terça-feira, 7 de novembro de 2017

Dica cinematográfica: "Blade Runner 2049"

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Putz... fazia tempo que não via um filme tão bom de ficção científica.

“Blade Runner 2049” é a continuação de um dos filmes mais queridos pelos nerds dos últimos tempos, “Blade Runner” e se passa 30 anos depois do primeiro filme. Após os acontecimentos, magistralmente narrados nos curtas que o precederam, conhecemos K, um replicante de um modelo novo, que caça modelos antigos de replicantes, executando a função que Rick Deckard exercia no primeiro filme, só que de uma forma muito mais incisiva, pois em 2049, todos os modelos antigos de replicantes são caçados, não apenas aqueles que se rebelavam.

Ao “aposentar” um replicante no início do filme, K entra em contato com uma conspiração que diz que um casal de replicantes havia gerado uma vida e o detetive passa a investigar isso, explorando diversas localidades de um EUA estéril, tendo longas discussões filosóficas com cientistas cegos megalomaníacos, outros replicantes e inteligências artificiais.

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É um filme fantástico! E também é um filme gigante! Não apenas no sentido do poder que esse filme tem, no nosso mundo real mesmo, é a continuação de um filme extremamente famoso e muito bem feito, mas o filme em si, “Blade Runner 2049”, sozinho, é um filme gigante. A começar pela apresentação do mundo que esse filme nos faz, mostrando, de verdade, todo o universo de Blade Runner, de uma forma nunca antes imaginada. Os cenários são gigantes, os visuais desse filme são expansivos e, claro, é muito melhor visto num cinema.

O filme também toca em temas expansivos, temas que não fazem parte do nosso cotidiano, mas nos colocam a pensar, tendo um escopo filosófico muito maior que o primeiro.

Mas o ponto que mais quero falar nessa dica é a forma como esse filme desconstrói gêneros, pois apesar de “Blade Runner 2049” ser um filme de ficção científica, ele é um filme noir, respeitando todas as convenções do gênero, mas numa ambientação futurista e distante daquilo em que o noir havia sido proposta a representar. A mistura dos dois é magistralmente executada nesse filme, tornando-o num noir de ficção científica classudo e poderoso.

O filme enche os olhos e enche a mente.

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Os aspectos técnicos são incríveis, simplesmente. O tratamento às imagens, a trilha sonora, composta milimetricamente para se encaixar como uma luva em cada momento, mas sem te deixar esquecer de que você está vendo um filme de ficção científica, tudo trabalha tão bem que esse filme beira a perfeição. Na verdade, acho difícil que um filme atual possa ser tão bem executado quanto esse, se um filme chegou perto dos limites do cinema atual, esse filme é “Blade Runner 2049”.

Porém, a narrativa pode se tornar confusa e alguns momentos você fica pensando se não ocorreram por puro acaso. Na verdade, os personagens principais contam com essa ajuda do acaso e mais para o final ficamos sem entender claramente como K chegou à conclusão que chegou e porque tomou a atitude que tomou, embora isso ajude o filme a apresentar um final fechado.

Enfim, “Blade Runner 2049” é um filme noir, não se engane, um neo-noir, pra ser mais específico e o melhor que o cinema hollywood nos apresentou nos últimos anos.

4 pontos e meio

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Dica Gamística: "Metroid: Samus Returns" (2017)

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Mais um que entra pra lista de “games que não terminei”, junto com o ancião Bravely Default, num post que discutirá, entre outras coisas, a dificuldade dos games e porque os games de hoje são mais difíceis que os games de antigamente.

“Metroid: Samus Returns” é o remake do extremamente famoso “Metroid: The Returno f Samus”, o segundo jogo da franquia, que nunca foi muito bem de vendas, mas tem uma base de fãs muito fiel e que não deixa a Nintendo esquecer de Samus Aran, a protagonista do game e uma das primeiras protagonistas femininas da história dos vídeo-games, se não a primeira.

No game, encarnamos o papel de Samus, obviamente, numa missão ao planeta SR388 depois que uma equipe inteira da Federação Galática foi dizimada por lá, ficando a cargo da caçadora de recompensas terminar de exterminar a raça de alienígenas conhecida como Metroid, que representam um perigo potencial para todo a galáxia, pelo seu potencial de energia destrutiva.

Tudo isso é introduzido numa abertura sem animações, mas com efeitos 3D magníficos e então é tiro, contra-ataque e bomba o resto do jogo. Praticamente não há história, como no original, mas há exploração num ambiente de plataforma e muita ação para satisfazer a vontade de um jogo de tiro em 3ª pessoa num ambiente plataforma dos fãs antigos da série, coisa que eu nunca fui, mas sempre nutri uma admiração muito grande por Metroid pela sua história, estética e até mesmo a jogabilidade, que é difícil.

E esse é o motivo pelo qual não terminei o jogo ainda, ele é difícil, mas de verdade e não difícil estilo Cuphead, cuja dificuldade é quase acidental. A dificuldade em Metroid é proposital, tanto que chega a ser cansativo, principalmente quando os chefes são espécies alienígenas que não mudam muito, então você pega rapidamente o jeito de derrota-los.

No entanto, mesmo os chefes mais difíceis, como o Diggernaut (que aparece 2 vezes apenas no jogo, em lutas diabólicas de tão difíceis!) carregam em si uma recompensa muito grande e ao final de cada luta você realmente se sente satisfeito e com aquela sensação de dever cumprido, seja pelo desbloqueio de um novo local para explorar ou pela conquista de uma novo upgrade para a sua armadura. Não é como Cuphead, em que você derrota um chefe, não ganha nada por isso e tem que correr pra enfrentar outro chefe tão irritante quanto o último, ganhando créditos entre os gamers apenas por uma falsa nostalgia de que os jogos antigos eram mais difíceis que os atuais.

E nesse ponto devo fazer uma digressão, pois os jogos de hoje não são mais fáceis que os jogos antigos. Na verdade eles são muito mais difíceis, nós é que nos tornamos bons demais em jogos de videogame. Não tem como comparar um jogo de SNES, que tinha 10 botões para serem pressionados, mas pouca variabilidade de funções entre eles com um jogo atual, que utiliza 14 botões com ainda mais funções a serem utilizadas. Jogos atuais podem até não apresentar o mesmo número de repetições ou fases extremamente complicadas, mas exigem muito mais funções do que os jogos antigos, tome como exemplo um jogo como Uncharted, cuja principal função é ser um jogo de exploração e tiro (e na maior parte é só isso mesmo), mas que apresenta missões onde você deve fugir de vilões pilotando um jipe e momentos cuja progressão se dá através da resolução de enigmas.

Você já parou pra pensar na quantidade de habilidades que você deve dominar para poder vencer um jogo desses?

Jogos atuais vão muito mais além do que simplesmente andar pra frente atirando sem parar, é muito mais do que um jogo do Mario fazia, apresentam enigmas muito mais complicados do que qualquer jogo do Zelda das gerações pré-Gamecube apresentam, até mesmo os jogos de corrida e de esportes (tão menosprezados pela comunidade gamer) apresentam funções muito mais complicadas do que qualquer Enduro ou Winning Eleven alguma vez sonhou em executar. Cara, os jogos hoje em dia captam a pressão que os seus dedos exercem sobre os botões, não tem como um jogo pré-2000 ser mais difícil do que um jogo desses.

Só que nós não percebemos isso, porque os jogos tem checkpoints demais, porque os jogos não frustram tanto quanto antigamente, porque você não passa mais horas numa mesma missão. No entanto, num mesmo jogo você atira, você resolve enigmas, você pilota carros e aviões, exercitando quase todas as áreas do seu cérebro ao mesmo tempo! Coloca o seu pai pra jogar um Mario e depois pra jogar um Uncharted da vida e quero ver qual que ele vai achar mais difícil.

E em Metroid podemos ver muito bem isso, pois muitas funções exigem mais de um botão para funcionar, como a mira, a utilização de mísseis mais potentes e até a função de localização. “Metroid: Samus Returns” de 2017 é infinitamente mais difícil do que o seu original e do que qualquer jogo que tenha sido criado nos anos 90 ou antes disso.

Portanto, esqueça sua nostalgia quanto a dificuldade dos games. Ela é irracional.

E voltando ao game, além de uma dificuldade realmente alta e, acima de tudo, justificada, pois as recompensas por ter passado tanto tempo jogando são altas, “Metroid: Samus Returns” apresenta um visual de fazer inveja a qualquer filme de ficção científica dos últimos anos, com uma atmosfera que quase dá medo e uma trilha sonora sensacional, que reforça toda a atmosfera do game.

A arte também é incrível, uma utilização fantástica do 3D, que me fez jogá-lo com o 3D ligado por quase toda a sua extensão. Há momentos em que pequenos detalhes no cenário acabam te revelando (ou te preparando para) as lutas contra os chefes a seguir. É um cuidado digno de nota e é surpreendente que a Nintendo tenha conseguido manter esse jogo tanto tempo em segredo.

Em suma, “Metroid: Samus Returns” é, de fato, um dos melhores jogos do ano, quiçá da década, cumprindo aquilo que promete e suprindo uma demanda muito grande do mercado  e com pouco, na verdade, porque o jogo nem é tão longo assim, o que é ainda mais surpreendente.

5 pontos

p.s.: não terminei o jogo ainda, porque estou muito ocupado com as coisas da faculdade o jogo repete muitos chefes mesmo e isso é enjoativo, mas como disse, é satisfatório e sempre acabo voltando para ele num momento ou outro, o problema é que pare agora num momento em que havia pego todos os metroids, mas acabaram aparecendo mais 8 extras, do tipo mais simples e não estou com saco de enfrentá-los de novo, por isso parei com o jogo, mas é provável que volte pra ele no futuro. Assim como sempre volto a jogar Bravely Default e nunca consigo passar da chefe final.

Dica audiófila: fone Asus padrão

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Hoje uma dica diferente, não tanto pelo seu tema ou pelo seu texto, mas porque é uma dica de um produto que eu sequer conheço bem.

A dica de hoje é uma dica audiofílica, ou seja, algum produto relacionado a áudio e como vocês podem ver pelo título é um fone de ouvido.

Infelizmente eu não sei qual o nome do modelo desse fone, a única referência de definição que tenho dele é o fato dele ter vindo com o meu celular, que já é dica aqui no blog, inclusive.

Assim que comecei a testar esse fone percebi que há uma diferença muito grande entre ele e outros fones de ouvido intra auriculares (os fones pequenos para se encaixar dentro da orelha). Pra começar, ele é muito mais balanceado do que os fones comuns, que reforçam o grave afim de chamar a atenção do público geral, dando a impressão de seu som ser “alto”, quando na verdade só é grave pra caramba, distorcendo os picos de graves nas músicas e fazendo desaparecer os agudos e médios.

Não é o caso deste fone, que apresenta um ótimo balanceamento para um fone intra auricular. Ele ainda é mais reforçado nos graves, mas não perde muita definição nos agudos e médios, nem distorce totalmente o áudio das suas músicas favoritas.

Além dos aspectos técnicos, temos ainda o aspecto ergonômico, pois este não é um desses fones que parecem estar estuprando a sua orelha, nem é de um formato que incomoda, ele segue um padrão mais antigo e tradicional, sendo um alívio para mim, já que eu odeio esses fones de ouvido intra auriculares cheios de firulas, que mais servem para você exibir do que usar de verdade.

Enfim, o fone padrão da Asus é um ótimo aparelho, não é nada comparado aos grandes modelos que fazem qualquer audiófilo delirar, mas é um ótimo produto quando se leva em conta a relação custo-benefício que o acompanha.

4 pontos

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Dica cinematográfica: "Tire-au Flanc 62" (1961)

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E finalmente minha busca acabou! Me comprometi esse ano a assistir todos os filmes de François Truffaut e minha trajetória, que começou de maneira muito satisfatória revelou ser uma caçada implacável a diamantes há muito tempo perdidos e o último deles era “Tire-au Flanc 62”, que não se encontra disponível em local algum na internet e eu tive que desembolsar 42 reais para poder assisti-lo, mas valeu a pena.

O filme é, na verdade, um remake de um outro filme, de mesmo nome (exceto o 62), dirigido por Jean Renoir em 1928, que por si só é uma adaptação cinematográfica de uma peça. Não assisti o original de Renoir, nem li a peça, então só poderei falar sobre o remake de 1961 mesmo.

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No filme, conhecemos Jean Lerat de la Grinotière, um jovem aristocrata que está iniciando a carreira militar junto com seu servo fiel, Joseph Vidauban. Infelizmente, Jean Lerat não leva o menor jeito para a vida militar, enquanto que seu servo demonstra uma enorme facilidade de adaptação ao meio militar.

O filme é uma comédia bem leve, não se levando a sério em nenhum momento, provocando um humor já datado, mas que diverte, se você já estiver preparado para encará-lo. Não espere nada muito refinado, apenas toques sutis aqui e ali, que poderão abrir um sorriso em seu rosto.

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Ainda assim, é um filme divertido, um ótimo entretenimento feito a quatro mãos, pois não foi apenas Truffaut quem o dirigiu. Dividindo a direção temos também Claude de Givray, que não teve uma carreira muito prolífica e acaba atrapalhando a genialidade do maior mestre do cinema que já existiu.

Lá para o meio do filme, o ritmo começa a ficar arrastado e para os desavisados pode ser cansativo, mas a atmosfera leve e harmoniosa do filme agrada e faz com que toda a trajetória de assisti-lo valha a pena.

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Sua narrativa é bem sólida e não há muitos experimentalismos que fizeram a nouvelle vague famosa, mas podemos ver alguns momentos de pura genialidade fílmica, presente em jogos de câmera e edição, provavelmente ideias vindas de Truffaut.

Enfim, “Tire-au Flanc 62” está longe de ser o melhor filme de Truffaut, mas é uma deliciosa comédia. Para os fãs do diretor, uma obra obrigatória e para os não-fãs, uma obra que vale a pena.

4 pontos

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Dica musical: "THE OOZ" por King Krule (2017)

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O rei, o verdadeiro Rei finalmente voltou!

https://www.youtube.com/watch?v=K5-f1Bnltu8

Após uma série de vídeos que foram aumentando o hype em torno desse álbum, King Krule nos agraciou, em plena sexta-feira 13 com o lançamento de seu mais novo CD, “The OOZ”, dessa vez, apresentando um som ainda mais sólido que o seu álbum de estreia, explorando diferentes ideias, enquanto apresenta uma forma única de abordar a música.

Em “6 feet beneath the moon”, o excelente álbum de lançamento de King Krule, o jovem Archy Marshall estava mais interessado em rap, lançando até um projeto colaborativo de rap um tempo após o lançamento do álbum, mas muita água passou por baixo dessa ponte e o jovem Archy volta agora com outras experiências musicais prontas para influencia-lo, como o jazz punk do The Lounge Lizards.

Em “The OOZ”, Archy acha um terreno sólido para os seus experimentalismos musicais, podendo dar espaço para todos os artistas que ele passou anos escutando pudessem influencia-lo de uma forma ou de outra nas músicas desse CD, como Chet Baker, Berry White e Arctic Monkeys, artistas muito distantes entre si, mas que acabam se encontrando nas músicas de “The OOZ”.

https://www.youtube.com/watch?v=2XzXLzA2Hrc

E isso só é possível porque King Krule passou a ser menos um projeto de Archy Marshall para ser um projeto colaborativo entre seus amigos mais próximos. Archy dá espaço para que cada um possa mostrar o seu melhor, incrementando assim cada lacuna de cada música que o talento natural de Archy não pôde preencher. Isso fica claro quando ouvimos o (e ficamos sabendo do processo por trás do) saxofone, tão presente nesse álbum. Archy é um líder nato.

As letras trazem vívidas imagens do sul de Londres, pinceladas com toques de ficção científica e crítica social, mas cheias de uma poética de fazer inveja a qualquer millenium metido a poeta sensível. Como dito em uma entrevista, Archy é um cara muito atento à política e apesar de ter se alinhado com a extrema esquerda, ele agora entendo o valor do capitalismo e não sabe bem em que lado está, mas também não se conforma com as situações revoltantes que viu e ainda vê por Londres, uma das melhores cidades do mundo para se viver, mas que ainda tem mendigos na rua e deportam cidadãos (numa entrevista antiga, Archy revelou perder uma namorada assim).

O único problema desse álbum é apenas o fato de que King Krule é hipster demais. Sem brincadeira, todo esse experimentalismo, sem ser inaudível ou transgressor demais, as letras sensíveis, que mesclam ficção científica com confessionalismo e a atitude classuda de Archy são elementos que afastam os mais puristas, tanto do lado do rock, como do hip hop, encontrando espaço apenas entre os hipster tênis verde mesmo, que também entendem pouco ou nada da arte de King Krule.

https://www.youtube.com/watch?v=k2HRzIyyXvU

Mas King Krule não é apenas mais um, ele é único dentro desse espaço, pois, como dito numa entrevista recente, Archy não é apenas um desses artistas que gostam de misturar um monte de coisa e ver no que vai dar. Desde o começo ele já havia se interessado em músicas experimentais, mas seu início mesmo é no punk e é essa atitude punk que falta em artistas como o Cosmo Pyke e até mesmo em artistas como os da Geração Perdida de Minas Gerais; não basta apenas saber todos os mínimos detalhes da configuração de guitarras e microfone, os arranjos de baixo e bateria e os instrumentos de trabalho na mixagem. É algo que vai além e tem a ver com sua postura perante a música como um todo.

King Krule se aproxima da música com agressividade e é uma agressividade ativa, porém classuda, se aproximando da violência de um romance de Raymond Chandler, onde os grandalhões tiram os ternos antes de descer o sarrafo e depois temos as piadinhas.

Enfim, King Krule é algo além do comum, é algo único e “The OOZ” é a sua maior obra até então, não apenas objetivamente (são 19 canções!), mas também subjetivamente; é poético, é sujo, é classudo e é preocupado, tudo ao mesmo tempo. Na entrevista que citei anteriormente, Archy revelou estar ouvindo muito Beatles ultimamente e “quem sabe isso não acabe virando uma inspiração para um próximo álbum?”. Não sei quanto a um próximo álbum, mas vale a pena ficar de olho nesse moleque, porque ele é um dos melhores artistas musicais ativos.

5 pontos

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Dica gamística: "Cuphead" (2017)

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Hoje um review polêmico e sei que uma galera vai discordar de mim, mas a área de comentário tá aí pra isso, leiam o post e joguem todo o seu ódio contra mim nela, mas sem se esquecer, essa opinião é minha, não do Locadora TV. Os outros integrantes podem jogar o mesmo jogo e ter uma opinião diferente.

Irei falar de Cuphead, um jogo indie publicado pela Microsoft e disponível para Xbox One e PC (Windows 10, apenas), anunciado há muito tempo e que, desde o primeiro anúncio, ficou recheado de um hype quase infernal, porém justificável, já que a apresentação do jogo é belíssima.

Cuphead conta a história de dois irmãos, o Cuphead e o Mughead, que, num belo dia, resolvem ir até um cassino e lá começam a ganhar uma bolada. Em determinada altura, o dono do cassino aparece, o próprio Demônio e resolve apostar a alma dos dois na próxima jogada. Mughead fica com medo, mas Cuphead aceita o desafio e, obviamente, eles perdem. Agora, o Demônio tem a alma dos dois, mas após ouvir o choro dos dois, lhes faz uma proposta: se os dois meninos conseguirem os contratos dos devedores do Demônio em 48 horas, eles podem ficar com suas almas.

E assim começa o jogo, após um pequeno tutorial na casa de seu tio, você, no comando de Cuphead, pode partir para aventuras nesse mundo maluco, inspirado em antigos desenhos animados dos anos 30 e 40 e afins. Logo no começo, você já tem a oportunidade de desafiar dois devedores do Demônio e uma fase que serve para você ganhar moedas.

E aqui já vou dizer o principal defeito do jogo: o combate. O jogo é difícil? Sim, ele é, mas Cuphead é o exemplo de jogo difícil por ter uma jogabilidade ruim, que é expressa em dois pontos. O primeiro são os controles. Tá certo que eu estou jogando no teclado, que é horrível, mas se eu nunca comprei um controle é porque nunca passei sufoco jogando no teclado, então eu acho que os controles são ruins mesmo.

O segundo ponto a ser criticado (e principal) quanto a jogabilidade é um level design porco do jogo. Quando você enfrenta os inimigos não sabe quanto de dano inflige, isso não seria um problema se desse pra sentir que suas escolhas fazem diferença no jogo. Em determinado ponto do jogo, consegui um ataque especial que aumentava a quantidade de tiros que minha arma soltava, só que quando usei esse golpe especial num inimigo que estava enfrentando por um bom tempo, levei exatamente a mesma quantidade de tempo para ele mudar de forma, ou seja, não sei se o golpe especial tem efeito, de verdade. E o jogo também não te deixa verificar isso.

Vendem o jogo como se fosse difícil, mas ele só foi porcamente feito, o que não faz de Cuphead um jogo desafiador, de verdade. Pra ser desafiador tem que ter a intenção por trás do desafio, uma proposta sólida por trás do game, não apenas o acaso.

Ainda bem que eu não comprei.

Agora que destrinchei meu ódio contra o jogo, estou pronto para elogiá-lo. Há alguns aspectos que fazem ele ser um jogo difícil de verdade. O primeiro deles é a conquista de moedas de ouro. Existem algumas poucas fases pra você conseguir moedas de ouro e elas só podem ser conseguidas uma vez, ou seja, uma vez que você terminou a fase, não poderá pegar a mesma moeda, de novo, não é que nem um Mario da vida, onde você pode voltar numa fase anterior pra pegar moedas e conseguir vida.

Outro aspecto é a vida. Ela é muito limitada, embora digam que ela é infinita. Você pode liberar novas vidas, mas você tem que equipar essas novas vidas, ocupando o lugar de outras habilidades que te ajudam a avançar no game. É uma escolha difícil de se fazer. Mais para o final do jogo, você consegue liberar "vidas" enfrentando chefões muito difíceis, mas também é um evento relativamente raro.

Um terceiro aspecto são os próprios devedores do Demônio. Eles passam por diferentes formas antes de serem derrotados, fazendo do combate algo bem tenso e que prende a tua atenção de uma maneira como poucos jogos conseguem.

Fora isso, a direção de arte, claro, é sensacional.

A equipe de artistas responsáveis pela estética desse jogo está de parabéns, pois eles conseguiram simular, de verdade, a estética dos antigos desenhos animados, recheando o game de referências, mas mantendo um visual original. Dos personagens ao entorno da tela e os “riscos” (simulando rolo de filmes antigos) que aparecem na tela, é tudo muito bem feito e um deleite para os olhos.

Sem contar a música, que foi o primeiro aspecto que me chamou a atenção quando vi o primeiro anúncio do jogo. A trilha sonora do game é fantástica, embora acabe enjoando quando você tem que enfrentar a mesma área um milhão de vezes seguidas.

Talvez seja por isso que o level design seja tão porco. Os desenvolvedores se atentaram tanto a estética do game que acabaram esquecendo do fator primordial, a jogabilidade.

Infelizmente, o final do jogo também é decepcionante, deixando a desejar em muitos aspectos. As batalhas finais continuam infernais, mas são uma demonstração intensa do despreparo e falta de criatividade dos desenvolvedores na hora de criar as batalhas. Pra se ter uma ideia, a penúltima batalha (contra o Sr. Dice) é mais difícil do que a batalha contra o Demônio.

Enfim, Cuphead é um jogo muito bom e tinha potencial pra ser ainda melhor, mas o relaxo de seus desenvolvedores acabou fazendo da jogatina algo cansativo, frustrante e falho, embora eu ainda ache que vale a pena jogá-lo.

3 pontos

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Dica Smartphonística: Zenfone Go ZB500KL

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Hoje irei iniciar mais uma categoria aqui no blog, referente aos smartphones, os celulares da nova geração, esses instrumentos que estão substituindo computadores inteiros na vida dos jovens dinâmicos e no post de hoje, irei falar do meu novo smartphone, o Zenfone Go.

Mas não irei falar de qualquer Zenfone Go e sim do modelo X00ADA ou ZB500KL (por alguma razão, ele tem esses dois códigos), o modelo que eu tenho e que estou usando atualmente. O celular tem uma bateria de 2600mAph, 2gb de memória RAM, 16gb de armazenamento externo, processador Qualcom Snapdragon de 1GHz e resolução de 720X1280px.

O aparelho ainda conta com uma câmera traseira de 13 megapixels e uma frontal de 5, espaço para expansão de armazenamento através de um microSD, entrada para dois chips de rede (algo que eu valorizo bastante, pois vivo entre 2 estados, praticamente), com conectividade 4G e android 6.0 instalado de fábrica.

É um celular potente? Não é, mas é um celular que cumpre o que promete. Ele roda a maioria de todos os jogos de maneira suave, tem um espaço de memória agradável e claro, conta com uma placa de áudio sensacional, típica dos aparelhos da Asus, que são muito dedicados nesse quesito. Nunca tive problema com sistemas de som em aparelhos Asus (além desse celular, já tive um Zenfone 5 e uso um notebook Asus e toda minha família tem aparelhos Asus, praticamente) e dá pra ver que a empresa tenta se garantir ao máximo nesse quesito.

Como já li em alguns lugares, esse celular é um aparelho com poucos concorrentes no mercado (ao menos brasileiros), já que apresente características muito boas por um preço fantástico, numa média que varia entre 500 e 600 reais, mas que pode diminuir conforme o dia que você compra. O meu mesmo comprei numa promoção no site de Asus e veio junto um carregador portátil de graça.

Por falar em “vir junto”, o aparelho ainda conta com um item muito valioso em sua caixa: ele vem com um fone de ouvido!

Chamo a atenção para esse detalhe porque parece que virou costume entre as empresas de não fabricar mais fones de ouvido para serem vendidos com o celular, o que é um ultraje! Mas este daqui vem com um fone de ouvido e ele é muito bom, mas falarei do fone em outro post, porque merece.

Fora tudo isso, é um celular típico da Asus. Os designers da Asus são uns preguiçosos ou a Asus contratou só um no começo da empresa e o demitiu depois que ele projetou o Zenfone 5, porque é basicamente o mesmo modelo, com umas pequenas alterações na sua capa traseira e no detalhe logo abaixo dos ícones de comando do Android.

A posição de alguns botões também é diferente e só foram melhorados. O botão de ligar e desligar fica em cima do celular, assim como a entrada para fones de ouvido, o que facilita muito na hora de ouvir música com o fone no bolso. Outra coisa fantástica e algo que merece um prêmio de design (mas não sei se é original da Asus, provavelmente não!) é a localização dos botões de volume, que ficam atrás do celular, uma posição estratégica para você que anda ouvindo música e aí não tem que tirar o celular do bolso pra abaixar ou aumentar o volume.

Também é um modelo novo, o que é bom em questão de software e hardware, pois garante uma maior vida útil, mas é um modelo de entrada. Logo se tona obsoleto.

Por ser novo, também não tem root, o que é uma pena, mas também não vem com mutios aplicativos nativos e sua memória interna dá conta de garantir um funcionamento perfeito.

Enfim, é um celular que vale muito a pena comprar se você não exige muito de seus celulares e não tem muito dinheiro pra gastar.

4 pontos e meio

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Dica literária: "A divina comédia" de Dante Alighieri (1304-1321)

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As aulas de latim que tive ano passado foram bem inúteis, não entendo porque tive que aprender essa língua sendo que nunca mais usei-a durante o meu curso e, provavelmente nunca mais a usarei. No entanto, nem de longe elas são tão inúteis quanto linguística, que sequer é uma ciência, pois, ao menos, as aulas de latim serviram para que eu pudesse me interessar pela cultura clássica e por causa do meu interesse em cultura clássica (e também pelo meu interesse quanto a língua italiana), que eu decidi ler esse livro.

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“A divina comédia” é um poema épico que conta a trajetória de Dante pelos “reinos de além-vida”, ou seja, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Motivado por Beatriz, sua musa inspiradora e grande paixão de sua vida, Dante inicia sua viagem ao encontrar-se com Virgílio, enviado pela própria Beatriz, no Limbo (para onde Beatriz não pode descer, pois ela se encontra no Paraíso). A partir do Limbo, onde se encontram as almas daqueles que não conheceram o Cristianismo, Dante e Virgílio entram no Inferno, que nada mais é que uma enorme cratera formada a partir da queda de Lúcifer do Paraíso. Dante atravessa os 9 círculos do Inferno, encontrando pessoas reais e ficcionais mitológicas pagando após a morte os pecados que cometeram. Após o encontro com Lúcifer, eles entram no Purgatório e seus 6 círculos, onde são punidos aqueles que não resistiram aos 7 pecados capitais e aguardam para poder adentrar os portões celestiais. No final do Purgatório, Dante se despede de Virgílio (que não pode entrar no Paraíso por ter sido um pagão em vida) e adentra o Paraíso ao lado de Beatriz, que também o guia pelos 9 círculos do Paraíso até o Empírio, a morada de Deus e todos os Abençoados.

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Esta é uma daquelas obras que de tanto ouvirmos falar, achamos que conhecemos, mas quando a encaramos de verdade, percebemos que não conhecemos nada! Sendo um millenial a minha referência principal para “A divina comédia” é, lamentavelmente, a camiseta do Nirvana com os círculos do Inferno. Portanto foi uma surpresa para mim ler esse poema épico fantástico, a começar pela sua estrutura, baseando-se, inteiramente, no simbolismo do número 3, representando a Santíssima Trindade. O poema é composto por tercetos que seguem um esquema de rimas ABA, BCB, CDC, DCD e assim por diante, chamado de terza rima. O poema constitui-se de 3 livros: Inferno, Purgatório e Paraíso, cada um com 33 cantos (exceto o Inferno, que contém um canto a mais para introdução, mas ele não conta, de fato). Cada uma das localidades exploradas por Dante contém 9 círculos (o Purgatório tem 6 círculos para punição, mais 2 ante-purgatórios e o seu topo, o paraíso terrestre), o que totalizam 27 círculos, que por si só é o número 3 elevado a terceira potência.

Tamanha genialidade só pode ter vindo de inspiração divina mesmo.

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A viagem de Dante é marcada pelo forte debate filosófico e teológico, recheado de personagens históricos ou mitológicos, que tem uma funcionalidade alegórica dentro do poema, explorando ideias, conceitos, atos e julgamentos, enfim... é uma obra para se tomar como um guia espiritual.

Há ainda no livro diversos momentos em que Dante toma para si nomes (de lugares, principalmente), criando uma mitologia própria, como no momento em que ele está para entrar no Paraíso e se banha no Letes para deixar para trás os seus pecados. Pode não parecer muita coisa analisando-se friamente, mas quando se está lendo e experienciando a obra em primeira mão, é um deleite criativo.

A obra é tão bem escrita e imersiva que o Inferno é capaz de transmitir aquele sentimento de horror que nos faz querer virar santos em vida só para evita-lo. A descrição de Lúcifer foge de tudo que a cultura pop nos faz engolir, mas é tão assustadora quanto deve ser. O Purgatório é um momento de tranquilidade e paz, face a esperança de poder sair de lá, enquanto que o Paraíso, ao menos para mim, foi uma experiência agridoce. Eu tenho medo da morte, não porque tenho medo da dor ou porque vou deixar projetos inacabados, mas porque eu tenho um certo pavor do que virá a seguir. A ideia de vida eterna sempre me deu um pouco de desespero pelo seu teor estacionário e utópico. Ideias como a de “felicidade tão grande que você nem irá notar se a pessoa que amou em vida está ou não do seu lado” me dão pavor, por isso as descrições do Paraíso e sua bem-aventurança acabaram me deixando um pouco apavorado, mas ao final da obra, quando Dante conhece a Verdade Absoluta e uma beleza tão grande que é impossível descrever, eu me senti em paz também. “A divina comédia” tem esse poder.

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A edição que eu tenho é da editora 34, é bilíngue e apresenta tradução de Italo Eugênio Mauro, que só traduziu essa obra, mas a traduziu tão bem que ele deve ter um lugar especial no Paraíso ao lado do poeta florentino. Não tem ilustrações, mas eu acho que isso é ainda melhor, embora as descrições do Paraíso não sejam tão claras e completas quanto nos outros lugares, é melhor ficar sem ilustrações mesmo para que possamos admirar a viagem de Dante apenas em nossas ideias, de forma meio que platônica. Sem contar que nenhum ilustração faz jus de fato à grandeza desse poema.

Conversando com colegas, a maioria diz que “A divina comédia” é o melhor poema épico que leram e eu concordo com eles, embora vá um passo além e diga que essa obra só é o que é por pura e simples inspiração divina. Dante foi abençoado ao escrever “A divina comédia”, é o que acredito.

5 pontos

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dica quadrinística: "Fragmentos do Horror" de Junji Ito (2014)

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Esperei por esse mangá um tempão, desde que foi anunciado no início do ano (pelo menos foi quando eu fiquei sabendo da sua publicação no Brasil). Se você gosta de horror e tem um senso humor negro este quadrinho é para você.

“Fragmentos do horror” é uma compilação de one-shots de horror criador pelo Junji Ito, um dos mangakás mais criativos atualmente em atividade. São 8 história, como o próprio título já diz, de horror, que variam em seu tom, do mais assustador e/ou perturbador ao mais humorado e bizarro.

Todas elas foram escritas e desenhadas por Junji Ito após um período de repouso do autor, há poucos anos, ou seja, após ele já ter se concretizado como uma das mentes mais criativas dentro da esfera dos mangás de atualmente. É um deleite saber disso, pois mostra o seu poder criativo, com muito fôlego ainda para gastar com tintas nanquim.

Como histórias de horror, elas não são assustadoras, mas são extremamente perturbadoras, do tipo que deixa sem fome depois de ler, mas, ao mesmo tempo, são extremamente compensadoras, pois é um prazer acompanhar a narrativa de Junji Ito, seus traços detalhistas, os painéis recheados e a criatividade florescendo ao longo de suas mais de 200 páginas.

Há algumas críticas a serem feitas, pelo fato de serem histórias curtas, Junji Ito deixa de apresentar o amplo desenvolvimento narrativo característico de seus principais mangás (Gyo, Uzumaki e Hellstar Remina), deixando de lado o seu lado mais niilista e perturbador para dar espaço ao lado mais humorado, embora o humor dentro de “Fragmentos do horror” seja puramente negro. Isso faz com que a obra seja mais fácil de engolir, embora ainda tenha o seu teor perturbador, ela não te deixa mal depois da leitura.

O traço de Junji Ito é detalhista e aqui temos a oportunidade de ver duas personagens femininas protagonistas com aquele visual característico que elas têm (não sei se isso é homenagem a alguém ou o quê, mas os traços de Tomio é basicamente o mesmo de muitas outras de suas personagens) e contamos com uma enorme imersão narrativa, sua principal e mais forte característica. Aqui, essa qualidade é explorada ao máximo, pois em poucas páginas, ele é forçado a criar algo que prenda a nossa atenção (e tensão) desde o primeiro quadro.

Infelizmente, a edição da Dark Horse não contém páginas coloridas e isso é imperdoável para uma edição que se diga “de luxo”. Há apenas 2 páginas coloridas num mangá que foi vendido a mais de 60 reais no seu lançamento, sendo algo muito ultrajante eles terem descolorido o quadro pintado no começo do mangá.

Tremendo vacilo, Dark Horse.

Mas o importante é que “Fragmentos do Horror” foi finalmente publicado aqui no Brasil e por uma editora competente, que fora o vacilo com as páginas coloridas, fez um ótimo trabalho com a publicação do mangá, em capa dura, com um trabalho artístico muito melhor que o de editoras estrangeiras e abrindo espaço para que outros mangás do mestre Ito sejam publicados aqui no Brasil e quem sabe até os seus influenciadores, como “The Drifting Classroom”.

4 pontos

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Dica cinematográfica: "Alice ou a última fuga" (1977)

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Acho que trago, pela primeira vez, uma dica de um filme de Claude Chabrol, o inaugurador da nouvelle vague, esse movimento artístico que eu tanto amo.

O filme é “Alice ou a última fuga”, lançado em 1977, contando a história de Alice Carol, uma bela mulher que decide abandonar o marido por não suportar mais a vida que leva com ele. Partindo por uma estrada sem rumo, o para-brisa de seu carro quebra e ela é forçada a estacionar dentro do terreno de uma mansão, onde um velho diz que já a esperava. Como chove, Alice acaba passando a noite na mansão e pela manhã, descobre que está sozinha na casa e que seu carro foi consertado. Após o café-da-manhã, Alice decide continuar sua viagem, mas acaba descobrindo presa nos arredores da mansão, que revela propriedades fantásticas.

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Este filme é um exemplo magnífico de como se inspirar por uma obra e a obra no caso é “Alice no país das maravilhas”, claro, e sua continuação. Pra começar, o nome da personagem principal, Alice Carol, não tinha como ser mais óbvio. Depois, ela foge de casa e vai parar num lugar fantástico, onde eventos que fogem à explicação racional acontecem e não ganham explicação. É simplesmente a forma como aquele “espaço” funciona. E até mesmo o elemento mais icônico da história de Lewis Carol está presente, o buraco para o subterrâneo, mas indicar a sua existência no filme é spoiler demais.

As semelhanças são óbvias, mas não deixam de surpreender pela forma como são apresentadas. Como não sabia nada do filme até começar a assisti-lo, fui me surpreendendo conformo o filme ia se apresentando para mim, com cada elemento sendo jogado na tela de forma natural e aos poucos fui juntando os pedaços e montando o quebra-cabeça que Chabrol montou. Ele conseguiu pegar elementos da história de Lewis Carrol e montar algo novo, com uma bela lição de moral ao final e elementos fantástico que deixam o espectador irrequieto.

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Como um filme dos anos 70, ele já era colorido e apresentava aquela característica coloração de filmes antigos que agradam tanto aos hipsters de hoje em dia. A direção de Chabrol é praticamente uma aula de cinema, é possível notar facilmente quando Chabrol usa espelhos para iluminar cenas, para onde ele move a câmera e até mesmo prever o que irá ser mostrado para nós em algumas cenas, pela forma como ele guia as câmeras. Pode chamar isso de ortodoxia demais, mas é uma marca de direção e a cereja do bolo é, de fato, o final do filme, magistralmente revelado para o espectador, dando um novo sentido ao termo “plot twist”.

Enfim, “Alice ou a última fuga” é um dos primeiros filmes que assisti de Chabrol e, na minha epopeia de me aprofundar dentro dos filmes da nouvelle vague esse ano, nada mais justo do que correr atrás do material do diretor que é considerado o inaugurador do movimento, bem quando este maravilhoso filme completa 40 anos.

4 pontos e meio

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Dica musical: "Live on BBC Radio 1: vol. 3" do Touché Amoré (2017)

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Após o lançamento de seu melhor álbum, o Touché Amoré volta para a rádio BBC 1 para apresentar suas novas canções e o EP de apenas 4 canções vale a dica.

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O EP, assim como os outros volumes de “live on BBC radio 1” apresenta apenas 4 canções, todas elas presentes no último disco da banda, Stage Four, que é, sem sombra de dúvida, o melhor álbum deles e, eu reitero minha opinião do ano passado, foi o melhor CD de 2016 e é um excelente álbum.

Mas você pode se perguntar: se é um EP com músicas presentes num álbum recente, por que isso é interessante?

É interessante, jovem gafanhoto, para podermos ver o quão grande é o Touché Amoré atualmente.

Um álbum de estúdio é fácil de ser editado e é fácil a banda soar boa em estúdio, mas ao vivo já é outra história. E o Touché Amoré sempre foi uma banda que tinha uma diferença notável entre a versão em estúdio e a versão ao vivo. Apresentações com erros, um vocal limitado e muito barulho.

[bandcamp width=100% height=42 album=1231864046 size=small bgcol=ffffff linkcol=0687f5 track=3490594970]

Pois bem, essa diferença está perto de zero com esse álbum. A sonoridade da apresentação, como um todo, é bem limpa, para os padrões sonoros que o post-hardcore permite. Os erros, praticamente não existem e você só conseguirá perceber se aumentar bastante o volume e desacelerar o ritmo da banda.

É um prazer ouvir o Jeremy Bolm cantando agora. Seus vocais estão diversos como nunca, indo do mais agressivo ao mais calmo, de um vocal mais agudo e rasgado a um mais grave e sólido. Ele finalmente aprendeu a cantar.

Se há uma coisa a criticar é, simplesmente, a escolha de músicas. Na minha opinião faltou as já clássicas “Flowers and You” e “Skyscraper”, mas eu entendo o porque delas não terem sido escolhidas. “Skyscraper” é um dueto com Julien Baker (se bem que seria legal uma participação dela, assim como Jordan Dreyer apareceu no volume 1) e “Flowers and You” é uma escolha minha, não é das mais queridas pela maioria dos fãs.

Enfim, esse EP pode até não apresentar um material novo, mas apresenta uma banda nova, Touché Amoré praticamente se reinventou com esse novo álbum, não apenas musicalmente, mas a própria atitude da banda, suas motivações e planos para o futuro, tudo mudou com “Stage Four” e está valendo muito a pena acompanhar essa vida nova de Touché Amoré.

4 pontos e meio

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Podcast d'O Sommelier #2: 3 dicas quadrinísticas

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Quem diria, hein? Saiu o 2º podcast d'O Sommelier de Tudo, que deu muito trabalho pra fazer, mas ficou legal.

E nesse podcast, eu indico 3 mangás que estão sendo, atualmente, publicados no Brasil e que vale muito a pena acompanhar e, portanto, a dica.

Para ouvir e/ou baixar, clique aqui.

Para críticas, dúvidas, sugestões e outras coisas mais, a área de comentário está aí pra isso.

Ciao!

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Dica musical: "Love What Survives" do Mount Kimbie (2017)

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“Love What Survives” é o terceiro álbum de estúdio do Mount Kimbie, dupla britânica de música eletrônica, que, desde o primeiro álbum apresenta um som único, ignorando qualquer forma de classificação do estilo musical que eles são capazes de criar, alcançando, finalmente nesse álbum, a autonomia suprema.

https://www.youtube.com/watch?v=8rwXMvPm1HQ

Em “Love What Survives”, Mount Kimbie volta com um CD recheado de participações especiais, mas antes de chegar nelas é preciso dizer que o álbum encontra um espaço nunca antes explorado, ou talvez seja até melhor dizer que o álbum cria um espaço completamente novo.

O som do Mount Kimbie tem raízes no dubstep, mas eles meio que sempre estiveram distante dessa classificação, pois o som da dupla nunca se encaixou, completamente, dentro dos padrões sonoros do dubstep. A dupla sempre incluiu uma vasta gama de instrumentos e experimentalismos sonoros, no entanto, nada muito ousado.

Em seu último álbum, eles continuaram essa tendência, mas o melhor momento do álbum se encontra na participação especial de King Krule, em “You Took Your Time”. Aqui, eles voltam com essa parceria, que se revela estar mais produtiva do que nunca.

https://www.youtube.com/watch?v=J1kzMFnFSh0

Além de King Krule, temos ainda James Blake, em duas canções, Micachu e Andrea Balency, todos executando ótimos papéis nas canções em que participam, no entanto, o melhor ponto desse álbum não são as participações, mas sim os sons que Mount Kimbie conseguiu elaborar.

Todos os sons têm uma marca bem única e característica, tornando-o diferente de tudo que você ouvirá esse ano saindo do cenário da música eletrônica (mais morto e enfadonho do que nunca) e eles se saem muito bem em elaborar canções carregadas de elementos, com ritmos bem delimitados, mas expansivas, criando atmosferas criativas para a imaginação fluir. Não é a toa que os clipes das músicas do álbum estão excelentes.

4 pontos e meio

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Dica curtística: "Blade Runner Blackout 2022" (2017)

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Essa dica é tão importante que cria uma categoria só para ela, “Blade Runner: Blackout 2022” é o primeiro trabalho de Shinichiro Watanabe desde Space Dandy e não decepciona, muito pelo contrário, só impressiona.

“Blade Runner: Blackout 2022” faz parte da campanha de promoção do filme “Blade Runner 2049”, que conta com 3 curtas além das táticas comuns de mercado (trailers, teasers, propagandas, brindezinhos, enfim... você entendeu). Junto com “2036: Nexus Dawn” e “2048: Nowhere to Run”, esse curta explica um pouco do pano de fundo por trás de “Blade Runner 2049”, onde os replicantes não são mais feitos pela corporação Tyrell, mas sim pela corporação The Wallace, mais de uma década depois da proibição da produção de replicantes. E este curta, dirigido pelo Shinichiro Watanabe explica exatamente os eventos que levaram a essa proibição, um blecaute orquestrado por um grupo de replicantes com apoio de um humano infiltrado no governo.

O curta tem pouco mais que 10 minutos, mas já é o melhor anime que você vai assistir esse ano. Ele mescla momentos de arte mais detalhada (e mais “travada”, diga-se de passagem) com uma arte mais fluida e rascunhada, da mesma forma que o curta dirigido por Watanabe para o “Animatrix” foi feito. A medida, tomada para acelerar o processo de produção do desenho e diminuir os custos, é arriscada, mas não mãos certas funciona muito bem. Em nenhum momento o curta tenta se passar por uma super-produção, desde o começo sabemos que ele contará com limitações e a arte acaba sendo um charme, até porque em seu final, ela se apresenta soberba.

A trilha sonora, orquestrada por Flying Lotus junta essas duas mentes, realizando o sonho de qualquer fã de boas animações. Há anos que o Flying Lotus trabalha em conjunto com o Adult Swim e nada mais justo que ele ganhar espaço junto a um trabalho de Shinichiro Watanabe, que eu não duvido estar de olho no cara há muito tempo.

A mente de Shinichiro Watanabe é misteriosa e nunca sabemos realmente quais serão seus próximos passos, mas ele anda flertando com o ocidente de maneira vigorosa há um bom tempo e quem sabe o que o futuro nos reserva?

Eu não sei, mas estou animado para descobrir.

Quanto a Blade Runner, não resta dúvidas, esse é o melhor curta dentre os 3, apresentando de forma concisa e esclarecedora fatos para o desenvolvimento do “folclore” da franquia. Apesar de ser um curta animado, ele é classudo e imponente, construindo uma forte narrativa, envolvente e séria, que te deixa, de fato, com vontade de conhecer esse projeto que é “Blade Runner 2049”.

4 pontos e meio

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Dica cinematográfica: "Em ritmo de fuga" (2017)

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Estava animado para esse filme, afinal é de um dos melhores diretores de filmes da atualidade, Edgar Wright, um cara que, assim como Peter Jackson, começou no trash e assim como Christopher Nolan, consegue ser autoral e trabalhar com grandes estúdios. Uma figura rara.

Em “Ritmo de fuga” conhecemos Baby, um motorista de fuga para um grande figurão do crime, que vive com fones de ouvido para superar um problema de ouvido que conseguiu num acidente de carro. Baby segue nessa vida, pois tem uma dívida com esse figurão e quando conhece Debora, uma garçonete, encontra uma motivação para quando finalmente quitar sua dívida, mas ele acaba descobrindo que uma vez dentro do mundo do crime, a saída é muito mais difícil do que se imagina.

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O filme é basicamente o trailer de “Blue Song” expandido e é simplesmente fantástico. É um desses raros filmes que misturam gêneros de forma magnífica, no caso, musical e ação. É um filme de ação por motivos óbvios, inclusive é vendido como um filme de ação, mas acima disso, é um musical (assim como Scott Pilgrim). É um musical, pois a música é a parte mais importante do filme, é a cola que liga todas as cenas, momentos, falas, corridas, tiros... enfim, a música é o personagem mais importante e a cereja no bolo é que, quem controla a trilha sonora do filme é Baby.

O filme entre em modo full-meta e toda a sua trilha sonora toca num dos inúmeros ipods de Baby ou nas mixtapes que ele cria. Por que Baby tem um problema no ouvido, ele está sempre de fones de ouvido fora de casa e quando dentro de casa, sempre tem uma caixa de som tocando música. O fato dele viver com um surdo-mudo é apenas mais um artifício para que a música possa ser a figura central no filme todo.

E que música, hein? O filme é recheado de músicas antigas, jazz e disco são os principais gêneros, mas há também rock clássico, funk e rap, dando o tom para o filme e encaixados como personagens aqui através da edição brilhante de Edgar Wright.

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E esse ponto merece um parágrafo próprio. Edgar Wright é um mestre na edição, isso é claro em Scott Pilgrim e é marcante no “Homem-Formiga”, mas aqui ele encontra o seu ápice. Não é apenas Baby que se guia pelas músicas e cada um de seus passos são ritmos, mas toda a ação do filme, das cenas de tiroteio às cenas românticas.

Entendo que isso possa gerar uma confusão na cabeça de muita gente e acho que é por isso que muita gente se decepcionou com ele, mas esse é o estilo de Edgar Wright, é gostar ou largar e eu gosto e não largo. O cara é foda.

No final, o filme perde um pouco de fôlego, talvez ele pudesse ter se mantido mais fiel à premissa original e tentado ser menos movido a cenas de ação com tiros, mas é apenas os últimos minutos e num filme com quase 2 horas, isso não prejudica.

Enfim, “Em ritmo de Fuga” é um raro filme que mescla a trilha sonora com as cenas, musical e ação na mesma medida, além de ser um ótimo exemplo de título traduzido melhor que o original.

4 pontos

Dica musical: "Good Nature" do Turnover (2017)

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Mais um capítulo de bandas que mudam o seu som drasticamente hoje.

“Good Nature” é o mais recente álbum do Turnover, essa banda que eu tanto gosto e que começou como uma banda de pop-punk/emo, que surgiu logo após a onda de bandas hardcore como Title Fight, La Dispute, Touché Amoré e Basement, mas que só conseguiu ganhar expressividade com o lançamento de seu segundo álbum, um CD recheado de melancolia, desespero e amargura, mas usando uma sonoridade mais expansiva, até mesmo onírica, com influência do new wave, principalmente, só que sem as firulas eletrônicas que me fazem ter aversão ao gênero.

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Em “Good Nature”, o Turnover se distancia mais uma vez do seu álbum anterior, criando canções com uma atmosfera mais calma, muitas notas agudas, ritmos guiados pelo baixo e melodias mais alegres. Enquanto que “Peripheral Vision” (o segundo álbum da banda) era sobre atravessar um momento difícil na vida, “Good Nature” é uma resposta a esse momento, é sobre descobrir a beleza da vida, aproveitá-la e voltar-se para a natureza.

Austin Getz, o vocalista, é também o líder da banda e grande orquestrador dos temas que envolvem o álbum, diz isso em entrevistas, que este álbum é sobre encontrar respostas e se estabelecer. O cara deu uma reviravolta na vida, mudou-se para a Califórnia e virou vegano, ou seja, virou um otário, mas pelo menos continua com o senso artístico ativado e acabou criando algo legal.

“Good Nature” perde feio para “Peripheral Vision”, que apesar de ser um álbum muito triste, é muito bom. Já “Good Nature” é meio simplista demais, não tem tanta consistência e deixa a desejar em muitos momentos. Ainda assim, vale a dica por ser um álbum legal, gostoso de se escutar, com seus grandes momentos, a maioria deles longe do refrão e próximos do começo das canções, que é quando o baixo dá o ritmo e todos os instrumentos o acompanham, criando melodias gostosas de se escutar, mas que, infelizmente, não encontram continuidade no refrão.

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Enfim, não vá escutar “Good Nature” esperando uma maravilha de álbum, mas vá escutá-lo com a mente aberta, esperando encontrar ritmos que ficam na sua cabeça por várias semanas, refrãos chatos e  um sentimentalismo de dar raiva.

3 pontos

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Dica cinematográfica: "O amigo da minha Amiga" (1988)

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E o Rohmer fez de novo. Finalizando a sua série de “Comédias e Proverbos”, ele criou esse incrível diamante romântico chamando “O amigo da minha amiga”.

De um casual encontro durante o almoço, Blanche se torna amiga de Lea, que namora Fabien e quando as duas amigas encontram Alexandre, Blanche demonstra interesse e a partir daí temos um belo conto moral sobre relacionamentos, a volubilidade do ser humano e, claro, a solidão.

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“O amigo da minha amiga” se tornou um dos meus filmes favoritos. Sua narrativa é guiada de forma magistral, com a apresentação cadenciada de cada um dos personagens antes dos conflitos começarem a aparecer. Todas as ações ocorrem de forma natural, orgânica e por esse motivo, o filme acaba sendo muito crível.

O tratamento que Rohmer dá aos seus personagens é humano e realista, mas a história não deixa de ser romântica, como é de se esperar de um diretor que fundou sua carreira em bases cristãs. Nada no filme é muito transgressor e isso é ótimo, porque é a vida como é ou deveria ser. Rohmer é um romântico, no entanto, também é um diretor do século XX, portanto, ele é deslocado, assim como seus personagens principais, e suas histórias, essa principalmente, pode revoltar alguns “revoltados contra o sistema”, mas para os que tem um mínimo de maturidade, o filme é um deleite.

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A direção só reforça isso. Com um cuidado extenso aos detalhes, às imagens e à composição de cada cena, Rohmer nos agracia com um espetáculo de cores, movimentos de câmera e cortes. Ele sabe o que faz e faz muito bem e aqui nesse filme, em especial, ele se encontra no seu ápice, vale lembrar que esse filme já caminhava para o final da carreira do diretor, então todos os experimentalismos que ele ousou colocar nas telonas em filmes como “A colecionadora” e “A mulher do aviador” estão aqui, mas com menos intensidade. Aqui, o diretor encontra o seu equilíbrio.

Não poderia deixar de elogiar os atores e atrizes. Não sei qual era o relacionamento de Rohmer com sua equipe, mas todos estão ótimos em seus papéis, passando mais credibilidade e uma naturalidade notável ao filme. Além, é claro, de serem todos bonitos como o quê!

É claro que não é um filme para todos. Como eu disse lá em cima, não é um filme arroz com feijão, Rohmer deixa impor suas ideias no filme e elas podem não agradar, mas eu gostei demais e por isso tinha que fazer essa dica. A nota, mais uma vez, não podia ser diferente.

5 pontos

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Dica quadrinística: "Sunny" (2010-2015)

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Finalmente eu consegui! Li a última obra publicada pelo mestre dos mangás, Taiyo Matsumoto e traduzida para o inglês pelo fantástico Michael Arias!

Sunny é um mangá de drama slice of life que conta a história de um grupo de crianças num orfanato chamado “Crianças Estelares” (numa tradução livre, o original é “Star Kids”), dentre elas Haruo, um garoto que só se mete em problemas, Kyoko, uma menina gordinha cuja mãe a abandonou para continuar tocando o seu negócio, Megumu, uma menina cujos pais morreram, Junsuke, cuja mãe está doente e Sei, o mais novo membro da casa, que foi deixado lá pela mãe com a promessa de que logo eles estariam juntos de novo. Além de muitos outros personagens cheios de personalidade, animais e até mesmo um carro, que dá o título ao mangá.

Como um mangá slice of life não acontece nada de fantástico nesse mangá, mas é a forma como Taiyo Matsumoto nos guia pela história dessas crianças que faz o mangá ser algo fantástico. A história, de uma maneira geral, é pesada e em alguns momentos lágrimas se formaram em meus olhos, porque é simplesmente muito, muito triste. E é tudo contado de forma seca, sem firulas, panfletagem ou romantismo, é simplesmente a vida como ela é e não tem como você não se sentir abatido pela vida. Acontece com todo mundo e os dramas que as crianças enfrentam são reais, nós, provavelmente, não vivemos esse drama, mas todos sabemos que ele existe e isso apenas faz com que a história se torne ainda mais pesada. No entanto, assim como na vida, há pequenos momentos de retribuição, distribuídos em diversos capítulos e talvez sejam esses momentos que me fizeram devorar os seis volumes e suas mais de mil páginas em 4 dias.

Quando você inicia a leitura, não consegue parar.

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E não são apenas as vidas das crianças que citei que nos são narradas, mas de todos que moram na casa ou compartilham laços com habitantes dela. Temos o dono do local, seu filho e seu neto, como figuras-chave dentro da história, um casal de irmãos adolescentes que moram lá, porque seus pais se perderam na vida, depois de falirem, uma figura bizarra chamada Taro, um homem que anda de shorts o dia todo e parece ter um problema mental que o faz viver em sua própria realidade, comportando-se como se fosse um bebê, o cachorro da casa e, claro, o Sunny, o carro onde as crianças passam extensas horas dentro, imaginando brincadeiras, cantando músicas e sonhando em viver com seus pais, novamente.

Parte da história foi inspirada na infância do autor, que passou um tempo num orfanato, enquanto sua mãe trabalhava na sua carreira de artista e talvez por isso datas sejam tão menosprezadas em Sunny. A história se passa em meados dos anos 70, mas só ficamos sabendo disso através das referências culturais contidas no mangá, como em falas advindas da TV ou nas canções que as crianças entoam pela casa ou que tocam no rádio quando os adultos dirigem. É a obra mais pé no chão do autor até hoje.

O traço de Taiyo Matsumoto atingiu um ápice de excelência nesse mangá, é simples, porém detalhista como em Tekkonkinkreet, estilo e único, como em Gogo Monster, além de utilizar diferentes materiais, como em Takemitsu Zamurai (só que sem abusar do expressionismo visto nesse último mangá). Sinto que ele alcançou o ápice, porque não sei como ele pode melhorar, no entanto, estamos falando de Taiyo Matsumoto, quando menos esperamos BAM! O cara nos surpreende... Sério, a arte é fantástica.

A edição que tenho é a da Viz Media, tive que importar, mas é facinho de acha-la aqui no Brasil. Eu comprei os 4 primeiros volumes na Book Depository e, como sempre, levaram uma eternidade para chegar, mas chegaram todos juntos, ou seja, alegria suprema! Os 2 últimos comprei na Amazon brasileira mesmo e chegaram em uns 5 dias, então a compra não é tão difícil, só o preço que acaba atrapalhando mesmo.

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No entanto, vale a pena, pois além da história fantástico e o traço estupefante de Taiyo Matsumoto, temos uma qualidade que não se vê por aqui na publicação de mangás (talvez – e talvez, porque ainda não conferi – a edição de “Fragmentos do Horror” pela Dark Side chegue nesse nível), capa dura, costura nas folhas, páginas coloridas e só material de primeira qualidade, nada de capa dura que dobra com qualquer coisa e folhas que rasgam fácil ou soltam tinta nos dedos.

É coisa fina.

“Sunny” tem tudo pra ser um clássico absoluto dos mangás (e eu acho que já é), só falta o reconhecimento mesmo. É uma legítima obra de arte que nos convence de que quadrinhos são, legitimamente, uma forma de arte distinta, bela e poética.

5 pontos