terça-feira, 15 de setembro de 2020

Dica quadrinística: "Slam Dunk" (1990-1996)

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Finalmente terminou a publicação de Slam Dunk no Brasil pela Panini numa edição de luxo que não deixa nada a desejar para as expectativas criadas em torno dela, mas será que a história valeu todo o investimento?

Slam Dunk conta a história de Hanamichi Sakuragi, um valentão que só se mete em confusão com outros valentões do escola colegial onde estuda, o Shohoku. No entanto, o rapaz tem um coração romântico e após levar mais um fora de uma menina que gostava, se apaixona por Haruko Akagi, que lhe apresenta o basquete e afim de impressionar a menina, Sakuragi entra no time de basquete do colégio.

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O problema é que o time de basquete é constituído pelo irmão mais velho de Haruko e pela sua paixão platônica, Kaede Rukawa, o qual também é um sisudo astro do basquete colegial. Takenori Akagi, o irmão mais velho de Haruko tem a ambição de fazer do Shohoku o campeão do campeonato intercolegial nacional e acaba aceitando a entrada de outros encrenqueiros no time, como Mitsui e Miyagi.

A partir daqui teremos spoiler, TEJE AVISADO!

Do começo do mangá até a entrada e formação de todo o time, acompanhamos um time desastrado lentamente entrar em ordem. E por lentamente, eu quero dizer, shonen-namente lento! As partidas de basquete, que no mundo real duram menos que a metade de uma partida de futebol, duram volumes inteiros, aprofundando-se ricamente em cada um dos personagens, cada um com seu próprio drama, passado e motivação. Essa lentidão serve pra criar uma aproximação do leitor com cada um dos membros do time e, ao final do volume 16, eu literalmente chorei.

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Imagine um filme de esporte muito emocionante... imaginou? Pois é, Slam Dunk é ainda melhor. O Shohoku é um time azarão, vindo de uma escola normal com um capitão (Akagi) que tem um sonho muito grande para a escola em que se encontra. No entanto, com a chegada de Rukawa, um astro do basquete, vê a oportunidade de entrar no campeonato. Sakuragi é um desastrado, mas suas habilidades evoluem muito e, acreditando nas palavras da irmã, Akagi decide dar uma chance para o ruivo. Por fim, Miyagi entra no time após se envolver numa briga com Sakuragi, mas se torna seu amigo e Mitsui, que havia perdido o controle de sua vida, volta para o time. Todos se reúnem em torno do técnico Anzai, que também tem seus próprios dramas, baseados num ex-aluno numa época em que era exigente demais. Aos poucos e depois de algumas derrotas feias, o time vai ganhando espaço, vencendo os jogos, conquistando campeonatos e sempre se superando. Nesse quesito é o típico shonen onde os personagens principais vão tirando poder do rabo e vencendo todos os vilões do nada, mas há uma diferença subtancial: esse não é um shonen comum.

Slam Dunk não se passa numa realidade paralela com poderes especiais, muito pelo contrário, é um mangá bem pé no chão e, ao mesmo tempo em que nos aprofundamos nos dramas pessoais de cada um dos jogadores titulares do Shohoku, mergulhamos também na arrogância dos jogadores dos times adversários que não acreditam que podem perder para um time pequeno como o Shohoku. Nós torcemos a cada página para a descoberta de novas habilidades, para a superação dos desafios e as vitórias que os azarados vão conquistando.

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E tudo tem um custo. Ao final do mangá, o time alcança um nível que, outrora, seria impossível de ser alcançado não fosse o fato de que, para isso, eles sacrificam os seus sonhos. É semifinal, se não me engano, do campeonato nacional e eles estão enfrentando o melhor time do Japão, todos dão tudo de si e nosso anti-herói ruivo sofre um acidente e, literalmente, sacrifica as costas para poder ganhar do melhor time do Japão. O jogo é incrível, super bem desenhado, com uma narrativa incrível guiada pelas sábias e talentosas mãos de Takehiko Inoue, mas é decepcionante.

Não é o jogo da final e o Shohoku acaba perdendo o campeonato. Sakuragi não joga basquete, embora ao final ele prometa para si mesmo que vai voltar a jogar, Akagi não consegue a bolsa esportiva pra jogar basquete, Rukawa não vai para os EUA e Miyagi e Mitsui são os únicos que continuam jogando basquete no Shohoku, ainda um time azarão, ainda não sendo uma potência no basquete japonês, basicamente começando tudo de novo.

É um pouco decepcionante, pois a relação que criamos com esses personagens é muito forte, mas isso é ver o copo meio cheio, pois ao longo do último jogo vemos um time que cresce unido, com jogadores confiando um nos outros e fazendo de tudo pelo time, não só por eles mesmos, mas para que todos pudessem ganhar e se dar bem. É uma baita lição de companheirismo, resiliência e vivência pela comunidade.

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O mangá é desenhado por Takehiko Inoue e é fruto da paixão do autor por basquete. Inoue tem mais fama, atualmente, pelo seu mangá de samurai, Vagabond, mas o traço dele é muito diferente em Slam Dunk. Ao invés do traço rabicado encontramos aqui um traço muito firme, detalhista e com um pé no realismo. A arte é incrível e na atual edição que a Panini acabou de lançar temos o prazer de ver rabiscos do autor e páginas coloridas. Infelizmente, na versão japonesa dessa edição de luxo, temos páginas pintadas mas apenas de vermelho, que é a cor do Shohoku e isso não foi mantido na edição brasileira. Uma pena e faz realmente muita falta, pois essas páginas são substituídas por terríveis tons de cinza bem mequetrefes, os quais não fazem jus ao preço que pagamos. Em todo caso, são detalhes que não diminuem o valor artístico dessa obra sensacional.

A sensação de ver o final dessa série que me acompanhou pelos últimos 5 anos é amarga, mas ao mesmo é um alívio não ter mais que gastar dinheiro com os quadrinhos inflacionados da Panini, como é o caso de Lobo Solitário, o outro mangá que estou colecionando.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Dica teórica: "A Vida Intelectual" (1921)

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Recebi a dica de leitura desse livro de um comentário no blog e, como ouvi falar muito dele, resolvi comprar e li rapidamente. Uma ótima obra, de fato e me arrependo de não ter a lido antes.

A Vida Intelectual foi escrita em 1921 por um dos intelectuais franceses que, na primeira metade do século XXI, revolucionou o pensamento católico ao retornar a filosofia tomista, em desuso na época. É algo difícil de imaginar hoje, quando a Igreja se divide entre líderes populares feito de gato e sapato por quem está no poder e líderes modestos que repousam nos ombros dos gigantes do pensamento ocidental. No entanto, estamos falando de uma obra escrita numa época em que o doutor angélico estava completamente esquecido.

E baseando-se numa carta de Santo Tomás em que ele recomenda 16 passos para um bom estudo, Sertillanges desenvolve conselhos para desenvolver um bom estudo, angariar conhecimento e ter uma boa vida balanceada. Sim, o livro não é apenas voltado para a área da educação, mas ele engloba conselhos para toda a vida de quem tem a ambição de ser melhor, simplesmente.

O livro foca na vida de estudos e é assim que ele começa, como desenvolver uma boa vida de estudos? No entanto, para se ter uma boa vida de estudos, é preciso ter uma vida equilibrada. É preciso paciência, para não se atropelar nos conhecimentos, afinal ninguém aprende física sem antes aprender matemática e ninguém aprende raiz quadrada antes de saber multiplicar e ninguém aprende a multiplicar sem antes aprender adição. O conhecimento é como uma árvore, que tem raízes muito bem definidas, estáveis e fortes, mas que se divide em inúmeros ramos.

E esse talvez seja o principal defeito do ensino brasileiro atual, pois nossos alunos são levados a aprender coisas fora dessa linha de desenvolvimento natural. Abra qualquer livro de português do primeiro ano e veja como são ensinadas as palavras. Ao invés do aluno aprender o beabá, unindo letraspara formar sílabas e sílabas para formar palavras, ele aprende palavras dentro de contextos que, supostamente, deveriam fazer parte da sua realidade.

Nada mais errado...

Mas enfim, além de paciência, é preciso humildade, para saber reconhecer sua ignorância. Lembra dos pensadores que estão em ombros de gigantes? Pois é, os gigantes também estão repousados em algo e Sartilanges nos diz que é a Verdade. Alguém que almeja ser um pensador, levar uma vida de estudos, tem que entender que se busca a Verdade, acima de tudo, mas todo mundo começa de maneira humilde.

Além disso é necessário temperança, para não se sobrecarregar, afinal mesmo o estudo, que é algo bom, pode ser algo ruim. Pra quem é católico, é fácil identificar ensinamentos bíblicos muito populares nas diversas comunidades, como o de que não se peca apenas pelo excesso, mas também pela omissão.

Ao final, aprendemos que a vida de estudos, apesar de parecer rígida e rigorosa, é, na verdade, doce e divertida. É uma vida que todos deveriam almejar, mas alguns tem uma vocação especial para isso. E mesmo aqueles que não tem essa vocação, sempre poderão achar um espaço em sua rotina para os estudos.

A quem almeja essa vida de pensador, mesmo as horas de lazer são aproveitadas para o aprendizados, para a abstração de conhecimento, que se concentra em todas as medidas de todas as coisas. Quanto mais conhecimento, mais próximo estaremos da Verdade.

O livro tem uma popularidade renovada no Brasil. Isso é um excelente sinal, nossa cultura tem de fato evoluído para melhor e podemos encontrar essa obra em diversos formatos, tem capa dura, capa mole, edição bilíngue, enfim... é uma obra básica, como eu disse, deveria ter lido antes, teria facilitado muito minha vida, mas é também uma obra profunda.

Uma obra que merece ser revisitada muitas e muitas vezes.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Dica quadrinística: The Complete Calvin and Hobbes (2005)

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Em meados do ano passado eu realizei uma compra absurda: gastei mais de 200 reais numa caixa com 4 livros num formato muito estranho, retangular deitado, onde se encontravam todas as tirinhas publicados de Calvin e Haroldo, precedidas de um comentário do seu autor.


Hoje, mais de um ano depois, 1450 páginas de leitura finalizadas, percebo que foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.


São 4 volumes, com quase 400 páginas cada um e logo no primeiro, temos um longo texto de apresentação do autor, Bill Watterson, contando como foi sua trajetória de vida, da sua infância numa cidade pequena do interior de Ohio até seus desentendimentos com o sindicato de cartunistas que levou a sua aposentadoria dos periódicos.


A história de vida dele é bem inspiradora. Não é daquelas com enormes e absurdos atos de heroísmo, bravura ou resistência, mas é uma história simples de muitas decepções, esforço e esperança que qualquer um pode se identificar. Formado num curso de desenho na universidade onde um dos seus artistas favoritos trabalhava, ele foi contratado por um período de teste num jornal para fazer charges políticas. No entanto, o trabalho exigia muito mais do que seu conhecimento da realidade local poderia sustentar e ele acabou sendo demitido. A partir daí começou a trabalhar numa agência de publicidade, voltou a morar com os pais, desenhava seus projetos pessoais tentando achar uma oportunidade de emprego como cartunista por 4 anos até que foi contratado por um jornal local perto da região onde cresceu e lá começou toda a história de Calvin e Haroldo.


A obra é magnífica pois nos mostra não apenas a completude das desventuras de um menino hiperativo e seu tigre de pelúcia, mas também o desenvolvimento de Watterson como artista e o desenvolvimento da indústria de histórias em quadrinhos nos EUA.


Mas vamos por parte. Falemos primeiro das aventuras de Calvin e Haroldo.


As tirinhas incluíam inicialmente apenas o garoto, mas logo Haroldo foi apresentado e aí as tirinhas deram um giro de 180 graus para o absurdo. As histórias passaram a incluir dinossauros, aventuras no espaço, aventuras de um herói genérico de capa e máscara, inimigos alienígenas, monstros embaixo da cama, viagens no tempo, mas tudo sem perder a conexão com a realidade. Em nenhum momento somos levados a crer que as aventuras fantásticas de Calvin são reais, muito pelo contrário, somos lembrados a todo momento que elas são imaginárias e que ele é, de fato, um garoto hiperativo e, tenho certeza, um estudante de psicologia dedicado iria encontrar uma série de traços neuróticos no garoto.


No entanto, isso não interessa a Bill Watterson, o que o interessa é tecer críticas e comentários ácidos sobre a condição da cultura americana e fatos do momento, mas que, mesmo hoje, com quase 30 anos de distância, continua atual e é até assustador o quão premonitório são certos comentários e atitudes do loirinho de cabelo arrepiado.


O estilo de Watterson faz um desenvolvimento incrível ao longo das aventuras e isso é o que mais me chamou a atenção ao longo dessa leitura divertida. Começando de forma simples, respeitando as formas geométricas que são a base de qualquer desenho e chegando finalmente ao estilo tão característico e copiado dele, livre, criativo, belíssimo!


E é por ser tão copiado e também por outros fatores que ele não desenha mais. As histórias de Calvin e Haroldo, muito cedo, fizeram sucesso e logo foram surgindo ofertas para serem distruidas para outros jornais e até mesmo para outras partes do mundo, o que levou a minha mãe a conhecê-lo. No entanto, Watterson sempre foi meio relutante quanto a isso e achava legal as tiras serem publicadas, mas ao mesmo tempo não queria que elas se transformassem em produtos altamente mercadológicos. Em pouco tempo surgiram propostas para ele vender os direitos de imagem para bonecos, desenhos animados e afins, mas ele nunca quis.


E então entra a pirataria. Sabe esses adesivos de carro que mostram o Calvin mijando e mostrando o dedo do meio? Pois é... Bill Watterson desperdiçou muito dinheiro pra processar todo mundo que abusava dos seus desenhos, mas chegou num ponto que ele percebeu aquilo que Holden Caulfield nos ensina: "nem em 1000 anos você poderia apagar todos os foda-se do mundo". Ele desistiu de acabar com a pirataria, mas sempre se entristeceu ao ver sua obra ser usada e abusada por aí.


A razão disso é Watterson considerava suas tirinhas mais do que apenas tiras de jornal, mas também obras de arte e tentava explorar o potencial artístico daquilo. Por essa razão sua preferência eram os quadrinhos dominicais, que eram publicados numa página inteira de jornal, coloridos e lá você percebe que ele, de fato, dedicava-se mais.


Eram nessas páginas que havia um cuidado maior com os desenhos, havia uma exploração imensa de possibilidades para enquadrar a história e, de fato, são verdadeiras obras de arte. É, de fato, o que faz o quadrinho ser considerado a nona arte.


No entanto, isso não durou muito. Logo o sindicato passou novas regras para a publicação de quadrinhos, para os valores que os autores recebiam e Watterson se revoltou contra a máfia se tornando uma das vozes mais ferozes contra eles, mas não teve como. E você percebe essa mudança nas páginas, os quadrinhos passaram a ser publicados num formato menor e padronizado. Ainda que Watterson tenha procurado explorar o formato o máximo que pode, inserindo quadrinhos de diversos tamanhos, expandindo o cenário para além das linhas de divisão de quadros e as possibilidades narrativas incluídas ali, não teve jeito. As represálias e a opressão da máfia sindicalista aumentou a um ponto em que ele desanimou completamente de desenho e entre 1994 e 95 entrou num ano sabático.


Eu não sei exatamente quando foi exatamente que os fatos que mencionarei aconteceram, mas sei que Watterson não estava sozinho e Jeff Smith foi um influência para Watterson desistir de tudo. O mercado de quadrinhos independentes já existia há tempo, mas foi só no início dos anos 90 que ele bombou e Jeff Smith se tornou uma de suas figuras mais importantes com a publicação de Bone. Smith foi o cara que decidiu montar os encadernados de seus gibis e vendê-los em livrarias. É óbvio que o negócio deu certo e seguindo a mesma ideia, sabendo que era possível, Watterson abandonou o sindicato, os jornais e decidiu publicar por conta os livros que nós conhecemos de Calvin e Haroldo.


Infelizmente essa edição histórica não está disponível em português, mas ouso dizer que vale a pena o original em inglês, pois eu identifiquei várias piadas que foram neutralizadas em português, como piadas que fazia referência ao comunismo. Portanto, em inglês, você tem ideia da total dimensão que as aventuras de Calvin e Haroldo alcançavam em sua crítica, ainda atual, à sociedade.


Uma obra de arte magnífica, um trunfo da nona arte, de valor social, história, artístico, mas principalmente, de divertimento.


A ver: Querido, sr. Watterson.





quinta-feira, 3 de setembro de 2020

O que eu perdi: "You Are Beneath Me" do End of a Year (2010)

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Completando 10 anos em 2020, You Are Beneath Me é a desculpa perfeita para eu restaurar essa categoria de posts que não recebe atualizações há mais de um ano.

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You Are Beneath Me é o terceiro álbum do Self-Defense Family, que em 2010 ainda se apresenta sob a alcunha de End of A Year e é sob essa alcunha que eu lhes apresento, até porque há uma mudança na forma como a banda se comportou após a mudança de nome, pois até então eles eram muito mais hardcore puro e simples do que a banda experimental de rock que se tornaram a partir do excelente Try Me, embora os elementos que viriam a classifica-los como "rock experimental" já estivessem todos ali, em You Are Beneath Me.

A começar pela primeira faixa do álbum, a qual é simplesmente um receituário de como ouvir apropriadamente este álbum, com caixas de som ruins, distribuídas numa forma triangular ao redor da sua cabeça, além de alguns conselhos pra sua vida, como entender que seus pais merecem respeito até o momento em que eles se divorciarem e que você deve se render a mídia. Isso tudo é feito num spoken word típico do Patrick Kindlon, o talentoso vocalista que é também escritor de HQs.

Aliás, todas as canções contam com esse vocal falado, que não parece ser propositalmente colocado ali para parecer um spoken word, é apenas o jeito que o Patrick escolheu "cantar", não cantando. Para quem acompanha os outros álbuns do Self Defense Family e Drug Church (outro projeto musical do cantor), sabe que ele, hoje, tenta cantar, mas naquela época ele ainda estava pouco se lixando para isso.

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Isso é claro que afasta muita gente, mas acho que poucos iriam negar que a banda é muito boa, harmonicamente falando. Contando com referências daquele estilo de hardcore que se popularizou em volta da capital dos EUA (a minha preferida sendo o Bad Brains), eles criam um som rápido, explosivo, mas não agressivo como muitas bandas mais próximas do metal. Há também uma veia mais próxima do indie, que na época já flertava com o hardcore nos EUA e iria culminar naquele excelente álbum do Cloud Nothings e no Title Fight.

Todas as canções, exceto a primeira, são nomeadas com base em pessoas que os membros da banda conheciam, mas isso é apenas um detalhe interessante, nada que afete os "conceitos" trabalhados, que não encontram nenhuma coesão. As letras falam de basicamente qualquer coisa, desde como ouvir o álbum, até os desejos humanos, a falta de explicação para porque alguns idiotas roubam e heranças. Tudo com um ar debochado típico dos descolados daquela época, sem achar um tema em comum que cole tudo junto. As letras estão mais para grandes aglomerados de ideias e pensamentos que transitavam pela mente do vocalista quando ele as escreveu, mais ou menos como um grande fluxo de consciência punk regrado a fortes e enérgicas melodias.

O álbum completa dez anos agora em 2020, mas ainda não recebeu todas as gratificações que merecia, pois ele adiantou muita coisa que viria a aparecer tanto na cena do indie rock quanto na cena do hardcore nos EUA e talvez fosse até por isso que a banda acabou aparecendo em grandes festivais de música após o lançamento.

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Aos que gostariam de ouvir mais, a continuação da banda como Self Defense Family não é recomendada, mas os vocais de Patrick Kindlon encontram uma continuação junto de Drug Church, que é o projeto mais próximo desse álbum no momento e é igualmente incrível.

Em todo caso, fica aqui o meu obrigado a banda por soltar essa pérola e também um parabéns por terem realizado tal projeto, que foi muito bem sucedido, envelhecendo deveras aprazível para a audição de quem curte umas boas guitarras rasgadas.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Dica cinematográfica: "Lu Over the Wall" (2017)

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Hoje a dica é de um filme que eu, lastimavelmente, perdi na época em que ele saiu.

Lu Over the Wall é mais um filme criado pelo incrível Massaki Yuasa, que já apareceu aqui no blog algumas vezes e conta com o seu característico estilo de desenho colorido, fluído e personagens alongados. Dessa vez ele nos conta uma história de amor a-lá Ponyo, mas da maneira única dele.

Logo no começo do filme começamos Kai, um típico garoto personagen principal de animes, sente-se isolado, não conversa com muita gente, senta perto da janela na escola e esconde um talento: o da música. Kai passa as noites fazendo canções, o que atrai a atenção de uma sereia que mora na baía próxima a casa dele. Curioso, ele decide ensaiar com uma banda de dois colegas de sala, os quais tinham acesso a uma enorme rocha cujas lendas diziam que protegia as sereias. Nesse dia, Kai conhece Lu, uma serei muito animada, que quando ouve música consegue transformar seu rabo em pernas e pode interagir com humanos.

A partir daí o grupo se envolve em várias desventuras, que levarão Lu a se tornar uma sensação da cidade, seu pai também aparece, ajudando os pescadores, os dois (pai e filha) serão presos, junto com Kai e seus amigos quebrarão a maldição da grande rocha e terão que se mudar.

Sim, eu entreguei o filme todo, mas não se sinta mal com isso, pois não é essa história principal o que importa. O que importa é como a narrativa é bem guiada nessa obra, coisa de mestre mesmo e que mostra o quanto o Masaaki Yuasa está próximo dos grandes nomes do cinema de animação, como Walt Disney e Hayao Miyazaki. Claro que o foco dele não são filmes para a família, mas se fosse já teria se tornado um queridinhos dos nerds e otakus de plantão.

Esse filme é a prova cabal disso.

No entanto, ele conta com seu característico estilo de animação e eu sei que isso acaba afastando muita gente da sua obra. Não entendo como, mas essa é a realidade. Tem muita gente que não gosta do seu estilo de desenho.

Já eu acho um deleite para os olhos e nessa história mais ainda, pois há a presença de muita água e se há algo que encaixa muito bem com seu estilo de animação é água. O estilo já é fluído e leve, encaixando perfeitamente com a temática, como se a animação fosse uma extensão da história, contribuindo ainda mais para a construção da narrativa.

O filme ainda conta com uma trilha sonora incrível, cheio de músicas pops reais japonesas. Mas também não poderia ser menos do que isso, porque boa parte do filme também é focado no tema da música; todos os personagens têm talentos musicais. Assim como a animação, a trilha sonora também se encaixa como uma luva no filme, transformando-se em parte integrante da narrativa e contribuindo para a sua construção.

E aí, o que mais você precisa saber pra ir assistir Lu Over the Wall?

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Crônica: Gabriela e Paola discutem aborto

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Quando, após o almoço, Paola ouviu o repórter anunciar na TV que ministros do STF absolveram um médico que realizava operações abortivas em sua clínica no Rio de Janeiro, entendendo que até o 3º mês, o ato não seria crime, a menina ficou eufórica. Sendo uma, autonomeada feminista, achou isso um ato de extrema humanidade, um grande passo para as mulheres do país e já havia entrado em calorosas discussões com sua mãe sobre o assunto. Morando numa cidade pequena como aquelas, suas opiniões acerca do tema já haviam sido espalhadas para todos os bairros, praças, casas e ruas estreitas. Paola mal podia esperar para ir à escola naquela tarde e você podia entender pelas suas passadas apressadas no corredor em direção à pequena biblioteca do segundo andar, onde ela iria encontrar Gabi, a sua melhor amiga naquele atarefado, porém jubiloso, 2º ano do colegial.

A chuva do lado de fora, culpada por fazer o princípio da tarde parecer um final escuro de tarde, era a causa do sono que Gabi sentia, curvada sobre uma mesa de estudos, tentando tirar um cochilo, pensando qual a melhor forma de adjetivar uma figura de linguagem impessoal e se isso lhe valeria alguns pontos a menos quando entregasse sua redação na próxima aula.

“Você ouviu?”, perguntou Paola para a amiga, assim que entrou na biblioteca. Não havia mais ninguém ali, por isso ela podia fazer barulho como se estivesse em casa, só que não fazia, porque não estava em casa, estava na escola.

“O quê?”, indagou Gabriela levantando o rosto da carteira e jogando seu cabelo para um lado da cabeça.

“A notícia sobre aborto!”

“Ah, sim...”, respondeu Gabi, debruçando-se novamente sobre a mesa.

“E aí? Demais, né?”, inquiriu Paola, sentando numa carteira à frente da amiga.

“Por que seria?” foi a resposta de Gabi.

“Por que seria?”, repetiu Paola “Ora, porque é importante. Pode ser o primeiro passo para legalizarem o aborto finalmente.”

“Ele já é legalizado.”

“Não é não. Se você ficar grávida não pode abortar.”

“É legalizado em todos os casos necessários, se é uma gravidez fruto de estupro, se o bebê ou a mãe correm risco de vida ou se o bebê é deficiente.”

“Anencéfalo.”

“O quê?”

“Se o bebê é anencéfalo.”

“Continua deficiente.”

“A questão é que não é legalizado, ele é ilegal, exceto esses casos.”

“E além desses casos, porque você quer abortar? Pura vaidade?”

“Eu não quero abortar, eu quero apenas ter a escolha de abortar!”

“Por que ter a escolha se você não vai usar?”

“Eu posso não usar, mas alguém vai!”

“E essa alguém vai usar por quê? Por pura vaidade?”

“Qual o problema com a vaidade? Deixa as pessoas serem vaidosas, é problema delas!”

“Até o ponto em que elas prejudicam outra pessoa.”

“E como elas poderiam prejudicar outra pessoa nessa questão, hein?”

“Vão estar matando alguém.”

“Ah, por favor, o bebê nem tem consciência até os 3 meses de vida!”

“Mas vai ter.”

“Só se ele se desenvolver além dos três meses.”

“Você não pode pensar assim, não é porque ele não desenvolveu consciência que ele não é um ser humano. O processo que antecede o desenvolvimento da consciência é parte da construção da consciência, é claro que não ele não tem consciência até os 3 meses, ele não tem nem cérebro, mas o seu corpo está sendo construído para que se tenha um cérebro. As células do cérebro (e, por consequência, da consciência) já estão ali, crescendo.”

“Isso é besteira!”

“Nenhum médico vai negar o que eu disse.”

“Por que obrigar uma mulher a cuidar de um filho que ela não quer?”

“Ninguém é obrigado a nada.”

Você tá falando do quê? Adoção? É ridículo! A maioria das crianças vão pra orfanatos ou pra lares abusivos!”

“Isso é uma falácia! Sobre os lares abusivos, eles não são a maioria, não tem nem como ser. É ridículo pensar assim. E depois, se você legalizar o aborto, as crianças vão continuar indo para os orfanatos. Esse é outro problema, muito mais urgente, inclusive.”

“Mais urgente? Qualé, Gabi, estamos falando do seu direito de escolha!”

“Que escolha? Não é escolha se só te é oferecido uma opção.”

“As pessoas têm várias opções, inclusive de não engravidar, mas se engravidar, pode ter o poder de escolher abortar!”

“Você sabe que não é assim. Nós temos escolhas, mas nós temos uma biblioteca no nosso colégio particular, nós temos um pai e uma mãe em casa nos esperando, nós temos celulares de última geração...”

“Aonde você quer chegar com isso?”

“Eu quero chegar ao ponto em que você diz que os países mais desenvolvidos do mundo legalizaram o aborto.”

“E legalizaram!”

“Mas as mulheres que mais abortam nesses países são pobres, porque as mulheres ricas tem outras opções que não abortar.”

“Pelo menos elas não estão morrendo em clínicas clandestinas.”

“Mais uma vez isso é outro problema, não é preciso legalizar o aborto pra resolver isso. De certa forma, eu sou pró-escolha também, mas as boas escolhas.”

O sinal tocou e as duas pararam de conversar. Haviam duas aulas de matemática e duas de Literatura para terminarem a tarde e logo sentiram um grande cansaço, não só da discussão que tiveram, mas também do que teriam que encarar nas próximas horas. Do lado de fora, a chuva ainda caía, mas com menor intensidade.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

Aceite! O Covid veio para ficar.

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Semana passada li um artigo alarmante: o risco fantasma do Covid-19.

O artigo fala basicamente que o mais preocupante para o autor, um economista não-otimista, é que as preocupações e o estigma gerado pela crise do vírus chinês irão continuar por muito tempo após essa crise passar. Por fim, a questão não é quando essa crise inteira vai passar, mas quando o estigma vai passar?

Logo no início do texto ele nos apresenta com ideias muito interessantes: o desenvolvimento das vacinas estão muito a frente do esperado, novos e mais baratos testes estão sendo desenvolvidos, novas informações são obtidas diariamente sobre o covid, o que resulta em menos mortes e há uma queda progressiva na mortalidade do vírus. Ele cita o seu condado de habitação, Fairfax, VA, que apresenta dias inteiros sem mortes e eu apresento a minha região, o norte do Paraná, que também apresenta uma taxa de mortalidade muito baixa (sem restrições exageradas às liberdades individuais).

Mas isso basta? Com a mídia incutindo na mente das pessoas números inflados de mortes, dramatizando as tragédias cotidianas e mascarando fatos positivos, não, não basta. Não basta, porque no atual momento, o coronavírus adquiriu um estigma, de acordo com o ponto de vista do autor.

E é algo que eu consigo ver claramente. Semana passada, após um mês em que estava na casa dos meus pais e deixei o meu cartão virar, voltei à academia e qual não foi a minha surpresa quando descobri que não poderia entrar, porque tem que marcar horário agora. Sorte que choveu a semana passada inteira e pude entrar, mas ainda assim, tive que esperar meia hora.

A cidade onde moro está numa situação perfeitamente controlada. Há dias inteiros onde não tem mortes, as unidades de UTI nunca chegaram perto de lotar e a maioria dos infectados apresentam sintomas leves. Ainda assim, tenho amigos que evitam sair de casa, até mesmo pra caminhar; pessoas que só saem de casa pra ir no mercado e na farmácia; enfim, que se comportam como se o fim do mundo estivesse se instaurando.

Mal sabem que o fim do mundo é o estado natural das coisas.

Assim como o autor do artigo na Bloomberg diz, o estigma criado pelo coronavírus não irá nos permitir voltar à nossa zona de conforto. Estava pensando em escrever que já vivemos no melhor cenário e essa é a oportunidade perfeita, mesmo no Brasil: já temos dados que não houve um aumento considerável de casos mesmo após a abertura do comércio, todos os tipos de estabelecimentos estão se adaptando a essa nova situação e se fizer direitinho, dá pra fazer tudo, ir à missa, bares, cinemas, enfim... estamos no melhor cenário.

Ah, mas tem mais de mil mortes por dia!

Bom, estamos numa pandemia, o que você esperava? Há de salientar que a maioria das pessoas que fazem parte das estatísticas de morte já apresentavam comorbidades, portanto, morrer COM Covid não é o mesmo que morrer DE Covid.

Ainda assim, as pessoas não se sentem confortáveis. Vivemos numa época em que uma morte vira notícia de primeira página! Sério, aqui na cidade isso aconteceu. O debate sobre o Covid não é mais pautado pela ciência, muito pelo contrário, é pautado pelo medo, a histeria e, principalmente, a ideologia.

Eu só anseio pelo fim da histeria, só isso.

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

#juntospelocinema

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Essa semana Érico Borgo foi amplamente criticado na internet, porque anunciou o Festival De Volta Ao Cinema, uma iniciativa que reúne diversas empresas de cinema brasileiras para incentivar o retorno aos cinemas através da exibição de clássicos do cinema.

Ele foi criticado, obviamente, pela pandemia... as críticas foram as óbvias... vai aumentar o número de casos, as pessoas estão morrendo a rodo, enfim... o blablablá de sempre. Não adianta discutir com essas pessoas, eles não vão mudar de ideia... não adianta mostrar que o pico, provavelmente, já acabou ou que há faixas etárias que tem uma taxa de transmissão muito baixa ou ainda que a flexibilização da quarentena não aumentou os casos da doença. Não adianta... eles não mudam de ideia, porque esse assunto não tem mais nada a ver com ciência, é pura ideologia política.

Mas vale a pena salientar que a iniciativa é muito boa. O festival apresenta diversos clássicos, como Superman de 78, Os Caça-Fantasmas, Tubarão, Batman: O Cavaleiro das Trevas e Homem-Aranha no Aranhaverso. Claro, tem filmes bem ruins no meio, como os nacionais e Crepúsculo, mas a iniciativa é bacana, pois busca incentivar a reabertura das salas de cinema e também o retorno do público, o qual, ao ver clássicos que ama sendo reexibidos se sentirão mais motivados para saírem de casa.

E aí você pode contestar isso, dizendo que devemos ficar em casa e tal, mas já passamos dessa fase. Essa novela do coronga tem se arrastado por muitos meses e não tem mais como segurar as pessoas em casa, a vida já deveria ter voltado ao normal, mas não é disso que se trata.

Como o próprio site oficial do projeto garante, as medidas de segurança devida serão tomadas: uso de máscaras, monitoramento, distanciamento de lugares e limpeza. Não há porque reclamar ou mesmo achar isso uma irresponsabilidade. Muitos cinemas têm sofrido com essas medidas exageradas, pois nem todos conseguem alugar um espaço bacana pra fazer drive-in e aí, ficam no vermelho, até não conseguir segurar as pontas e falir.

Isso não colocar a economia na frente da saúde, é colocar a saúde ao lado da economia. Essa conversa não é 8 ou 80. Se fizer direitinho, dá pra fazer.

E é por isso que eu apoio o movimento #juntospelocinema e espero que eles tragam de volta para as salas de cinema mais filmes clássicos e que o Festival se repita ano após ano.

Aliás, essa já era uma ideia que eu sempre achei que deveria ser amplamente divulgada, a reexibição de clássicos nos cinemas, porque, afinal, deve ser muito bom ver o filme que você mais curte na telona. Tomara que a ideia resista a turba furiosa de tuiteiros e consiga prevalecer.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

Uma nova civilização está nascendo

Homo sum nihil humani a me alienum puto

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Estou maratonando a série Civilisation, que estava devendo há muito tempo e logo, logo deve virar um post aqui no blog. Mas eis que, no episódio 6, Protest and Communication, Kenneth Clark nos apresenta uma situação que muito se equipara aos problemas sociais vivenciados por habitantes do hemisfério ocidental em plano ano da desgraça 2020.

Neste episódio, Kenneth Clark abandona as calorosas terras italianas para tratar da cultura que começava a ganhar força e impulso no norte da Europa e iria mudar a civilização para sempre, através de três personagens principais: Erasmo de Roterdã, Albrecht Dürer e Martinho Lutero.

Como já sabemos pelas lições de história, Erasmo de Roterdã, com suas críticas às instituições de sua época foi um grande influenciador das ideias do revolucionário Martinho Lutero, que rompeu com a Igreja Católica, criando as inúmeras vertentes do cristianismo que vemos até hoje. Dürer foi o artista principal dessa história, na visão de Kenneth Clark. Foi através de Dürer que o mundo pode visualizar como se deu essa história toda, ilustrando o espírito que dominava o norte nessa época.

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Um espírito imponente, voltado ao estudo das letras e não a admiração de imagens, como aconteceu na Itália renascentista, um espírito livre. Não é a toa que Dürer fez um auto-retrato que parecia uma paródia de Jesus Cristo, como se o artista fosse Deus. Algo impensável na época, mas não para o espírito livre, ousado e contestador do povo do norte europeu.

E foi através desse espírito, impulsionado por tais homens ilustres, que a Reforma Protestante aconteceu e com elas as revoluções que acabaram culminando nas Guerras Religiosas. No entanto, um passo antes desse triste fim, algo interessante ocorreu: sendo uma revolução puramente popular, seus manifestantes não se preocupavam com as demonstrações artísticas católicas, não sabendo diferente o valor exterior de seu conteúdo, realizando assim a destruição de imagens

A história parece se repetir, não é?

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Vemos hoje em dia manifestações puramente populares, derrubando as manifestações artísticas que compõem parte da nossa civilização, pois nos aproximam da história, quer goste você ou não.

H.G. Wells em sua extensa obra The Outline of History separou as civilizações em dois tipos: as civilizações de ordem, que deram origem de fato às civilizações, no Egito e Mesopotâmia e as civilizações de vontade, marcadas pelos povos nômades, notadamente os povos do norte da Europa, os bárbaros que os romanos temiam.

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É isso que ocorreu na época de Erasmo, Dürer e Lutero, o embate desses dois tipos de civilizações e o resultado é sempre o mesmo, as civilizações de vontade acabam imperando. Não tem como contornar isso. É uma luta desigual, onde um lado atua através da lei, da temperança e do diálogo e o outro lado atua através da ferocidade, da violência desenfreada e do caos. Um lado quer manter a estagnações ordeira, o outro almeja a destruição das bases civilizações, pois as enxerga como puramente malignas.

É interessante que o próprio Erasmo escreveu, ao ver um grupo de protestantes sair de uma reunião, que os via como que carregando um espírito maligno. O primeiro expoente do protestantismo mesmo viu com horror as consequências de seus questionamentos, os quais deveriam ser muito justos, mas encontraram uma revolução turbulenta com resultados insatisfatórios, como sempre ocorre.

No final, Kenneth Clark nos pergunta, qual papel poderia ter uma mente esclarecida e maneirada numa sociedade em ebulição? A de reclusão, obviamente e aí somos apresentados ao grande Michel de Montaigne, que apesar de ter perambulado por toda a Europa e frequentado os círculos mais importantes de sua época, decidiu viver a vida toda recluso nas terras de sua família, isolado em seu castelo.

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Numa sociedade em ebulição, aos boas mentes não encontram espaço para falar e é exatamente isso que vemos hoje em dia. Ou você é um completo radical de um lado ou de outro, ou você se rende ou se vende, não tem meio-termo e quem é do meio-termo só pode fazer o quê? Dar um passo atrás e se refugir na sua zona de conforto. E eis que vemos produtores de conteúdo se isolando cada vez mais, criando canais de assinatura onde seu conteúdo fica disponível a um público diminuto, porém fiel, redes sociais cada vez mais vazias e, na vida civil, opiniões cada vez mais silenciosas.

Não é a toa que o mercado de produtos por assinatura tem crescido tanto, afinal. Numa época em que ler Monteiro Lobato é problemática, o ato de comprar um livro se tornou perigoso. Pensar é crime.

Isso é claro que é ruim, mas assim como após as Guerras Religiosas uma nova civilização surgiu, a da linguagem, do material escrito, no lugar da civilização da imagem, das pinturas e esculturas, talvez vejamos o nascimento de uma nova civilizações depois de todo esse período de turbulência. Se será bom ou não, isso não nos cabe, mas se virá (e eu tenho certeza que virá), novos gênios também surgirão, inspirando pelas mentes esclarecidas, maneiradas, criativas e isoladas de nosso tempo.

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domingo, 9 de agosto de 2020

Dica especial de dia dos pais 2020: Chichi Ariki (1942)

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Mais uma dica especial para o dia dos pais e, dessa vez, com mais um filme japonês. O diretor escolhido foi Yasujiro Ozu, um dos meus favoritos.

Contando a trajetória de um pai que abandona o seu trabalho de professor após a morte da esposa e se muda de cidade com o seu filho, Chichi Ariki nos apresenta uma bela história de amor entre um pai e filho, ambos com seus sonhos e batalhando para continuar vivendo no Japão pós-Segunda Guerra Mundial.

Filmado em preto e branco, é um filme rápido, mas muito bonito. Sua narrativa é o que mais me chamou atenção, pois ela progride muito no meio do filme, mas sofre uma boa desacelerada caminhando para o final. Dessa forma, o filme mostra o desenvolvimento da relação entre pai e filho, exibindo todo o seu mimetismo.

Para olhares contemporâneos, o filme parece caminhar toda hora para um debate acalorado, mas Yasujiro Ozu é uma mente em paz e o seu filme não é nada mais que singelo. Em nenhum momento pai e filho se rendem aos debates (ou seria melhor, combates) que a porca cinematografia contemporânea tenta enfiar goela abaixo dos espectadores. Aqui a relação é íntima, apesar de geograficamente distante. Ambos, pai e filho, nutrem um respeito mútuo grande e o que os une é a afetividade.

Esteticamente, a obra é um petardo. Filmado no característico estilo do Yasujiro Ozu; a câmera na altura de uma pessoa sentada, mais próxima ao chão, mas focando em alguns momentos no rosto dos personagens. Todo em preto e branco, o filme é muito bonito, principalmente na versão restaurada pela Criterion.

Uma ótima pedida para o dia dos pais.

5 pontos

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Dica musical: "No" de Boris (2020)

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Não fiquei atento às notícias e perdi o lançamento desse álbum, mas o atraso foi bem-vindo. Comecei ouvindo-o enquanto assistia às imagens do maior cosplay de Akira já feito explodir no Líbano e não há momento melhor para No do que 2020.

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Eu até hoje não entendo o que tá acontecendo, mas Boris, a lendária banda de rock pesado e outras coisas do Japão lança o álbum perfeito para esse ano, o álbum perfeito para encarar o fim do mundo que não é, afinal, o mundo parece à beira do colapso, mas não adianta espernear, é o que temos e é o que teremos pelos próximos anos. É isso aí, se acostuma que esse é o só o ano um, ainda virão muitos outros.

E entrando no ano um com um chute na porta, Boris nos entrega esse álbum que é puro hardcore do tipo mais pesado, com riffs rápidos de guitarra, bateria explosiva, baixo acelerado e vocais gritantes. É um deleite para quem curte o gênero!

No entanto, estamos falando de Boris, a banda que lançou um dos melhores álbum de punk-rock da história lança um álbum de dream-pop todo limpinho e leve, ou seja, No não é puro hardcore pesado, embora ele seja isso também. Todas as músicas passam dos dois minutos e algumas são bem longas para os padrões do hardcore, mas além disso, temos elementos vindos diretamente do metal e seus subgêneros que o Boris entende muito bem, doom, stoner e drone auxiliam na criação de uma atmosfera caótica, pesada e obscura.

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Mas é do caos, do peso e da obscuridade que saem as pérolas que Boris produz. Os sons distorcidos, a gritaria e a velocidade soam como uma terapia para os tempos atuais e não é difícil encontrar adjetivos próximos a isso nas resenhas desse álbum. Afinal é disso que precisamos, algo explosivo, destrutivo, para recomeçar tudo. E No, terminando com um singelo e atmosférico interlúdio, é essa exata mensagem, um recomeçar enérgico e explosivo.

No entra para o catálogo de um dos melhores álbuns de Boris, com certeza. É uma explosão atrás de outra, um som muito pesado, com todas as marcas registradas da banda, mostrando que eles ainda tem criatividade para dar e vender.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Sim à vida.

índice

Esta pintura foi feita por uma artista plástica mexicana, doada esta semana a uma paróquia da Cidade do México. A pintora realizou a obra celebrando a decisão da Suprema Corte do México de _não aprovar a lei do aborto no país.
Título da obra: Nossa Senhora da Vida ✨
Está na Paróquia S. Josemaría, na capital mexicana.
Não sei se é verdade, mas não poderia perder a chance de divulgar essa bela pintura.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dica musical: "Lil House" da banda mais incrível do momento, Angel Du$t

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Já está escrito no título, mas é sempre bom lembrar: Angel Du$t é a banda mais incrível do momento e o lançamento surpresa desse EP que venho indicar aqui é mais uma prova sólida disso.

Surgida como um braço do Turnstile, a banda de hardcore mais foda do momento, Angel Du$t fazia um som abrasivo, agitado, pesado e juvenil, mas que não era excepcional como a sua banda irmã fazia e deixava todos de queixo caído. E aí, ano passado, eles lançam o Pretty Buff, o melhor álbum de 2019, mas com uma sonoridade muito distante de tudo que a banda já havia testado até então.

Um pop-rock com os pés do punk, experimentando com diversos instrumentos diferentes, de maneira simples, porém criativa, sem se importar com o resultado e saiu uma belezinha.

Continuando na mesma pegada, Lil House parece um spin off de Pretty Buff, mas no melhor dos sentidos. Parece um spin off, porque segue na mesma pegada experimental e pop do álbum anterior, até se distanciando um pouco do punk com Never Ending Game, o single do EP, mas mantendo uma pegada experimentalista, testando diversos elementos, que não foram testado até então.

https://youtu.be/z0g0Rx6PVBg

O saxofone, que marcou excelentes canções no álbum do ano passado, lastimavelmente, não retornou, mas em compensação, temos alguns elementos eletrônicos antes de começar a pedrada indie rock de Turn Off The Guitar e uma percussão marcante, mas cheia de variações e texturas na música que dá o título ao EP. Por fim, o violão ocupa o papel principal no single.

Aos que ainda duvidam da genialidade da banda, prestem atenção ao ritmo das canções, que muda de tempo em muitas partes dela, dando aquele "groove" gostoso que dá vontade de dançar quando a gente escuta essas três pérolas que é o melhor que o rock tem a nos oferecer atualmente.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Hoje eu faço 26 anos

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Faço 26 anos. Ano passado foi o melhor ano da minha vida e esse tem sido um dos piores.

A tirinha ilustrando essa postagem é bem significativa para mim, pois ela exibe nas sombras aquilo que as luzes não aceitam no seu meio. Essa tirinha foi escrita em 1989, é a última dentro de uma série de tiras que contam como a família do Calvin foi roubada e, na última tira da saga, a mãe reconforta-se em pensar que perderam bens materiais, mas eles mantêm aquilo que importa, eles mesmos.

O que a tirinha não mostra é uma lição para os tempos em que vivemos e o motivo de minha tristeza: esquecemos de nós mesmos, esquecemos o que realmente importa. Por culpa do Covid-19 pessoas que eu considero muito têm reagido de forma histérica, paranoica e surrealista. Elas evitam que eu entre em contato com elas, não me abraçam, não me beijam, exigem que eu tome banho toda vez que volto de casa após ir à padaria a apenas 100 metros de casa. Elas não me escutam, não importa a quantidade de dados que eu apresente a elas, as citações de prêmios Nobel de química, de estudos científicos e dados brutos, elas não acreditam em mim. Preferem acreditar no que o jornal diz, preferem ver o copo sempre meio vazio e preferem se isolar. Se eles se isolassem do mundo, estaria tudo bem, mas eles se isolam de mim e isso é o que mais machuca.

Hoje meu psicólogo me diz que eu devo ficar quietinho em casa, sozinho e encontrar formas de me encontrar com as pessoas que amo em outras dimensões, dizendo que isso é o “novo normal”. Ano passado, se tivesse dito para ele que prefiro me encontrar com pessoas que amo em “outras dimensões” e achasse isso “normal”, ele teria me enquadrado em algum transtorno psicológico que exige atenção. E pela primeira vez sinto que ir ao psicólogo tem piorado a minha saúde psicológica.

Outro dia vi que as mortes não chegam a 5% do total de infectados, com grande chance desse número ser ainda menor. Vão dizer que são 70 mil brasileiros que tiveram suas vidas ceifadas e perguntar até quando a morte será relativizada? Mas eu digo que só no primeiro mês 60 mil empresas foram fechadas, impactando diretamente a vida mais de 100 mil brasileiros, 100 mil vidas que foram jogadas ao desemprego, a pobreza e, por fim, a morte. Até quando iremos relativizar a miséria?

Até quando iremos colocar uma focinheira de pano toda vez que saímos de casa? Até quando eu não poderei abraçar meus queridos parentes, amigos e outros entes queridos? Nos prometeram um pico em maio, depois junho, já falaram em agosto, mas hoje quando eu digo que não tenho esperança que as coisas melhorem até o final do ano, acham normal. Toda essa apatia e aceitação cega do que supostas “autoridades” nos dizem me machuca muito. Não importa que essas autoridades tenham errado desde o início de todo esse drama, simplesmente irão me dizer que cada um está fazendo o melhor que pode pra poder lidar com essa situação.

Mas que “melhor” é esse que se afasta dos outros? Que exige um comportamento anormal e histérico das pessoas que supostamente ama? Que “melhor” é esse que, no melhor cenário, aliena as pessoas e, no pior, machuca, fere e ignora o sofrimento dos outros? Com certeza, os alemães que denunciavam judeus também estavam fazendo o seu melhor e é pensando nisso que eu proponho um novo ditado: de “melhores” o inferno está cheio.

Por trás de todo discurso politicamente correto que pede que eu faça o meu melhor, que eu fique sozinho em casa, que eu passe a interagir com quem amo em “outra dimensão”, eu vejo um misantropo escondido e isso me fere, me machuca e me faz sofrer.

Hoje eu faço 26 anos e o único presente que eu posso pedir é que me escutem, por favor. Eu tenho coisas a dizer e que não são loucuras, eu tenho coisas a dizer que tem comprovação científica, eu tenho opiniões sinceras, que, por mais absurdas que possam parecer, são reais, vem direto do meu âmago e representam uma parte de mim. Essas coisas, por mais absurdas, irreais, insensíveis e crueis que possam parecer são apenas parte da minha incessante busca pela Verdade.

A Verdade não se encontra nos jornais, nas opiniões de "especialistas", na "ciência" como entidade abstrata, mas nos estudos que dão trabalho para ler, nos grandes clássicos de ficção com linguagem arcaica, nas opiniões ousadas e que fazem os ouvidos doerem, a Verdade se encontra quando você nada contra a corrente e apenas a Verdade pode nos levar a realização de nossas vidas, pois a Verdade liberta.

O único presente que eu posso pedir é para que busquem a Verdade e se libertem comigo.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Links sortidos de quarta #45

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Continuamos lembrando que imposto é roubo.

A pandemia é uma farsa.

Por culpa dos criminosos de toga, o Brasil afunda cada vez mais no obscurantismo, mas não podemos nos esquecer de que isso já foi escrito e há um ano, Weimtraub, o maior guerreiro que o governo Bozo já viu, nos alertava disso.

Mesmo com o Novo traindo o povo brasileiro com princípios puramente econômicos, continuo confiando no partido, que tem membros muito decentes, o maior deles, talvez, sendo Marcel van Hattem.

Porque todo homem deve ser forte?

Na raba, toma buttercup!