quinta-feira, 29 de março de 2018

Dica musical: “Always Ascending” do Franz Ferdinand (2018)

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Olha só que banda clássica está de volta para agraciar os nossos ouvidos! Franz Ferdinand adentra mais uma empreitada, dessa vez por caminhos não conhecidos e a estratégia acaba funcionando.

“Always Ascending” é o álbum mais recente da banda que fez sucesso na época em que ser indie era, genuinamente, legal e logo no começo já nos apresenta uma pegada diferente dos seus últimos lançamentos, que tentavam navegar num mar que já não tinha mais ondas e não sustentava banda alguma, isso ainda em 2013.

Só que lá pra cá muita coisa mudou e a sonoridade que consagrou o Franz Ferdinand se tornou alvo de nostalgia, vide os últimos lançamentos do Choir Vandals e do Los Campesinos, mas ao invés de tentar um espaço entre esses queridos lançamentos nostálgicos, o Franz Ferdinando resolveu enveredar num caminho novo, ousando incluir uma pegada mais pop e dançante ao seu novo álbum. Pegada essa que não é inédita a banda, pois eles já faziam isso, mas dessa vez os teclados e influências de música eletrônica se tornaram mais marcantes e a primeira canção já demonstra isso, embora ela não seja boa, iniciando de maneira discreta até culminar num pop muito eletrônico, que descaracteriza a banda e podia levar a um desastre como o do Fall Out Boy.

Felizmente não é esse caso. A segunda canção, “Lazy Boy” já nos apresenta riffs de guitarra marcantes, um som mais soturno, embora igualmente dançante, que vai crescendo e se tornando magnânimo como o clássico “Take Me Out” e o teclado serve apenas como um auxiliar para manter o ritmo.

E as outras músicas continuam nessa vibe, um ritmo bem marcante, dançante, com teclados que servem para manter o ritmo, riffs de guitarra marcantes e o Franz Ferdinando nunca soou tão classudo como agora. Parece realmente um amadurecimento, embora haja toques eletrônicos irritantes ao longo da maioria das canções, que só servem para quebrar a atmosfera poderosa que as canções têm.

Embora não perfeito, “Always Ascending” é um bom lançamento, apresentando um Franz Ferdinand muito inspirado, maduro e dançante.

3 pontos e meio

terça-feira, 27 de março de 2018

Dica cinematográfica: “Polícia Federal: A lei é para todos” (2017)

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Estava devendo esse filme, que foi uma das pontas da tríada de filmes reaças lançados ano passado (junto com “Real: O plano por trás da história” e “Jardim das Aflições) e, apesar de eu estar focado em assistir todos eles (afinal, um reacinha safado como eu tem que assistir esses filmes), nem todos irão ganhar dicas aqui. Não porque são ruins, mas porque, às vezes, não chama a minha atenção o suficiente para que eu escreva uma dica.

Não é o caso de “Polícia Federal”, filme lançado ano passado e que acabou chamando mais atenção algumas semanas antes de seu lançamento, pelo trailer e pelas críticas dos canais canhotos de informação do país.

Direcionamentos ideológicos à parte, o filme é interessante. Não diria que muito bom, tampouco é mediano, é um filme bom, um thriller policial bem classudo, que não poupa efeitos especiais, carregando o filme de uma atmosfera ultra-moderna (vide as cenas em que os personagens se encontram na sede da PF, cercados de computadores) e músicas genéricas de suspense, que dão um clima bem carregado durante toda a sua projeção.

A obra conta a história do início das investigações da Lava Jato até culminar nas investigações ao ex-presidente Lula, do ponto de vista de personagens fictícios, que servem apenas para representar figuras de dentro da Lava Jato, até porque a operação não passou nas mãos apenas de uma pequena equipe de poucas pessoas.

No entanto, esse é um recurso necessário para contar a história de uma operação que vem se arrastando há anos, descobrindo podres cada vez mais fundos e ligações cada vez mais fantásticas, no sentido de ser algo difícil de acreditar. Logo no começo do filme, somos guiados por investigações que não tinham relações entre si, inicialmente, mas acabaram se encontrando e juntas descobriram um buraco ainda mais fundo, que levou ao maior doleiro do país.

É realmente algo de outro mundo e mostra a magnitude dessa operação, que é considerada por muitos como a maior investigação de corrupção do mundo. E nesse filme, descobrimos que isso não é à toa.

Porque a operação Lava Jato se arrasta por anos, começando com um esquema simples de lavagem de dinheiro, mas chegando até o principal patamar político do país e como brasileiro não leva nada a sério, acabou criando uma mitologia em torno da operação, Sérgio Moro é o Super-homem do Brasil, o Japonês da Federal virou piada, Nestor Cerveró tá com um olho no gato e outro no rato e por aí vai... O filme chega até a enaltecer essa mitologização de suas figuras quando nos agracia com a presença do Japonês da Federal e quando o ex-presidente pergunta ao ser enquadrado “O Japonês não tá aí não, né?”.

Acaba que o filme carrega um certo humor consigo.

Mas é muito mais dramático. Desde a ficionalização das investigações até os momentos em que somos apresentados ao pano de fundo da história de seus personagens. Um dos investigadores votou em Lula e discute com o pai sobre a “perseguição política”. Momentos que não são muito profundos, mas não chegam a cansar, porque o que motiva o filme é realmente o andamento das operações.

E por falar em “perseguição política”, o filme é muito didático nesse quesito, mas sem ser panfletário, embora sofra uma queda pra esse lado no seu final.

Ao longo da projeção de “Polícia Federal” somos guiados pelos caminhos da investigação, avançando muitos anos, com o auxílio de uma narração em off do personagem principal (Ivan) e isso acaba derrubando a acusação absurda que fazem de perseguição política. O filme explica de forma natural as consequências de se investigar o Lula (80% de aprovação quando saiu do governo, não é qualquer um), a questão absurda do foro privilegiado (que deixa livre caras como o Temer e o Aécio Neves) e a importância do vazamento de áudios, que pode ser criticado, mas era um mal necessário para o país naquele momento, afinal, se você tem que arrancar um pedaço do seu corpo pra vencer o câncer, você vai arrancar uma parte do seu corpo, não é?

No entanto, o último terço do filme acaba focando muito na imagem do Lula e o torna quase uma figura central dentro da película, dando a ele (o filme) ares de panfletarismo, o que acaba afastando pessoas com uma visão mais neutra no assunto, mas com tendências a acreditar na conversa pra boi dormir da esquerda.

Outro problema do filme foi logo no começo, quando conectam o problema da corrupção do Brasil com a chegada dos portugueses à América. Ok, o problema da corrupção é inerte ao ser humano, somos animais corruptíveis e tendemos ao mal, pois é através dele (misteriosamente), que alcançamos um prazer imediato, mas bater nessa tecla é enxugar gelo. Afinal, não dá pra mudar a natureza humana, isso é algo que só pode ser feito na consciência de cada um e é inegável que durante a história do Brasil nunca tivemos um Estado tão paternalista quanto o que temos agora. O problema principal surgiu no século XX.

No entanto, superando esse começo e deixando se levar pelo final, “Polícia Federal” se apresenta como um bom filme, mais uma adição de qualidade invejável do cinema nacional, que tem sofrido um bom renascimento nos últimos anos e, o que é melhor ainda, uma virada à direita.

3 pontos e meio

quinta-feira, 22 de março de 2018

Dica literária: “As seis lições” de Ludwig Von Mises (1979)

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Nessas últimas férias decidi pegar mais livros teóricos para ler e entre eles está o “Seis Lições” do Mises, que dizem ser uma boa introdução a economia, de uma maneira geral. Ainda não conversei com meu filtro sobre o assunto (McPhisto), mas acho que esse livro vale uma dica.

“As seis lições” é uma coletânea de palestras dadas em inglês pelo economista austríaco Ludwig Von Mises na Argentina nos anos 50, mas que só foram compiladas após seu falecimento, num projeto encabeçado pela sua mulher, pois, de acordo com ela, se tratavam de palestras que serviriam não só a estudiosos e entusiastas do assunto (Economia), mas também a leigos.

E de fato, é isso mesmo. O livro é dedicado a leigos, pois cada uma dessas lições se foca num tema e acaba introduzindo-o de maneira didática e simples. Ou seja, nada de grandes palavras complicadas ou cálculos mirabolantes e situações hipotéticas que geram outras situações hipotéticas para explicar um fenômeno que pode ou não existir. É simples, curto e grosso, uma explicação de coisas que existem, acontecem e estão presentes no nosso dia a dia. São elas: Capitalismo, socialismo, intervencionismo, inflação, Investimento Externo, Política e Ideias.

Tirando a inflação, que é o capítulo mais complicado, todas são igualmente simples e fáceis de entender, ao menos nas palavras de Ludwig Von Mises e ao final da leitura de cada capítulo, você acaba se tornando um pouco mais capaz para adentrar no campo obscuro que é a Economia, essa área do pensamento humano de que todos falam, mas poucos compreendem, de fato, do que se trata.

Von Mises era um ferrenho crítico do Marxismo e de ideias de esquerda de uma maneira geral, mas nesse livro podemos ver que ele não era um total anarcocapitalista como pintam por aí. Muito pelo contrário, ele aponta para a importância de um governo e mesmo que suas sensibilidades esquerdistas possam se ofender com os dois primeiros capítulos da obra, a leitura vale a pena para compreender a forma como a Economia, como um todo, funciona, não apenas em nosso país, mas no mundo, afinal, o livro se trata de lições universais.

Em suma, “As Seis Lições” é um livro didático, mas com um valor para além da sala de aula, é um livro para ser levado para a vida, ainda que você não goste de Economia, nem se interesse pelo assunto. No mínimo, o livro irá servir para que você tenha uma compreensão um pouco melhor das manchetes de jornais.

4 pontos

terça-feira, 20 de março de 2018

Dica cinematográfica: “Small Town Crime” (2017)

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Não sei como esse filme escapou do radar ano passado, mas agora faço jus a ele com uma dica muito bacana.

“Small Town Crime” é um filme americano de 2017 que conta a história de Mike Kendall, um ex-policial e agora alcoólatra, que vive fugindo de entrevistas de emprego pra poder continuar recebendo o auxílio-desemprego e ter uma vida fútil de bebedeiras, até que se depara com um caso (um assassinato de uma jovem garota), que o faz lembrar de acontecimentos do passado que levaram ele a levar a vida que leva atualmente. Motivado para encontrar redenção, Mike decide se passar por investigador particular e começa a investigar o caso, descobrindo um buraco cada vez mais fundo que revela podres cada vez maiores, famílias desunidas, prostitutas e pedófilos.

O filme é um triller policial neo-noir com uma pitada de pós-modernismo e narrativa gótica. Há os elementos típicos de um noir clássico, o investigador particular, a montagem com muitas cenas à noite, uma investigação que revela podres cada vez piores, mas o policial não é o charmoso valentão típico das narrativas policiais clássicas, eis o neo-noir.

A atmosfera, apesar de densa, não deixa de ser bem humorada, mas não aquela ríspida ironia que popularizou os livros de Raymond Chandler, por exemplo,  e sim um humor mais pueril, muitas vezes contido na falta de habilidade do personagem principal e algumas passagens meta-narrativas, como o auxílio das músicas. Eis o pós-modernismo.

E tudo isso levado a frente por uma história de redenção, que mostra o quão falho, incapaz e culpado de seus crimes é o personagem principal. No final, ele é o culpado de tudo que aconteceu na vida dele e acaba se juntando à pessoas na mesma condição que ele para poder fazer justiça.

É um ótimo filme, com uma narrativa fantásticas, personagens interessantes e uma qualidade técnica excepcional, começando com uma canção do The Animals e nos apresentando cenas muito bem montadas, uma edição primorosa e atuações convincentes.

Em suma, é um filmaço, mas não parece ter feito muito sucesso. É um indie e acabou não chamando tanto a atenção, o que é uma pena, pois fiquei com vontade de assistir mais filmes nesse curioso universo de “Small Town Crime”.

4 pontos

quinta-feira, 15 de março de 2018

Dica musical: “Time & Space” do Turnstile (2018)

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Turnstile é uma banda de hardcore formada em 2010, na cidade de Baltimore, Maryland, EUA, mesma terra do All Time Low, mas, ao contrário de seus conterrâneos, Turnstile é uma das melhores bandas do rock atualmente.

E não é à toa, Turnstile consegue algo único no meio do rock atual, que é invocar elementos de todas as grandes bandas que os antecederam, tanto do hardcore mais bruto, como Snapcase, até o rock pesado mais popular, como Rage Against the Machine, mas de uma forma que só as partes boas dessas bandas vão para a versão final

Esse ano, eles lançaram esse petardo que é “Time & Space”, uma verdadeira obra-prima do hardcore, resgatando todos os elementos que mantém eles no topo do rock atual, mas expandindo o catálogo musical para influências que vão além da gritaria e agitação dos palcos. Tudo isso em apenas 25 minutos.

Logo no começo do álbum somos agraciados com 3 canções que exemplificam perfeitamente o que é o Turnstile. Em “Real Thing”, o hardcore raiz surge de forma calma e imponente, revelando aos poucos toda a sua energia, mas culminando numa explosão crescente de riffs marcantes de guitarra e um refrão que movimenta qualquer público que esteja se debatendo e lutando por espaço no meio de uma pista de dança fedendo a suor e recebendo malucos pulando do parque. São menos de 2 minutos, mas trazem toda a energia de quase 40 anos de história do gênero. “Big Smile”, a segunda do álbum, não vem crescendo, já começa explosiva e termina tão rápido começa, mas não sem antes impor um riff de guitarra dançante e agitado, com uma bateria marcante e um baixo tão pesado que você sente na garganta, culminando em “Generator”, a primeira música que pode dividir os fãs, com um início pesado, remanescente do heavy metal, mas acaba virando um post-hardcore experimental sem refrão, com direito a Ahã’s de fundo, uma ponte antes de trocar totalmente de ritmo e um solo de guitarra semi-virtuoso. Não é o seu típico hardcore, mas é muito bom, contendo tudo aquilo que o Turnstile faz de melhor, um som pesado, agitado, veloz e dançante.

Por si só, essas 3 músicas já fariam um EP perfeito, mas temos mais. Após essa música vem uma canção com menos de 1 minuto, um interlúdio para o que vem a seguir e o que vem a seguir é mais pedreira, mais agitação, com algumas canções mais lentas, porém sempre dançantes.

E essa palavra é o cerne da filosofia que motiva o Turnstile, “dançante”. Pois essa é a melhor característica do som deles, ser dançante. Numa entrevista antiga, foi perguntado a eles se eles se importavam de serem taxados como “dançantes” ao que responderam prontamente que não, pois o que eles querem é entregar uma boa experiência às pessoas que vão aos shows e como dar uma melhor experiência do que fazê-los dançar?

Seguindo essa linha, mas sem deixar de ser hardcore, “Time & Space” nos apresenta canções guiadas por baixo, uma linha de teclado fantástica em “High Pressure” e o baixista nos agradecia o prazer de ouvi-lo cantar em “Moon”. Uma das canções, outro interlúdio, ainda se chama “Disco”, revelando as possíveis influências do trabalho, que estão ali, mas como um pano de fundo, a mão que empurra a banda para frente e o resultado é uma obra dinâmica, inovativa e potente, cimentando o nome do Turnstile como um dos maiores nomes do rock atual (e na opinião d’O Sommelier de Tudo, o maior nome).

Para mim, Turnstile já é a melhor banda do planeta atualmente.

O álbum foi produzido por Will Yip, o mesmo cara que quase galgou um Grammy esse ano com Code Orange, disputando numa categoria de heavy metal. Não que o Grammy valha alguma coisa, mas isso é sinal de que os ventos estão mudando e soprando no nosso quintal, talvez o rock esteja numa posição privilegiada dentro da atenção das pessoas em breve. Quem sabe? Quanto a Will Yip, só mesmo um cara como ele poderia produzir um álbum tão bom, pois ele sabe dar liberdade e guiar as bandas ao mesmo tempo. Algumas músicas são tão feitas (como “Can’t Get Away” e a, refeita para o álbum, “Come Back for More/H.O.Y.”), que apenas “obra de arte” pode descrevê-la. É como um escultor que passa horas moldando o nariz de sua escultura para ficar perfeita, são horas em cima de uma música para deixa-la perfeita e nenhuma chega a marca de 3 minutos.

Além disso, tivemos ainda videoclipes extremamente criativos acompanhando os singles do álbum, referenciado Akira Kurosawa, tokusatsus, George Méliès e filmes xploitation, mostrando que os caras do Turnstile não são qualquer um. Eles têm senso estético.

Em suma, Turnstile lançou um dos melhores álbuns de rock dos últimos tempos, com certeza o melhor álbum de hardcore dos últimos anos e, provavelmente, um dos melhores álbuns dessa década. Não é apenas um conjunto de canções rápidas, enérgicas, diversas e potentes, é uma verdadeira obra-prima, uma amálgama de tudo que há de melhor dentro do hardcore desde o momento que o gênero nasceu, com mais um apanhado de ótimos elementos de gêneros tão diversos como heavy metal, disco e eletrônica.

5 pontos

terça-feira, 13 de março de 2018

Dica vestuarística: Camisetas ReverbCity

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Essa é outra dica que eu estava enrolando muito para fazer, mas finalmente criei vergonha na cara e aqui ela está.

A ReverbCity é uma marca de roupas de Londrina que está em atividade há 13 anos, de acordo com o site deles e eu conheci já lá em 2008 ou 2009, na época em que o indie rock estava no seu auge e esse é o mote da marca, vestir você de música e geralmente voltado para o público indie rock.

Mas é apenas de música que a marca quer te vestir, mas também de filmes e séries, focando em toda a cultura indie, que sofreu muitas mudanças desde que eu conheci a marca e acho que esse é o maior ponto negativo a se falar da ReverbCity.

Por que quando eu conheci a marca bandas como The Strokes, The kooks, Franz Ferdinand e The Horrors estavam no seu auge criativo, lançando muita música boa e que até hoje são tocadas por aí, mas de lá pra cá, muita água correu por baixo dessa ponta e novos álbuns vieram, fracassaram e bandas como The Strokes e Arctic Monkeys nem tocam mais.

A cultura indie mudou muito, vieram artistas de medianos a ruins, mas que conseguem atrair a atenção de todo esse público “alternativo”, mas que já não é tão underground assim e, mantendo-se fiel ao seu público, a marca mudou também, passou por reformulações que vão desde a equipe criativa da marca até o próprio site. O que é uma pena, pois artistas que lançam ótimos materiais como King Krule e Japandroids (artistas que até a equipe da marca curte) não ganham camisetas da marca, porque não irão vender.

Uma pena.

Ainda assim, eu continuo comprando camisetas no site, de vez em quando, sempre que aparece algo interessante, mesmo que seja a 505ª camiseta do Arctic Monkeys, porque os produtos são muito bons. As estampas são de ótima qualidade, algumas são bem preguiçosas sim, mas a qualidade é excelente. É muito mais fácil a camiseta começar a rasgar antes da estampa desbotar e eu tenho camisetas pra provar isso.

As camisetas também são feitas de algodão, muito confortável, macio e leve, mas ao mesmo tempo com encorpados, não é daqueles que parecem que vão desmanchar nas mãos ou que ficam “transparentes” em dias de sol intenso ou quando molhadas.

Além das camisetas a marca ainda vende canecas e outras coisas, mas eu sou consumidor apenas das camisetas mesmo, então só posso comentar sobre elas.

Outra coisa bacana da marca são os mimos aos clientes. Na embalagem vem uma bala e um boneco de montar, os mascotes da marca, que eu não sei se ainda vem, porque eu ainda não comprei nada desde a última reformulação, no final do ano passado.

Enfim, camisetas de excelente qualidade, de bandas de rock e indie-pop é só com a ReverbCity mesmo.

3 pontos e meio

quinta-feira, 8 de março de 2018

Dica eletrodoméstica: Ferro seco Black & Decker VFA Eco

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Passei as férias desse ano na casa dos meus pais e lá eu tive a oportunidade de entrar em contato com um dos melhores eletrodomésticos que já tive o prazer de usar na minha vida: o ferro seco de passar roupa Black & Decker VFA Eco.

Quando eu estava no colegial (ou Ensino Médio, se você for um jovem dinâmico) presenciei o meu professor de química falando um dia que adorava passar roupa, montava a tábua de passar roupa na sala, ligava a TV e passava a tarde toda de sábado passando roupa. “Uma delícia!” dizia ele. Naquela época eu nunca havia passado roupa na vida e não sabia que iria concordar com o Paulão, meu tão odiado professor de química anos depois na minha vida.

O fato é que eu também adoro passar roupa (e lavar louça também). É uma atividade que eu faço com prazer, não é apenas que eu aprendi a suportar com o tempo, como acontece com a maioria das pessoas, eu realmente gosto de passar roupa.

E afirmo que com o ferro seco Black & Decker VFA Eco meu prazer foi quadruplicado. Não sei se é porque ele é um ferro seco, ou seja, nada de encher ele com água ou se é a qualidade Black & Decker de se fazer eletrodomésticos a razão por isso, mas ele é simplesmente delicioso.

Passar roupa com ele é como andar de patinar no gelo de um lago sem defeitos, andar de bicicleta numa calçada lisa, dirigir o carro num asfalto novo, deslizar sobre uma lona molhada com água e sabão num dia quente de verão. É esse o tipo de maciez que ele proporciona nos movimentos que você faz para passar a roupa com ele.

Além disso, o seu design único dispensa comentários, com uma base em alumínio polido, é um desses itens, assim como o iPhone, que você reconhece de longe, em cores soturnas clássicas e elegantes, que servem para enfeitar qualquer santuário da dona de casa.

Infelizmente, eu não tenho esse tão maravilhoso ferro de passar, mas sempre que vou à casa de meus pais, faço questão de passar todas as roupas que tem lá, dos meus pais, meu irmão e até de outros parentes apenas para ter o prazer de usar esse objeto belíssimo.

5 pontos

terça-feira, 6 de março de 2018

Dica audiófila: Superlux HD681

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Dica atrasada, mas não sonegada.

Comprei o Superlux HD681 ano passado e venho usado constantemente junto com meu AKG K404, focando o uso dele para músicas, enquanto que o AKG é mais para um uso geral.

Enfim, vamos ao Superlux. Pra começar é um fone chinês, que copia o design de outros fones mais famosos e muito requisitados pelos audiófilos, criando uma verdadeira miscelânea em seu design que serve tanto para bem quanto para mal, dependendo do fator que você analisar. Por exemplo, ele tem uma faixa que cobre a cabeça embaixo de dois cabos que é por onde passam os fios, o que é bom porque garante a longevidade da qualidade sonora, ao mesmo tempo que fica bem preso à sua cabeça, no entanto, isso também aumenta o peso, o que resulta em um cansaço literal após algumas horas de uso.

Mas o que importa aqui é a qualidade sonora e eu devo dizer que esse é o melhor fone que eu já tive, mas não é um fone para todos os gostos, como o Edifier, que tem um som mais balanceado.

O Superlux não é assim, pois tem um foco sonoro muito específico, um pico nos agudos, médios recuados e graves focados nos sub-graves, o que gera uma sensação diversa entre os diferentes ouvintes, pois estamos acostumados com fones focados nos médio-graves, que dão mais presença, enquanto que aqui temos mais impacto, embora seja, de certa forma, sutil.

No final, o som acaba ficando mais natural, em parte em causa pela espacialidade que o design do fone oferece. Sendo um fone semi-aberto, ele cria um palco sonoro amplo e você se sente no meio da “ação” onde a música acontece. É uma sensação muito boa.

O que incomoda mais são os agudos, que sofrem um pico muito alto e incomoda no começo, mas é fácil de se acostumar com isso, embora não seja para todos, pois tem gente que é mais sensível a essas diferenças sonoras.

Se isso já não fosse o bastante, temos ainda o preço do fone, que é encontrado entre 150 e 200 reais, podendo ser ainda menos dependendo da época do ano e aqui entra a questão do design, pois uma teoria que rola por aí é que a marca corre atrás de patentes que já venceram e criam fones em cima delas, economizando exatamente nessa questão.

Fica então a minha dica de um fone com um excelente custo benefício, que pode te surpreender e satisfazer muito.

4 pontos e meio

quinta-feira, 1 de março de 2018

Dica higiênica: Amaciante de roupas Downy Concentrado

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Tenho que começar minha dica com uma confissão, lavo minhas roupas toda semana e eu não tenho saco para comprar amaciante e sabão em pó pra lavar elas, então por um tempo, pegava escondido esses itens de um dos caras que divide o pensionato comigo. Por causa dele, descobri esse amaciante de roupas, que é o melhor que já usei.

Quando criança, sempre ficava curioso com o fato das minhas roupas voltarem mais cheirosas da casa da minha avó, com aquele cheiro gostoso de amaciante e muito mais gostosas de usar também. Não sei se minha avó também usa esse amaciante, mas é essa a sensação que esse amaciante deixa na minha roupa.

Além de muito gostoso, é ainda nostálgico para mim.

Fora isso é econômico, de acordo com sua embalagem, pois diz render 2 litros com apenas 500ml, não sei exatamente qual o sentido de tal afirmação, pois não entendo muito de amaciantes de roupas, só sei que, para mim, o seu custo benefício é muito bom, pois comigo dura mais de 1 mês.

Acontece que ele é muito concentrado. Como não tenho muita roupa pra lavar toda semana e ainda separo elas em coloridas, brancas e roupa de cama/banho, costumava separar metade de um copo de plástico pequeno para cada lavagem, mas com esse amaciante uso metade de um copo por dia de lavagem. É realmente muito econômico, apenas pensando em termos nada científicos como esse.

A embalagem pequena e simpática é ainda fácil de carregar e não ocupa um espaço enorme no carrinho de compras como as embalagens mais comuns de amaciantes de roupas, que são até mais baratos que esse, mas não são tão bons. Nesse caso, a qualidade pesa muito mais.

4 pontos e meio

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Dica gourmet: Hambúrguer de carne bovina Frimesa

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Quem não gosta de hambúrguer? Um louco, apenas! E qual o melhor hambúrguer que existe? Hambúrguer caseiro, claro! Mas se você é alguém que não tem os dotes culinários ou os materiais ou ainda o tempo para fazer o seu próprio hambúrguer, qual a solução? Comprar hambúrguer! E eu estou aqui para te ajudar isso.

Já compro hambúrguers há anos e já deu muito com a cara no muro, chegando a comprar uma caixa inteira com 12 hambúrguers podres, mas isso não vem ao caso, pois estou aqui para indicar um produto que ganhou minha confiança no último ano.

Morando sozinho, tenho que me virar com um tempo curto e um orçamento menor ainda, então acabo recorrendo, com frequência ao hambúrguer, que é fácil de fazer e é gostoso.

No entanto, existe algo de diferente no sabor do hambúrguer de carne bovina Frimesa, é mais saboroso, mas não é mais salgado ou algo assim, ele realmente tem mais sabor de carne de boi e por isso eu sempre acabo dando preferência a ele, visitando mais de um mercado pra poder compra-lo, pois onde compro esse hambúrguer não tem o arroz buriti e onde tem o arroz buriti não tem esse hambúrguer.

No entanto, o esforço vale a pena.

Além disso, ele não cria tanta fumaça e nem cola na panela, mas você tem que ficar de olho, pois ele pode queimar rapidamente.

Enfim, espero que tenha ajudado suas refeições a serem mais saborosas e rápidas com essa dica.

4 pontos

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: “Cloverfield” (2008)

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Ao assistir o péssimo “The Cloverfield Paradox” (que tem um final que salva o filme inteiro, diga-se de passagem, portanto vá assisti-lo apenas para levar um susto no final), percebi que nunca havia indicado esse clássico moderno por aqui, então, antes que o próximo filme da franquia saia (que parece ser tão ruim quanto o Paradox), vamos à dica de Cloverfield, o clássico de 2008.

Em “Cloverfield”, acompanhamos a noite da invasão de um monstro (carinhosamente apelidado pelos fãs de “Clover”) à cidade de Nova Iorque pelo ponto de vista da câmera de um dos protagonistas, Rob, que junto com amigos tentam escapar da cidade com vida. Em meio ao caos causado pelo monstro ainda somos conhecemos o romance entre Rob e Beth, sua amiga de infância, através de cortes de uma gravação antiga que ele havia feito meses antes.

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O filme é um primor do gênero “fita encontrada” e “horror” e ainda chamou muita atenção na época do lançamento pela sua campanha de marketing viral que contava com sites falsos, notícias e vídeos na internet, responsáveis por criar um quebra-cabeças que até hoje não foi montado.

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Outros filmes nessa mesma pegada já haviam sido feitos, como “A Bruxa de Blair” e foram feitos depois, como “Poder Sem Limites”, mas nenhum deles conseguiu manter a longevidade que Cloverfield manteve e isso não é explicado apenas pela insistência de J.J. Abrams, a grande mente por trás desse filme, em mantê-lo vivo, acredito que o grande fato desse filme manter sua longevidade é sua qualidade excepcional como um filme de horror/ficção científica/fita encontrada mesmo.

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“Cloverfield” é um filme que não chega a ter 1h30 de duração, mas quanto ao que realmente importa, a invasão do monstro, não chega a ter 1 hora de duração, pois os créditos ocupam quase 10 minutos e temos ainda mais de 20 minutos de cenas que nos apresentam os personagens, são as cenas de Rob e Beth passando um dia de abril juntos, as cenas antes da festa e as cenas durante a festa de despedida de Rob. Isso nos faz criar uma proximidade com os personagens que apenas os melhores filmes de horror conseguem criar e é ainda mais difícil de se encontrar filmes que fazem isso com 6 personagens. Rob, Beth, Lily, Jason, Hud e Marlena ficam tão próximos de nós, em tão pouco tempo, que nós realmente torcemos para que eles consigam sair de Nova Iorque vivos e lamentamos suas mortes. Além disso, nenhum deles é um clichêzão típico de filmes de horror ou de ficção científica, claro que temos o personagem responsável, o guia do grupo, a mente madura e o alívio cômico, mas essas não são as características determinantes dele e ao final do filme, se você gostou dele, acaba lembrando dos personagens pelos seus nomes e ações durante o longa.

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São os personagens humanos e sua relação pura que fazem com que o filme ainda hoje cative os fãs. Eu acredito que seja esse o fator responsável pela longevidade de “Cloverfield”, muito além de teorias conspiratórias, efeitos especiais ou mesmo a possibilidade de expansão desse universo num multiverso.

Embora isso seja um fator importante também, mas eu acho que secundário. Na época em que assisti o filme não tive a oportunidade de vê-lo nos cinemas, então assisti num DVD em casa, junto da minha mãe e do meu irmão. Não é um filme para se ver em família, mas eu tinha uns 14 ou 15 anos e essa seria a minha primeira experiência com um filme de horror, eu simplesmente não sabia onde estava me metendo, mas conforme o filme avançava, mais afundado no sofá eu ficava e grudado na tela da TV. Minha mãe que sempre foi uma chata (mas no sentido bom) e insistia em conversar comigo e com o meu irmão após cada filme, seriado, desenho, jogo ou livro que terminávamos de consumir, disse que a única coisa que salvava esse filme era a amizade dos personagens.

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Ela, uma mulher com mais de 40 anos, que não vê valor nenhum em coisas negativas (portanto, filmes de horror, terror, violência e sexo excessivos, etc... estão completamente fora de questão nos seus gostos pessoais) captou a essência que “Cloverfield” transmite ao expectador, seja essa essência proposital ou não, afinal eu não confio muito na “genialidade” dos criadores de “Cloverfield”, que alcançaram o ápice nesse filme e nunca mais fizeram algo a sua altura.

E em volta dessa essência temos o monstro, o “Clover” não se parece com um Godzilla, mas destrói tanto quanto e abre diversas janelas para especulação apenas nesse filme, como, por exemplo, os animais que caem dele, bichos tão estranhos quanto ele, que comem humanos e se não comem, infectam com alguma coisa que nos faz explodir. Na época não dava pra entender direito o que era aquilo, seriam os filhos de Clover? No entanto, com o final de Paradox, que nos mostra uma versão do Clover ainda maior, confirmando as afirmações de J.J. Abrams de que o Clover era apenas um bebê assustado, dá pra imaginar que aqueles bichos eram apenas as pulgas de Clover. Assim como nós, Clover é um bioma que carrega em si uma série de outros seres vivos dentro de si e se ele, um bebê, já é do tamanho de arranha-céus, suas bactérias, micróbios e seres infecciosos são do nosso tamanho e podem nos destruir num piscar de olhos.

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Agora que o universo se expandiu e virou, definitivamente, um multiverso, temos ainda mais portas para especulação e coisas a serem debatidas, como as empresas que fazem parte de todo o universo, a Tagruato e a Slusho fazem parte de todos os universos, a Slusho é vista até em produções que não tem nada a ver com a série, então já podemos descarta-la, pois é apenas um “prop” deixado ali na produção. Já a Tagruato é, provavelmente a responsável pelo despertar de Clover, pois, de acordo com o universo do filme, era a empresa responsável pelo Slusho e tiravam o seu ingrediente secreto do oceano. No mangá (que eu não li) é revelado que Clover desperta no Japão antes de ir para Nova Iorque. Está tudo conectado e faz sentido, embora não seja confirmado.

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Agora, não dá pra tentar criar uma única linha temporal com todos os filmes, pois em 10 Cloverfield Lane temos alienígenas e Paradox se passa muitos anos no futuro, mas dá pra especular que os eventos em Paradox causaram uma fissura em todos os multiversos, fazendo alienígenas invadirem a Terra em um e uma civilização de monstros aparecer no fundo do oceano em outro. Em Paradox os eventos ocorrem no passar de alguns dias, mas não dá pra dizer que o tempo transcorre da mesma forma em diferentes universos. O que foi alguns dias em Paradox pode ter sido vários meses em “10 Cloverfield Lane” e várias centenas de milhares de anos em Cloverfield.

O que eu acho que foi vacilo foram os alienígenas de “10 Cloverfield Lane”, pois uma espécie de Clover aparece em Paradox, então, não é como se houvesse muita diversidade nesse multiverso.

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Sei lá, é tudo muito confuso e eu só queria expor minhas teorias por aqui, por que eu também acho legal isso, mas o post é de Cloverfield e é uma dica. O que eu posso concluir aqui é que o filme é muito bem feito, até melhor do que os mais recentes, pois contou com uma produção menor e ainda assim se manteve atual. O monstro continua sendo muito bom, a destruição é realística pra caramba e aquela cena do helicóptero desafia a compreensão de que o filme foi feito com meros 25 milhões de dólares.

“Cloverfield” é ainda um filme atual, completa 10 anos esse ano e já conseguiu o seu espaço como um clássico do horror/ficção científica, ainda cheio de mistérios, mas acima de tudo isso, é um filme humano.

5 pontos

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P.S.: Só mais uma teoria, eu gosto de pensar que a Lily sobreviveu ao ataque e seria muito bacana se ela voltasse para a franquia de alguma forma.

 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Dica gourmet: Bolacha Toddy Wafer chocolate

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Se não tem mais Toddy de chocolate estilo torta, vamos de bolacha wafer mesmo.

Por muito tempo vaguei sem rumo pelas prateleiras de besteiras dos supermercados, mercearias, padarias, vendinhas da esquina e docelândias do país, mas não encontrei mais a minha tão desejada bolacha Toddy estilo torta sabor chocolate e minhas manhãs de sábado nunca mais foram as mesmas. Por causa disso, me deprimi, engordei, procurei prazer junto a outras bolachas, outros sabores e até outros quitudes, carregando a gordura em minhas mãos até hoje.

Então eis que vejo, no lugar onde antes restava tranquila a minha amada bolacha Toddy, sua prima distante, a bolacha wafer Toddy de sabor chocolate. Nunca fui fã de bolacha wafer, mas porque não experimentar? Era só o que me restava mesmo.

Então provei. Nem de longe o sabor é o mesmo, mas há algo ali que consegue me encantar. Em uma rápida comparação ela não é tão doce quanto a sua irmã, a bolacha Toddy wafer trufada, seu nível de açúcar é ideal, como era da sua prima distante e minha amada bolacha Toddy torta de chocolate.

Quanto ao wafer em si, não é do tipo que desmancha fácil, como acontece com muitas outras disponíveis no mercado, mantendo uma agradável crocância que não agride aos dentes e não parece borracha na boca.

Então, quase que sem querer, acabei encontrando um novo amor, não é tão ardente ou fulguroso como o amor que nutria pela sua prima, mas é firme, fiel e, o que mais importa, ele existe.

4 pontos

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Dica literária: “Luz em Agosto” (1932)

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A dica de hoje é de mais um livro de William Faulkner, o autor que mais me fascinou desde Salinger.

Em “Luz em Agosto” conhecemos Lena Grove, uma jovem moça grávida que sai do Alabama em busca do pai de sua criança (Lucas Burch) e acaba chegando em Jefferson, condado de Yoknapatawpha, Mississipi, onde Lucas chegou para trabalhar sob o nome de Joe Brown e morava com um certo Joe Christmas, que, na noite em que Lena chega na cidade e encanta Byron Bunch, mata Joanna Burden, uma velha conhecida da cidade, mas que ninguém conhecia de fato e bota fogo na casa onde a mulher morava. Unindo todos esses personagens, encontra-se Gail Hightower, um ex-ministro da cidade, cuja vida sofrida o levou a ter uma perspectiva sombria da natureza humana, mas a quem Byron não consegue deixar de se relacionar, pois o acha um homem sábio e abençoado.

É difícil criar uma sinopse que envolva todos os personagens num só parágrafo. De fato seria mais fácil separar tudo por tópicos, mas se fosse assim não seria uma sinopse digna de um livro do Faulkner. Muito mais difícil é falar de todos os temas que envolvem esse livro, de forma que te deixe com vontade de lê-lo e, para tanto, irei topicalizar essa dica.

Pra começar, “Luz em Agosto” é um primor estético. Lendo essa obra eu realmente consegui entender o que Harold Bloom quer dizer por “estética” em literatura. É fácil entender sobre o que falamos quando falamos em “estética” quanto a literatura quando lemos poesia, pois os versos são feitos de forma que consigamos criar um ritmo em nossa mente, uma imagem, etc...; mas quanto a prosa? É difícil entender, mas “Luz em Agosto” é um exemplo maravilhoso para entender isso.

Cada um dos capítulos existe em si só, parecendo até contos, ao menos nos seus primeiros parágrafos, mas logo somos jogados dentro da história e lembrados dos personagens e da relação que cada um deles tem entre si. Pensamentos, falas e memórias existem de forma intercalada e para isso Faulkner usa aspas, aspa única e itálico indicando o fluxo das conversas, tanto externas quanto internas.

Então, ao adentrar esse universo que Faulkner cria para esse livro, ficamos com a sensação de estar vendo uma obra de arte se abrir na nossa frente. Nunca antes achei que pudesse usar de forma tão natural o adjetivo “bonito” para um texto. É um texto bonito de verdade e eu nem estou falando do conteúdo ainda.

Mas é porque é bonito que é fácil, muito pelo contrário, é difícil. Como eu já disse, cada capítulo parece existir por si só, muitas vezes, só depois de várias páginas é que você percebe quem são os personagens principais daquele capítulo. É difícil acompanhar o fluxo do tempo, pois Faulkner era um aderente da teoria do tempo de Bergman (la durée), que dizia que todo indivíduo é uma soma de tudo que existiu antes dele. Para Bergson, o passado e o presente existem ao mesmo tempo e a duração da vida do homem é inefável, podendo apenas ser vislumbrada indiretamente pela imaginação. No texto, Faulkner nos apresenta o passado de seus personagens junto ao presente e nem sempre conseguimos diferenciar isso de primeira.

Dá trabalho, mas vale a pena se esforçar para acompanhar e ao contrário de outras obras difíceis (como o próprio “O Som e a Fúria”), você não tem que estar no estado de espírito correto para compreender a obra, ela só exige esforço e atenção mesmo, por que, ao contrário de outras obras, “Luz em Agosto” nos apresenta uma história linear, com diversas divagações narrativas e espaços para meditações sobre a natureza humana, mas há uma história, com início, clímax e conclusão e que belo clímax nos encontramos nessa obra.

Aqui, vale mais elogios à atenção estética que Faulkner dá a sua obra, pois a imagem que ele cria num dos clímaxes da história (sim, há mais de um!) é simplesmente fantástica, uma imagem que parece ter saído do mais lindamente filmado western spaghetti da história, mas no século 20, no sul dos EUA e sem a trilha sonora épica. Aliás, se fosse filmado, seria uma cena apenas com os efeitos sonoros do ambiente.

E o segundo clímax é uma cena de perseguição que começa com a apresentação de um personagem que nunca foi mencionado no livro antes, mas em poucos parágrafos ficamos tão familiarizados com ele que não nos surpreendemos com sua atitude final, tão violenta e tratada de forma tão sutil que você tem que ler várias vezes. No meio há ainda uma cena de perseguição brilhante, que faria qualquer autor de livros policiais ficar de queixo caído.

As idas e vindas no tempo criam uma noção circular de história que coloca o homem como centro de suas vidas, temos o livre-arbítrio para isso, afinal e as ações dos personagens principais, Lena e Christmas são postas em cheque, cada uma gerando consequências condizentes com a vida que levam. A dualidade gerada com a história dos dois gera no final uma lição de moral que irá te fazer olhar para o céu ao final da leitura e ter a impressão de que o dia ficou mais bonito, de repente.

Não é apenas na estética que o livro é bonito, mas também na conclusão de sua história, que abre espaço para diferentes interpretações, mas o cerne é bem definido em torno do velho ditado “você colhe o que planta”. Faulkner nos diz, assim como muitos santos e filósofos antes dele, que nós somos o que construímos e construímos através de ações, sejam elas positivas ou negativas e suas origens não tem nada a ver com isso (lembra que você é o capitão da sua vida?).

Além disso, ainda poderíamos falar das questões de isolamento social, a ferida do racismo (que é tocada aqui de tal forma que ofende não apenas racistas esclarecidos da KKK como também os racistas enrustidos que defendem cotas em faculdade), a alegoria cristã (que acho um pouco de forçação de barra, mas até que faz sentido) e a relação entre indivíduo e sociedade, mas isso acabaria entregando muita coisa e eu só daria spoiler, portanto, vou encerrar por aqui.

Eu só tenho elogios para essa obra, que eu li em inglês e o único comentário que posso fazer que se aproxima de apontar um defeito é o fato de Faulkner se daqueles autores que sabem dar voz aos seus personagens e pelo fato da obra se passar no sul dos EUA, ao ler no original você vai se deparar com uma série de “erros” ortográficos, mas que ao serem pronunciados fazem todo sentido, como “de” ao invés de “the”. O problema é que no meio do livro, você corre o risco de adquirir alguns vícios de linguagem e sair falando por aí que nem um habitante de Jefferson.

Não sei como é a tradução, aliás, não sei como é nenhuma tradução de Faulkner ainda. Tenho que folhear algum livro na biblioteca da faculdade ou numa livraria qualquer ainda.

Enfim, elogios em cima de elogios, é um dos melhores livros que li na vida.

5 pontos

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: "The Night Is Short, Walk on Girl" (2017)

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Ou “Yoru wa Mijikashi Arukeyo Otome” se você é daqueles otakus puritanos que só falam em japonês.

Enfim, o filme mais novo de um dos diretores mais criativos do Japão atualmente, Masaaki Yuasa, é também uma espécie de continuação de um dos animes mais inventivos dos últimos tempos, Tatami Galaxy e conta a história de uma menina, Kurokami no Otome, estudante de uma universitária, durante uma noite muito louca, onde ela conhece diversas pessoas excêntricas através de festa de noivado, festival universitário, feira de livros e uma peça de teatro ilegal. Senpai é o garoto apaixonado por ela e durante essa noite passa por bizarros desafios em busca do seu amor, como enfrentar o deus dos livros usados, entrar numa competição de comida apimentada e enfrentar um resfriado halucinógeno.

A história é cheia de bizarrices, como todo anime do Masaaki Yuasa, além de contar com seu característico estilo de animação, simples, porém recheado de detalhes e muito colorido. O anime se situa no mesmo universo que Tatami Galaxy, alguns personagens da série aparecem no filme, como a Ryouko e o Seytarou, mas nenhuma semelhança é explicitamente declarada, como a recordação de eventos passados. Ainda assim, os próprios personagens principais lembram os personagens principais do Tatami Galaxy.

Os personagens são verborrágicos e é difícil acompanhar as loucuras do filme, mas o melhor a se fazer é deixar rolar, simplesmente desligar o cérebro e se deixar levar por esse universo maluco e tão criativo que foi criado ainda em Tatami Galaxy. Os acontecimentos rolam de forma fluida, mas a própria noção de tempo é distorcida, propositadamente, como nos é mostrado logo no começo ao ser comparado os relógios da personagem principal e o relógio dos velhos formandos de filosofia na festa de noivado de uma amiga dela.

Como os cenários são pequenos, todos os personagens acabam interagindo em um ponto ou outro do filme, até finalmente se unirem no final, levando a Menina até o seu tão esperando encontro com o seu Senpai.

Enfim, “The Night Is Short, Walk on Girl” é um filme muito divertido, um romance extremamente criativo que pode confundir e assustar num primeiro momento, mas assim que você se deixa levar pelas loucuras apresentadas pelo Masaaki Yuasa, a diversão é garantida!

4 pontos e meio

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Dica musical: "Snares Like a Haircut" do No Age (2018)

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O primeiro grande álbum de 2018 é o retorno à boa forma de uma das bandas que me apresentaram ao noise-rock por volta de 2010 e desde então não abandonou as playlists dos diversos dispositivos que passaram pelas minhas mãos.

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“Snares Like a Haircut” é o quinto álbum da banda de noise-rock No Age. Chamar o No Age de noise-rock é um estranho nessa altura do campeonato, mas quando eu os conheci um pouco antes do lançamento de “Everything in Between”, eles eram noise-rock e ponto. Ninguém questionaria isso.

No entanto, em algum ponto da carreira deles, o experimentalismo começou a dominar o seu som e veio “An Object”, álbum que eu detestei na época e nunca mais ouvi, então não sei qual seria minha reação ao ouvi-lo hoje. O que importa é que o No Age foi abandonando a agitação, o barulho e suas raízes punk para se dedicar a um som mais melódico, espacial e focado numa instrumentação que não era virtuosa e não me agradava.

E para miha surpresa, os extremos nos quais o No Age andava vagando convergiram em “Snares Like a Haircut”, criando um dos melhores álbums que eu já ouvi em anos e o melhor álbum da carreira deles.

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As canções são rápidas, explosivas, agitadas, mas também incluem elementos que a banda vinha trabalhando nos últimos anos, só que aqui esses elementos (como teclados e música ambiente) não ocupam o papel principal, mas são apenas elementos que ajudam a criar a atmosfera (nebulosa e barulhenta) do álbum, de forma harmoniosa.

Não deixa de ser noise-rock, mas é um noise-rock bem feito. É noise-rock, de fato, não é só um monte de barulheira sem sentido. O álbum inteiro passa pelos seus ouvidos como se fosse um filme indie muito barulhento e divertido.

No mais, vale muito a pena ouvir esse diamante raro aqui.

4 pontos

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Dica cinematográfica: "O Sol por Testemunha" (1960)

De forma ricamente ilustrada e uma narrativa amplamente elaborada, René Clement irá te convencer que o crime não compensa.

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Em “O Sol por Testemunha”, Alain Delon encarna Tom Ripley, um jovem e belo rapaz que vira amigo do rico e igualmente jovem Phillipe Greenleaf. Tom apresenta uma personalidade curiosa, que chama a atenção de Phillipe, principalmente pelas habilidades de observação de Tom, que o levam a ser capaz de até imitar a assinatura de outras pessoas com perfeição. O que Phillipe não esperava era que as artimanhas de Tom iriam se voltar contra o jovem rico.

Este é um daqueles filmes que vão te surpreendendo conforme avança a sua projeção, pois se inicia de uma forma, passa por uma mudança de 180º no meio e dali ele parte para outro ponto que sequer estava nos planos logo no começo. Não dá pra falar muito, se não estraga o filme, mas a narrativa é elaborada, com poucas ou nenhuma falha de roteiro (eu, pelo menos, não passei por nenhum momento que me fez dizer “mas se ele fizer isso e aquilo vai evitar tal coisa – no entanto, também não reassisti o filme) e que te prende de uma forma que é difícil resistir ao seu encanto.

E não é apenas a narrativa que é um prior, pois a direção de René Clement é maravilhosa também, apresentando em imagens garbosas do sul da Itália, personagens belos e muito bem apessoados. Cada frame do filme parece ter saído de um book de alguma moda masculina famosa, estilosa e absurdamente cara, mas extasiante em sua beleza, colorida, apesar de ter sido feito até mesmo antes da nouvelle vague.

A trilha sonora, regrada a jazz, dá aquele toque final que todo filme francês dos anos 60 precisa ter, angariando aquele tom “cool” e misterioso, com o qual é difícil imaginar tal história se desenrolando.

Tenho ainda que chamar a atenção para o título do filme em português: “O Sol por Testemunha” é um título brilhante, genial mesmo, que parece não fazer nada além de atribuir um certo mistério ao filme, mas faz todo sentido quando você assiste até o final. Muito melhor que o original “Plein Soleil” (pleno sol).

Enfim, “O Sol por Testemunha” é uma fantástica obra de suspense, um triller que foge a tradição dos filmes noir, mas não esquece suas raízes, surpreendendo e tirando o fôlego daqueles que se aventuram por suas águas tortuosas.

4 pontos

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Dica cinematográgica: Blade a lâmina do imortal (2017)

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Mais uma ótima adição a excelente filmografia do gênio Takashi Miike.

“Blade: a lâmina do imortal” conta a história de Manji, um samurai fugitivo que, no dia em que sua irmã é morta e ele conquista sua vingança sobre aqueles que a assassinaram, recebe a visita de uma velha misteriosa e ela insere vermes em seu sangue que o tornam um imortal. Anos depois, Rin Asano vê o próprio pai ser assassinado, também um samurai, por membros de uma gangue criminosa e sua mãe desaparece. Desconsolada, a menina encontra a velha dos vermes que o indica um guarda-costas. Esse guarda-costas é Manji e assim se inicia a trajetória da lâmina do imortal.

Não li o mangá, então não posso dizer se é ou não uma boa adaptação, mas o filme é distribuído pela Warner do Japão, a mesma empresa que distribui uma caralhada de adaptações live action bem sucedidas de mangás como Death Note e Samurai X. Posso presumir que seja uma boa adaptação, então.

Mas posso garantir que é um bom filme, embora não seja um filme para todos os gostos. Apesar de ser um filme do Takashi Miike e um filme de ação, eu acho que ele agrada mais ao público cult que curte filmes de ação como “Ran” e “Lady Snowblood”, filmes de ação, mas que exigem um pouco mais dos expectadores do que o típico filme de ação com sangue e explosões.

Há duas razões para isso, a primeira é que o filme é um drama muito pesado. Não apenas as histórias são pesadas, como a narrativa que o filme decide seguir transforma ele numa obra pesada, difícil de assistir, o que nos leva a segunda razão, que é o ritmo, incrivelmente lento para um filme do Takashi Miike. Talvez essa decisão tenha sido feita para se aproximar do ritmo do mangá, talvez para conseguir incluir todos os arcos da história original num filme de menos de 2 horas e meia... Não sei e o resultado é exigente, mas vale a pena.

As atuações são secas e eu li críticas para elas, mas acho que isso contribuiu para o ritmo arrastado do filme, para a criação da tensão e o drama de toda a história, que é trágica até o seu momento final, já deixo avisado.

A direção de Takashi Miike está sensacional nesse filme, que conta com um orçamento muito maior que os seus clássicos, mas isso não descaracteriza a direção, pois está tudo lá, tudo que amamos nos filmes do Takashi Miike, embora aqui tenha bem menos bizarrices (por uma limitação de história mesmo, afinal, se não tem no mangá, não vai ter no filme).

As cenas de ação são o ponto alto do filme, cheias de sangue, muito bem ensaiadas e totalmente exageradas, o que dá um tom épico ao filme, que começa num ponto qualquer da história de um qualquer, salta vários anos no tempo, vira uma história de vingança contra uma gangue e logo entram clãs de lutadores tradicionais, outro imortal e até o governo japonês no meio. É trágico, com toques de épico, sob as mãos de Takashi Miike... não tem como dar errado.

Enfim, “A lâmina do imortal” não é um filme fácil de ser assistido, mas vale cada momento.

4 pontos

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Dica cinematográfica: “Winners and Sinners” (1983)

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A dica de hoje trata-se de um filme chinês de 1983, dirigido por Sammo Hung, um dos grandes parceiros de Jackie Chan, também estrelado por Sammo Hung, mas com participação de outros atores mais conhecidos na China por seu trabalho em filmes de artes marciais.

“Winners and Sinners” conta a história de cinco bandidos que se tornam amigos na prisão e quando saem decidem seguir uma vida honesta, trabalhando na empresa de limpeza familiar de um deles. No entanto, por uma obra do acaso, eles acabam conseguindo a posse de uma maleta cujo conteúdo é muito requisitado por duas poderosas gangues rivais da cidade, colocando em cheque a decisão deles de seguirem uma vida honesta e, principalmente, sua amizade.

Como um filme de ação chinês da era pós-Bruce Lee, “Winners and Sinners” mescla muitos elementos cômicos, algo que foi impulsionado por Jackie Chan, que atua também nesse filme como um policial, mas não é apenas nas estrepolias elaboradas de Sammo Hung e Jackie Chan que o filme se sustenta. É também um ótimo exemplo de narrativa bem construída.

O filme começa nos apresentando todos os personagens principais, os cinco bandidos, apontando as razões por que eles foram presos e os momentos em que foram presos, o policial interpretado por Jackie Chan (e sua vida nada fácil, mas causada pelo seu jeito desleixado, como em Police Story) e os dois chefes das gangues rivais. Cada um desses personagens ganha muito tempo em tela, o que pode até cansar aqueles que resolvem assistir o filme só pela ação, já que muitas dessas cenas são movidas pelo humor, ora físico, ora verbalizado, mas sempre simples, sem malícia.

E o filme não nos deixa esquecer nenhum deles ao longo de sua projeção, pois constantemente o foco muda para algum desses personagens centrais na trama, criando uma verdadeira malha de retalhos com as histórias de cada um, gerando um todo harmônico, divertido e ousado.

A direção de Sammo Hung não é inventiva, nem mesmo para a época, mas é ambiciosa, incluindo cenas que beiram o exagero, mas animam o espectador em momentos-chave do filme, como a cena do acidente de carros protagonizada por Jackie Chan.

Enfim, “Winners and Sinners” é mais um ótimo exemplo da vivacidade e criatividade do cinema chinês, não deixando nada a desejar para os filmes antigos do Bruce Lee ou ainda os da Shaw Brothers.

4 pontos e meio

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Dica cinematográfica: “The Disaster Artist” (2018)

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Filme de 2017, mas lançado no Brasil em 2018, então a dica é de 2018. Não pude verificar o que é fato e o que é ficção nessa obra, porque eu queria escrever essa dica logo após assisti-lo, então aqui vai!

“The Disaster Artist” é uma novelização ou ficcionalização do livro “The Disaster Artist: My Life Inside The Room, The Greatest Bad Movie Ever Made” de Greg Sesteros, o Mark de “The Room” (2003), relatando seu cotidiano antes, durante e um pouco depois das gravações do filme. A adaptação do livro muda algumas coisas da história real, mas já adianto, é um excelente trabalho, com uma das melhores atuações na vida de seus atores (isso é verdade, a vida é pura ironia!) e te faz pensar... Muito!

O filme é dirigido e estrelado por James Franco, um ator, diretor, produtor, etc... que se tornou, seguramente, um dos maiores nomes do New Sincerity em Hollywood atualmente. Para aqueles que não estão familiarizados (e eu não te culpo por isso), o New Sincerity é um movimento artístico bem underground que surgiu lá em meados dos anos 2000 como uma resposta aos movimentos sociais e artísticos dos anos 90, em especial o pós-modernismo e sua onda de ironia que varreu as produções artísticas norte-americanas e hoje se encontra em toda parte. Encurtando a história, é um movimento que surgiu espontaneamente na mente de várias pessoas e logo ganhou forma e até um manifesto e sua base é a de louvar aquilo que eles gostam de maneira sincera, por mais ridículo ou estranho que seja. Seus defensores dizem que é um movimento de inclusão, pois por mais bizarro que seja o seu gosto, ele tem um espaço cativo entre os aderentes do New Sincerity, pois o importante é você ser sincero, inclusive consigo mesmo. Particularmente, eu não gosto do New Sincerity, porque eu acho que tudo tem limite, tudo bem você gostar de coisas estranhas, mas mesmo essas coisas devem respeitar um alinhamento com a realidade, se você é um cara com mais de 20 anos que gosta de um desenho feito para crianças do sexo feminino, existe alguma coisa dentro de você que não está alinhada com a realidade (atente-se ao uso de realidade e não sociedade! É simplesmente algo que precisa ser revisto), mas o New Sincerity aceita isso e usa isso como uma forma de exaltar o alcance de seu movimento.

Eu concordo com a parte da ironia, mas acho que tudo tem limite.

E um dos limites que eu gosto de falar é o limite da arte, pois a arte não é algo inclusista, muito pelo contrário, é algo exclusivista, é algo para poucos. Talento é algo raro e aqueles que não o tem, devem trabalhar duro pra conseguir fazer o que fazem, vide Goethe e Schlegel, por um momento na história ambos foram colocados lado a lado e hoje são considerados parte da cultura clássica alemã, com uma diferença, Goethe era considerado abençoado por Deus, ele tinha o talento divino e escrevia muito bem sem o menor esforço, já Schlegel não tinha o talento, mas tinha a perseverança que o fazia trabalhar muito para escrever aquilo que Goethe fazia sem suar. O resultado é claro, Goethe é conhecido por todos no mundo todo, Schlegel é relegado aos estudiosos da academia, porém ambos sobreviveram ao tempo, ambos são elementos definitivos de um momento histórico que não pode ser compreendido sem a presença de ambos.

Deu pra entender que um não é menor que o outro?

E isso é arte, então eu não pude deixar de chacoalhar a minha cabeça quando a primeira cena do filme é um conjunto de atores, diretores, produtores e roteiristas bem conhecidos do público falando bem de “The Room”, exaltando Tommy Wiseau como se ele fosse um gênio. Não, ele não é e, por ironia (olha só, voltamos a ironia) todos apresentados nessa primeira cena são conhecido por seu trabalhos de comédia, gênero este que é o que mais sofreu com o grande advento da ironia na segunda metade do século 20, transformando suas obras, que sempre serviram ao relaxamento, em grandes críticas sociais cerebrais que mais cansam do que fazem rir.

Essa exaltação de Tommy Wiseau como um grande gênio da arte de fazer cinema ruim é apenas negativa e menospreza o que é arte, de verdade, no entanto o filme, de maneira não intencional, eu diria, dá um giro de 180º nessa perspectiva e vai para o outro lado da moeda, mostrando a enorme falha que T. Wiseau é, de fato, não só como artista, mas até como pessoa. Algo que é discutido no final do livro de G. Sestero, uma meditação sobre os perigos de se perseguir os seus sonhos de maneira incondicional, um momento fácil de se encontrar no Youtube na forma de audiobook.

https://www.youtube.com/watch?v=pXSvfJzshfw

E isso torna o filme uma obra difícil de assistir, pois tudo o que T. Wiseau fez ao longo de toda essa trajetória como diretor, produtor, ator e roteirista do Melhor Filme Ruim Já Feito foi perseguir o seu sonho artístico. O começo da cena final é pesado e apesar de ser simples, surge na tela carregado de emoção e te faz pensar... Faz pensar, principalmente se você for um dos muitos escritores, atores, diretores, artistas que não conseguiram correr atrás do seu sonho, que não tem o talento ou a perseverança pra criar algo que seja eterno. É algo que fala conosco (os artistas fracassados) de uma maneira visceral, simples, porém honesta e é pela sua honestidade que ele nos captura, nos faz pensar e se emocionar, apesar de toda a história real ser patética.

Convenhamos, T. Wiseau é apenas um cara sem talento, com uma ambição fraca, mas com muito dinheiro e se há um defeito no capitalismo é esse, ele dá voz demais ao dinheiro e qualquer besta quadrada com o bolso cheio pode fazer algo grande, ainda que medíocre, mas grande o suficiente para ser notado e viver na memória coletiva por mais de 10 anos.

Acho que nessa altura do campeonato é impossível existir algum cinéfilo que não tenha, ao menos, ouvido falar de “The Room” e ouso dizer que a maioria dos cinéfilos no mundo já assistiu, ainda mais os que gostam de uma trasheira, embora “The Room” seja ruim até para uma trasheira.

Ao final, “The Room” é artificial, fraco e se há motivos para rir nele, esse motivo não é intencional, o que o torna digno de pena, mas “The Disaster Artist” faz com que sintamos até uma pontada de respeito por T. Wiseau, desmascarando o gênio, que vestiu essa armadura que criaram para ele como uma forma de sobreviver ao ambiente inóspito de seu próprio planeta.

4 pontos e meio

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Dica cinematográfica: “O Charme Discreto da Burguesia” (1972)

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Sabe quando dizem que a direita perdeu a batalha políticas nas artes? Pois é... não estão brincando.

“O Chame Discreto da Burguesia” é um filme dirigido por Luis Buñuel, contando a história de 6 amigos burgueses, de forma episódica, ao longo de alguns dias e contando com vários acontecimentos, de conspirações políticas a sexo no jardim, enquanto os amigos esperam o jantar ser servido.

É uma dessas obras que eu amo odiar ou odeio amar, provavelmente a segunda opção.

De forma simples, despretensiosa, mas visceral, Buñuel nos guia, ao longo de várias cenas que podem ser vistas de maneira isolada, poucas tem uma ligação direta entre si, na vida luxuosa, hipócrita, mesquinha e enfadonha de vários amigos ricos numa França que poderia ser qualquer França, mas também poderia ser qualquer lugar. Um dos personagens é um diplomata de um país inventado, mas localizado na América do Sul, o que reforça esse ar de generalidade. O que o filme retrata pode acontecer em qualquer lugar do mundo, sem exceção.

Mas a crítica também não é pesada, ele não ataca, ao invés disso, assume uma postura neutra, isolada dos acontecimentos, o que só aumenta nossa indignação com o comportamento dos personagens, o diplomato é um corrupto mesquinho, corrupção causada por seus amigos ricaços, que não deixam de lavar dinheiro com a ajuda do diplomata. Todos são casados, mas uma das mulheres quando inventa de transar, transa até no quintal, a outra trai o marido e sua irmã se passar um dia sóbria, é porque está ruim e essa é a vida da burguesia, seu charme discreto, aquilo que está escondido dos olhos da sociedade e que, se forem vistos, será motivo de grande vergonha (mostrado numa cena genial e que acho que é um dos pontos altos da carreira de Buñuel), nessa maçaroca sobra até para o padre, claro, pois não podemos deixar de mostrar como a Igreja Católica é hipócrita.

Eu só vejo coisas erradas nesse filme, mas não consigo deixar de gostar dele, pois é tão bem feito, tão bem dirigido que eu só posso aplaudi-lo, apesar dos pesares. É um filme colorido e tem aquele charme garboso dos filmes coloridos dos anos 70/80, com cores vibrantes, mais belas que a vida real. A direção de Buñuel é fantástica, escolhendo ângulos não convencionais para nos afastar do realismo da obra e nos jogar num mundo imaginário, distante, onírico em muitos momentos, afinal, a burguesia está longe de nós.

Entendo a produção desses filmes, Buñuel explicitamente assume a tradição dos filmes bons de Godard (vide a história do diplomata), mas eu questiono a validade de seus argumentos, visto de Buñuel não foi nenhum trabalhador braçal, Godard muito menos. Já Truffaut, que nunca foi um revolucionário e crítico da burguesia sim. Eu adoro a ironia da vida!

De qualquer forma é um filme bem feito, muito bem dirigido, escrito e belo, contando com um elenco exemplar de atores e atrizes (Ah, Delphine Seyrig!) muito talentosos e confortáveis em seus papéis, que vale a pena assistir.

3 pontos e meio