terça-feira, 23 de abril de 2019

Dica cinematográfica: “4 Aventuras de Reinette e Mirabelle” (1987)

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Rohmer foi um dos maiores gênios da cinematografia mundial. A promessa tardia da Nouvelle Vague não foi transgressor como Godard, nem ousado e criativo como Truffaut, mas é na simplicidade e intelectualidade que restam os louvores de sua obra. Este filme não é exceção a regra, mas sim um dos melhores exemplos dela.

Quando Mirabelle fura o pneu de sua bicicleta numa estrada de chão durante uma viagem de férias no interior com a família, conhece Reinette, que ajuda a garota a recuperar o pneu do veículo. As duas logo se tornam amigas e juntas acabaram passando por 4 aventuras, todas narradas de um jeito singelo e belo, como apenas Éric Rohmer poderia ter feito.

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As duas jovens são muito diferentes e é em seus contrastes que o filme se sustenta. Não apenas fisicamente, uma morena e a outra loira, mas também na personalidade. Reinette é um moça do campo, mas que conheceu muitos lugares, pois viajou para vários lugares com a família. Foi educada em casa e é dona de um senso de ética e moral muito forte, o que a impede de compactuar com algumas atitudes e pensamentos de sua nova amiga. Mirabelle é uam garota que cresceu em Paris, um cidade grande, portanto acabou adotando uma postura mais racional e fria perante a realidade.

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O jogo de contrastes entre as duas personagens revela reflexões sutis acerca do comportamento humano, colocando questões éticas em primeiro plano, embora de uma maneira quase imperceptível. É o estilo Rohmer de narrativa. Há muito pano pra manga, mas é de um tecido fino e quase invisível.

Como obra de Rohmer o filme não deixa de salientar a moralidade e a teimosia correta do povo do campo, no entanto, acaba por apresentando a perspicácia e raciocínio lógico que apenas a cidade poderia nos dar. É uma união que gera atritos, mas também força.

Tecnicamente o filme não poderia ser mais bonito. Aqui está tudo que torna o cinema de Rohmer tão característico, belas pessoas, belos cenários, uma câmera rápida que se movimenta com maestria pelo ambiente, ausência de música e diálogos muito inteligentes.

De todos os filmes que assiste de Rohmer, esse já entra para a lista de obras mais fáceis de serem vistas. Não por não levantar questões que perturbam, muito pelo contrário (esse filme é capaz de te deixar muitas horas pensando nos assuntos em que ele toca), mas porque esse filme é leve, te faz entrar na obra de cabeça e você nem vê o tempo passar enquanto o assiste.

5 pontos

sexta-feira, 19 de abril de 2019

O monte ardia em chamas que subiam até o céu...

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A semana começou com uma notícia devastadora... a catedral de Notre Dame sofreu um incêndio, que destruiu o telhado da catedral e sua agulha, símbolo máximo da arquitetura gótica.

Nesse momento não me importa de verdade as causas do incêndio, quem foram os responsáveis ou como eles serão responsabilizados por isso. O momento atual é de pesar.

Mas não de pesar pela perda de um monumento extremamente para a história da arquitetura, o seu valor artístico e cultural ou a possibilidade de que tudo isso tenha sido planejado. É um pesar pelo que essa catedral representava, um pesar em ver parte da sua herança ter sido perdida.

Eu sou um brasileiro, pardo e católico. Essa é parte da minha identidade, mas o que realmente significa tudo isso? Por ser pardo, não sou branco nem negro, estou perdido num limbo das raças que não interessam a ninguém. Hoje em dia, ou você é negro ou é branco, não tem meio termo.

Sou brasileiro e amo esse país de meu Deus, mas o que esse país fez, faz ou fará por mim? Pouco ou nada. Mudaria daqui facilmente, pra ser honesto, embora eu saiba que sentiria eternamente saudades dessa Terra de Santa Cruz.

Minha religião é a parte mais importante da minha identidade. É à Igreja que devo grande parte dos meus amigos, das minhas oportunidades de emprego, das minhas boas memórias e da minha educação. Foi o Catolicismo que me deu os padrões morais, se sou considerado uma boa pessoa por grande parte das pessoas que interagem comigo, devo isso à Igreja.

E muitos de nós devem tudo que tem hoje à Ela também. Só não reconhecem.

Das nossas leis à grande parte da nossa ideia do que é ser belo. Do conceito de laicidade à teoria do Big Bang. Devemos tudo isso à Igreja Católica.

E ao mesmo tempo é a instituição que mais apanha no mundo inteiro. Em parte, os ensinamentos de Jesus nos torna cordeiros, temos que dar a outra face, mas a realidade é que a Igreja tem os seus inimigos. Embora alguns sejam melhores que outros.

Não se reconhece que é a herança da Igreja que nos fez chegar até onde chegamos. Se tantas mazelas da sociedade foram deixadas para trás, como parte de um passado distante é por causa da Igreja, que cometeu seus erros, sim, mas é sempre bom lembra. A Igreja é Santa, seus fieis, nem sempre.

A França foi o país que chegou a ter 1 igreja para cada 200 habitantes. Se o centro da Igreja reside em Roma, é na França que estão seus frutos mais belos. Os franceses nunca teriam inventado o amor sem um profundo senso de religiosidade católica. E nós, como filhos de Portugal, devemos muito à tradição francesa. O silêncio de nossos líderes, da mídia e até mesmo dos membros da própria Igreja é revoltante.

Nosso relacionamento com o mundo é como um hexágono.

Os pontos exteriores representam cada um das nossas afinidades, características diversas da nossa vida, relacionamentos pessoais, práticas esportivas, estudos, vida política, finanças, enfim... tudo aquilo que move o nosso dia a dia. Bem no centro está Deus. Quanto mais próximo de Deus, mais próximos ficamos de tudo aquilo que nos cerca, mais equilibrada é a nossa vida.

E é esse equilíbrio que não podemos esquecer. É a falta desse equilíbrio que tem levado a França e quase toda a Europa ao caos. É essa a causa das chamas que a atingiram no início da semana.

Como nos lembra Chesterton, a arquitetura gótica é a única forma de arquitetura militante, em marcha para a glória de Deus, em pé e pronta para a batalha, nunca silenciada, sempre impotente.

 A catedral de Notre Dame levou mais de 100 anos para ser terminada. Quem começou a construção nunca a viu finalizada, mas o fez por algo maior, um Bem maior. Essa noção de sacrifício por algo maior foi perdida nos tempos atuais e é isso que destrói nossa natureza, acaba com os direitos civis e nos destrói a esfera privada cada vez mais. Talvez ainda faça um post aprofundando isso, mas, basicamente, uma vez que não vivemos por algo maior, vivemos por nós e o nosso tempo não é o suficiente para promover mudanças positivas.

A nós, apenas nos resta esperar, na fé, que, como uma Fênix, a fé francesa levante das cinzas de Notre Dame.

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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Dica musical: “Remind Me Tomorrow” da Sharon Van Etten (2019)



A Sharon Van Etten é uma antiga querida minha. Uma verdadeira beldade e joia rara dentro do mundo da música, foi alvo da minha paixão platônica por muito tempo. Tanto que uma vez imprimi um retrato dela e colei na parede do meu quarto, a fim de dormir todos os dias olhando para ela. Em 2019, ela retorna com um trabalho novo, elaborando uma sonoridade indie com as suas características letras introspectivas.

Escrito enquanto ela estava cursando psicologia e grávida, Remind Me Tomorrow apresenta letras que lidam com essa fase conturbada da vida de Sharon. Conturbada, no entanto, desejada, afinal ser mãe e psicóloga é um sonho antigo da cantora que expressa isso há anos em diversas entrevistas que dá.

Dividir-se entre a maternidade e uma carreira nova não são atividades fáceis, ainda mais morando numa metrópoles como Nova Iorque, no entanto isso nunca a derrubou e serve de inspiração para letras que nos contam sobre esse processo. A cantora continua a criar álbuns intimistas e é legal ver que essa característica perdura, mas se reestrura com o passar de cada álbum. São experiências novas que formam novas canções para Sharon.

A sonoridade é bem distinta daquela primeira fase que me apaixonou no longínquo ano de 2012. Pessoalmente, não me agrada tanto, mas acho melhor que a sonoridade de seu último álbum, mais lento e minimalista. Aqui há um certo retorno (ou seria melhor um novo caminho?) em direção ao rock que sempre esteve presente de uma forma bem única nos seus primeiros trabalhos.

O álbum se inicia com canções que remetem ao último trabalho, sonoramente, mas logo as canções vão ganhando mais espacialidade, se expandindo e a veia roqueira de Sharon se revela conforme o álbum se desenrola dentro de nossos ouvidos. É uma boa trajetória, mas eu prefiro o estilo em que ela iniciou.

De qualquer forma, é um álbum que vale a pena escutar. O trabalho mais recente de Sharon Van Etten não decepciona, até porque eu não sabia o que esperar dele e o resultado agrada.

4 pontos

terça-feira, 16 de abril de 2019

Dica musical: “Nossos amigos e os lugares que visitamos” do El Toro Fuerte (2019)

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E eis que venho indicar mais um CD daquela turma talentosa de Minas Gerais.

El Toro Fuerte é uma banda de rock fundada por amigos talentosos que fazem parte da Geração Perdida de Minas Gerais, entre eles o Fábio de Carvalho, que já foi dica do blog aqui e eu não escondo minha admiração pelo cara, que, na minha opinião, é um dos melhores artistas musicais desse Brasilzão na atualidade!

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Aqui ele não está sozinho e o som que surge do El Toro Fuerte acaba sendo bem diferente do som que ele criava sozinho, mas sendo igualmente experimental. Indo do shoegaze ao math rock, a banda mescla elementos que fizeram parte de todas as vertentes do rock triste para salpicar as letras recheadas de nostalgia e uma boa dose de simplicidade.

O álbum já começa com uma música que não nega as origens no indie rock, soando como um The Strokes dos bons tempos, ela acaba incluindo elementos do hardcore, que revitalizou o rock no início dessa década e culmina num experimentalismo típico das bandas lá de Minas, com uma sonoridade bem idílica e letras intimistas. A partir daí a sonoridade se expande, abrangendo o shoegaze, caindo no punk e voltando ao indie rock dançante, sem deixar de experimentar com elementos do math rock, que pontuam cada música, criando melodias que ficam na cabeça por horas após ouvir o álbum.

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As letras são simples e, como bem disse a banda, focam no tema da amizade. Há letras de amor para garotas, obviamente, mas a maioria trata de descobrir novas amizades e se descobrir no processo. Sair de casa para conhecer alguém acaba de ganhar uma trilha sonora nova.

Não é o tipo de rock que agrada aos mais puristas do gênero. As influências da banda parecem se concentrar apenas na contemporaneidade. A mais antiga talvez sendo aquele rock slacker dos anos 90, então não agrada o pessoal cabeludo que gosta de usar jaqueta de couro. Mas é o suficiente para dar um ar novo a esse gênero que representa a alta cultura do século 20.

Não conhecia El Toro Fuerte. Acabei descobrindo que eles já tinham um CD e fico feliz que seu segundo trabalho seja tão bom. Espero que mantenham o nível ou melhorem cada vez mais!

4 pontos e meio

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Qual é o meu gosto?

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Numa discussão com meus irmãos do LocadoraTV um deles disse que não acessa mais o blog, pois tenho o gosto duvidoso.

Não o critico, pois é só dar uma olhada nas minhas dicas aqui do blog que você encontrará motivos para duvidar do meu gosto pessoal. MC Gorila, Hora do Rush (a série) e As Branquelas são os exemplos mais claros disso. Não demorou muito para que eu entrasse numa discussão interessante com os LocadoraTVeiros.

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Pra começar, falemos de gosto. Como diria Burke, o gosto não é um parâmetro definitivo para a definição do que é bom ou ruim. O gosto é uma representação de um condicionamento que a pessoa sofreu ao longo de sua vida. Uma pessoa pode ser condicionada a gostar de vinagre e odiar açúcar, mas ela nunca deixará de saber que o vinagre é amargo e o acúçar é doce. Se isso acontecer, há algo de errado com os seus sentidos.

Dito isso, podemos admirar coisas e saber que elas são ruins. Eu admiro coisas, sabendo que elas são ruins. Eu sei que MC Gorila, a série da Hora do Rush e As Branquelas são piores que Franz Liszt, O Mecanismo e They Shall Not Grown Old. Ainda assim, admiro essas obras, porque eu fui condicionado a admirá-las.

Eu sou um integrante do povo. Cresci numa família popular, ouvindo modão caipira, assistindo desenho de manhã e lendo gibi da Turma da Mônica. Ao mesmo tempo, meu pai trabalhou numa editora por muitos anos e minha mãe é uma historiadora muito crítica. Dessa influência cresceu o meu gosto pela literatura, a crítica verdadeira e o bom gosto. Domingo a tarde, a TV de casa só era ligada para o futebol. Meus pais nunca deixaram de criticar a programação da TV brasileira, a degeneração moral que nossa terra sofre e as mazelas do governo.

Concluindo, tenho um pé na baixa cultura e um pé na alta cultura.

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Isso é completamente possível e aceitável. Explico isso em alguns parágrafos, mas antes temos que falar em quem define o que é a alta e a baixa cultura.

Meus amigos do LocadoraTV defenderam a ideia opressora da maioria. Hoje isso está muito em voga, se a maioria gosta, é porque é bom, se não é ruim.

Nada mais longe da realidade.

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Obviamente a definição de bom e ruim passa por um consenso em que a maioria concorda, mas não é necessariamente definido pela maioria. ATENÇÃO! A questão discutida aqui é o ponto de partida. Se num grupo de 5 pessoas, 3 falam que algo é ruim e 2 falam que algo é bom, algo é ruim.

Em matéria de arte não é assim. 60% do mercado fonográfico brasileiro é constituído de sertanejo universitário. É um gênero bom? Não. As músicas não contam nada, as melodias são repetitivas e a harmonia é pobre. Ainda assim, é o que a maioria gosta.

Vejamos o exemplo da minha querida Nouvelle Vague, o movimento de vanguarda do cinema francês nos anos 60. É um consenso de que os filmes da Nouvelle Vague são bons, excelentes, entre os melhores da história do cinema. Mas quem disse isso? A minoria que os assistiu.

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A ditadura da maioria não deve se aplicar ao mundo das artes, se não cairemos numa espiral do silêncio, que já destruiu a esfera política, acabou com a relevância da esfera artística e tem potencial para destruir a esfera do entretenimento também.

E nessa discussão toda, onde entra o meu gosto, que não é definido pela maioria e reconhece as falhas de meu condicionamento pessoal para a admiração de obras de arte?

Recorro a teoria da ferradura de Jean-Pierre Faye, que é aplicada no campo da política para dizer que os extremos político são, na verdade, muito próximos. A extrema direita e a extrema esquerda andam de mãos dadas na sua intolerância.

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A Cultura também é uma ferradura e a alta e a baixa cultura também são muito próximas. É inegável o quanto que a Rapsódia Húngara mexe com as emoções humanas. Foi criada para isso, com a nobre intenção de tocar os seres humanos no âmago.

É inegável que o mesmo acontece com “Se Arrependeu” do MC Delano. É uma canção que nos move, para outro lado, mas nos move. Não é uma música criada a toa e o clipe é a maior prova disso. Logo no começo, enquanto o protagonista tenta se reerguer após o término de um relacionamento, ele puxa um livro da sua estante. Esse livro é As Veias Abertas da América Latina, um clássico anticapitalista que eu, particularmente, desprezo, mas é um livro inteligente. Esse livro não está no clipe do MC Delano a toa. MC Delano não é qualquer um. Ao longo do clipe o negão bonito abandona a loirinha e vai ficar com uma mulata muito gata! Você acha que tudo isso foi simplesmente soltado a toa? Pense nas relações que podemos estabelecer com essas imagens... Há algo além do que nossos olhos vêem.

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É o mesmo com o Gorilão, com os irmãos Wayans e com qualquer outro grande menosprezado pela “crítica especializada”, pelos defensores do “bom gosto”, os supostos “inteligentes”. Aquela obra de arte caça-níquel, safada, esdrúchula, em muitos casos não saiu do nada. Há um estudo de mercado, uma intenção. Por trás de cada piada de peido do Adam Sandler, há uma compreensão de qual o melhor momento para se encaixar uma piada, uma construção de uma situação que leve ao humor e uma intenção.

Isso é algo que minha mãe me ensinou e eu, graças a Deus, aprendi cedo. Por trás de toda obra de arte há uma intenção. Algumas, a alta cultura, a intenção é nobre, virtuosa, grandiosa. Outras, a baixa cultura, a intenção é sujar, criar o caos, destruir.

Em ambos a intenção é quebrar o status quo. Os extremos querem nos mudar, um para melhor, outro para pior. É essa a ideia que criou a estética do cinema trash e filmes B dos anos 70 e 80. É a estética da boca do lixo em SP, dos filmes do John Waters e do Fome Animal.

Aí eu chego ao que me desagrada. Não é nem a alta, nem a baixa cultura, é a média cultura. O que eu não gosto é de tudo aquilo que está no meio da ferradura, são os filmes formulaicos, as músicas pop repetitivas, as séries que não seguem um projeto e os livros criados só para vender. É isso que é ruim de verdade, é por isso que eu não vou mais ao cinema.

Alguém acha que o Tony Stark vai morrer no final do Vingadores: Ultimato? Alguém se surpreendeu com o novo CD da Anitta? Quem dá risada assistindo o Novo Zorra?

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Tudo isso é formulaico, eles seguem uma fórmula que fez sucesso e a exploram até não poder mais. Eles jogam no seguro, não correm riscos. Não tem skin in the game. É isso que eu acho ruim, de verdade. Eu nem me importo que uma obra me ofenda (Thomas Bernhard, por exemplo), contanto que seja disruptiva, transgressora, que me surpreenda em algum de seus aspectos!

Pra encerrar, uma lista de brilhantes e seus opostos, mas o responsável por descobrir o que é brilhante e o que não é, será você:

Luz em Agosto, O Náufrago (livro), Nirvana, MC Delano, Black Sabbath, Agnaldo Timóteo, Arctic Monkeys, Franz Liszt, As Branquelas, 2001: Uma Odisseia no Espaço, MC Gorila, The Room, Solaris, Na Idade da Inocência, Fome Animal, O Senhor dos Anéis, Black Mirror, Watchmen, Elvira: A Rainha das Trevas e qualquer obra do Adam Sandler.

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Dica literária: “Sol e aço” de Yukio Mishima (1968)

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Não me identifico tanto com um livro desde que li O Apanhador no Campo de Centeio pela primeira vez quando ainda tinha 15 anos... quase 10 anos atrás.

Sol e Aço é um livro do escritor japonês Yukio Mishima que segue o formato de um ensaio autobiográfico. Nele Yukio conta a sua relação com o seu corpo, como ele passou a se preocupar com sua forma, as revelações que isso o levou a ter, a influência disso na sua arte e, posteriormente, na sua filosofia de vida e vida de trabalho.

Yukio Mishima é uma das figuras mais idiossincráticas da literatura mundial. Nascido no Japão durante o pós-guerra, começou a malhar ainda adolescente, se alistou no exército, entrou para a aeronáutica japonesa, brigou a vida inteira com sua (homo)sexualidade, fundou um partido político de direita, tentou aplicar um golpe de estado e cometeu sepuku.

Sempre o achei um tremendo de um babaca, mas acabei sido convencido a ler alguma obra dela por causa do Pewdiepie, que leu mais de 70 livros ano passado e eu só superei ele por um. Decidi ler mais ficção esse ano e estava atrás de coisas diferentes para ler e acabei baixando esse livro do Mishima e comecei a lê-lo durante as aulas teóricas da auto-escola. Para minha surpresa não era de ficção e para meu espanto, é um dos melhores livros que já li na vida.

Mishima tinha gostos peculiares, entre eles o gosto pelo sol, por suar, pelo exercício físico e logo descobriu como moldar o próprio corpo. Também estou passando por essa fase de descobrimento, embora tardiamente, mas foi interessante ler os pensamentos que foram se formando no fundo da minha mente escritos por outra pessoa. Parecia que eu havia descoberto algo que procurava há muito tempo sem saber.

Yukio relata a sua escalada, sua saída das sombras para ascender aos céus, em direção ao sol, forçando a sua arte (no caso, a escrita) a se tornar uma com seu corpo. Um processo criativo que fugia às noções mais clássicas, a do escritor sozinho no meio da noite. Yukio fugia desse ridículo ideal romântico e, de fato, sua escrita é diferente.

Yukio é poético, conciso, mas consegue incluir muito em poucas linhas. Neste livro, suas descrições são breves, porém marcantes e as cenas finais são de tirar o fôlego.

Infelizmente essa obra está esgotada em terras brasileiras e sem prazo pra retornar às livrarias. Nem mesmo edições estrangeiras são fáceis de serem encontradas, mas a Estante Virtual está aí pra salvar quem precisa.

Então corra atrás, que vale muito a pena essa leitura.

5 pontos

terça-feira, 9 de abril de 2019

Dica cinematográfica: “Hoaxed” (2019)

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Dirigido por John Du Toit e Scooter Downey, com produção do grande Mike Cernovich, este é o documentário mais importante dessa década, junto a The Red Pill.

“Hoaxed” se propõe a analisar o fenômeno das fake news, nome que começou a se alastrar como uma praga por todo o mundo (ocidental, pelo menos) após as eleições americanas de 2016, que elegeram Donald Trump. A partir desse momento, Mike Cernovich, o narrador de toda a obra, começa a apresentar diferentes casos de fake news com os quais ele manteve contato ao longo de sua longa trajetória como jornalista.

Nisso entram as histórias de Alex Jones e Cassie Jay. Alex Jones todo bom fã de teorias de conspiração já conhece. Maluco e praticamente banido da internet por uma série de controvérsias, seus testemunho como vítima de fake news ganha espaço nesse documentário, mas ele nunca fui uma pessoa muito defensável (apesar do filme mostrar um lado que não conhecemos dele, Alex é pai e trabalha como jornalista independente há mais de 20 anos, sendo responsável por levantar questões muito pertinentes acerca da política externa americana). No entanto, o que primeiramente me assombrou foi o testemunho de Cassie Jay.

Pra quem não se lembra, Cassie é uma produtora de documentários, responsável pelo excelente The Red Pill, que eu amo imensamente. O documentário foca na controvérsia que se seguiu ao lançamento do documentário e da qual eu não estava ciente. Cassie foi acusada de misógina, seu documentário foi acusado de ter sido financiado por “ativistas de direitos masculinos” e sua credibilidade não foi apenas posta de cheque, como sua imagem junto a mídia tradicional e mais popular foi destruída.

Cassie é um dos casos mais tristes de fake news que existe, mas é daí pra pior. O documentário começa a retratar a imagem de outras figuras como Scott Adams (criador de Dilbert e o gênio que previu a vitória de Donald Trump), a própria história de Mike Cernovich e também a de Gavin McInnes. Junte-se a isso uma análise profunda da estrutura da mídia, fornecida por caras como Stefan Molyneux e Ryan Holiday, que já havia desmascarado as estratégias da mídia em seu livro “Acredite, estou mentindo”.

Conhecemos a história da mídia tradicional, a falsa imagem que Hollywood, junto com os jornalistas, criaram do jornalismo. Aquela visão romântica do cara que persegue a verdade a todo custo é grande parte mentira e sabemos disso pelos inúmeros escândalos envolvendo a mídia e, finalmente, as ligações políticas.

As consequências desastrosas sofrem uma análise psicológica de Jordan Peterson (que aqui não faz seus comentários desastrosos sobre o pós-modernismo) e vemos os resultados desastrosos da polarização política causada pela mídia tradicional. O fortalecimento de grupos terroristas como o Antifa, sua violência degenerada e até mesmo a morte de um político republicano, que a mídia não perde tempo em demonizar.

É algo de revirar o estômago e o simples fato disso acontecer sem a grande população saber é ainda mais desesperador.

Sem se ater a uma ideologia, o documentário corre atrás do líder do Black Lives Matter em NY, que não só não conhecia casos de violência que seriam de seu interesse, pois ele também estava sendo manipulado, como relatou uma história muito bela. Durante um protesto a favor de Trump, ele foi recebido por um dos líderes do protesto, que abriu um espaço de dois minutos para ele falar e o que ele disse é o que todo eleitor de Trump também diz: “Eu sou um americano, eu sou um Cristão e eu quero um país melhor!”. O momento filmado por câmeras de pessoas que estavam no protesto obviamente não ganhou atenção nenhuma da mídia tradicional, que só se interessa pelo show, por histórias que possam servir ao sensacionalismo barato.

O final não poderia ser diferente. A alegoria da caverna de Platão nunca esteve tão atualizada e nos faz lembrar do nosso papel, como financiadores da mídia. Sem nós, a mídia tradicional não existiria. E sem nós, os perseguidores da verdade não existiriam.

5 pontos

sexta-feira, 5 de abril de 2019

As melhores brigas, porque o Brasil é lindo!

 

 

 

Somos passionais! O mundo reconhece isso! O Brasileiro é um ser que ama e o amor é um sentimento vasto, com diversas facetas e dimensões... uma delas é o lado negativo, que gera aquela paixão violenta, ciumenta, briguenta... A combinação de nossa natureza passional com a internet é: VÍDEOS DE BRIGA!!!

Sou um grande fã de vídeos de briga, passo horas assistindo a vídeos desse tipo. Brigas de escola, brigas de políticos, brigas de homens, brigas de mulheres, a internet brasileira agrada a todos os gostos possíveis. É por isso que o post de hoje é uma homenagem a essa categoria tão especial de vídeos da internet brasileira.

Pra começar, porque não com o sucesso do momento? VEM TRANQUILO!!! O vídeo consegue incluir em pouco mais de 2 minutos tudo que um bom vídeo de briga precisa, dois briguentos, uma rua vazia, um cinegrafista amador e comentarista, além de bordões que serão adotados por todos os brasileiros nas próximas semanas, proporcionando risadas e alegrias.

https://www.youtube.com/watch?v=fm3JHC3Fzso

Mas não é só na rua que temos brigas. No cenário político polarizado como o de hoje, temos muitas brigas rolando nos congressos por aí. Essa semana, o pessoal em Macapá honrou o WWE com direito a pulos em cima da multidão que se esbofeteava.

https://twitter.com/clay_sam/status/1113853959108792320

Os cinegrafistas-comentaristas são parte muito importante dos vídeos de briga e o Deixa as Duas é a melhor prova disso, onde a cinegrafista-comentarista nos transmite diversas lições da lógica das brigas de rua, como, por exemplo, que não se pode separar duas pessoas brigando, porque se não uma dá mais na outra.

https://www.youtube.com/watch?v=DizWJVh0bmM

Vídeos de briga também podem nos proporcionar um rico aprendizado das diferentes matizes de nossa amada pátria, como bem atesta o do Ousado. É um vídeo do famoso bullying moleque, mas também tem seu momento de briga e muitos jargões nordestinos.

https://www.youtube.com/watch?v=MiMwa3pKt-M

É o tal do Bullying Moleque que gera preciosos momentos nas escolas. Agradecemos pelo registro da Voadora Invertida.

https://www.youtube.com/watch?v=9L3zz_ECyXI

Não escondo que odeio jornalista e nessa onde, o Sub-Zero brasileiro é um herói!

https://www.youtube.com/watch?v=01bAq0butOI

Apesar disso, matérias de jornal já geraram diversos registros de brigas de rua que valem a pena serem lembrados.

https://www.youtube.com/watch?v=5tx3-Og-W7o

A terra do futebol, claro, só poderia gerar brigas após os jogos e aquela xenofobia amistosa!

https://www.youtube.com/watch?v=qjSyzcsHnOI

É claro que bêbado brigando é um show à parte, diferenciado!

https://www.youtube.com/watch?v=qPoLvEAgYN0

 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Dica aplicativística: Happy Mod

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Ao comprar meu novo celular não me atentei ao fato de que ele não tinha root e acabei ficando escravo dos abusos cometidos pela indústria dos games mobile... Isso até descobrir esse aplicativo que indico hoje.

Além de app, é também um site, o Happy Mod basicamente é uma store para aplicativos modificados. Esses aplicativos obviamente foram feitos para que os usuários de jogos mobile não tivessem que aturar os abusos que a indústria insiste em empurrar para a gente, microtransações absurdas, propagandas indesejadas, enfim... o Happy Mod basicamente nos entrega apenas aquilo que queremos ter.

A estrutura tanto do site quanto do app segue a estrutura da PlayStore, apresentando não apenas games, mas aplicativos de uso geral, embora apenas os games funcionem decentemente.

Nem todos funcionam, pra ser bem honesto, mas pelo menos os mods conseguem tirar a propaganda de todos e anular as microtransações na maioria.

4 pontos

terça-feira, 2 de abril de 2019

Dica cinematográfica: “Heaven on Earth: The Rise and Fall of Socialism” (2005)

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Ouve-se falar muito de socialismo, marxisto, ainda mais numa época como a nossa, onde esses termos parecem ser igualmente atuais e obsoletos, dependendo da sua posição nos quadrantes políticos. Mas qual a origem disso tudo?

Baseado no livro de mesmo nome, essa série em 3 episódios nos apresenta as origens do socialismo com o experimento utópico de Robert Owen, passando pelo seu desenvolvimento europeu no século 19, suas mais diversas ramificações no século 20 e sua imagem metamorfoseada nos dias atuais.

Contando com diversas entrevistas de historiadores, sociólogos e filósofos, os documentários apresentam uma narrativa concisa, numa linha do tempo mais ou menos linear, com ramificações que se antecederam a outras. Cada modificações que as ideologias socialistas foram passando parecem respostas a anseios da época em que se situam ao mesmo tempo em que tentam escapar dos erros passados.

No entanto, nunca deixando de ser um projeto utópico, com pouco apelo ao mundo real.

Muito bem produzido e apresentando uma extensa lista de referências, o documentário é convincente, conseguindo cumprir aquilo que cumpre: apresentar a história do socialismo e suas ramificações. Aqui, o socialismo não é apresentado como uma simples ideologia de esquerda, mas um conjunto de ideias, uma semente daninha que brotou junto a árvore que constitui a sociedade, deixando marcas e ramos que talvez nunca sejam exterminadas.

É dessa forma que surgem variações tanto de extrema esquerda, quanto extrema direita, membros libertários e conservadores se unem diante de um ideal utópico que jamais será alcançado, mas que contém consequências pesadas na realidade.

É um dever de todo cidadão assistir esse filme.

5 pontos

sexta-feira, 29 de março de 2019

A Europa decretou data limite para a internet

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Na última semana acontecimentos relacionados a internet assustaram todos aqueles que se preocupam com a liberdade no ambiente online.

A primeira delas e mais assustadora foi a aprovação dos nefastos Artigos 13 e 11 pela União Europeia e a aproximação do início de aplicação da lei do "Passe Pornô" no Reino Unido.

Uma breve explicação das leis:

  • Artigo 11: basicamente é uma lei que permite que empresas que anunciam em sites que hospedam propagandas como Google e Facebook cobrem desses sites pelos "links perdidos" quando anunciam neles. Como o Google e o Facebook personificam as propagandas para os usuários, algumas propagandas podem aparecer muito menos do que outras, mesmo usando o mesmo plano de anúncios.

  • Artigo 13: basicamente diz que os sites são responsáveis pelo conteúdo que é publicado neles. Ou seja, se o seu site contém uma imagem da Disney publicada por um usuário qualquer, seu site é responsável e não mais apenas o usuário que publicou a imagem.


Mais informações podem ser encontradas aqui.

  • Lei de Economia Digital: exige que os usuários de site pornô comprovem a sua idade para acessar o site. A comprovação poderá ser terceirizada por empresas que já atuam com esse tipo de trabalho ou através de um "passe pornô" com um número de 16 dígitos.


Mais informações podem ser encontradas aqui.

O que essas leis irão fazer nada mais é do que acabar com dois enormes pilares de sustentação da internet livre: memes e pornografia.

A internet tornou mais fácil o consumo de pornografia e a viralização de conteúdos engraçados. Esses dois elementos se tornaram pilares enormes de sustentação da internet, pois muitas pessoas só conhecem a internet através disso. Só acessam a internet para isso.

Agora como você consegue acessar memes se não puder postar imagens do gênio do Alladin? Como acessar o pornozim se tiver que comprovar a idade toda vez que fizer isso?

Já conhecemos as diretrizes restritivas de sites como Youtube, Twitter e Facebook que não permitem diversos tipos de conteúdo viralizarem com a justificativa de que isso ofende uns e outros. O resultado é uma internet mais chata e que se resume em discussões políticas vazias, conteúdos pagos e que já não tem mais tanta diferença de uma área dominada pelo marketing.

Pensa bem, hoje em dia está cada vez mais difícil ser alguém na internet sem dinheiro. Você paga empresas pra  migrarem links para o seu site, vende conteúdo para outras, enfim... como já disse em outro post, a internet não é mais aquele terreno livre que era há uns 10, quem dirá 20 anos.

Esse post aqui não é uma defesa a sites como Google e Facebook. Muito pelo contrário. Por mim, esses sites poderiam acabar que eu não estou nem aí. O problema é que essas leis não dificultam apenas a vida dessas grandes corporações, mas a vida de todo mundo querendo criar algum site de interação online.

Se a vida de uma grande corporação como Google vai ficar mais difícil, imagina de uma plataforma como o Disqus? Imagina o que vai ser da DeviantArt? E do Imgur? São sites povoados de conteúdos criados pelos seus usuários, muitos deles paródios, fanarts e afins... O que vai ser desses sites que não podem pagar advogados que cobram U$100.000 dólares pra defender eles numa corte judicial?

Eles terão que criar diretrizes restritivas e bloquear muito conteúdo pra poder continuar existindo.

E esse post aqui não é uma defesa da pornografia. Muito pelo contrário, sou contra a pornografia, mas qual a solução pra esse problema? Dar poder ao Estado? Aos políticos britânicos??? Pois é isso que essa lei faz. Ao criar um sistema de verificação de idade, o governo acaba tendo acesso (ou pelo menos opções centralizadoras) pra poder acessar e verificar os dados de seus cidadãos.

Não se engane. Essa não é uma lei anti-pornografia, é uma lei de controle estatal. A estratégia é antiga, olha-se para um problema e propõe uma solução ruim para ele. Logo a solução ruim é usada para outro problema e mais outro e quando você vê, aquilo você faz é um problema. Não precisamos nem pensar muito, imagina quanto tempo vai levar pra você ter que comprovar idade pra jogar games de tiro? Supostamente eles são feitos apenas para maiores de 18 anos. Quanto tempo vai levar pra você ter que comprovar a idade pra ver conteúdo de cosplayers no Twitter ou Facebook? Não muito.

A internet é cheia de problemas, mas nós não podemos terceirizar a solução para eles. Nós criamos a internet e só nós podemos solucionar os seus problemas. Não é o Google, nem o Facebook, o Twitter ou o Imgur que irão solucionar esses problemas. Muito menos o governo britânico ou a União Europeia.

É triste ver a regressão que está acontecendo na Europa nos últimos anos. O berço da civilização ocidental vem caminhando para o seu fim a cada ano que passa e na última semana deram mais um passo em direção ao apocalipse cultural que se aproxima de lá.

 

quinta-feira, 28 de março de 2019

Dica cinematográfica: The Night of the Hunter (1955)

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Havia um tempo em que Hollywood produzia clássicos. Não pelo cuidado que seus produtores tinham com o filme, nem com a quantidade de dinheiro despendida para fazer uma obra, mas pela sinceridade com os filmes eram feitos. Essa belezinha aqui é um exemplo maravilhoso disso.

The Night of the Hunter conta a história de um ladrão que é condenado a morte pelo assassinato de duas pessoas e por um roubo que fez. O conteúdo do roubo é mantido com seus filhos, um casal de crianças, que mantém o dinheiro longe até mesmo da própria mãe. Na prisão, o condenado conhece outro preso, um ex-pastor, que ao saber do roubo resolve se passar por bom moço na cidade do condenado, motivado a tomar o dinheiro roubado para si, nem que para isso tenha que constituir uma família. Todos passam a gostar dele, exceto pelo filho, que suspeita do falso bom moço e não irá facilitar a vida dele.

Com essa premissa, já cobrimos uma boa parte do filme, mas esse é apenas o começo. A vida familiar se torna um cenário de suspense, que cria uma rivalidade entre padrasto e filho mais velho. Um motivado pela ganância, o outro motivado pela honra da família, já baixa, mas que ele não deixará sumir.

É uma obra singela, com um grande apelo emocional, mas se ser dramática. As questões de honra, parentesco e dever são colocadas de uma maneira extremamente forte nesse filme, mas não de uma forma didática, pedante. Ao final temos a sensação de que acabamos de assistir um filme moralizante, mas também altamente divertido.

Na questão técnica, o filme também se sai muito bem. Filmado em preto e branco, ele conta com uma direção muito competente e até ousada para a época. Há longas cenas de transição que parecem filmadas numa só tomada. Há uma definição muito boa no contraste das imagens.

Em suma, The Night of the Hunter é um desses filmes antigos que te deixam pensando no que aconteceu com o cinema norte-americano. Um clássico absoluto.

5 pontos

terça-feira, 26 de março de 2019

Dica teórica: Skin in the Game de Nassim Nicholas Taleb (2018)

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Esse foi o melhor livro que li em 2018. Pena que terminei ele tarde demais para inclui-lo na minha lista de melhores do ano. Vou tentar honra-lo com essa dica, mas isso é muito difícil, já que o livro apresenta uma diversidade de ideias tão grandes que qualquer tentativa de o resumir é uma atividade quase homérica.

Mas vamos tentar.

Skin in the Game é o último livro numa série de 5 obras chamada “Incerto”. Essa série trata, basicamente, de aleatoriedades. Primeiramente no mercado financeiro, com o seu primeiro livro e depois na vida, com o livro chamado “Black Swan”, finalmente como evita-la, sendo “Antifrágil”, o título do quarto livro e Skin in the Game é o que você precisa para ser anti-frágil. Traduzido como “Arriscar a própria pele”, o livro trata de exatamente isso, botar o seu na reta, dar a cara a tapa, enfim... fazer algo que, caso não dê certo, irá te acarretar alguma perda.

Um dos argumentos iniciais é de que a nossa sociedade está recheada de pessoas que não arriscam a própria pela e pior! Nós deixamos que elas nos digam o que fazer com a nossa vida. A partir daí Taleb nos guia numa longa jornada recheada de experiências, contos, fábulas e conhecimentos práticos nos ensinando como é importante arriscar a própria pele.

A premissa é até simples, mas é a viagem que conta e esse é o ponto forte do livro. Tudo é uma enorme viagem pelo pensamento ocidental, misturando um pouco de pensamento oriental (em especial árabe) numa argumentação clara e muito bem articulada. A todo momento, você é lembrado de que se você não tiver contato com a realidade, você não receberá nada real. Skin in the Game ou arriscar a própria pele é simplesmente isso, ter contato com a realidade.

Mas o livro é muito mais do que isso, pois Taleb se aventura numa vasta gama de assuntos, do mercado financeiro até a religião, passando pelo campo linguístico, literário, político, enfim... praticamente tudo, porque se há seres humanos envolvidos, é porque algo funciona e se funciona, é porque quem tá fazendo está em contato com a realidade, se arriscando.

O livro nem é volumoso, mas a quantidade de conteúdo que ele entrega é absurda. Informações demais em cada uma de suas páginas e nunca é maçante. Taleb escreve como poucos, principalmente porque ele passou uns 30 anos trabalhando para alguém. Ele sabe como servir alguém. E serve muito bem os seus leitores.

E não pense que sua escrita é boa, porque é fácil de engolir. Não são apenas informações bonitas sendo jogadas na sua cara, mas provocações mesmo. Algumas passagens não são fáceis de aceitar, mas sua argumentação é tão concisa e bem escrita, que você não pode fazer nada a não ser admirar o seu trabalho.

Ainda não li os outros livros do cara e posso estar enganado quanto ao resumo que fiz do Incerto no começo dessa dica, mas vou ler e, provavelmente, ainda voltarei a tocar nesse assunto no futuro.

5 pontos

sexta-feira, 22 de março de 2019

Vá paralisar a pultaquiopariu!

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O Sindicato dos Vagabundos Docentes da Minha Cidade resolveu fazer uma paralisação hoje contra a Reforma da Previdência. Nem vou entrar no mérito de discutir a tal da reforma, nesse post vou focar na paralisação e provar que isso é simplesmente ridículo.

Comecemos pelo "por que". Essa paralisação está sendo feita por causa de uma reforma que está sendo discutida pelos deputados, senadores e outros membros do alto escalão do governo lá em Brasília. O que eu, um cidadão brasileiro do interior do Sul do Brasil tenho a ver com isso?

Aparentemente tudo, afinal vivemos num democracia, mas é assim que as democracias funcionam? Afinal, o que é uma paralisação? Nada mais do que um ato coletivo que visa parar uma atividade trabalhista do país mostrando para o governo a falta que a classe trabalhadora faz para o país. Afinal, se um determinado grupo de trabalhadores para, uma parcela da economia deixa de existir.

No entanto, o caso aqui é um pouco mais complicado do que isso.

[caption id="attachment_4393" align="aligncenter" width="872"]Protesto de professores em Portim„o Não vocês, né queridos?[/caption]

Primeiro, porque numa democracia o cidadão é quem manda. Se você precisa fazer uma paralisação de toda uma categoria para que uma opinião seja ouvida, é sinal de que a democracia não está funcionando.

Segundo, o grupo de trabalhadores que está parando são servidores das escolas (e em especial a universidade) públicas da cidade. Se eles pararem de trabalhar, ao invés de gerar um rombo, uma falta na economia do país, irá gerar lucro! A cada dia que esses professores trabalham o governo tem que gastar com salários, conta de água, luz, internet, manutenção e até mesmo refeição. Se a classe dos professores simplesmente decidir parar de trabalhar, o governo vai ficar feliz. É menos gasto, simples assim. Não é uma hecatombe como a paralisação dos caminhoneiros.

O único prejudicado nessa história toda (e aí chegamos ao terceiro ponto) são os alunos. São pessoas como eu que só desejam terminar a faculdade em 4 anos, entre os meses de fevereiro e novembro e não ter que repor aulas no final de semana.

Por fim, paralisações, greves e afins já se tornaram tão demodê que ninguém mais liga pra isso. Esses "docentes" dizem lutar pela classe profissional com atitudes que não melhoram em nada a imagem dos docentes perante a população. Ninguém dá muita bola pra educação no país, aí quem é responsável pela educação diz não se importar com o dinheiro, grita aos 4 cantos da Terra que é subversivo e responsável por inserir um pensamento crítico nas crianças que vai fazer elas abandonarem as "estruturas opressoras" da sociedade e ainda deixa de trabalhar sempre que aparece alguma coisa minimamente polêmica na esfera do governo federal.

É simplesmente ridículo o que esses poucos professores fazem, nadando contra inclusive uma grande parte dos professores do país, que só querem ganhar um dinheirinho pra comprar o que precisa, ensinar aquilo pelo qual eles sempre foram apaixonados na vida (seja isso números, línguas ou histórias antigas) e manter uma rotina de trabalho estável. O sindicato de docentes, em sua maioria, são um tiro no pé dessa classe de trabalhadores.

Se vocês querem valorizar a classe terão que começar a promover mudanças de baixo pra cima. Pra começar, entendam que serviço público não gera riqueza, comecem a exigir salários mais altos da iniciativa privada, menos exigências das coordenações pedagógicas e abandonem esses sindicatos que só sugam as energias dos professores de bem.

Pra finalizar, um pequeno questionamento: é curioso que essas paralisações só ocorrem na sexta-feira.

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quinta-feira, 21 de março de 2019

Dica aplicativística: Youtube Vanced

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Cansado da propagando do iFood ou de terríveis filmes quando você vai assistir vídeos no Youtube? Seus problemas acabaram e não, eu não estou falando do AdBlock, estou falando de um app que veio para revolucionar o Android.

O Youtube Vanced é, basicamente, o Youtube Premium, só que de graça. Você baixa o apk em algum lugar da internet (basta procurar no Google) e instala no seu celular Android. Pronto! Você está pronto para assistir o Youtube da maneira que você sempre deveria ter assistido, ou seja, da melhor maneira possível!

Com este app todas as propagandas do app são bloqueadas. Você até vê a marcação de onde elas estão na linha do tempo do vídeo, mas elas não são exibidas na tela. Além disso, você pode sair do app, que o vídeo não para de tocar. E uma bruxaria ainda maior é poder bloquear a tela e deixar o vídeo tocando.

Além de tudo, o Youtube Vanced ainda apresenta a opção de trocar o visual do app, de branco para preto ou vice-versa, baixar os vídeos e outras funcionalidades que eu, sinceramente, não conheço. Meu único interesse é em acabar com as propagandas nos meus vídeos e isso eu consegui.

As propagandas foram as coisas mais nefastas que surgiram no Youtube, diminuindo a liberdade dos criadores e tornando o que antes era uma plataforma livre numa plataforma escrava do sistema corporativo. O Youtube (e a Google em última instância) é o único responsável pelo seu fracasso ao adotar uma estratégia de mercado obsoleta, baseada em anúncios, pra fazer dinheiro, ao invés de adotar estratégias que se aproximem do seu público, como o sistema de financiamento coletivo, por exemplo.

Por essas e outras indico o Youtube Vanced para acabar com essa empresa que não merece o público que tem. O Youtube nunca receberia uma indicação aqui no blog, mas o Youtube Vanced recebe e ganha nota máxima.

5 pontos

terça-feira, 19 de março de 2019

Dica cinematográgica: They Shall Not Grow Old (2018)

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Este não é um filme como qualquer outro.

Este filme é sobre a I Guerra Mundial, mas é muito mais do que um filme, é muito mais do que um documentário. Na falta de palavra melhor, é o state of the art do cinema. Resultado de 3 anos de trabalho, a obra foi comissionada pelo Imperial War Museum, 14-18 Now (uma produtora de artes sobre a I Guerra Mundial) e a BBC a Peter Jackson, que reuniu cenas de arquivos da guerra para criar o melhor documentário já feito sobre o tema.

Retratando a vida de soldados que batalharam nas trincheiras, o documentário relata os momentos desde antes das batalhas até um pouco depois. Do recebimento do aviso de que a Inglaterra havia entrado em guerra com a Alemanha até o retorno ao lar.

O grande diferencial é que esse documentário não recupera apenas imagens, mas recupera também o áudio de entrevistas com sobreviventes da guerra. Entrevistas feitas pela BBC, que foram guardadas por anos até serem recuperadas para servir a essa maravilhosa obra de arte.

Munido de uma equipe de dubladores, restauradores e especialistas em leitura labial, Jackson recriou nesse documentário a I Guerra Mundial de um ponto de vista único. O ponto de vista daqueles que viveram um dos eventos mais devastadores do século XX. Além da narração feita pelos sobreviventes, o filme nos apresenta cenas de arquivos tratadas e coloridas, com efeitos sonoros adicionados e a dublagem de alguns dos soldados capturados em vídeo.

A obra é emocionante, do começo ao fim.

Além de ser um dos eventos mais conhecidos, porém menos comentados, a I Guerra Mundial nunca havia sido tratada da maneira que deveria ser tratada no cinema. O que esse filme faz é não apenas elucidar um momento tão determinantes para a história, mas honrar a participação de todos que estavam lá.

Ao final da obra, é cortante o comentário de que um dos sobreviventes dizendo que eles seriam esquecidos, mas nunca serão, nem deverão deixar de ser. O próprio avô de Jackson lutou na guerra e o filme é dedicado a ele.

Por esse documentário, Peter Jackson não merece um Oscar, ele merece uma medalha de honra.

5 pontos

sexta-feira, 15 de março de 2019

Contra a Astrologia

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Ontem, conversando com um casal de amigos muito bons, cheguei a conclusão de que desprezo mais as pessoas que acreditam em astrologia do que terraplanistas.

Não sei exatamente como essa conversa começou, mas creio que foi quando minha amiga recapitulava o momento em que um grupo de colegas da sala dela tentavam criar o mapa astral do futuro filho de sua professora. Tanto ela, quanto eu e meu amigo achamos isso um absurdo, católicos que somos.

As pessoas estavam tentando saber como seria o filho de uma professora que eles mal conhecem. Tudo baseado no dia em que o bebê irá nascer... a criança nem nasceu ainda! Por algum motivo meu amigo acabou falando que isso era pior do que afirmar que a Terra é plana e a conclusão lógica a que cheguei é: pessoas que acreditam em horóscopo são mais desprezíveis do que terraplanistas.

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Pensa bem, quem você gostaria que estivesse do seu lado: a pessoa que não gosta do seu filho, porque ele nasceu no “dia errado” ou a pessoa que quer entrar em órbita com um estilingue gigante? Um não vai nem na festa de aniversário da sua prole, o outro vai ter um protótipo de parque de diversões amalucado no quintal.

Diga para uma pessoa que acredita em astrologia que você é ariano e ela lhe fará cara feia. Diga para um terraplanista que você acredita que a Terra é mais ou menos esférica e que Newton estava certo e ele irá lhe perguntar “como você tem certeza?”.

A única coisa que um terraplanista faz é questionar aquilo que você tem como certeza na vida e eu lhe pergunto: não era exatamente isso que Diógenes fazia em 300 a.C.? Eles são os herdeiros de um pensamento científico que, em certa medida, é mais produtivo do que uma crença num exoterismo barato.

Não seja um trouxa, nunca! Mas se for para ser trouxa, seja um trouxa que não divide as pessoas em 12 castas celestiais.

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quinta-feira, 14 de março de 2019

Dica teórica: A Ética da Redistribuição de Bertrand de Jouvenel (1951)

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No final de 2018 fiz a promessa de não comprar mais livros até que terminasse de ler a pilha de livros ainda lacrados que tinha no armário. Durante a Black Friday da Amazon não resisti e acabei comprando essa belezinha aqui.

A Ética da Redistribuição é um livro do filósofo Bertrand de Jouvenel, pouco conhecido, mas com ideias muito sábias e que influencia bastante gente por aí, como o Paul Joseph Watson e o Nassim Nicholas Taleb, gente grande e pesada, com ideias fortes, mas muito sensatas. Neste livro, Jouvenel se dispõe a falar da redistribuição de recursos, entre eles, a renda, investigando a moral por trás de tal ato.

Como ele se propõe a investigar a moral por trás da redistribuição de recursos, ele não entra em detalhes econômicos. Muito pelo contrário, Jouvenel deixa bem claro que ignora esse aspecto, até porque não tem conhecimento sobre isso. O resultado é uma obra filosófica, que explora a lógica da redistribuição, sua motivação, consequências e, por fim, se há justificativa válida para isso ou não.

Não preciso dizer que a resposta de Jouvenel é negativa, né?

O autor vai no âmago da questão, deixando de lado questões de cunho mais funcionalista, mostrando que não há uma moral a ser defendida quando o assunto se trata de redistribuição. Não vou dar spoiler da obra, mas posso adiantar que é uma questão que vai da legítima posse de objetos até o roubo.

Jouvenel era uma pessoa muito sábia.

A edição que adquiri é a do Instituto Mises, que já lança livros nessa linha há um bom tempo. Aqui a crítica é a mesma que foi feita no “A Lei”, também publicado por eles. Há vários erros de português e a escolha de não separar as partes do texto pulando para a próxima página me incomoda. Dessa vez, o texto foi traduzido de seu original, já que o texto de Jouvenel foi publicado em inglês.

Em suma, é um livro obrigatório para se ter na estante de qualquer um que almeja ser inteligente.

5 pontos

terça-feira, 12 de março de 2019

Dica cinematográgica: Johnny English Strikes Again (2018)

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E Johnny English volta e volta com tudo para mais um filme que poderia agraciar as nossas tardes de domingo.

Nesse terceiro filme, Johnny English é um professor de uma tradicional escola inglesa, que contraria as expectativas dos pais de seus alunos, colegas professores e o diretor da escola, ensinando para as crianças técnicas de espionagem. Contente com seu novo trabalho, ele prontamente o abandona para servir o seu país, quando a Inglaterra se vê ameaçada por um hacker.

A partir daí acompanhamos Johnny English, o último espião que resta na Inglaterra após o hacker ter revelado as identidades de todos os espiões não aposentados pelo governo. Nadando contra a corrente do mundo tecnológico, Johnny English adota todos os métodos antigos dos espiões, provocando controvérsias dentro do governo, enquanto corre atrás de uma linha conspiratória que envolve espiãs russas, magnatas da tecnologia e o orgulho de ser britânico.

Há várias camadas a serem investigadas aqui. Como filme de comédia, ele trabalha através da sátira. Colocando a mídia num papel secundário, ela é basicamente feita de palhaça numa piada metalinguística. Ao colocar uma espiã russa que não representa grande perigo, o filme faz uma sátira com as últimas notícias que colocam a Rússia como o grande bode expiatório da mídia.

Outra questão que gostei muito foi a forma de utilizar as novas tecnologias como um grande inimigo. O vilão principal é um hacker, Johnny English rejeita todas as novas tecnologias e resolve usar um carro que polui o meio ambiente, pega em armas e usa equipamentos antigos para completar suas missões. Claro, ele sempre se atrapalha e nada sai como o planejado, mas em nenhum momento o filme se curva às novas tecnologias.

Para quem suspeita de inteligência artificial, o final é um deleite.

E o orgulho britânico está presente de uma maneira sutil, mas chamativa. Acompanhando as tendências atuais de explorar o conservadorismo de uma maneira leve e irônica, o filme caçoa das políticas de segurança e ambientais atuais, rejeita um magnata politicamente correto dos EUA, coloca a primeira-ministra num ridículo papel secundário, mostrando toda a sua insegurança e falta de saber e ainda nos apresenta um herói vestindo uma armadura medieval.

É claro, é necessário ter um senso de humor elevado pra apreciar esse filme, mas se você não for um chato, vai rir muito com essas conexões metalinguísticas.

Não podemos esquecer que é um filme do Rowan Atkinson, então o principal foco do humor aqui é na ação. Seguindo uma tradição que tem início lá com Charles Chaplin, R. Atinkson nos apresenta situações engraçadíssimas, prontas para aparecer em qualquer tarde de domingo com a família. É um filme para crianças e adultos, igualmente.

O filme tem alguns momentos que poderiam ter sido dispensados, como, por exemplo, a cena da dança; em compensação poderia ter trazido alguns personagens de volta, como o agente Tucker, mas fazer o que, né? O filme ficou muito bom e é isso que importa.

Em suma, é isso mesmo, um ótimo filme para a família e que merece mais destaque do que recebe. Rowan Atkinson é o melhor comediante que a Inglaterra já deu para o mundo.

5 pontos

quinta-feira, 7 de março de 2019

Dica musical: WORKING PEOPLE (PART 1) do Self Defense Family (2018)

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Assim como o Monster Rally, na surdina o Self Defense Family lança um EP para encerrar 2018 numa nota melancólica, mas calorosa.

Utilizando os elementos do sul estadunidense, flertando com a música country, WORKING PEOPLE (PART 1) começa num tom melancólico, mas caloroso com “Full Literalism”. Essa canção é recheada com uma crítica ao nossa inabilidade em abstrair um sentido pleno da nossa realidade. Após tanta relativização, já não escutamos mais as músicas, nem conseguimos separar o joio do trigo. Seu sentido é negativo, mas o ritmo nos lembra um fim de tarde pensativo.

E assim entramos na noite escura e assustadora de “It Can’t Happen Here”, cheia de guitarras distorcidas, elementos eletrônicos e sons harmoniosos que criam uma atmosfera pesada, até mesmo desoladora. É notável o crescimento do Self Defense Family, pois esse álbum cria uma atmosfera muito linear, que vai do calor melancólico ao gélido e temeroso, desembocando no singelo e belo som de “What Would the Community Think”, cover da música já eclética do Cat Power.

Na versão de Self Defense Family, a canção deixa de ser um início de álbum para virar o encerramento digno de um EP, ganhando mais corpo e força na voz de Patrick Kindlon. Não há como não lembrar das homenagens feita a namorada do vocalista no último álbum da banda, tendo ainda mais significado, lembrando um nascer do sol amistoso.

WORKING PEOPLE (PART 1) é um dos melhores EP’s do Self Defense Family, se tornando o melhor lançamento da banda no ano. Excepcional.

5 pontos

terça-feira, 5 de março de 2019

Assistindo Shoa – pt.2

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Continuando a assistir Shoa, essa segunda parte levei mais tempo para ver e ainda mais tempo para digerir. Ao contrário do que eu pensava, essa segunda parte não começa de onde a primeira parte parou. Ela começa com Franz Suchomell, o nazista entrevistado por Lanzmann para nos mostrar a desumanidade viva.

Nesta segunda parte, Franz nos agracia com seus talentos musicais, cantando e sorrindo, mas ninguém parece compartilhar de suas lembranças.

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Seu linguajar acompanha a desumanização que ele ajudou a proporcionar no planeta. Ao invés de mortos, Franz utiliza a palavra “processados” para se referir aos judeus colocados nas câmaras de gás. Dezenas de milhares eram “processados” em mais de 12 horas de trabalho. Um trabalho o qual ele, definitivamente, não parece mostrar remorsos.

 

Mesmo assim, havia vida dentro dos campos de concentração. O relato de Abraham Bomba nos obriga a alcançar os limites da nossa imaginação ao nos dizer como era ser cabeleireiro dentro dos campos. Os nazistas recrutavam pessoas presas dentro do campo para fazer os trabalhos que eles não podiam realizar. Aos encarcerados era uma forma de escapar da “solução final”. De maneira crua, ele nos relata como era cortar o cabelo dos outros presos e chora ao relatar o dia em que seu amigo cortou o cabelo de sua mulher e filha.

Eu também chorei. Inevitável.

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Após isso, ainda falta mais da metade do filme para ver. Surpreendentemente ainda há o que ser relatado, como os planos de uma rebelião dentro de Auschwitz. O plano não foi para frente e os relatos são terríveis, envolvendo escolhas tão duras que os encarcerados preferiam morrer do que chegar ao final daquilo.

Nessa parte da obra acho possível realizar uma associação com Viktor Frankl, pois muitos dos relatos tratam do sentido de se estar ali. A única que os motivava era a criação de um sentido para continuar ali dentro, seja a esperança de encontrar algo lá fora, a lembrança da família ou algum problema não solucionado. Era essa busca de sentido que os motivava a continuar, a planejar uma rebelião, a se organizar e fazer de tudo para continuar vivo, mesmo que se sujeitando aos nazistas.

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O filme não entrevista Frankl, que inclusive foi enviado a um campo de concentração e elaborou sua teoria da busca de sentido com colegas de cárcere, mas é latente que o filme só reforça a tese do austríaco.

Todos os dias presos era uma nova busca por sentido. Foi isso que fez os sobreviventes continuar a seguir a vida deles após os acontecimentos terríveis. Como nos diz Ithzak Zuckermann: “se pudesse lamber meu coração cairia envenenado” e apenas a busca por um sentido poderia arrefecer tanta amargura.

O filme termina num tom mais do que triste, lúgubre, niilista e não poderia ser diferente. A história humana nos levou a essa conclusão. Termina em silêncio. Não há mais nada a comentar.

5 pontos

sexta-feira, 1 de março de 2019

Post de apreciação do MC Gorila para o Carnaval 2019

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É o Carnaval mais uma vez. A festa mais odiosa do ano, onde a promiscuidade, a depravação e o caos imperam. A orgia carnavalesca que louva a Baco resulta apenas em violência, desastres e desencantes para o povo desse nobre país, no entanto, já está encravado em nossa cultura e reverter sua influência nefasta é uma tarefa que nem mesmo Hércules poderia enfrentar.

Eu, como todo cidadão de bem, fugirei para alguma fazenda longe dessa bacante devastadora, mas não podemos deixar de esquecer que todo ano um dos maiores gênios da MPB organiza o seu próprio bloquinho no RJ. Há muito tempo já planejava fazer um post de apreciação a esse mestre da música popular brasileira e agora tenho a oportunidade perfeita de lembrar da genialidade desse monstro, através de um Top 10 insano!!!

10 – Mamou Todos Nós

Parabéns por rimar “Jegue” com “Mick Jagger”

https://youtu.be/h_HEoktQFCA

9 – Você conhece a Kelly?

Merece um segundo parabéns por ressuscitar essa piada diretamente da 5ª série.

https://youtu.be/ukh8yChrE2w

8 – Gordelícia

Gordofobia aqui não!

https://youtu.be/FRZqcLbBTeg

7 – Sou um Jumento

As músicas do MC Gorila são um repositório de sabedoria popular, afinal não importa ter pau grande, tem que ter a cara de pau grande.

https://youtu.be/It0N1txZydE

6 – Deixa se Fuder

E é também uma oportunidade para repensarmos nossas atitudes. Não tenha olho grande!

https://youtu.be/51vzmOzQUyo

5 – Tava Cagado

Numa determinada altura da carreira, o MC Gorila focou na narrativa, criando histórias cheias de intriga, questões morais e desafios que tocam o âmago de qualquer ser humano.

https://youtu.be/VxZTA7IuzPg

4 – Meu Gato

Mas foi com essa música, feita em parceria com o rapper americano Akon, que o ápice narrativo foi alcançado. Palavras não conseguem exprimir a emoção que essa canção nos passa.

https://youtu.be/LHiA-98LPzc

3 – Cheio de Sal

Essa música foi uma das responsáveis por restaurar o status do MC Gorila nos últimos anos. Um clássico moderno!

https://youtu.be/N4Q4j1oSdUU

2 – As Novinha de Hoje em Dia

Você não recebe seu selo de internauta brasileiro sem ter assistido esse vídeo ao menos uma vez na vida.

https://youtu.be/Rbk5ysEzFgA

1 – Os Bonitin

Sei que deveria ter colocado Cheio de Sal ou As Novinha de Hoje em Dia em primeiro, mas, apesar da alta carga de ironia que esse post carrega, eu sou realmente fã do MC Gorila e acho que na fase atual de sua carreira ele está pronto pra se tornar um artista de renome mundial. E essa última fase teve início com esse clássico:

https://youtu.be/AycrgGE9iBw