quarta-feira, 30 de outubro de 2019

terça-feira, 29 de outubro de 2019

Dica musical: "Vermelho" de Renan Benini

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Baixista da infame Lupe de Lupe, Renan Benini lançou em 2019 seu álbum solo.

Após uma noite de bebedeira e insucessos amorosos, o ex-baixista resolveu se esconder dentro de um banheiro e junto com o seu celular, seu violão e sua belíssimo voz, gravou as 5 canções que compõe essa ode ao mundo moderno, com relatos intimistas de sua vida atual, suas relações pessoais, seus dilemas e ambições mais reservados e guardados no fundo do coração, aliado a uma alma pesarosa e pensativa.

As letras contém um Q irônico que abre espaço para muitos pensamentos e ponderações sobre o seu real significado. A maioria carrega uma sonoridade lenta e pesarosa, mas algumas são bem divertidas e alegres, com refrões pegajosos e uma atmosfera dançante.

Vale a pena escutar.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A diametral oposição entre a série e filme em Cowboy Bebop

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Semana passada apresentei a minha digníssima namorada o filme de Cowboy Bebop. Foi o primeiro contato dela com a série e logo ela ficou animada para assistir o anime. Ela ainda não viu o anime, mas pelos comentários que ela me fez ao final do filme e a discussão que tivemos, eu concluí que, talvez, ela não fosse gostar tanto assim da série animada.

Eu também me encontro nessa, pois acho o filme superior ao anime, embora a série já tenha sido eleita por este que vos escreve como o melhor anime de todos os tempos. Após tantos anos sendo fã de Cowboy Bebop (e do trabalho do Shinichiro Watanabe, como um todo), eu finalmente descobri a razão da minha preferência: o filme é diametralmente oposto à filosofia da série.

Assumo que você conheça a ambos e se não conhece, imagino que seja melhor você conferir o filme e a série, ou pelo menos, se inteirar do que se trata essa obra para melhor absorver o conteúdo desse post.

A série é uma tragédia e isso não é segredo para ninguém. Ela começa e termina com Spike Spiegel, ele é o personagem principal, um anti-herói e que acaba morto no final de uma maneira grandiosa, na escadaria de uma catedral, com a tela embranquecendo, cravado de bala, sangrando baldes, após ter se despedido de todos os seus amigos de nave. A história de Spike é uma tragédia no sentido mais clássico do termo, não deixando nada a dever para as histórias de Édipo Rei ou Hamlet.

Além da tragédia, temos ainda a presença de uma série de diálogos espirituosos entre os seus personagens que nos remontam a escolas filosóficas que corroboram essa atmosfera trágica do anime, como o existencialismo de Sartre, que penetra no anime sem a menor sutileza logo no segundo episódio. O existencialismo, apesar de negar a excelência da experiência humana, aprofunda debates que surgem em peças trágicas como Hamlet, por exemplo.

Ser ou não ser, eis a questão do existencialismo.

Tudo isso cria na série uma aura melancólica, na melhor das hipóteses e até niilista, numa interpretação mais repulsiva. Realisticamente falando, é uma série difícil de ser engolida ao se chegar no final, com uma aura filosófica negativa. Reassistir a série é uma atividade amarga.

E então temos o filme.

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Criado 2 anos depois da série, o filme nos apresenta os mesmos personagens, em momentos antes dos últimos episódios e uma mudança radical na filosofia apresentada. Spike continua sendo um cara levado pelos acontecimentos, ele já está morto, um de seus olhos só enxerga o passado e ele enfrenta, no filme, um cara que está querendo destruir o mundo.

Vincent, assim como Spike, já está morto por dentro. Ele, inclusive, já perdeu a memória e está com o controle de um vírus que mata as pessoas rapidamente, pretendendo lançá-lo sobre Marte, afim de acabar com toda a população humana por lá.

Spike não é bem a sua contraparte, mas há uma diferença pontual e muito importante entre eles: Spike não é destrutivo. Spike pode até ser um suicida e tem atitudes caóticas, mas ao final do filme, ele derrota Vincent não pelo valor da recompensa, mas por não querer que o mundo seja destruído, em especial, a Elektra. Podemos assumir que ele se apaixonou e isso o motiva a salvar o mundo. Sabemos que é uma paixonite, mas, de qualquer forma, é o bastante para ele salvar o mundo.

Ao final, ainda vemos a icônica frase "Are you living in the real world?" enquanto Knock a Little Harder termina de ser tocada ao fundo. A música nos contra sobre um eu-lírico que está afundando cada vez mais em isolamento e desolação, mas nas últimas estrofes acaba descobrindo que isso não é vida e tenta escapar. Não sabemos se ele consegue, mas ele tentará, cada vez mais forte.

A mensagem é fortemente positiva, embora inconclusiva. É uma positividade sutil, caindo num espectro filosófico diametralmente oposto ao da série. No filme não há claras referências a filósofos, mas é possível inserir os questionamentos dentro da escola humanista.

And the more that I knocked
The hotter I got
The hotter I got
The harder I knocked
I just gotta break through the door


Gotta knock a little harder


O filme de Cowboy Bebop, ao contrário da série, é uma ode a vida e acho que é por isso que muitos dos fãs não gostam tanto do filme. Ele é um chamado ao amadurecimento, a fuga do casulo que nos isolam do mundo real, ao crescimento! E essa é uma mensagem que poucos conseguem engolir.

 

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Dica musical: "Sombrou Dúvida" do Boogarins (2019)

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Fui pego de surpresa com o novo lançamento do Boogarins e a surpresa foi bem-vinda.

O novo CD do Boogarins continua explorando os sons psicodélicos que fizeram da banda uma sensação do rock nacional há alguns anos e angariou muita fama internacional para eles em anos recentes.

Nesse novo álbum, eles aproximam-se de uma pegada mais seiscentista e menos aquela pegada neopsicodélica que os caracterizavam. No entanto, continuam explorando novas sonoridades e, aqui, são os elementos eletrônicos que mais chamam a atenção, fazendo uso de samples, teclados e outros sons, que, surpreendentemente, não destoam das guitarras distorcidas, principal marca da banda nesse CD.

O ar preguiçoso das melodias continua, mas com fortes ritmos que irão conseguir agitar todos os fãs da banda que comparecerem em seus futuros sons. É um CD com um apelo meio pop, mas sem deixar o ar misterioso, exótico até, que a banda carrega.

Vale a pena escutar.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Dica cinematográfica: "The Art of Self Defense" (2019)

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Faz tempo que não vejo uma boa comédia de humor negro... ainda bem que esse filme veio!

The Art of Self Defense conta a história de Casey Davis, um loser no pior sentido da palavra. Um cara com mais de 30 anos, que mora sozinho, tem um cachorro salsicha, não tem amigos no trabalho, anda curvado e muito menos namora. Após ele sofrer um ataque de uma gangue de motoqueiros numa noite, ficar hospitalizado e perder muitos dias de trabalho, decide se matricular num curso de karatê e a partir daí sua vida irá mudar completamente, mas não necessariamente pra melhor.

O filme é muito divertido, capturando de forma magistral a crise da masculinidade atual (com os dois polos, de um lado o perdedor virjão e do outro os machões metidos) de uma maneira leve e engraçada. Imagino o filme servindo de inspiração para muitos adolescentes ainda perdidos e conseguindo encontrar um caminho saudável com base nesse filme, que nos joga numa espiral endoidecida de eventos aleatórios, o que gera o absurdo e, por consequência, o humor.

O filme é uma comédia de humor negro, então não espero grandes diálogos espirituosos, nem cenas atrapalhadas, muito menos piadas de peido. Em compensação, temos situações absurdas, muito sérias dentro do universo do filme, mas engraçadas para quem está assistindo. Nessa temática, as atuações inexpressivas de Jesse Eisenberg, Imogen Potts e Alessandro Nivola valem ouro!

O filme é muito bem dirigido e trabalhado, com cenas belíssimas, uma paleta de cores chamativas, carregando o ar da obra de estilo e audácia.

É um filme que vale a pena assistir com os amigos, com a família, com a namorada, enfim, é uma ótima pedida, que eu não via desde Maratona do Amor.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O encerramento da mente brasileira

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Iniciei uma aula optativa esse semestre na faculdade e estou achando aterradora a experiência. Logo nas primeiras semanas vi uma demonstração de ignorância tão gigantesca que aquilo me deixou mal por quase 2 semanas. Vendo que aquilo estava me fazendo mal, decidi abordar aquelas aulas como um antropólogo estuda povos antigos e procuro estudar aquele comportamento abjeto demonstrado por mentes, supostamente, iluminadas.

Tudo começou com uma mudança de sala. Eu, aluno de humanas, fui jogado com o resto da turma que optou pela tal aula no bloco de engenharia. Logo na primeira aula, uma menina-menino do curso disse, brincando, que se sentia oprimida pelo nível de heterossexualidade exalada pelos corredores daquele bloco.

Na semana seguinte, a professora chegou mais cedo para a aula (assim como eu e alguns outros colegas de turma) e ainda haviam alunos de engenharia na sala. O grupinho de futuros engenheiros ajudaram a professora a arrumar a sala, ajeitaram o seu laptop numa mesa, conectaram ao datashow da sala, limparam a lousa, mas um deles cometeu o erro de ter vindo com uma camiseta escrito "Pró-vida". Foi o suficiente para acabar com toda o ritmo da sala, pois provocou protestos acalorados de alunos "pró-escolha" (como se aborto fosse escolha) em reflexões na aula.

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A aula em si é de literatura, mas todos os textos, poemas épicos, tragédias gregas, fábulas e até contos de fada são analisados sob uma ótica feminista. A sala, majoritariamente feminina, colabora para as discussões com relatos familiares, situações transmitidas por amigas, reportagens sensacionalistas e altos e amargurados comentários acerca do patriarcado, fazendo da aula uma verdadeira terapia de jovens desiludidas e pessimistas.

É o suficiente para retomarmos ideias de dois grandes pensadores das ciências humanas e que compartilhavam o mesmo sobrenome, mas que não tinha parentesco algum: Harold e Allan Bloom.

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Allan foi um filósofo americano que ganhou notoriedade em 1987, já no final da vida, ao lançar o livro The Closing of the American Mind, uma das melhores leituras que fiz esse ano e já entrou para um dos melhores livros da minha vida. O livro, uma crítica ao sistema universitário estadunidense, traçava uma regressão clara que começou nos anos 60 com os movimentos civis e que terminaram por entrar nas universidades, sufocando o pensamento científico das ciências humanas, a começar pelo relativismo, que assolou as universidades a partir das décadas de 60.

Influenciadas pelos filósofos pop franceses (Foucault, Derrida, Delleuze, et al), que por sua vez eram influenciados por Heidegger (não a toa são chamados por Allan como neo-heideggarianos, numa tradução livre), as universidades americanas deram continuidade ao plano de Nietzsche de invalidar as ciências naturais. O problema? Nietzsche falava de estética e eles começaram a aplicar as noções negativas de Nietzsche para tudo, da filosofia clássica à ciência política, esquecendo que a ciência não só depende da filosofia, como a filosofia é uma pré-ciência. É por causa da filosofia que existe ciência empírica, ciências naturais e, em última instância, ramos como a engenharia.

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Esse distanciamento das ciências humanas das ciências naturais provocou (e ainda provoca) uma ruptura dentro das universidades que faz mais mal às ciências humanas do que às ciências naturais ou técnicas (como são conhecidas hoje os ramos de engenharia e afins), pois esse isolamento priva os estudiosos das ciências humanas do contato daquilo que é o seu próprio objeto de estudo, o ser humano. É aí que Allan Bloom cria uma das melhores analogias que eu já tive o prazer de ler em toda a minha vida, ele diz que as ciências humanas se tornaram numa Atlantis, cada vez mais isolada e afundando, eu diria, nas águas da irrelevância.

Os cursos então se fecham cada vez mais em si mesmos, formando mais radicais do que profissionais. A pessoa que sente a "opressão heterossexual" hoje é a professora de ensino regular de amanhã. A discussão do aborto é mais uma questão de lógica do que uma questão de saúde pública, muito menos de saúde da mulher, mas não há uma aula de lógica para os alunos de humanas fora de filosofia, menos ainda há alunos de filosofia interessados em lógica de fato. Analisar fatos, argumentos, pesá-los, compará-los e saber as sua real medida é uma prática puramente filosófica e necessária para a vida se você quiser se considerar minimamente inteligente, mas não é isso que se faz nas faculdades de humanas atuais (ou, pelo menos, na maioria).

Há um fechamento cada vez maior da mentalidade universitária, cada vez mais caixinhas são criadas e ideias são jogadas nelas junto com as pessoas que supostamente as defendem e se defendem ideias cada vez mais fechadas em si mesmo, como o feminismo. Toda, TODA, obra literária que eu vi naquela aula foi analisada sob um viés feminista, até mesmo uma história como Snow Queen é usada para se atacar o patriarcado.

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Esse foco exagerado em apenas algumas poucas ideias que correspondem a ânsia de se dar voz a grupos minoritários (embora eu seja o único pardo da sala) criou o que Harold Bloom chamou de escolas de ressentimento.

Estudos feministas, pós-coloniais e pós-estruturalistas são apenas algumas das principais ideias que formariam as tais escolas de ressentimento. O termo é pejorativo e ofende muita gente, mas basta frequentar uma aula dessas pra saber que o termo é, na verdade, muito propício. Como já disse, TODA obra literária é analisada sob esse viés e eu nem acho isso um absurdo, é possível sim, afinal a literatura é uma caixa aberta de onde você pode tirar o que quiser. No entanto, detalhes importantes são deixados de lado para tirar uma moral que satisfaça o ego daquelas mulheres ressentidas em sala de aula, propiciando a elas um ambiente para expurgar as suas angústias e desgostos com os homens fora da aula.

Isso até que a atividade intelectual se torne hábito. A partir daí, ela vira uma professora que nem se esforça mais em analisar a obra, apenas repete aquilo que leu a vida toda e transmite, no automático, todas aquelas frases de efeito que, de tão vagas, se encaixam em qualquer lugar.

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E dessa forma, como bem salientado por Harold Bloom, se esquece de explorar os aspectos estéticos das obras, a escrita elaborada de Andersen, as ricas narrativas de Dickens, cheia de personagens e cenários robustos, a profunda reflexão que uma fábula de Esopo pode provocar e até mesmo os bravos insights que uma tragédia grega pode nos trazer sobre a natureza humana.

Tudo isso é esquecido em nome do quê? De uma ideologia. Palavra essa que é proferida a torto e a direito nas faculdades de humana hoje, às vezes em tom jocoso, para caçoar daquelas figuras "nefastas" que são contra ela, esquecendo de que o próprio deus deles, Marx, era contra essa coisa aí de ideologia.

Allan Bloom morreu em 1992, vítima de AIDS e Harold Bloom morreu essa semana, provavelmente vítima de complicações de saúde relacionadas a cirurgias cardíacas e problemas ósseos, não sei ao certo e isso não importa. Esses dois gigantes das ciências humanas são até hoje combatidos nas universidades brasileiras, mas o cenário que eles pintaram é o cenário que se vê hoje. As universidades brasileiras os detestam porque eles são o espelho pelo qual elas enxergam o seu interior e, no interior, ninguém é bonito.

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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Dica cinematográfica: "Mahjong" (1996)

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Confesso, não conheço muito da história de Edward Yang, mas desde que entrei em contato pela primeira vez com suas obras cinematográficas há uns bons 6 anos, fiquei fascinado com seus filmes obscuros, cultos e corajosos.

Mahjong é sua penúltima obra e, apesar de ser construída como uma farsa, carrega ótimos momentos dramáticos, contando a história de Red Fish que se vê numa batalha entre a máfia taiwanesa e seu pai, que emprestou uma quantia absurda de dinheiro e como não consegue pagar, decide fugir. Seu filho também é membro de uma gangue de vagabundos que vivem dando pequenos golpes e o filme se estende entre essa narrativa principal e as diversas ramificações geradas pela interação de Red Fish com outras figuras numa viva Taipei.

Taipei é o centro do filme, que não deixa de exibir a beleza moderna da cidade, principalmente nas cenas noturnas, mas são os personagens que roubam a cena, em especial, o núcleo formado por Luen-Luen e Marthe, uma francesa que vai para o extremo oriente em busca de um cara que a abandonou em Londres. O filme carrega muito do cosmopolitanismo que se formou no extremo oriente nos anos 90 e início dos anos 2000, gerando verdadeiras "cidades do mundo".

Isso gera diversos momentos de reflexão profundos, apesar de breves, como mais para o final do filme, quando o ex de Marthe expõe um diálogo dizendo que Taiwan será o ápice da civilização ocidental e vendo o que acontece hoje em Hong Kong seu monólogo ganha um tom profético.

Mas o filme não deixa o humor de lado, criando situações bizarras, beirando o absurdo e diálogos inteligentes, mas sarcásticos, carregando o filme com um certo humor negro que abre ainda mais oportunidades para reflexões, seguindo o pensamento anti-China, anti-materialista e patriótico pró-Taiwan de Edward Yang, presente também em outros filmes de sua carreira.

Tudo isso fazem de Mahjong um filme corajoso, sui generis, sublime e reflexivo. Uma pérola dentro da cinematografia de Edward Yang.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Links sortidos de quarta #12

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O mundo perdeu um grande ser humano... morreu Harold Bloom. Que Deus o tenha!

A arte da Topophilia, ame o lugar em que você mora.

E agora entrando num estado de espírito desolador, mais uma hipótese surge contra a singularidade.

Pelo jeito, eu vou gostar do Coringa! hehehehehehehe

Do melhor site da web, um puta artigo sobre a racionalidade por trás das emoções.

A verdade é encontrada na tensão e o poder, no paradoxo.

A censura chinesa chegou aos esportes americanos.

Finalmente saiu a live de 100 mil inscritos de Paulo Kogos! Foi genial, ousada, carregada de sentido, mas, acima de tudo isso, emocionante.

Ouça Ave Dulce, a ópera em homenagem a irmã Dulce.

A magia do bar.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Dica musical: "Lilac" por The Early November (2019)

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Depois de um breve atraso, o The Early November lançou o seu mais recente trabalho de estúdio, um álbum recheado de músicas originais, explorando um novo som dentro da carreira da banda, que não deixa de carregar a sua essência.

Lilac é o nome dessa mais nova aventura musical dentro da carreira do The Early November, que desde o seu retorno do hiato em 2012, se distanciam das suas raízes dentro da música emo para se elevar dentro do rock em geral. O retorno com In Currents já revelava uma aproximação maior com o post-rock e a progressão é clara quando colocamos Imbue no meio e seus canções mais tranquilas, românticas e animadas. Com esse álbum não é diferente, mas a banda não perde sua essência, como fica claro em My Weakness.

Não há uma profusão de elementos eletrônicos, nem uma mudança na construção das canções, eles continuam tendo os mesmos elementos de sempre, a ambição continua sendo a mesma, de criar canções simples, rápidas, mas tocantes, com a diferença de que aqui se explora acordes mais vivos e alegres para se fazer isso. O resultado é um som que lembra as canções mais animadas e agitadas de Modern Baseball, por exemplo.

As guitarras são muito bem colocadas, com toques aqui e ali que carregam a melodia das músicas (remanescentes do emo), mas com acordes que passam uma energia mais positiva. A atmosfera de todo o álbum é mais leve, porém não leviana, como seria de se esperar de um álbum de música pop.

Muito pelo contrário, o próprio single do álbum (Ave Maria) é um álbum cheio de referências, que vai de Schubert a futebol americano em pouco mais de 3 minutos. A maturidade da banda é clara, revelando-se em todas as suas camadas, dos instrumentos até as letras.

https://www.youtube.com/watch?v=6vpwWtRezU0

E não para por aí, Ace Enders alcançou um nível de maturidade vocal tão grande que agora ele não precisa mais estourar os seus pulmões para alcançar grandes notas. Sua voz encaixa-se perfeitamente em todas as canções, junto com os outros instrumentos, independente do tom da música, seja mais pesada, seja mais leve.

Com Lilac, The Early November se revela uma banda de rock mesmo, muito bem organizada e com oportunidades de promover debates entre fãs. Vale muito a pena escutar!

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Dica televisiva: Carole & Tuesday (2019)

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Andrew Breitbart, que Deus o tenha, dizia que a política é ladeira abaixo da cultura, ou seja, a cultura é mais importante do que a agenda política. Há gente sinistra por aí que acredita que tudo é ato político, mas a real é isso que o Breitbart dizia e o Shinichiro Watanabe entende a importância da cultura perfeitamente.

O novo anime do grandioso Shinichiro Watanabe continua a explorar o universo criado por ele em Cowboy Bebop e conta a história de duas meninas adolescentes, a Carole e a Tuesday, que se encontram por acaso numa ponte e começam a cantar juntas, iniciando assim um proveitoso caminho em direção ao sucesso musical, que culminará no milagre de 7 minutos.

Apesar do meu resumo, a história não é nada simples, porque cada uma das duas personagens carregam histórias extremamente profundas. Carole é uma menina orfã terrestre, que morou num campo de refugiados toda a sua infância e hoje mora quase de favor em cima da loja de um japonês que passa os seus dias fumando um cachimbo na frente da loja. Já Tuesday é filha de uma política que está concorrendo à presidência de Marte e foge de casa pois sua mãe é muito rígida com ela, buscando uma chance no mundo da música.

Logo de cara, elas encontram Gus, um produtor musical que fora baterista de uma banda e hoje passa os dias e noites dentro de um bar, engordando e se embebedando, sem limites. Ao ouvir a música das duas, Gus se emociona e decide produzi-las. O problema é que Gus já tem um passado falho como produtor musical, o que também o força a sair de sua zona de conforto ao interagir com elas.

Junte-se a eles, Roddy, também produtor musical que está por trás de Ertegum, o maior DJ de Marte, um rapaz magro, fraco e que é levado a sair de sua zona de conforto para acompanhar a dupla de cantoras amigas. Além dele, temos ainda Angela, uma ex-atriz mirim, que agora tenta a sorte no ramo da música, forçada por sua mãe, uma trans que a força a entrar em contato com Tao, o maior produtor musical de Marte, que usa IA para melhorar a voz de Angela e calcular todos os seus movimentos de forma que ela exiba sempre sua melhor performance, com a melhor voz.

A densidade de caracterizações é enorme, com histórias de fracasso no pano de fundo, temas pesados que se relacionam com os dias atuais e uma mensagem de esperança para prosseguirmos com os nossos sonhos. Além dos personagens, encontramos em Marte uma terra de esperança, o woolong (moeda cunhada lá em Cowboy Bebop) é a moeda digital utilizada em Marte, seu clima é artificial e toda a história se passa numa cratera do planeta vermelho. Parece que o futuro deu certo para Marte, mas não para a Terra, que afunda na pobreza e, provavelmente, guerras.

Nunca é jogado na cara o pano de fundo da história. Ao que tudo indica, a linha temporal é anterior a Cowboy Bebop, mas isso só podemos assumir. A partir daí, Shinichiro Watanabe tem liberdade de criar algo que se relaciona com problemas atuais que é questão da imigração. A mãe de Tuesday é uma espécie de Trump-mulher, contra os imigrantes terrestres e isso gera muitos conflitos ao longo da série.

No entanto, ao contrário do que seria de esperar de uma série feita em parceria com a Netflix, Watanabe nos apresenta uma solução nada ortodoxa para os padrões progressistas da empresa. Somos apresentados ao deep state de Marte, com a mãe de Tuesday sendo usada por um marketeiro milionário e um membro da elite artística de Marte usando sua influência pra produzir músicas que visam transformar os eleitores de Marte em zumbis. O resultado disso é uma abordagem que fica entre o conservador e o libertário, com a mãe de Tuesday mandando esse pessoal caçar coquinho, uma espécie de FBI de Marte tomando as rédeas da situação e a esperança caindo toda sobre a cultura, no caso, a música, para que um mundo melhor possa surgir.

E como não comentar a música de Carole & Tuesday? Esse é o ponto alto da série, que aliás, foi feita para celebrar os dez anos da FlyingDog, uma gravadora japonesa e os 20 anos do estúdio Bones. As canções originais são variadas, contando com a participação de uma ampla gama de artistas, inclusive de Thundercat e Flying Lotus, finalmente fazendo uma colaboração com o mestre Shinichiro Watanabe.

Nisso há um leve problema na série, porque os artistas convidados para cantar são americanos, ou pelo menos, cantam em inglês, enquanto que a série é japonesa. O resultado é uma grande diferença entre o tom de voz dos personagens quando estão falando e quanto estão cantando, como no exemplo abaixo:

https://youtu.be/S7uk8YfDFuw

Felizmente isso não ocorre com as personagens principais. Surpreendentemente, as dubladoras e as cantoras de Carole e Tuesday não tem uma voz tão distante assim.

Mas enfim, deixarei pra comentar mais sobre as músicas nas dicas de sua trilha sonora. Por enquanto, vale dizer que a primeira metade do anime foca menos no lado pessoal, social e político dos personagens e as condições em que se encontram e mais na trajetória musical de Carole e Tuesday, o que gera discussões interessantes, como a questão do uso de IA na indústria musical e a perseguição de fãs. Fora que há muito mais música pra se aproveitar e até para se rir, como a participação especial de um Vitas do Paraguai.

O que há de negativo em Carole & Tuesday? Não sei. Me diga você nos comentários, porque eu acho esse anime quase perfeito.

https://www.youtube.com/watch?v=4QuI8Rznxfc

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Links sortidos de quarta #11

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No Brasil, crime ou não, depende de quem comete, ofensivo ou não, depende de quem fala, certo ou errado, depende de quem pensa. No Brasil, tudo depende.

Numa discussão na sala, eu não consegui dizer que sou pró-vida. Isso me incomodou profundamente e é sempre bom lembrar de Francisco Razzo nessas horas.

O Kogos voltou a fazer vídeos de hagiologia. Conheça a Santa Teresinha do Menino Jesus.

Mesmo com o mundo podre em que vivemos, podemos encontrar uma saída nos perguntando "o que o meu melhor eu faria"?

O relatório anual de violência em Nova Iorque saiu e os resultados não irão agradar quem é contra armas... ahahahahahahahaha!!!

O Paquistão é um país pra se ficar de olho.

Novo quadro no canal do Kogos: quintanomics! E nesse programa, ele explicou como o livre mercado destrói a agenda globalista.

E pra finalizar, um mashup do grande Nujabes com Notorious B.I.G.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Dica literária: "Fausto, segunda parte"

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E agora sim, a dica derradeira, a segunda parte do poema épico e trágico de Johann Wolfgang von Goethe.

A história nessa segunda parte inicia-se com Fausto deitado num gramado, uma área aberta, que irá prenunciar a amplidão que essa obra irá ganhar em comparação com seu início. Continuando seguindo o seu plano, Mefistófeles garante com que Fausto consiga tudo que ele sempre obteve, mesmo que isso envolva disfarçar-se dentro de um palácio imperial, invocar o espectro de Helena de Troia e dar a ele uma ilha inteira.

A segunda parte dá os tons épicos pelo qual Fausto é conhecido. Se na primeira parte temos muitas imagens góticas, remanescentes do romantismo, aqui o romantismo é morto, dando espaço para o neoclassicismo que Goethe passou a admirar com sua viagem para a Itália, após muitos anos de trabalho burocrático.

Temos uma nova noite de Valpúrgis, apenas com figuras mitológicas greco-romanas, a presença de Helena de Troia, uma guerra civil sendo travada sob o império desse imperador que não se apresenta e finalmente um projeto que foi expropriado por marxistas no século 20 (um tiro no pé, diga-se de passagem, mas isso não cabe nessa dica).

Mais uma vez a editora 34 faz um excelente trabalho, guiando o leitor no meio dessa amálgama de mito, religião, política, história e filosofia, com suas extensão notas de rodapé e as introduções para cada cena.

A tradução de Jenny Klabin Segall, que se confunde com a própria criação poética de Goethe (afinal a tradução de Fausto também se estendeu por quase toda a vida da tradutora, assim como a sua criação foi o projeto de vida do poeta), continuou excelente, mantendo quase todos os sentidos e, esforçando-se ao máximo para manter a estrutura e suas rimas. Foi um trabalho hercúleo admirável.

O encerramento é singelo, belo e poderoso, com imagens incríveis que retomam ao maior épico de todos os tempos, A Divina Comédia, conseguindo transpor para suas páginas quase que a mesma sensação que a obra dantesca, um espanto, uma sensação de medo, mas provocada pela grandiosidade de seu conteúdo.

Ao contrário de Dante, não sinto que Goethe estava especialmente iluminado, abençoado pelo Céu ao escrever sua obra, mas ele se revela a mim como um trabalho de um verdadeiro gênio, aquele que, nas palavras de Schiller, nem precisava se esforçar para criar uma obra incrível, imagine então quando se esforçasse? O resultado é isso aí.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Dica musical: "Dead Horse X" do Touché Amoré (2019)

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Há 10 anos o Touché Amoré fazia a sua estreia com o lançamento de ...To The Beat of a Dead Horse. O CD se tornou uma fonte quase inesgotável de inspiração para uma penca de bandas que iriam surgir em torno daquele sonoridade, como La Dispute, Pianos Become The Teeth e toda a cena post-hardcore de Filadélfia, nos EUA. Para comemorar, eles realizaram esse lançamento.

A proposta de Dead Horse X é muito interessante, além de uma remasterização de ...To The Beat of a Dead Horse, ele contém ainda uma regravação do CD inteiro. Ou seja, além de ouvirmos o álbum de 2019 com uma qualidade superior, ainda temos a oportunidade de ouvir todas as 11 músicas que constituíam o álbum sob a técnica que a banda conseguiu angariar nesses 10 anos desde que lançaram seu primeiro álbum.

O resultado é nada menos que incrível.

Ao longo desses 10 anos, o Touché Amoré deixou de ser uma banda de post-hardcore com muito ódio no coração para se tornar uma banda de post-hardcore com um enfoque no lado conceitual de seus álbuns, explorando diversas sonoridades, sem esquecer as raízes.

A partir daí, temos o mesmo som, mas sendo retrabalhado. Algumas linhas de guitarra se sobressaem sobre outras, quando comparadas com sua versão de 2009, a bateria parece ter ganhado novas nuances, mas sem perder a velocidade. O baixo em algumas canções é menos marcante, mas cumpre perfeitamente o seu papel e o que dizer da voz de Jeremy Bolm? Ele não grita mais como antes, mas pode cantar, embora não seja um canto convencional. Seus gritos parecem ganhar mais ritmo e não são feitos para simplesmente gastar sua voz. Sem contar que eles ainda conseguiram chamar os parceiros que tiveram participações especiais no primeiro CD, o que é um ato louvável.

As novas versões se destacam no novo álbum, principalmente porque podem ser imediatamente comparadas com suas versões de 2009.

A ideia é muito interessante e vem na esteira da versão de 10 anos de Somewhere at the Bottom of the River Between Vega and Altair, o que é um exemplo para as outras bandas por aí, que poderiam retrabalhar seus primeiros lançamentos ao invés de fazer novos CD's ruins ou só lançar edições especiais com um monte de demos.

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Links de quarta #10

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Quer conhecer Noam Chomsky? Esse post é uma boa porta de entrada.

O Coppolla entrou no twitter!!! Que pena pra ele, que bom pra nós!

Conheça Urucu, o campo de extração de petróleo e gás natural no meio da floresta amazônica e que é mais uma prova da excelência brasileira em unir exploração de recursos naturais com preservação do meio ambiente.

Primeiro vídeo do Brasileirinhos com o grande Josias Teófilo!

E mais análise de Houllebecq pra quem se interessar. Seu novo livro parece trazer uma luz no fim do túnel em que o escritor dirigiu a carreira toda.

E mais do Quilette, um artigo que apenas confirma o que muita gente já sabe, mas não pode falar em voz alta: ninguém nasce no corpo errado!

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Dica literária: "Fausto, parte 1"

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Essa é uma dica que estou devendo há muito tempo, desde o ano passado, porque li o magnum opus de Johann Wolfgang von Goethe em 2018, mas só fui concluir a leitura da obra com sua segunda parte esse ano, retomando a leitura das duas partes.

A obra conta a história de Henrique Fausto, um erudito que, entediado com sua vida, faz uma aposta com Mefistófeles, um demônio, a qual consiste em Mefistófeles dar tudo que Fausto quiser em vida, mas Fausto irá ter que trabalhar para ele no inferno, isso, se Mefistófeles conseguir criar uma situação de felicidade tão extrema que Fausto não vai querer que ela acabe.

A partir daí inicia-se a trajetória de Fausto com Mefistófeles, elaborada como uma peça teatral versificada, proposta para ser lida, mais do que encenada, o que garante a obra seu título de poema trágico.

Seguindo os preceitos românticos que Goethe inclusive ajudou a construir, a obra concentra-se na relação entre Fausto e Margarida, fruto de sua admiração, conquista e futura tragédia, o que não garante que o pacto entre Fausto e Mefistófeles chegue ao final nessa primeira parte.

A obra é muito bem construído, com um balanceamento de elementos fantásticos e românticos perfeitos, cheia de ligações com diversas obras de arte e situações que faziam parte da vida dos leitores-alvo da época. Tudo isso cria um certo hermetismo para os leitores brasileiros de hoje, mas a edição da Editora 34 é impecável em seu trabalho de notas e introdução a cenas, que explicitam muito do conteúdo, facilitando em muito a vida de qualquer leitor.

A tradução de Jenny Klabin Segall é impecável, mantendo a estrutura dos versos, seu sentido e suas rimas, sempre que possível (e isso é quase sempre!). A linguagem é complicada como todo poema épico, mas é daquele jeito, uma vez que você se acostuma com aquele universo, consegue respirar sem o menor problema.

Quando li ano passado, já sabia que poderia esperar algo incrível com a leitura da segunda parte, mas só fui fazer isso esse ano, não sem antes reler esse fantástico volume. Como é de praxe, da segunda vez não só foi mais fácil, como muito mais proveitoso.

 

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Dica cinematográfica: "Não Vai Ter Golpe" (2019)

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Após aquele desastroso filme divulgado no Brasil pela Netflix, o MBL se mobilizou e lançaram, no melhor momento possível, a história de seu movimento e muito do que acabou se tornando a direita brasileira.

Antes, vale um adendo sobre o Democracia em Vertigem: não, eu não assisti ao filme. Sei que deveria, mas não assisti pelo simples motivo de que eu sei que ele está recheado de mentiras e nem preciso assistir a ele para saber disso. Nunca antes na história desse país se falou tanto de política, soa absurdo que no país do futebol as pessoas não saibam quem são os atacantes da seleção, mas saibam em quem votaram pra deputado nas últimas eleições e quem é o chefe do congresso, programas de fofoca dedicam o mesmo tempo que o Jornal Nacional pra falar de Brasília, assim como já disse Josias Teófilo, a democracia não está em vertigem, a democracia está em ascese e eu insisto nessa tecla, vivemos o momento mais democrático do nosso país.

Voltando ao Não Vai Ter Golpe!, o filme também é meio enganoso, pois ele não é propriamente a história do impeachment e de como isso levou à atual situação do país, portanto não acredito que seja um filme-resposta ao de Petra. Muito pelo contrário, o filme do MBL termina quase onde o filme dela começa, ou seja, no impeachment.

Pois o filme do MBL é um filme do MBL, ou melhor, da história do MBL e isso ele faz de maneira maravilhosamente bem. A começar contando a história dos irmãos Alexandre e Renan Santos, entre diversos problemas e contratempos, os meninos do MBL já tinham apanhado bastante quando resolveram se envolver com política, quase que de maneira acidental, fazendo a campanha publicitária de um político em 2014.

Isso já mostra as raízes memísticas do MBL e parece claro que hoje em dia falaríamos de política mais com memes do que com seriedade (e não há nada mais brasileiro do que isso, convenhamos). Acompanhamos a entrada de figuras carimbadas como Kim Kataguiri, e outras, no mínimo, curiosas, como Pedro Deyroth e até mesmo Gabriel Calamari.

Seguindo a sua formação, acompanhamos sua trajetória de protestos que reuniram o maior número de pessoas nas ruas desde o Diretas Já!, sempre contando com a ajuda de outros movimentos como o Vem Pra Rua; até culminar na trajetória pra Brasília, que eu só lembro disso muito vagamente e o acampamento na frente do Congresso Nacional, que eu lembro de acompanhar isso com certa incredulidade.

Na época eu nem me importava tanto com política e acompanhava bem de longe, mas lembro que achava aquilo um absurdo, enquanto meu pai dizia que era necessário. Acho que nenhum de nós dois sabíamos de fato o que estava acontecendo.

O filme é claro em mostrar a relação íntima que o MBL teve com os políticos já naquela época, justificando inclusive as atitudes desastrosas que seus membros andam cometendo atualmente.

Mas lá para o meio do filme aparece o Pondé, numa cena muito bem trabalhada esteticamente, onde mostra apenas a sua silhueta contra uma janela onde entra um brilho branco. A fumaça de cigarro ao seu redor dá a impressão de se tratar de um filósofo do calibre de Chesterton, Oakshott ou, no mínimo, um Scruton e ele diz uma palavra muito propícia para este filme: mito.

Não Vai Ter Golpe! é um filme com a clara intenção de criar um mito em torno do MBL e se sai muito bem nessa missão. Das origens humildes ao envolvimento acidental com a política até projetos falhos, como a marcha pra Brasília e atitudes que pouco chamaram a atenção dos brasileiros, como o acampamento na frente do Congresso Nacional. Tudo é retratado de maneira épica no filme, mas de uma maneira despojada, sem melodrama. É um épico moldado no e para o século 21.

A sensação ao final do filme é de rejuvenescimento. Eu senti aquele antigo amigo liberalzinho ressurgir dentro de mim e me fez tirar a camiseta empoeirada do Mamãe Falei do armário pra usar naquele mesmo dia. E eu a vesti com orgulho, mesmo que o meu lado racional soubesse das falhas cometidas.

Os ares épicos do filme não correspondem com a realidade dos fatos. O MBL só foi ganhar toda essa importância mesmo em 2016, quando foi o grande responsável pelos maiores protestos que esse Brasil já viu. Ele termina com o impeachment, como se fosse uma grande vitória, mas não foi. É sempre necessário lembrar que até hoje a Dilma tem seus privilégios políticos, até hoje ela anda de carro às custas dos brasileiros, com uma aposentadoria vitalícia vinda de impostos. Houve golpe sim!

E após isso o que foi do MBL?

Tirando alguns poucos exemplos locais como o surgimento do Arthur Mamãe Falei e o Gabriel Monteiro, o movimento acabou, ou pelo menos sua relevância. Fernando Holiday ainda se sustentou bem quando entrou oficialmente para a ALESP, mas o movimento em si cai cada vez mais em descrédito e nem é pelas críticas ousadas e necessárias ao Bolsonaro e sua dinastia, mas sim às próprias rupturas que criou, como as escabrosas defesas ao imposto, que é roubo e isso nem sequer é discutível.

Ainda assim o documentário é incrível, pois captura com emoção um momento marcante da história do Brasil, dando ares mitológicos a, talvez, o movimento de rua mais importante da história da Terra de Santa Cruz, ainda que isso seja hoje apenas peça de museu.

 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Links de quarta #9

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O Raphael Hide lançou um vídeo que, apesar de eu ainda discordar de alguns pontos bases, me fez lembrar do motivo de eu ainda ser um libertário.

Uma breve e, confesso que nem tão satisfatória, explicação de como Hong Kong chegou até o ponto em que está.

Justin Truddeau, talvez o pior político do mundo vivo, foi pego fazendo blackface e imitações estereotipadas de jamaicanos, mas o que pode acontecer com ele? PJW manda a real.

Greta Thunberg está chamando a atenção de todo mundo, mas será que vale a pena prestar a atenção?

E um vídeo da Prager U pra acabar de vez com essa delinquente.

Ainda na ONU, aqui vai o discurso do nosso presidente.

Em mais um ato de utilidade pública, o Flow Podcast entrevistou o excelentíssimo sr. Paulo Kogos!

E claro, mais Praça é Nossa!

 

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt.3

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Faz mais de um mês que terminei a leitura de As Duas Torres, mas devido a diversos problemas pessoais, fiquei adiando, empurrando essa postagem com a barriga, mas finalmente estou aqui, para fazer essa pequena resenha da segunda parte desse épico fantástico.

Compreendendo os livros 3 e 4 de toda a obra, As Duas Torres começa do ponto onde terminou A Sociedade do Anel: com o fim da sociedade. Os hobbits se perdem e Aragorn começa o livro descobrindo Boromir morto, após ouvir o último toque de sua trombeta. A partir daí, ele, Gimli e Legolas partem na aventura rumo ao leste, encontrando inimigos e fazendo novas amizades, culminando com o reencontro deles com Gandalf, magicamente revivido e agora o novo portador do manto branco e seu primeiro enfrentamento com Saruman.

No entanto, antes dessa culminação, acompanhamos ainda as desventuras de Merry e Pippin, que foram capturados ao final d'A Sociedade do Anel por um grupo de Orcs, o qual trabalha com um grupo de humanos, sob o comando de Saruman. Esse grupo acaba sendo atacado pelos Rohirrim, guerreiros de Rohan (uma espécie de cidade-estado da Terra Média), que terminam por encontrarem Gimli, Legolas e Aragorn. No entanto, Merry e Pippim aproveitam a ocasião para fugir e encontram os Ents, figuras mitológicas que lembram em tudo árvores.

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Os Ents são os grandes responsáveis por ajudar os guerreiros de Rohan, junto com o que sobrou da Sociedade do Anel, a derrotar Saruman, mas isso tem suas consequências, pois já prediz um enfrentamento ainda maior entre as forças do bem e do mal.

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O livro 4, bem diferentes do 3, foca completamente na trajetória que Frodo e Sam realizam após o final d'A Sociedade do Anel. Os dois conseguem capturar Golum e de forma sagaz, mas também inocente, fazem com que o monstrengo os guie até o Orodruin, o vulcão onde eles pretendem destruir O Anel. Entre tramoias obscuras, muitos questionamentos e até risadas, os hobbits conseguem chegar a Mordor, apenas para enfrentar uma aranha gigante e se perderem nas mãos de orcs.

Dessa vez, a leitura foi muito mais dinâmica e aqui Tolkien revela-se como mestre da narrativa, de fato. A forma como é guiada as diversas trajetórias de As Duas Torres é primorosa, sendo uma fonte de inspiração para grandes épicos até os dias atuais, afinal basta lembrar da divisão feita por Martin nos últimos livros d'As Crônicas de Gelo e Fogo.

Vemos também se delinear a linha que irá culminar na grande batalha final aqui, algo que é previsto logo nas primeiras páginas do primeiro livro, mas que não se mostra como um horizonte possível. A genialidade do trabalho de Tolkien é incrível aqui.

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No entanto, vale ressalvas. Ainda que mais dinâmica, a leitura é arrastada em diversos momentos, principalmente quando Gimli, Legolas e Aragorn ainda estão perdidos e nas cenas desoladoras de Mordor, onde Frodo e Sam se encontram. Sem contar que o retorno de Gandalf não deixa de ser um deus ex machina. Eu gostaria que houvesse uma explicação mais elaborada para isso.

De qualquer forma, a obra é muito boa, consegue amarrar os ganchos que são deixados no primeiro e abrem espaço para novas possibilidades.

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Dica cinematográfica: "Parasite" (2019)

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Não, esse filme não adapta aquele anime muito louco de um tempo atrás... eu também me confundi, mas não me arrependi.

"Parasite" conta a história de uma família de malandros. Tudo começa com Ki-woo arranjando um trabalho como professor de inglês da filha mais velha de um magnata da tecnologia. Após isso, Ki-woo arranja, através de farsas, que sua irmã, seu pai e, por fim, sua mãe também arranjem trabalhos na casa. No entanto, a realidade começa a romper quando tudo parecia se assentar num final de semana chuvoso.

O mais novo filme do gênio Bong Joo-ho foge dos gêneros aos quais ele mais se apegou e explora aqui um drama existencial familiar. Ainda que os eventos para o final do filme ganhe tons fantásticos, o drama nunca deixa de participar em sua completude da narrativa, conseguindo manter os pés no chão, as cabeças nas nuvens e o corpo bem visto.

É um filme com um pano de fundo bem crítico à sociedade sul-coreana. Infinitamente superior a sua contraparte nortenha, mas que também carrega as suas mazelas, também infinitamente superior a qualquer mazela até mesmo brasileira, pode ter certeza. Ainda assim é uma crítica válida, que carrega um fiapo de esperança, talvez, em seu final...? Não sei... você pode olhar o copo meio cheio ou meio vazio, eu sempre opto pelo meio cheio.

O filme tem mais de 2 horas de duração, mas passa rápido que é uma beleza. A forma como a narrativa é guiada através das peripécias, os acontecimentos aleatórios e alguns até fantásticos carrega leveza e muita variedade a um filme, que tem, basicamente, 2 cenários e 8 personagens. É um feito louvável o que Bong Joo-ho fez aqui.

Vale muito a pena ser visto.