ainda por mostrar lados que até se contradizem. Enquanto temos judeus falando que eram levados em vagões de carga, amontoados por dias, sem água ou comida, sentados em cima de cadáveres; do outro lado temos poloneses dizendo que viam judeus sendo levados nos vagões de passageiros, às vezes até descendo em estações, comprando alguma coisa e voltando para dentro dos trens.

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É claro que a memória afetiva nesses momentos não é confiável, mas o tratamento a judeus também não era padronizado. Como nos diz um dos sobreviventes, Rudolf Vrba, se um agente da SS estivesse de bom humor, era capaz de tratar bem qualquer um.

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O documentário conta ainda com uma entrevista realizada com um criminoso de guerra nazista, Franz Suchomel, que participou ativamente do programa de eutanásia do governo nazista, Operação Reinhard. Suchomel aceitou ser entrevistado, mas não filmado. Lanzmann, num ato que desafia qualquer debate ético, utilizou de câmeras escondidas para realizar a sua entrevista. Esse momento me deixou confuso e só fui entender porque a imagem é diferente, utilizando a filmagem da tela onde é exibida a imagem de Suchomel. Fiquei me perguntando o que estaria por trás disso... estética? Praticidade? Não, era apenas ousadia mesmo.

Suchomel apresenta em detalhes, inclusive apontando num mapa, como era feita a separação de judeus para as câmaras de gás, onde ficavam alojados, como e por onde se livravam dos corpos. Em nenhum momento, o criminoso declara ter se arrependido.

A análise de um historiador quase no final da primeira parte expõe a relação histórica milenar que levou até o extermínio de judeus e sua posição, sempre frágil, por onde quer que eles passassem. Desde o surgimento do cristianismo, passando pela idade média, Martinho Lutero, até a República de Weimar, o Holocausto foi apenas a culminação, como se diz, a “Solução Final” para o problema dos judeus.

Não concordo inteiramente com o que ele disse. Nessa questão, cada um puxa a sardinha pro lado que quer, mas a história não é essa linha reta onde um acontecimento pontual leva a uma série de acontecimentos pontuais que culminam no Holocausto. Não acho que seja assim que funciona.

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De qualquer forma, ele chama a atenção para um aspecto importante do filme, o uso da linguagem. Os nazistas nunca utilizaram as palavras extermínio, morte ou assassinato. Você não vai encontrar isso nos documentos deles. A linguagem é sempre muito vaga, aberta a interpretação. O Holocausto fora anteriormente chamado de “Solução Final”, a solução para acabar com o problema de vez. As câmaras de gás foram apenas uma invenção saída de umas poucas cabeças mais maliciosas, não foi orquestrado por Hitler, que convenceu cada um de seus subordinados de que essa seria uma boa saída para o problema que tinham nas mãos.

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Após mais alguns depoimentos (inclusive um que nos apresenta o momento mais belo do filme inteiro, até então, que é o de uma mulher alemã, a sra. Michelsohn, esposa de um professor nazista. Lanzmann a questiona sobre um garoto que cantava e ela diz que lembrava dele, inclusive lembrava da música que ele cantava. Seu relato culmina na imagem de Srebinik percorrendo os campos onde antes se situava a prisão em que estava), Lanzmann termina as mais de 4 horas da primeira parte do filme lendo uma carta circulada entre o governo nazista ordenando a Saurer a construção de novos veículos com tecnologia para deixar o extermínio mais efetivo. A linguagem técnica, distancia a elaboração da prática, tornando tudo mais assustador.

Não sei como irá se iniciar a segunda parte. São mais 4 horas de filme e irei terminar logo, mas seria interessante se Lanzmann mostrasse como o governo nazista aparelhou a propriedade privada, excluindo-a do vocabulário jurídico e eliminando-a, de fato, pois ainda hoje acredita-se que o governo nazista, economicamente, seguia algum tipo de doutrina liberal, quando a realidade é muito distante disso.

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Terminando numa nota mais do que triste, o filme deixa uma pulga atrás da orelha para que possamos seguir, animados, para a segunda parte do documentário e suas mais de 4 horas de duração.

Não vou deixar nota, pois ainda não terminei de assistir. Considere essa a primeira parte de uma dica ainda maior, mas, por enquanto, “Shoah” tem valido muito a pena.

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

O mundo vai acabar em Wifi

Em uma semana, dois podcasts que eu acompanho trataram de um mesmo assunto, mas sob óticas completamente diferentes, devido ao teor de cada um desses podcasts.

O primeiro deles, IRL, é o podcast da Mozilla (aquela que faz o Firefox) e no episódio dessa semana, intitulado “Surveilance Economy”, eles apresentam o trabalho da professora de Harvard Shoshana Zuboff sobre um novo aspecto do capitalismo que ela nomeia “Surveilance Capitalism”. Numa tradução rápida podemos chamar esse termo de “Capitalismo de Vigilância” e o tema se encaixa como uma luva no IRL.

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O IRL é um podcast que fala sobre tecnologia, mas do ponto de vista de uma organização sem fins lucrativos que cria programas de código aberto para a internet. A Mozilla é algo raro de se ver hoje em dia, principalmente porque ela faz sucesso! Como já é de se esperar do tema, o podcast dessa semana fala especificamente de como as grandes corporações na internet estão transformando os dados que você coloca na internet numa fonte de dinheiro, criando mais formas de te manter conectado e assim te colocando num círculo vicioso.

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O segundo podcast a debater o mesmo tema foi o podcast do Art of Manliness, o melhor site da internet mundial. No programa dessa semana, o #479, “Becoming a Digital Minimalism”, Bret McKay conversa com Cal Newport, um professor de ciência da computação, que inventou (ou recriou/modelou) o termo “Digital Minimalism”. Traduzindo rapidamente, novamente, seria o “Minimalismo Digital”. Baseando nos movimentos minimalistas que surgiram a partir da segunda metade do século passado, Newport cria diversas táticas pra te fazer parar de usar a internet e passar a viver.

É interessante que são dois podcasts muito distantes, mas que tratam, basicamente, do mesmo tema numa época em que Elon Musk fala desoladamente do futuro da nossa espécie. Pra quem não viu, veja, mas se você não quer ver, eu explico. No podcast do Joe Rogan, Musk fala de forma desolada, até meio deprimente, sobre a inteligência artificial e que já passamos do ponto-de-não-retorno e que deveríamos simplesmente aceitar a Singularização. O termo que vem de singular, significando “único”, refere-se, na parte mais utópica da ciência computacional, ao momento em que tudo estará conectado por uma só tecnologia, no caso, a Inteligência Artifical seria a causa da singularização, pois a IA poderia se recriar, reinventar e se adaptar a qualquer tipo de dispositivo ou tecnologia, controlando assim todos as tecnologias do nosso planeta. Na visão apocalíptica de Elon Musk nós teríamos que fazer parte dessa singularização também e faremos, já que não vamos abrir mão do conforto que a internet nos traz.

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Parece ficção científica e, de fato é. Autores como Isaac Asimov e Philip K. Dick já trataram do tema em suas novelas. Outros tantos também, de maneira mais detalhada e cruel. Outros tantos de maneira mais otimista. O que importa é que isso não é novidade e desde que a computação se tornou uma realidade na primeira metade do século XX, pensadores que fugiram da caverna de Platão já falam sobre a tecnologia e suas consequências na sociedade humana.

O problema é que já passamos de fato do ponto-de-não-retorno.

Eu lembro de quando era criança nos anos 90 e início dos anos 2000, lendo revistas científicas (sempre fui um entusiasta do tema) dos anos 80 e início dos anos 90 questionando a viabilidade da internet e computadores pessoais. Internet rápida, computadores em casa e comunicação a qualquer momento em qualquer lugar parecia algo distante e ainda se questionava a durabilidade daquilo. Nos anos 80 e 90 haviam pessoas que apostavam que a internet era apenas uma moda passageira. Outros apostavam que a internet ia representar o fim da comunicação como conhecíamos, extinguindo o rádio e a TV.

Não poderiam estar mais distantes da realidade. A internet se tornou uma sólida realidade, tão grande e importante que é a base que sustenta o rádio e a TV hoje em dia. A maior audiência do rádio tem canal no Youtube, os melhores canais de TV do Brasil exibem sua programação ao vivo nos seus sites oficiais. A internet se tornou a pedra de sustentação de toda forma de comunicação, não apenas em massa, mas também privada. Se queremos falar com alguém mandamos uma mensagem pelo Telegram, se for urgente, ligamos pelo Whatsapp.

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Não é o fim do mundo como imaginaram os escritores de ficção científica pelo alto grau de adptabilidade do ser humano. É a sobrevivência do mais apto.

Mas a criatividade é uma faca de dois gumes. Grandes corporações também são altamente adaptáveis e o controle que antes era exercido pela TV, sempre alvo da CRÍTICA SOCIAL FODA nos anos 90, agora é da internet. Facebook, Twitter, Instagram se tornaram os grandes alienadores e o pior, poucos percebem isso.

Encontramos amigos, compartilhamos ideias, discutimos, brigamos, namoramos, jogamos games, fazemos tudo pela internet e por essas redes sociais. Vivemos grudados em nossas telas de celulares, olhamos para o smartphone a cada minuto, às vezes nem para ver se chegou alguma coisa, apenas para sentir o dedo deslizar pela pele. É um comportamento compulsivo que tem se tornado alvo de estudos científicos reais.

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E qualquer um que fale algo contra as grandes corporações que têm se colocado como a vitrine para o mundo online (Facebook, Google, Twitter, etc...) é logo taxado de maluco. Basta lembrar que anos atrás Alex Jones falou basicamente a mesma coisa que Elon Musk, de uma maneira muito mais pirada e virou piada. Mas os dois sabem qual caminho que a humanidade está tomando. E pior, estamos escolhendo esse caminho.

Vende-se a imagem de que estamos interagindo com amigos, conhecendo pessoas novas, fazendo amizades, criando conhecimento, mas isso tudo não é real. Como indicado por Newport, estudos científicos têm mostrado que as interações digitais não tem o mesmo valor que as interações reais. Elas podem ativar certas áreas do cérebro que trazem uma sensação momentânea de bem-estar, mas essas substâncias representam apenas uma fração de tudo que você obtém com cada interação real e analógica.

Não apenas não são suficiente como elas trazem consequências drásticas para a nossa realidade. As interações digitais sustentam vícios e aumentam o ego, aumentando a artificialidade da vida das pessoas, além dos riscos reais que elas correm atrás de mais e mais likes. Tudo isso é feito por profissionais, que estudam como fazer os seres humanos mais viciados em seus produtos digitais. O som que o seu celular faz toda vez que chega uma mensagem foi detalhadamente planejado para viciar o seu ouvido.

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Num ponta você tem engenheiros planejando como te deixar mais preso a sua telinha de smartphone e na outra ponta você tem vendedores convencendo donos de empresa a anunciar no aplicativo ou site dele porque ele tem acesso a uma porrada de pessoas e ele sabe como fazer essas pessoas prestarem atenção nas suas telas. É o capitalismo de vigilância. Estão olhando para você, estudando você para vender coisas para você que farão com que eles consigam olhar mais detalhes da sua vida.

Mas o problema não é apenas isso, porque é isso que todo tipo de mercado faz. Ou você acha que o japonês da feira segue qual processo pra definir os pastéis que ele vende? Qual o processo que leva ele a escolher mais queijo, presunto e carne moída do que carne seca, palmito e camarão? É o mesmo processo de estudo e seleção que basicamente fez o mundo o que é, a seleção natural, mas no sistema de trocas que nós convencionamos chamar de “capitalismo”.

O problema é isso ficar concentrado na mão de uma meia dúzia de pessoas. A centralização é sempre ruim. Hoje está nas mãos de umas poucas empresas do Vale do Silício. Professoras como Shoshana Zuboff prefeririram que estivessem nas mãos do governo, mas daria na mesma. Centralização não presta! Aprendam isso de uma vez por todas!

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Como bem dito por Newport a internet precisa de descentralização. Ela nasceu descentralizada e deveria ter sido assim pra sempre. Eu peguei apenas um pedaço da fase selvagem da internet, com seus inúmeros blogs, fóruns e áreas de comentários. Era uma bagunça e era difícil de separar o joio do trigo, mas pelo menos era você quem separava e não alguém que separava para você. Alguém que não te conhece, que vê você apenas como mais uma fração do seu negócio bilionário e alguém que não concorda com o que você concorda!

Então a solução de Newport me soou muito interessante. A ideia por trás do minimalismo digital é seguir algumas estratégias que te farão interagir melhor com as tecnologias que você tem acesso atualmente. O primeiro passo é um mês de desintoxicação. Um mês sem acesso a toda a tecnologia que te cerca, das redes sociais inúteis, aos programas que você utiliza para passar o tempo e os sistemas de mensagem online que você usa diariamente.

A tarefa aí já é difícil, porque muito do que utilizamos hoje em dia acabam não apenas sendo úteis, mas necessários. Eu mesmo uso o whatsapp pra trabalho, poxa! Mas isso é definir suas prioridades. Se você utiliza o Telegram pra trabalho, então por aquelas 8 ou 9 horas em que você tem que trabalhar, use-o. Depois desligue-o. Desintoxique-se e encontre suas prioridades digitais.

Após isso, livre-se de tudo que é desnecessário. Essa semana me livrei do Instagram. Ainda tenho a conta, porque uso ele pra manter contato com algumas pessoas e também porque sigo diversos artistas que curto. Mas o que me levou a desinstalar o app do meu celular foi o fato de que eu perdia mais tempo curtindo imagens no Instagram do que desenhando, então pra que usar isso pra inspiração se eu não exercito minha inspiração com ele? É legal que isso é falado no podcast também e eu havia deletado meu instagram antes de terminar de ouvir.

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Feito isso você vai ficar com muito tempo livre e aí é hora de sair de casa, achar um hobby, suar, se sujar, fazer algo real, analógico.

É hora de sermos radicais. Temos que abandonar a internet, porque ela já não é essa terra de homem nenhum, onde podemos ser livres e felizes. Aos poucos está se tornando mais e mais um terreno de controle social. Só sendo radicais podemos evitar o futuro terrível que o Elon Musk prediz.

E eu não acho que ele está errado. Acho que a Singularização será um fato e não vai demorar muito pra acontecer, mas a humanidade não vai acabar, o mundo analógico vai continuar existindo. Tem pessoas, como o próprio Elon Musk, que há anos alertam sobre os males da Inteligência Artificial e tem um número ainda maior de pessoas que escutam eles. Nós te escutamos Elon Musk.

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Sempre irão existir as pessoas que não irão se misturar com as máquinas, que vão preferir morrer do que serem eternas consciências digitais e irão preferir serem fazendeiros na Terra do que ciborgues em Marte. Amish do século 22, porque não?

Enquanto escrevo isso não posso deixar de lembrar de uma grande voz contra a tecnologia do século 20. David Foster Wallace, que focou especificamente e acertadamente num aspecto muito danoso da tecnologia, que é o entretenimento. DFW falou em diversos escritos sobre os malefícios do entretenimento excessivo que apenas as novas tecnologias poderiam nos trazer. Ele tinha medo dos computadores e da internet, porque viu os efeitos danosos que a TV nos causou. Ele chegou ao ponto de escrever um livro inteiro só pra dizer pra você parar de ler e ir fazer alguma coisa da sua vida!

Mas DFW errou onde o Art of Manliness acerta. DFW olhava as coisas pelo aspecto totalmente negativo e desolado. O mesmo aspecto que o Elon Musk parece olhar atualmente. Bret McKay olha pelo lado positivo e não diz apenas abandone isso e vá fazer algo da sua vida! Ele te diz o que fazer. Vá cortar madeira! Levante pesos! Aprenda a assobiar com dedos! Converse com o seu barbeiro! Peça uma garota em namoro!

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É esse tipo de atitude positiva que precisamos ter também. Não basta apenas olhar para os grandes escândalos, culpar a internet e declarar que o fim do mundo se aproxima. É preciso fazer algo, encontrar um motivo para viver e acreditar que o futuro pode ser melhor, se não para o mundo, ao menos para a sua família.