
Reli essa obra magnífica, que já foi dica há dois anos atrás, numa semana apenas, porque a obra é simplesmente sensacional e dessa vez pude ler sem tantas confusões mentais. Após mais uma leitura e mais descobertas, merece um dossiê.
A capa: a capa desse livro já é um indicativo do que você irá encontrar. Além da arte que nos apresenta um labirinto em linhas pretas num fundo preto, uma lateral com várias fotos polaroid de casas grandes do interior dos Estados Unidos e a contra capa com apenas uma foto que logo descobrimos ter sido tirado do “Navidson Record”, ela tem uma peculiaridade que sempre me chamou muito a atenção. A capa é menor do que o livro. O formato dela até segue o padrão de livros maiores, mas a diferença é que o miolo do livro é muito maior do que o padrão e a sacada genial já começa aí, afinal o livro conta a história de uma casa cujas medidas internas são maiores que as medidas externas.
O enredo: o livro conta uma história dentro de uma história dentro de outra história. Johnny Truant e seu amigo, Lude entram na casa do falecido Zampanó, vizinho de Lude, e descobrem se tratar de um imóvel peculiar. Johnny leva para casa um monte de papéis que supostamente Zampanó havia escrito e começa a montar o quebra-cabeça: Zampanó escreveu uma análise sobre um documentário, “Navidson Record”.
The Navidson Record: o ponto alto da obra e o que mais chama a atenção. É aqui que tudo de fato acontece. Navidson é um renomado fotógrafo que se muda para uma casa no interior a fim de reatar laços com sua família. Após a descoberta de que as dimensões internas de sua casa são maiores que as externas, inicia-se nele uma paranoica busca pelo oculto naquela casa, que o leva a perder muitas coisas, seu irmão, sua mulher, filhos e partes de seu corpo, enfim... a casa acaba com a vida de Navidson, mas é nesse tenebroso final que o livro revela o seu ponto forte: ser uma história de amor, dentro do horror.

Mark Z. Danielewski: o criador dessa obra fenomenal lançou o livro na internet, fragmentado, antes de lançar o livro. “House of Leaves” é considerado uma obra seminal dentro dos “romances de hypertexto”, um termo usado para esses livros que usam uma linguagem próxima a da internet para contar as suas histórias. No caso, as conexões que Danielewski faz são um exemplo de hiperlinguagem, mas não apenas isso, a própria estrutura da página, fragmentada, modelando a organização de palavras e letras para que possa representar o que está acontecendo são exemplos únicos dentro do “gênero”. Desconheço outro autor que faça isso. Danielewski, em sua obra mais recente, “The Familiar”, expandiu isso, criando livro que, dizem, tem mais de 600 páginas, mas poderiam ter 300 não fossem essas invenções estilísticas.
Romance de Hypertexto: não sei nem se o termo existe em português, mas estou traduzindo aqui. É um termo que não chega a descrever um gênero, mas serve como um guarda-chuva para abarcar esses livros que apresentam uma narrativa não linear e dão uma escolha ao leitor para seguir o caminho que quiser na leitura. Pense nos contos narrados por diversos autores através de meios distintos como cartas ou relatos nos contos de Borges ou ainda a análise de um único poema que constitui toda a história de “Fogo Pálido”. O leitor não é obrigado a seguir de forma linear o texto, mas a pular páginas, seguir para as notas, se concentrar nas “margens” do texto para poder montar uma coerência narrativa. Os exemplos que dei são antigos e considerados como precursores do “gênero”, que ganhou forma e força a partir do advento da internet, o que possibilitou a autores extrapolares o espaço convencional do texto, além de ferramentas que facilitam esses experimentalismos.

Borges: uma influência clara de Danielewski na hora de fazer a obra foram os labirintos metafóricos, linguísticos e literais de Jorge Luís Borges. O autor não é citado diretamente, mas toda a construção que leva ao labirinto dentro da casa lembra os contos do autor argentino. A presença do Minotauro, que aí é muito mais metafórico do que literal, só reforça essa ideia.
Derrida: o filósofo francês responsável por cunhar o desconstrutivismo faz uma breve aparição no livro, quando a mulher de Navidson resolve fazer um apanhado de entrevistas com pessoas que viram o documentário. O desconstrutivismo, explicado de maneira bem rasa, é simplesmente a ideia de abandonar pré-conceitos acerca de uma ideia, indo a sua raiz para que se possa criar uma opinião robusta sobre o que se está discutindo ou pesquisando, nem que para isso você tenha que buscar apoio no completo oposto daquela ideia. Muito mal utilizado por muita gente ao longo do século 20, é bem utilizado aqui, nos saltos que os personagens do livro dão. Eles vivenciam diferentes experiências na busca por uma clarificação do que estão vivendo e, ao final, é a desconstrução da linguagem que acaba nos dando a “moral” final da obra.
Essas são apenas mais algumas anotações, complementares à minha dica sobre esse livro, alguns pontos que servem como guia de leitura para quem for se aventurar nessa obra magnífica.



















Mas antes, vamos falar dos filmes. O primeiro deles “Conte de Printemps” (ou “Conto de Primavera”) é o meu favorito dos quatro e tem um início parecido com outro favorito meu feito pelo mesmo diretor, “L’ami de mon ami”. Jeanne, uma professora de filosofia não se sente bem em ficar na casa do namorado, que está viajando e decide voltar para sua casa, esquecendo-se que havia emprestado-a para sua prima, que ainda está utilizando-a. Sem saber o que fazer, ela é convidada para uma festa na casa de uma amiga distante e lá, casualmente, faz amizade com Natacha, uma menina de 18 anos, que lhe oferece um lugar para passar a noite, sua casa, que passa quase o tempo todo vazia, já que seu pai está sempre fora da cidade e sua mãe os abandonou quando ela tinha 12 anos. Dessa relação surgem diversos diálogos extremamente inteligentes, discussões sobre a vida pessoal das duas protagonistas e uma relacionamento forçado que apresenta o seu final desastroso já nos primeiros momentos em que começa a se delinear.
O segundo filme, “Conte d’Hiver” ou “Conto de Inverno” é o meu menos favorito e ouso dizer que um dos filmes menos inspirados em toda a filmografia do diretor, embora apresente coesão dentro do contexto da tetralogia. Sua história foca em Félicie, que, durante umas férias de verão, apaixonou-se por um cozinheiro. Eles passaram por momentos extremamente apaixonados e fazem promessa de voltarem a se encontrar. No entanto, seguindo a regra de que “amor de verão não sobre a cerra”, somos jogados 6 anos no futuro e conhecemos uma Félicia que carrega uma filha, mora com a mãe e se encontra dividida entre dois homens, que nunca deixam de ser uma sombra do que foi aquele cozinheiro pelo qual ela se apaixonou anos atrás.
O quarto e último filme da tetralogia é o meu segundo favorito dos 4. Seu nome é “Conte d’Automne” ou “Conto de Outono” e conta a história de Magali, uma viticultora que é convidada para o casamento da filha da sua melhor amiga, que resolve arranjar um amante para ela. Ao mesmo, uma amiga de Magali também decide arranjar um amante para ela, já que Magali anda muito solitária e o resultado não poderia ser nada mais do que uma excelente comédia humana.
A tal teoria, elaborada por René Girard, nos diz que o desejo passa por uma relação triangular, onde o nosso desejo por qualquer objeto passa por um terceiro, o mediador, que pode ou não ser o nosso rival em busca desse objeto. Esses 4 filmes nos mostram o drama primordial de nosso desejo, a rivalidade mimética que pode surgir com nossos mediadores. Em “Conto de Primavera”, Natacha tenta atuar como mediadora entre seu pai e Jeanne, mas de maneira ingênua, sem compreender que o desejo surge de forma premeditada, mas sempre despercebida por aqueles que desejam. Desejamos pelos olhos de outros, mas sem saber disso, porque se sabemos, quebramos o desejo. É sempre uma relação que não notamos. Ao deixar bem claro suas intenções, Natacha mina todas as possibilidades que seu plano dê certo. O mesmo ocorre no quarto filme, que encerra a tetralogia da maneira como ela começa, fechando perfeitamente o ciclo. Rosine, interpretada por uma das mulheres mais belas que já pisou na face da Terra, Alexia Portal, tenta fazer Magali se apaixonar por Étienne, seu ex-professor e ex-amante. No entanto, assim como Natacha (e ironicamente, as duas são muito jovens), deixa transparecer suas intenções e ao final é lógico que não dá certo. Em “Conto de Outono”, Rohmer nos dá uma resposta e Magali vai se apaixonar apenas por aquele que não lhe foi apresentado como um amante em potencial e que tentou, até o climático final, manter essa mentira. Ao contrário do primeiro filme, Rohmer nos apresenta aqui as respostas que precisamos ouvir, a solução para o conflito mimético.
De qualquer forma, esses 4 filmes de Rohmer nos apresenta obras de fazer inveja a qualquer cineasta, de maneira simples e sem grandes orçamentos, ele cria obras naturais, filmadas em poucas semanas, até de maneira casual. Os 4 filmes contam com as marcas do Rohmer, muitos diálogos, uma montagem natural, locações que passaram por poucas alterações e músicas apenas dentro do ambiente do filme. Tudo isso gera uma estética única, típica do cinema francês da nouvelle vague, mas com os avanços tecnológicos dos anos 90.





