sexta-feira, 19 de julho de 2019

O gado demais e seus tipos

Recentemente um termo tem sido usado a torto e a direito na webesfera brasileira: o tal do gado demais! Usado por todos os microgrupos da internet, da lacrosfera até a juventude reaça, dos sadboys aos mememakers, todos estão usando o “Gado d+”, de forma indiscriminada.

O resultado é uma baita confusão, porque não fica claro o significado do “Gado demais”. Eu mesmo, quando vi a primeira vez, achei que fosse alguma coisa, mas vi sendo usado em outros contextos e fiquei confuso... Após muitos meses de contato

Gado Clássico

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Trata-se do conjunto de animais que foram criados pela humanidade para aumentar a nossa produção, nossos serviços agrícolas, nosso consumo doméstico, comercial ou industrial. É parte importante da nossa economia e sua criação pode ser dividida em intensiva ou semi-intensiva, extensiva ou semi-extensiva.

Gado Metafórico

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Aqui tratamos do termo filosófico como foi utilizado por muitos pensadores de forma pejorativa através dos séculos para dizer das massas. Aquele conjunto de pessoas que não pensam por si próprias, são levadas por demagogias baratas e qualquer hipócrita as engana. Religiosos, seguidores de políticos e jovens formam a maioria dessa classe de gado.

Rei do Gado

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Entre 96 e 96, a Rede Globo conseguiu produzir um dos épicos que mais marcou a cultura brasileira. Antônio Fagundos seria para sempre lembrado como o Rei do Gado e sua trajetória entraria para a memória coletiva dos brasileiros como parte integrante da nossa cultura, ao lado do futebol, da bunda e do carnaval.

Gado Escravoceta

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Mais conhecido como feministo, mais conhecido como esquerdomacho, para este ser as mulheres são seres intocáveis e perfeitos, impossíveis de fazer algo ruim, sempre falam a verdade e tudo que dizem deveria ser tombado como lei. Para este decrépito, quem diz sofrer estupro, sofreu; nossos ideias de masculinidade são “tóxicos”; o capitalismo é sexista e ai de quem criticar a seleção feminina! Lamentável...

Gado Boleiro

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Fã do Neymar, escuta pagode todo dia, dá risada do Alê Oliveira e não há nada melhor do que um churrasco. Eu tenho que admitir, esse cara leva uma vida boa, mas, por algum motivo que eu ainda não descobri, ele é amplamente criticado pela juventude brasileira ignorante.

Gado Maromba

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Vai na academia de domingo a domingo, só come frango e batata doce, se endivida para poder pagar o GH e tem uma panturrilha menor que a de criança. Esse é o famoso marombeiro que vai de regata nos rolês, tem um shape mais caro que uma BMW e é simpático com todo mundo. Sim, esse cara é simpático! Ele bota medo em todos, mas uma vez que você interage com um cara assim, percebe que é tudo verniz e estereótipo. É um bom gado para se ter por perto.

Gado Funkeiro

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Esse não sabe qual a utilidade de um fone de ouvido, fuma narguilé e tem que comer uma novinha diferente todo final de semana. Este ser lamentável tem uma natureza ridícula e perigosa, mas se não for provocado não irá causar grandes estragos para você e seus amigos. É melhor deixa-lo em paz, embora seus ambientes de confraternização tenham aumentado e isso seja preocupante, podendo provocar danos à saúde e segurança públicas.

Gado Supremo

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Este aqui é o pior tipo de gado, também conhecido como meta-gado. É o gado que comenta em todo canto da internet a famigerada frase “gado demais”, é o pobre coitado que delira com gados, apontando um até onde eles inexistem, ele se acha superior por não ser gado, mas é um gado tão grande que sua dimensão como gado nem pode ser mesurada. Por trás de sua arrogância e prepotência, esconde-se sempre um ser humano de baixa estatura moral, fraco e vazio, digno de pena.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Dica televisiva: Chernobyl (2019)

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Esse é o ano da HBO e essa série está aí para comprovar esse fato!

Chernobyl conta a historia do pior acidente nuclear da história, o acidente de Chernobyl. Resultado de falhas humanas e estruturais, o acidente dizimou a vida de mais de 90.000 pessoas após a explosão de um reator nuclear dentro da usina de energia elétrica situada na Ucrânia.

A série inicia-se dois anos após a explosão com Valery Legasov, cientista soviético que revelou todos os podres por trás do acidente, em sua casa, montando as fitas de áudio que iriam revelar para o mundo a verdade sobre o ocorrido. A partir daí, a série volta no tempo, exatamente no momento da explosão, para acompanhar os acontecimentos que se seguiram após começar o pandemônio. Acompanhamos então o desespero dos trabalhadores da fábrica, que não entendiam o que estava acontecendo, nem como resolver o problema, o trabalho do corpo de bombeiros para apagar as chamas, a confusão das pessoas que viviam na cidade nuclear de Pripiat e finalmente, os esforços de Boris Scherbina e Valery Legasov para controlar a situação nos dia seguintes, contando ainda com a ajuda de Ulana Khomyuk, que irá ser de grande ajuda para a descoberta dos motivos por trás da explosão.

A série é um primor estético, narrativo e histórico. Surgida com a intenção de reportar tudo de forma fiel ao ocorrido, ela consegue se aproximar muito bem da realidade, embora tome muitas liberdades poéticas, seja por questões práticas (Khomyuk, por exemplo, não existe, mas ela surge para representar os diversos cientistas que trabalham em equipe ao lado de Legasov para construir um mapa, minuto a minuto, do que aconteceu no dia da explosão), seja por questões dramáticas (nenhum escavador ficou pelado em Chernobyl, mas essa escolha, além de hilária, reforça a ideia de que eles trabalharam sob um calor infernal ali). Para os curiosos, como eu, há uma compilação de imagens e relatos que vão da construção da usina até os acontecimentos posteriores a explosão aqui. É interessante poder comparar com o que é mostrado na série e ver que, apesar das liberdades, teve um esforço para mostrar a história como foi muito forte.

Esteticamente ela consegue nos passar a sensação de desespero, confusão e também de frustração que as pessoas que trabalharam no caso sentiram. É revoltante ver o descaso das autoridades soviéticas perante o ocorrido, a mesquinhez que os integrantes do Estado seguiam e a fé que tinham na força imaterial mais baixa que há, que é o poder estatal. A crença estatal dos soviéticos de alto escalão é demonstrada de forma primorosa aqui e não tem como não se revoltar. Ao mesmo tempo, é também emocionante acompanhar os esforços de todos aqueles que, literalmente, deram a vida para salvar o mundo. Eles estavam lidando com algo inédito na história da humanidade e a cada solução que bolavam, mais problemas surgiam e assim, tiveram que criar outras soluções. Arriscar a própria pele é piada!

As sensibilidades socialistas de alguns pode ser abalada com essa série (e com razão!), mas isso já seria de se esperar da HBO, que segue uma linha conservadora em suas produções. Não sobram críticas a serem feitas a União Soviética. No primeiro episódio, mostrando a fé cego dos membros do Kremlin que transformaram Lenin no seu Jesus Cristo até mesmo à Fome Soviética de 32-33, montando ainda um paralelo com o nazismo. Politicamente, a série é corajosa, forte e virtuosa!

Narrativamente, a série se sobressai sobre muitas outras. Traçando uma linha de tempo, que se expande conforme os episódios vão passando, ela começa mostrando detalhes, acompanhando minuto a minuto os acontecimentos, culminando por aumentar o ritmo, cobrindo dias inteiros a cada minuto da série. É uma jogada muito boa e não poderíamos esperar menos do canal que colocou a TV no centro da discussão artística.

Um primor artístico, Chernobyl chega para marcar 2019 como o ano da HBO, em definitivo.

5 pontos

terça-feira, 16 de julho de 2019

Dica cinematográfica: The Gut: Our Second Brain (2013)

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É sempre bom assistir documentários. Eles nos trazem informação e entretenimento numa medida que reportagens não conseguem. Ainda que nem tudo que reluz seja ouro, bons documentários devem ser indicados e é essa a função desse post aqui.

Lançado em 2013 e hoje exibido pela Amazon Prime, The Gut: Our Second Brain é um documentário que nos pergunta o que faríamos se descobríssemos que o cérebro não fosse o único detentor de nossas capacidades neurológicas? Parece um contrassenso, mas não é. Sabemos que o cérebro está em constante contato com todo o corpo, mas o que cientistas, especialmente gastroenterologistas, descobriram é que o estômago é muito mais inteligente do que pensávamos e é nesse órgão que o documentário irá focar.

Através de dados e entrevistas, somos apresentados a fatos que podem levar a conclusões nunca antes pensadas, se os dados se confirmarem conforme mais pesquisas forem feitas. Descobrimos que o estômago tem praticamente a mesma quantidade de neurônios que o cérebro de um cachorro, que suas bactérias regulam a nossa personalidade e que o que comemos fala diretamente para o cérebro, funcionando como uma janela, por onde o sistema nervoso pode ver o nosso dia-a-dia.

É claro que, sendo um documentário de 2013, muitas informações podem estar obsoletas. Algumas das perguntas feitas podem já terem sido respondidas, pesquisas podem ter sido desmentidas e novos dados podem ter surgido na área, provocando novos questionamentos. O documentário também falha ao dar voz de especialista a charlatões da acupuntura, mas não deixa de ser um documentário interessante.

Suas informações são arrebatadoras e te fazem focar num aspecto pouco pensado em nossas vidas, algo que não damos muito valor, além do estético, que é a nossa dieta. Aqui é mostrado que comer direito não é só uma questão de ter ou não um corpo bonito, mas também uma questão de ter ou não um intelecto sadio.

4 pontos

sexta-feira, 12 de julho de 2019

A Fake News do ano já apareceu!

Desde a eleição do Trump, o termo Fake News ganhou destaque em todo lugar, figurando em qualquer tipo de conversa, das discussões acadêmicas às rodas de bar. Obviamente a natureza das duas conversas é bem diferente, na primeira temos ideologia fomentando conclusões precipitadas e na segunda questionamentos honestos, nutridos a bom humor e ceticismo em busca da verdade.

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Ano passado, a maior Fake News da Abençoada Terra de Santa Cruz foi a candidatura de Lula, condenado em mais de uma instância, mas que foi levado até os últimos dias de eleição como fato verídico e incontestável. Será que 2019 apresentaria uma Fake News à altura?

Sim. Apresentou! Uma Fake News tão grande que todas as conversas populares estão levando em conta, sem conseguir perceber a enorme isca que estão fisgando. É claro que estou falando das “conversas vazadas” por Greenwald e sua trupe de jornalistas do Intercept.

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Tudo começou com um post revelando conversas feitas num grupo de Telegram entre procuradores da república e o juiz Sérgio Moro, que indicam a imparcialidade do juiz no caso e como ele trabalhou com o ministério público para incriminar o ex-presidente Lula e tirá-lo da disputa presidencial, colocando em cheque toda a operação Lava Jato.

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Loucura! O atual ministro da justiça cometendo atos ilícitos afim de tirar da disputa presidencial o único candidato que teria condições de vencer o fascista que comanda a nossa Nação nas urnas. Um escândalo sem precedentes na história do Brasil!

Se fosse verdade...

O que ninguém parou pra ver foram as conversas divulgadas pelo Intercept. Uma delas, usada para comprovar o envolvimento do juiz com o ministério numa conspiração pra acabar com as eleições, é um conjunto de mensagens entre Deltan Dalagnol, procurador da república, e Sérgio Moro, juiz da Lava Jato, na qual o procurador fala de uma prova e o juiz diz que ela é fraca demais.

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O texto do Intercept diz que nesse momento o juiz rompe a sua imparcialidade para conseguir incriminar o ex-presidente com alguma prova mais forte. No entanto, isso é uma questão de interpretação. Pessoas mais favoráveis ao juiz já apontaram que essa conversa pode ser interpretada pelo outro lado, inclusive. Pode muito bem se tratar de um juiz, favorável ao ex-presidente, negando uma prova para que o réu não seja condenado, ou melhor, para que ele nem vá a julgamento, já que a prova é fraca.

Como muito bem mostrado por Caio Copolla, tampouco isso mostra uma imparcialidade do juiz, afinal como figura da lei ele não está preocupado em condenar ou inocentar, ele está preocupado com a verdade. Para tanto, se algo que indica a verdade é fraco, isso tem um valor pequeno e poderá perder totalmente o seu valor se a defesa for boa.

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E mais, isso nem sequer é mostra de que o ministério público também queria condenar o réu. Assim como o juiz, o MP está preocupado em encontrar a verdade e para tanto é necessário se basear em provas sólidas.

Portanto, o que vemos é a interpretação de mensagens de texto, que não justificam nada. Podem querer dizer qualquer coisa.

Supondo que elas sejam reais...

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Supondo, porque o máximo que podemos fazer é isso, supor. Os textos publicados no Intercept não apresentavam prints, nem imagens tiradas de algum dos celulares do grupo, nem mesmo o arquivo de backup que deve ter sido enviado ao Greenwald. Tudo que temos no site são blocos de texto estilizados com essas “mensagens” dos membros da Lava Jato.

Pessoas contrárias a Lava Jato (não entendo como) estão usando isso como prova da imparcialidade do juiz e exigindo a anulação de toda a operação, mas eu duvido que eles tenham feito o exercício de aplicar essa situação em outros contextos para comprovar o absurdo de todo esse “escândalo”.

Imagina a seguinte situação, Maria escreve uma mensagem de texto para Julia dizendo que seu namorado, Arnaldo, beijou Antônia. As provas são uma série de fotos que Maria recebeu e ela descreve essas fotos minuciosamente para Julia. O que Julia faria? Julia exigiria as fotos, mas Maria diz que é amiga de Julia há anos, que as duas já viajaram juntas, que ela é uma excelente cidadã da cidade em que as duas moram desde sempre e que Julia terá que confiar na palavra de Maria. É justo Julia pedir um divórcio de Arnaldo?

Obviamente que não. Ainda que Arnaldo dissesse que não sabe se beijou Antônia, ele já beijou Antônia na bochecha, os dois são amigos, afinal, isso não é prova de nada. Maria está querendo atear fogo no relacionamento de Arnaldo e Julia e é isso que está acontecendo no Brasil hoje.

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Greenwald está querendo atear fogo no Brasil. Ele diz que tem mensagens, mas nunca apresentou essas mensagens para ninguém, apenas para seus funcionários do Intercept. Ainda que ele tivesse mensagens, prints ou backups de mensagens arquivadas na conta do Telegram de qualquer membro da operação Lava Jato, ninguém atestou a veracidade disso. Podem ser falsificações. Nenhum agência, particular ou estatal, de segurança verificou a veracidade das “provas” que Greenwald tem.

Ainda que você seja contra a operação Lava Jato (como?), odeie o atual governo brasileiro, queira que o Lula saia da cadeia e anule as eleições de 2018, se você for minimamente intelectualmente honesto terá que admitir que o “escândalo” atual não passa de um balão vazio. Não vale como prova em lugar nenhum, não pode anular nem aprova nada.

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Mas a Fake News não para por aí. Toda Fake News tem consequências graves na mentalidade popular, assim como Trump deu passos significativos em direção a uma democracia mais sadia e a candidatura de Lula contribuiu para a degeneração moral e polarização política do país. Essa Fake News também tem consequências gravíssimas para o nosso país e uma consequência que irá afetar a todos nós de uma forma que nós nunca imaginamos.

Greenwald alega ter conseguido essas mensagens de uma fonte anônima, que está protegida pelas leis do nosso país, mas como essa pessoa conseguiu essas mensagens? Isso não interessa a Greenwald, mas interessa ao MP, pois só há um meio conhecido de conseguir mensagens de celular sem que o dono do celular saiba e é hackeando o celular.

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Isso é crime, mas agentes da lei podem usar desse sistema para encontrar provas que incriminem investigados, ou seja, o Estado é o único agente que pode se valer de hackers para obter informações sigilosas que possam auxiliar em investigações criminosas. Hack é a versão século 21 do grampo de telefone. Apenas o Estado pode fazer isso, porque é do Estado que partem as leis, que dão a prerrogativa do uso da força, por isso que os agentes da lei detêm um poder tão grande e é por esse motivo que poucos podem ser agentes da lei.

Agora o que Greenwald está fazendo é derrubar esse monopólio do Estado de usar a força para fazer valer a lei e abrindo a prerrogativa para qualquer um. No momento em que ele usa mensagens obtidas ilegalmente para “incriminar” alguém, ele se rende a lógica do fim que justifica o meio. Ele está dizendo que faz isso porque é de interesse público, mas ainda que fosse de interesse público quem permitiu que ele passasse por cima de todas as leis brasileiras para fazer valer a sua opinião sobre o que é justo?

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O que vale a mais, a opinião (e já mostramos que é tudo questão de opinião) de um homem ou todo o sistema de leis de uma nação? Pior ainda, a opinião de um estrangeiro é maior que a de um país? Estamos tendo que discutir coisas básicas como o limite da sua liberdade, estamos tendo que discutir algo tão básico quanto a definição do limite de uma propriedade privada e no caso não é nem uma propriedade física, mas intelectual, são os conteúdos das suas mensagens que estão em jogo. Quanto tempo vai levar para que alguém contrate um hacker para entrar no sistema do seu celular e te incriminar por uma piada que você fez com um amigo num chat que só vocês dois tinham acesso até então? O que Greenwald está fazendo é transformar o Brasil num verdadeiro faroeste, terra sem lei e nem foi necessário liberar as armas para isso.

É o faroeste cibernético. Não é a toa que o Cyberpunk 2077 é inspirado no Brasil.

Temos que tomar cuidado amigos, muito cuidado, pois tem muito brasileiro aí que anda torcendo pra Argentina.

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Edição: Esse post foi escrito no dia 07 de julho de 2019 e após ele, antes mesmo da sua publicação, novos detalhes surgiram nessa história, como os supostos áudios de Dalagnol. Felizmente, essas novas revelações continuam se mostrando rasas e insuficientes para que a Lava Jato e seus membros sejam atingidos.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Dica literária: The Nine-Cloud Dream (1687)

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Vendido como A Divina Comédia do oriente, essa obra do século 17 ganha uma nova tradução esse ano, lançado pela Penguin, numa edição muito boa, amplamente anotada e nos apresenta um primor da literatura oriental.

The Nine-Cloud Dream conta a história de Hsing-Chen, um monge que recebe a missão de seu mestre de ir falar com um deus-dragão, mas no caminho de volta acaba conversando com 8 fadas, servas da imperatriz de jade. Hsing-Chen é então castigado por seu mestre, que acha que ele desrespeitou seus votos como monge budista e assim ele morre. Hsing-Chen então reencarna como Shao-yu, um rapaz valoroso do interior, que cresce para se tornar um belo e forte líder a serviço do imperador.

Há alguns paralelos metanarrativos possíveis de serem traçados com A Divina Comédia. A começar pelo seu autor, Kim Man-Jung. Um aristocrata, Kim Man-Jung conseguiu um cargo administrativo junto ao governo imperial coreano e galgou os degraus do sucesso no serviço público chegando a ser tornar um ministro. Por duas vezes foi exilado devido a desavenças políticas e esse livro foi escrito durante o seu segundo exílio, de onde não chegou a sair em vida. Assim como Dante, Kim Man-Jung tinha grande respeito entre os líderes de sua época, entrou em desavenças com eles, foi exilado e escreveu suas maior obra em exílio e no final da vida.

Na obra também há paralelos. Ambas tratam de questões espirituais e funcionam como um guia ou introdução à tradição religiosa de cada um. Para Dante, o catolicismo romano, para Kim Man-Jung, o budismo, o taoísmo e o confucianismo. Há críticas alegóricas a diversos líderes da época e ambos os trabalhos se tornaram definidores de suas línguas.

No entanto, os paralelos param por aí. A Divina Comédia pode até ser comparada, mas nunca fica em pé de igualdade com qualquer obra produzida pela humanidade. Ela é grande demais para isso, o que não diminui em nada The Nine-Cloud Dream.

Produzida em prosa e não em verso, a obra explora, através de uma intrincada trama que envolve princesas, concubinas, imperados, exércitos e famílias, diversos aspectos das três principais religiões da Coréia. Kim Man-Jung insere essas doutrinas de maneira tão sutil que o leitor ocidental dificilmente poderia captar as nuances. Portanto, a atual edição da Penguin é crucial. Provendo anotações de seu tradutor, que tem uma longa história de trabalho com a cultura coreana, a edição consegue ampliar a atenção dos leitores ocidentais para esses detalhes que passariam despercebidos. Um exemplo é uma cena em que uma imperatriz discute com uma das pretendentes a noiva de Hsing-Chen/Shao-yu. Nessa cena, há uma troca de diálogos que exemplifica o comportamento decente de uma pretendente a noiva de um servo imperial diante de uma superior. No entanto, em nenhum momento Kim Man-Jung deixa isso explícito. Para iniciados na cultura, sabem que cada palavra proferida ali tinha um significado, mas para ocidentais desavisados, tratou-se apenas de uma “encheção de linguiça”.

Não é nem preciso dizer que uma segunda leitura da obra é essencial, né?

Não posso dizer muito da tradução, pois não entendo nada de coreano e nem sou familiarizado com a cultura literária de lá, no entanto, o texto aqui é fluido, belo e, apesar de simples, carregado de significado, assim como a narrativa criado por Kim Man-Jung.

Concluindo, The Nine-Cloud Dream é uma obra fantástico (em ambos os sentidos), que pede por uma tradução para o português, mas enquanto não vem, nos contentamos com essa belíssima edição da Penguin.

4 pontos

terça-feira, 9 de julho de 2019

Lendo O Senhor dos Anéis pt. 2

Terminei há um bom tempo a leitura de A Sociedade do Anel, mas esperei começar a ler o segundo livro para poder continuar com essa série de posts sobre o trabalho de alta fantasia mais significativo da história.

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Em A Sociedade do Anel conhecemos Frodo, sobrinho de Bilbo, o personagem principal de O Hobbit, agora idoso e pronto para ir embora do Condado após celebrar uma festa de aniversário que deu pano pra manga de fofocas do Condado por muitos meses. Bilbo deu para o seu sobrinho o anel que lhe dava poderes de invisibilidade, mas que também vinha com uma influência negativa muito forte vinda de Mordor. Gandalf, o mago cinzento, acompanha tudo de perto e logo monta uma caravana para que Frodo se livre do anel. Nessa jornada, irão acompanhar o hobbit, seus amigos de Condado, Sam, Pippin e Merry. Sob as sábias dicas de Elrond, senhor de Rivendell, os hobbits se unem aos cavaleiros Aragorn e Boromir, o elfo Legolas, o anão Gimli e claro o mago Gandald na busca da destruição do Anel em Orodruin, o único lugar onde o artefato maligno pode ser destruído.

O livro começa de maneira simples e muito relaxante, com uma descrição detalhada do aniversário de Bilbo. Para quem já leu O Hobbit, como eu, esse momento é um deleite. Ocupando diversas páginas, conhecemos muito da vida pacata dos hobbits, lembrando uma vila pitoresca do interior da Inglaterra. É legar ver que Bilbo voltou diferente da sua jornada em O Hobbit, muito mais loquaz, cheio de amigos e é considerado um maluco entre os seus colegas do Condado, mas isso não faz a menor diferença para o hobbit que sabe que o mundo é muito mais do que o Condado é.

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Depois disso somos apresentados a jornado que Frodo deverá enfrentar. Aqui entra a genialidade de Tolkien ao colocar um hobbit como o centro de suas páginas. Hobbits são acomodados, só querem viver em paz e sossego na sua terrinha querida e sair do Condado, ainda que para o bem de todos, é um peso muito grande para Frodo, que não conhece nada além do Condado. Essa é a oportunidade perfeita para apresentar toda a Terra Média como algo inédito para os leitores, já que os outros personagens que fazem parte da Socidade do Anel conhecem muito da Terra Média. Dessa forma, Tolkien nos apresenta de forma quase didática, através de poesias, canções e lendas, os pormenores da Terra Média.

A ambientação fica misteriosa e atiça a curiosidade de leitores mais nerds, como eu.

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No entanto, não é uma leitura fácil. Apesar de muito interessante, o ritmo é lento e somos arrastados por páginas e mais páginas pela Terra Média, seus personagens e mitos numa profusão de descrições e histórias que exigem um estado de espírito relaxado do leitor. Não é uma leitura para ser feita depois do almoço, muito menos antes de dormir.

A coisa fica chata mesmo (para mim) no momento em que o Elrond começa a dar as cartas na mesa. O capítulo em que ele define quem irá acompanhar Frodo e Gandalf  na trajetória que visa a destruição do Anel. O capítulo é gigantesco, formado só de diálogos longos, que vão e voltam na mesma discussão, sobrem quem vai, quem fica, porque e como... é uma discussão realista. Obviamente que essa é a realidade de quem vai pra uma guerra e Tolkien, que serviu ao exército britânico, sabe disso melhor do que ninguém, mas que também é um puta negócio chato de se ler, isso também é verdade.

Fora que há uma disparidade muito grande no tratamento da profundidade dos personagens. Enquanto que por um lado somos apresentados ao drama dos hobbits em seus pormenores enquanto eles estão em Rivendell, por outro lado Legolas e Gimli, membros de raças inimigas há séculos, viram melhores amigos numa frase! É literalmente uma frase que diz que Legolas e Gimli se aproximaram muito ao longo da jornada. Não há diálogos entre eles, nem histórias compartilhadas ou uma batalha que os força a se unir. Simplesmente temos que aceitar o fato de um anão e um elfo (inimigos há séculos) terem virado melhores amigos no meio da jornada.

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É claro que isso não é uma incongruência dentro da história. É possível, afinal. O problema é que há muita atenção para pontos chatos e pouca atenção para pontos-chave da história. Afinal, a amizade entre Legolas e Gimli é tão forte que irá perdurar até o fim de seus dias, sendo Gimli o primeiro anão a conhecer as Terras Imortais. Nós não vemos o início disso, em compensação, vemos toda uma conversa (em mais de 20 páginas) sobre quem irá ou não acompanhar Frodo na jornada.

Enfim, a leitura é cansativa e após isso não há muito o que salvar no final de A Sociedade do Anel. O ritmo nunca volta a ser animado como no começo, quando os hobbits conheceram Aragorn e outros momentos afim. A ambientação parece até acompanhar o ritmo. As montanhas que eles atravessam são estéreis e inóspitas, culminando numa desolação descomunal ao enfrentarem um Balrog dentro da antiga cidade dos anões.

Parece até que é de propósito, o que atestaria ainda mais para a genialidade de Tolkien, mas isso não sei dizer com absoluta certeza. Talvez eu tenha que reler (oh, não!!!) para saber.

Ao final de A Sociedade do Anel, a primeira impressão que ficou para mim não foi tão positiva, mas continuo na leitura. Percebo que é genial e imagino que a falha seja minha. Eu não sou nerdão o suficiente para gostar tanto assim de O Senhor dos Anéis.

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quinta-feira, 4 de julho de 2019

Dica cinematográfica: Alice (1988)

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Tenho um certo preconceito contra o Grant Morisson, mas devido a dica que recebi do meu querido amigo Johan, aceitei começar a leitura do quadrinho, através de uma edição que reúne toda a primeira saga. No prefácio àquela edição, Grant Morisson já recomenda um filme de Jan Svankmajer. Sabendo da genialidade do diretor, fui atrás e é esse filme que vira dica hoje aqui no blog.

O filme conta a história de Alice no País das Maravilhas, famoso livro de Lewis Carroll, mas com um toques de fantasia sombria. Logo no começo, Alice já encontra um coelho empalhado, que irá ganhar vida e rouba uma tesoura das mãos da menina. Inicia-se assim a perseguição de Alice pelo coelho, através de uma gaveta e enfim ao mundo mágico que todos conhecemos, mas que aqui irá se apresentar de forma inédita.

O filme mistura live-action com stop motion, no característico estilo de Svankmajer, seguindo uma estética mais sombria, tons de sépia e objetos com cores mais densas, menos vivas e escuros. Lembra um pouco filmes de horror, mas a história é a mesma de Alice no País das Maravilhas, ou seja, é uma história leve. Apenas a pegada de Svankmajer deixa o filme um pouco mais pesado, mas a verdade é que esse filme poderia ser apresentado pra qualquer criança um pouco mais madura de boa. Adolescentes, então... é livre!

A narrativa fantástica de Alice no País das Maravilhas cai como uma luva na direção de Svankmajer. O stop-motion é magistral e o filme, apesar de ter sido feito há mais de 30 anos, não ficou datado, pois a tecnologia de stop-motion não mudou tanto assim. As soluções criativas que Svankmajer dá para criar momentos que não seria possíveis de reproduzir em seu filme são incríveis e o resultado é fabuloso.

É um filmaço, essa é a verdade. Só fico pensando no que esse filme pode ter inspirado Grant Morisson?

4 pontos

terça-feira, 2 de julho de 2019

Dica televisiva: True Detective (3ª temporada)

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Faz tempo que vi a segunda temporada de True Detective e brochei totalmente com a série. A primeira temporada é uma obra prima da teledramaturgia, mas a segunda é um fracasso total, vista em comparação com a primeira (isoladamente, a segunda temporada é só ruim mesmo). A segunda temporada me deixou tão desanimado que eu nem percebi que a terceira saiu no começo desse ano.

Assim como a primeira e a segunda temporadas, a terceira temporada de True Detective apresenta uma história fechada, sem conexão com as outras temporadas, sobre uma investigação criminal que abarca diversos anos das vidas dos detetives envolvidos no caso. Aqui, conhecemos o detetive Wayne “Purple Hays”, parceiro de Roland West, os quais se envolvem num caso do sumiço de duas crianças. Tido logo no começo como um sequestro, o caso apresenta ramificações que levam a pistas falsas e essas levam a conclusões falsas que fazem o caso ser encerrado 2 vezes, uma em 1980 e outra em 1990, mas sem resultados satisfatórios. O desgosto e o aborrecimento com o caso fazem o detetive Hays, em 2015, voltar à investigação, dessa vez sem um distintivo ou real autoridade para tomar providências. As memórias do caso se misturam com as memórias pessoais de um detetive cada vez mais idoso e sofrendo de Alzheimer.

Mais uma vez sem a direção valorosa de Cary Joji Fukunaga, Nic Pizzolato retorna sozinho no roteiro, mas não se rende às críticas politicamente corretas que fizeram da segunda temporada um poço de desculpas e a história rende muitos momentos peculiares e ousados. O simples fato de transformar o protagonista negro num patriota republicano e fazer piadas com isso já rende ótimas risadas e é um belo tapa na cara da sociedade.

A investigação criminal é guiada de forma sutil e o lado literário de Pizzolato aflora nessa temporada. Diálogos nunca foram tão bem exploradas e, apesar de haver um alinhamento muito consistente entre imagem e palavra, é claro que essa temporada inteira poderia ser um ótimo livro.

A terceira temporada de True Detective nunca chegará aos pés da primeira, mas consegue se sobressair em meio a tantas produções mais ou menos que saem ultimamente.

4 pontos

sexta-feira, 28 de junho de 2019

A Razer Brasil deu um grande passo em direção a uma cultura sadia

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No último final de semana, um acontecimento abalou a internet brasileira. No dia 21 de junho deste ano de nosso Senhor 2019, uma gamer representante da marca Razer no Brasil postou uma imagem no twitter em que estava montada num touro mecânico e dizia estar “montada no chat”. Um usuário qualquer do twitter respondeu “pode montar em mim a vontade :)” e como ela não gostou do comentário respondeu de forma grosseira e desabafou “homem é lixo”.

A seguir, outro usuário respondeu com a seguinte mensagem: “Poxa nome censurado para segurança do blog não precisa generalizar :(”, ao que a representante da Razer respondeu que precisava sim e afirmou que o homem que não é lixo é exceção.

Após isso seguiu-se uma onda de indignação com a atitude da menina, puxada por, pasmem, outra menina! E então surge a Razer Brasil, que num comunicado oficial no Twitter anunciou que a tal gamer não teria o contrato renovado, que iria acabar em poucos dias.

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Em seguida, outros acontecimentos vieram, como indignação da lacrosfera e até mesmo declarações de morte a gamer que perdeu contrato com a Razer. No entanto, este post é dedicado a celebrar a corajosa atitude da Razer Brasil, que pode até ser vista com dúvida, mas foi muito acertada.

A tal gamer não desabafou apenas, ela optou por realizar uma generalização imbecil. Já disse em outras oportunidades que toda generalização é idiota. Ela usou uma generalização como regra, mas não existe regra sem comprovação empírica. Quais as comprovações empíricas de que homem é lixo?

Por mais que internautas brasileiros, de sangue latino e emocionais, tenham exagerado e vacilado com o ocorrido, um erro não justifica o outro. A decisão da Razer foi acertada, pois o que interessava a Razer era o que uma gamer que tem patrocínio da marca está falando ou deixando de falar ao seu público e no caso ela falou um enorme erro.

Generalizar todo homem como lixo é apenas mais uma faceta do mal que acomete os nossos tempos, é apenas mais uma faceta do que Robert Bly já nos havia alertado há mais de 30 anos, vivemos uma crise da masculinidade.

Os movimentos sociais dos anos 60 tiveram o papel importantíssimo de valorizar e colocar em destaque minorias de todo tipo, mas o que vivemos, de fato, foi apenas uma inversão da pirâmide, quando a luta inicial buscava a destruição da pirâmide que oprimiu minorias por tanto tempo. Quem foi jogado para baixo dessa pirâmide? Homens, brancos e heterossexuais. Se você se encaixa nas 3 categorias, boa sorte nesse mundo, meu amigo... vai precisar.

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Apesar dos resultados não serem sentidos com força na economia e na política, eles são muito presentes na cultura. A guerra cultural foi real, já está ganha. Basta ver a representação de pais nas séries ou filmes, é sempre um boçal e Homer Simpson é o seu maior representante. Os originais da Netflix nem se esforçam mais. A própria associação de psicologia dos EUA declarou que a masculinidade tradicional é a causa dos problemas psicológicos dos homens. Como bem mostrou a propaganda em resposta a Gillete da Egard, homens são a maioria dos sem-teto, representam a maioria das fatalidades nos locais de trabalho, constituem a maioria das vítimas de homicídio, são a maioria das vítimas de sucídio. A guarda unilateral em casos de divórcios é, quase sempre a priori, da mãe. Homens são a maioria dos desistentes em escolas e minoria nas universidades e poucos ligam ou fazem algo pra mudar isso. Por que ninguém fala do Complexo de Adonis? O simples fato de alguém escrever um parágrafo desses incomoda por quê?

Se antes o homem era o provedor, o centro da família e carregava o mundo nas costas com orgulho e todos olhavam para ele com temor, hoje em dia é objeto de desprezo, motivo para risadas e coisa de gente “normal demais”. Ninguém deve ter orgulho de ser homem. Ninguém deve se sentir confortável em ser hétero. Ninguém pode achar pessoas brancas bonitas.

Isso não é igualdade, isso atesta contra tudo aquilo que os movimentos sociais dos anos 60 lutaram para estabelecer, mas serve para mostrar a hipocrisia de diversos setores da sociedade, que preferem fechar os olhos para problemas reais a fim de criar uma hegemonia para os seus próprios grupinhos fechados.

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Eu já falei pra dúzias de amigos, nós, como espécie mesmo, não estamos pronto para uma sociedade igualitária. Somos egoístas demais, mesquinhos demais, miméticos demais para isso. Porém, felizmente, ainda há quem tente e a Razer deu um passo enorme na construção de uma cultura verdadeiramente igualitária, com respeito de fato, sadia.

Fica aqui o meu parabéns e meu obrigado!

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Dica literária: Cartas de um diabo ao seu aprendiz (1942)

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C.S.Lewis foi um grande autor. Soube aliar filosofia, teologia e literatura como poucos. Suas obras constituem de grandes ensinamentos morais, mas nunca perdem o valor artístico que é tão raro encontrar em obras desse cunho, ainda mais aquelas feitas a partir do século 19, que encontrou artistas qualificados para tal atividade apenas na Mãe Rússia. Enfim, a dica de hoje é de um dos trabalhos mais significativos dessas qualidades que formam a obra de Lewis.

Cartas de um diabo a seu aprendiz é um livro que se propõe a apresentar cartas escritas pelo diabo Maldonado ao seu sobrinho Vermelindo. São mais ou menos 30 cartas que contam com conselhos diabólicos de um diabo experiente e que já assumiu um cargo de gerência na burocracia infernal, para um jovem diabo que ainda não sabe direito como atentar um ser humano. Ao longo dessas cartas conhecemos um pouco da vida pessoal do humano sendo atentado por Vermelindo, mas, principalmente, adentramos um universo de conselhos e pensamentos que exploram o lado negro da humanidade.

Pensamentos acerca das atitudes modernos, o desenvolvimento tecnológico desenfreado, políticas dominadoras e destruidoras, além de uma característica muito pertinente aos dias atuais: a inatividade. Além desses, muitos outros pensamentos menores, mas sempre muito sagazes, formam uma narrativa simples, porém profunda. Sua linguagem é fácil, mas os pensamentos provenientes de sua leitura não.

Este livro precisa ser leitura obrigatória para todos os estudantes brasileiros.

De forte cunho moral, o livro não apresenta apenas características negativas, pois também nos mostra o que fazer para escapar às tentações infernais, no entanto, sendo um livro constituinte de cartas de um diabo, essas características são apresentadas de uma maneira altamente negativa. A dicotomia criada entre o que nos é apresentado como ideal e entre o que sabemos ser ideal é marcante e gera até um certo efeito cômico ao livro.

Ao final, temos ainda a adição de um discurso de Maldanado a uma turma de diabos formandos, que mantém o tom das cartas, mas com uma profundidade ainda maior, pois nos diz sobre a tal da inação que já falei. É um chamado ao radicalismo, que já cheguei a delinear aqui no blog em outra oportunidade.

A edição que tenho é muito bonita. Capa dura e com uns desenhos em alto relevo, mas contém alguns erros de gramática no meio do livro. Nada que comprometa a leitura, mas é de se notar. Também é primeira edição, talvez tenha sido mudado já.

De qualquer forma, a leitura desse livro é essencial para qualquer pessoa que queira se tornar um ser humano melhor.

5 pontos

terça-feira, 25 de junho de 2019

Dica cinematográfica: “The Incredible Shrinking Man” (1957)

 

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Mais um clássico de ficção científica perdido na história do cinema, mas que é influência até os dias de hoje.

The Incredible Shrinking Man conta a história de Scott Carey, um homem de negócios que durante férias com sua esposa, Louise, acaba sendo atingido por um nuvem radioativa enquanto veleja em alto mar. 6 meses depois, Scott começa a perceber que suas roupas estão ficando maiores e mais largas. Ao consultar um médico, ele recebe o diagnóstico que temia: Scott está escolhendo a cada dia que passa.

Filmado ainda em preto e branco numa época em que o cinema de horror não se ligava a jump scares, The Incredible Shrinking Man é uma das obras mais influentes do cinema de ficção científica. Adaptado de um livro pelo próprio escritor o filme é um exemplo do que o gênero de ficção científica tratava antes do surgimento de guerras intergaláticas e épicos espaciais nas telonas.

Talvez devido a escassez de recursos ou talvez pelo zeitgeist dos EUA que gerou essa obra, o filme tem um ar mais contemplativo. Seu olhar é voltado para o humano e pouco se concentra nas explicações pseudo-científicas para o fenômeno demonstrado.

A explicação é simples, Scott entrou em contato com resíduos nucleares e veneno para inseto num curto espaço de tempo, o que resultou no seu encolhimento. A solução é um antibiótico que acaba por não funcionar.

Nesse meio tempo o relacionamento de Scott e Louise deteriora, pois nenhum dos dois mais consegue se entender. Seus mundos vão ficando cada vez mais distantes, fisicamente e emocionalmente. Louise se rende ao plano de seu cunhado e usa o marido como forma de ganhar dinheiro. Scott fica famoso, mas saber que é uma aberração apenas o deixa mais frustrado, rendendo-se a um ódio que o afasta de sua família.

É um filme que poderia ser facilmente uma mostra de niilismo profundo, mas não é. Ao final, quando Scott perde tudo e encolhe ao ponto de nem ter presença biológica, percebe que sua consciência ainda existe. E é nesse momento que Deus lhe é revelado.

O filme é lindo e poderia ter um remake que faria as audiências atuais chorarem se fosse bem feito, com simplicidade e audácia, mas duvido que algum filme seja executado dessa forma em Hollywood atualmente. De qualquer forma as dificuldades tecnológicas que fazem essa obra ser claramente alvo de piada não diminui o seu valor.

The Incredible Shrinking Man é potente, corajoso e destemido em sua proposto. Dono de uma narrativa audaz e muito bem construída, é um desses raros exemplos de ficção científica que te faz pensar e ponderar dias e dias a sua mensagem.

5 pontos

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Dica cinematográfica: “Veneno para as fadas” (1984)

 

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Fugindo do cinema europeu e norte-americano, hoje iremos para a América Latina, que também consegue produzir bons filmes, quando deixa a militância de lado e passa a se preocupar com a construção de boas histórias.

Veneno para as Fadas conta a história de duas amigas, Veronica e Flavia. Veronica, é uma menina aparentemente órfã que tem como norte apenas as histórias que sua avó lhe conta, notoriamente as histórias de bruxa, que a fascina. Por causa disso, Veronia se encontra mais isolada de seus colegas de sala e fica deslocada do mundo, procurando refúgio no seu mundo de fantasia. Já Flavia é uma menina recém-chegada na escola de Veronica e logo fica encantada pela personalidade de Veronica. As duas começam a se entender e formam uma amizade, mas a relação filial é prontamente abandonada para criar uma rivalidade mimética entre as duas meninas que só pode terminar em tragédia.

O filme é um terror muito bem construído, fortemente baseado no suspense para criar a sensação de susto eminente que nunca a se concretizar. Isso acaba criando uma atmosfera pesada em quem assiste, que é forçado a esperar até o último momento o acontecimento realmente maléfico da obra.

Explorando uma imagética mística a qual retoma a bruxaria que Veronica tanto gosta, o filme tem um ar denso e asqueroso, mas com doses oníricas. Isso serve de contraste para a imagem criada com as duas protagonistas da obra. Ambas brancas, sempre em vestidinhos bonitos e delicados, com cabelos arrumados e rosto impecável, escondem dentro de si atitudes e pensamentos puramente maléficos.

Veronica surge na vida de Flavia colocando em cheque as crenças que a menina recebe dentro de casa. Essa abertura a um novo mundo é uma oportunidade que Flavia não consegue deixar escapar. Veronica parece estar sempre um passo a sua frente e Flavia deseja estar um passo a frente de Veronica, mas é interessante que ela nunca faz isso de maneira clara. Flavia procura sempre manter uma distância, criando um certo ar blasée que não convence a audiência, mas vai influenciando aos poucos Veronica. Esse jogo mimético se arrasta durante o filme todo, nunca concluindo os desejos de Flavia ou Veronica. O resultado, já expresso nos diversos livros de Girard, só pode ser um: a tragédia.

Esse é um filme extremamente interessante e consegue nos revelar de forma sutil a natureza mimética a qual todo ser humano está preso.  Se queremos o que o outro deseja, no fundo desejamos ser o outro. Em última instância a existência de um terá que ceder para que o outro possa triunfar. E isso Veneno para as Fadas mostra de uma maneira fenomenal. O resultado é perturbador e afasta um pouco, mas não deixa de ser admirável.

Aliando uma estética onírica com uma atmosfera de horror, essa obra mexicana é um clássico perdido que merece ser trazido à tona para nos mostrar que o cinema latino-americano não fica resumido à pobre panfletagem.

4 pontos e meio

terça-feira, 18 de junho de 2019

Dica musical: “Punk” de Chai (2019)

 

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2019 é o ano do rock e não me arrependo de dizer isso. Além de Self Defense Family, Angel Du$t, La Dispute e American Football que são velhos conhecidos do blog, temos ainda novas caras como a banda japonesa Chai, formada só por garotas e que produzem um punk rock muito gostoso.

Punk é o segundo álbum de estúdio das japonesas e eu não posso compará-lo com outros sons que a banda já produziu, pois este é o primeiro que escuto delas. Sendo assim, minha opinião do álbum é crua e simples, olhando para ele como ele é e não como poderia ou deveria ser.

Como o próprio nome já diz é um álbum punk e sua sonoridade acelerada, músicas rápidas e letras simples, mas cabíveis de interpretações expansivas é característica do gênero. As guitarras são distorcidas, mas sem muita firula, o som é cru, simples e pesado. O baixo marca a presença em todas as canções e a bateria é potente, impositiva e forte. O álbum como um todo te choca, te espanca e faz você querer pular em cima de uma plateia suada e fedida de uma casa de shows pequena.

No entanto, vindo do Japão é lógico que não poderiam faltar elementos experimentais. Bebendo de uma longa tradição que consagrou sub-gêneros como o noise rock, Chai une aos elementos clássicos do punk, elementos eletrônicos. Teclados distorcidos e batidas aceleradas que acrescentam camadas de sons que rasgam os ouvidos são características marcantes das músicas desse álbum.

O resultado nem sempre é harmonioso, mas condiz com o que parece ser a intenção da banda. A capa nos apresenta uma figura fofinha para uma banda de punk e esse contraste é elevado no som que Chai cria. Pode não ser a coisa mais agradável de se ouvir, mas é uma dinâmica interessante e que vale a pena ser ouvida.

3 pontos e meio

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Dica cinematográfica: “O homem do Rio” (1964)

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Mais uma raridade francesa, dessa vez estrelada pelo excelente Belmondo numa de suas atuações mais divertidas.

O Homem do Rio conta a história de Adrien Dufourquet, um soldado que recebe uma folga de uma semana e, portanto, decide passar esse momento com sua namorada, Agnés. O problema é que quando ele chega no apartamento da moça ela está sendo interrogada pela polícia, pois um ex-sócio de seu pai foi assassinado e apenas uma estátua rara de uma tribo indígena da América do Sul foi surrupiada. As suspeitas da polícia são concretizadas quando em plena tarde, Agnés é sequestrada e Adrien corre atrás dela, chegando ao cúmulo de entrar num avião clandestinamente e viajar, junto com os sequestradores e Agnés, para o Brasil.

O filme todo tem um tom muito leve, reminiscente das histórias do Tintin e outros personagens da cultura pop francesa da época. É uma aventura simples que passaria facilmente na Sessão da Tarde ou na Temperatura Máxima, sendo ideal para toda a família assistir.

Apesar de uma premissa simples, o filme se arrasta para lugares inimagináveis. Há uma conspiração envolvendo um tesouro indígena, que envolve políticos de Brasília, artistas do Rio, membros do exército e indíos da amazônia. O filme cresce e se expande, mas nunca perde a ordem. A narrativa é bem construída.

Infelizmente, ela também abusa da liberdade criativa. Adrien e Agnés, por exemplo, pegam um carro e dirigem do Rio até Brasília pra encontrar outro ex-sócio do pai dela. As distâncias continentais brasileiras são resumidas às distâncias francesas, que são superadas por qualquer estrada estadual do Brasil. Outro ponto de crítica muito forte é o abuso do estereótipo brasileiro.  O primeiro brasileiro que Adrien encontra é um engraxate descolado do Rio. Em outro momento, Agnés relaxa sambando numa favela.

Apesar de uma crítica válida, eu acho válido também desconstruirmos essa crítica e abraçar o estereótipo. Infelizmente nossa população é pobre e até hoje se submete a trabalhos pouco dignos, sem perder o sorriso. Ainda assim somos alegres e estamos sempre celebrando quando podemos. O estereótipo do brasileiro é também uma amálgama de nossas maiores qualidades.

Nos aspectos técnicos é um filme impecável, apesar de exagerado. As manobras que Adrien dá para salvar o dia são absurdas e não podemos esquecer que tudo que acontece no filme se passa em apenas 1 semana. Ainda assim, os efeitos especiais estão de parabéns. É fácil notar como tudo é falso (por exemplo, as cenas do avião ou as pedras do templo caindo), mas temos que lembrar que esse filme foi feito há mais de 50 anos.

O filme é bom, poxa.

4 pontos

terça-feira, 11 de junho de 2019

Dica musical: “American Football” de American Football (2019)

 

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E os meus queridos voltaram! E com mais um CD de nome American Football. Agora o pessoal começou a grafar Americ anFootball pra diferenciar, mas por uma questão de comodidade eu vou continuar escrevendo como sempre escrevi.

Após o retorno da banda alguns anos atrás, American Football entrou um pico de criatividade que os fizeram realizar diversos shows pelos EUA e Europa e agora já lançam o seu segundo CD em menos de 10 anos. Seu segundo CD pode ter desapontado algumas pessoas, mas não a mim, pois eu sei que eles nunca irão atingir o nível de excelência conquistado com o LP 1, que contava com uma série de elementos da vida pessoal de cada membro, os quais contribuiram para a criação dele.

O segundo CD é diferente, mais lento, leve e maduro e o terceiro não é muito diferente disso. A grande diferença é que este terceiro CD encontra-se num campo mais ousado, irreverente que apenas a experiência pode lhes dar.

O LP 3 é uma obra superior ao segundo. Aqui encontramos mais elementos de jazz do que no primeiro e segundo, de uma forma mais descompromissada que no LP 2, gerando uma profusão de elementos musicais muito agradável. É a tal da bagunça gostosa.

Lançado apenas alguns anos após o segundo CD, é de se imaginar que Mike Kinsella (o vocalista) não queira assumir como antes o papel de vocalista principal, abrindo espaço para colaborações. Elizabeth Powell, Hayley Williams e Rachel Goswell são os vocais femininos que fazem um excelente papel em assumir uma posição que nunca foi o forte do American Football.

Não é exagero imaginar que todas elas tenham crescido ouvindo a banda e se regojizam com a honra que é compartilhar do espaço deles.

American Football é uma banda recheada de falhas, sempre foi e aqui eles assumem suas falhas e brincam com elas, seguindo um caminho muito saudável. Nesse interim, as múscas deixam de ser simplesmente melódicas e espaciais, evoluindo o emo que eles ajudaram a criar, para abrir espaço a sonoridades mais pesadas e velozes.

Embora nunca seja música pesada, de verdade.

Melódico, sincero e desinteressado, o LP 3 de American Football, American Football, é uma obra muito boa, dentro de um nicho musical que precisa de novos ares.

4 pontos

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Viva Carlos Alberto de Nóbrega!

Na quinta-feira passada, A Praça É Nossa terminou de maneira diferente. Ao contrário do típico “E a praça é nossa! Ela é muito nossa!”, o programa terminou com o Carlos Alberto de Nobrega descrevendo sua viagem a Brasília para receber o título de comendador das mãos de Rodrigo Maia.

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Uma iniciativa que começou com um pedido de Alexandre Frota, atual deputado federal, terminou com o maior escada da televisão mundial sendo recebido pelo atual presidente do Brasil em sua sala. Bolsonaro o recebeu de braços abertos num momento de pura descontração e alegria.

Após isso, em seção solene no plenário, Carlos Alberto foi chamado a frente para receber seu título e Onyx Lorenzoni anunciou que Jair Messias Bolsonaro vinha para a solenidade. Carlos Alberto recebeu o título de comendador, homenageando sua mulher e família, ao lado de Rodrigo Maia, Jair Bolsonaro, Alexandre Frota e até mesmo o Marcel Van Hattem estava sorridente lá no fundo. Tudo sendo transmitido pela TV Câmara.

O título de comendador é uma honraria dada a civis que se destacam na promoção da cultura, cidadania ou áreas afins. Tal título pode ser distribuído por muitos setores do governo e muitos artistas já receberam. No entanto, o que é surpreendente nessa história é a participação do presidente em tal solenidade.

Seções em que são feitas homenagens do tipo geralmente são restritas a uma panelinha de pessoas próximas ao homenageado. Políticos e outras figuras que acompanham o trabalho de perto o trabalho feito, mas é raro achar um seção que conta com a presença do representante maior do país.

Bolsonaro se disse honrado de participar do momento, congratulou Carlos Alberto por levar a alegria a todos nós no Brasil como o seu pai havia feito por tantos anos antes dele e finalizou seu breve discurso dizendo: “Sem humor, sem alegria, não tem-se razão de viver”.

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Eu já disse em outras oportunidades o quanto A Praça é Nossa é um excelente programa. Não só pelo seu valor histórico (só o Carlos Alberto está há mais de 50 anos liderando a atração), mas pelo seu valor cultural. É o único programa de humor que não se rendeu a onda do “humor inteligente”, nem ao stand-up comedy e muito menos ao politicamente correto, o qual sofreu duras críticas de Carlos Alberto de Nóbrega.

O resultado é um programa livre, aberto para os seus humoristas, que segue uma fórmula antiga e verdadeiramente brasileira, a das piadas prontas, com punch line. Por mais que um programa como o CQC tivesse feito sucesso ou que o stand up comedy tenha dado certo pra muita gente, o que o brasileiro gosta mesmo é de uma boa, breve e fácil piada pronta. Nós gostamos é de piadas com estereótipos, que brincam com a tragédia e abrem espaço para uma discussão rápida em torno de amigos numa mesa de bar.

Esse tipo de piada faz parte da nossa cultura. Está em nosso meio desde os primórdios da cultura no Brasil. José de Alencar já escrevia coisas nesse caminho e um clássico como Memórias de um Sargento de Milícias é um dos grandes atestados para isso. Nelson Rodrigues é lembrado até hoje por dar voz ao povo através desse recurso humorístico e Jô Soares e Chico Anysio, considerados pais do humor inteligente, nunca escaparam dessa fórmula.

E Bolsonaro reconheceu isso. Ele saiu de seu pedestal (ou o pedestal em que foi colocado) e nunca esqueceu suas origens junto ao povo. Isso é algo que nunca fez parte da natureza de nenhum presidente do país desde Jânio Quadros. E é por isso que foi eleito.

Em meio a presidenciáveis de quase 80 anos, que queriam ensinar português ao povo, descontrolados, com currículos falsos, que queriam censurar o whatsapp e fontes de memes, Bolsonaro foi o único que falou a língua do povo, como bem disse Mano Brown.

A verdade é que não houve uma guinada à direita, como defendem alguns. Foi a esquerda que se radicalizou. O povo não é trouxa, nem é massa de manobra como alguns setores da sociedade por aí. A verdade é que Bolsonaro faz naturalmente, o que o Marcel Van Hattem pensa duas vezes antes de fazer.

É por isso que ele ganhou. Simples assim.

Não precisa temer o Bolsonaro. Ele é só um tiozão do interiorzão do Brasil. Não é ele quem vai trazer de volta a ditadura, nem é ele que vai tirar o Brasil do buraco, mas ele é a representação de que a democracia no Brasil está, finalmente, alcançando a maturidade.

E viva Carlos Alberto de Nóbrega!

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quinta-feira, 6 de junho de 2019

Dica teórica: “O Banquete” de Platão

 

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Esta é uma leitura que estava devendo a um de meus grandes amigos há um bom tempo. Finalmente pude realizá-la.

O Banquete de Platão é um livro escrito em forma de diálogo que conta a história de um jantar realizado entre diversos pensadores gregos. Entre eles estão Fedro, o médico Erixímaco, o peta Aristófanes e, claro, o filósofo Sócrates, que discutem a natureza do belo e do amor (Eros).

Apesar de organizado na forma de um diálogo que se inicia com Apolodoro relatando o que aconteceu na casa de Agaton, o anfitrião do jantar, O Banquete trata-se mesmo de uma dispute entre os diversos pensadores. Eles expõem suas ideias acerca do belo do Eros, cada um seguindo a sua especialidade, portanto cada um tendo uma opinião e um foco diferente.

As discussões são muito frutíferas, explorando o Eros de um ponto de vista biológico, social, romanesco, culminando na interpretação filósofica de Sócrates que parece unir tudo o que foi dito antes dele. No pensamento grego, Eros não era entendido apenas como o amor entre amantes ou amigos, parentes ou mesmo o sexual, mas a essência de tudo isso e o que gera a beleza.

A beleza, eterna e nunca mutável, é o que move os seres humanos e é o guia para seguir a Eros, entendido como mais um dos deuses do Olimpo. Sem esse norte, o Eros se torna vulgar e repudiável, quando outrora é louvável e educador. O Eros é o próprio filósofo, é o intermediário entre o momento em que se encontra e o momento em que se deseja estar.

A narrativa é leve e segue de forma simples, porém, em certos momentos, densa. Exige uma segunda leitura, mas não é irritante, nem complicada. Pelo contrário, é agradável como poucas obras de filosofia antiga o são. Possivelmente pelo seu tema, que não sofreu o desgaste do tema que a política ou a metafísica sofreu, por exemplo. É ainda atual as discussões ensejadas dentro desse livro.

A edição que li foi a bilíngue da LPM Pocket. Tem a qualidade mediana de todas as edições da editora, mas uma qualidade tradutória, que eu acredito que seja, fenomenal. Se o tradutor deixa o original do lado para ser conferido, então é porque a tradução é boa. Ou o tradutor é muito corajoso.

No entanto, os comentários de DonaldoSchüler (tradutor) inspiram confiança em seu trabalho, pela humildade e atenção que ele demonstrou no trato do livro. Há uma edição bilíngue da editora 34, deve ser mais bonita, mas ela não é encontrada na biblioteca da minha faculdade.

Enfim, ler filosofia antiga é sempre um deleite, mas essa obra de Platão é especialmente boa, nos ensinando sobre a beleza e o amor, além de nos ensinar a como parar um soluço.

5 pontos

terça-feira, 4 de junho de 2019

Dica musical: “Músicas para Drift vol. II” do Yung Buda (2019)

 

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Anunciado desde o ano passado e muito aguardado por mim, Yung Buda finalmente lançou sua segunda mixtape, seguindo suas temáticas, mas abordando o trap com maestria.

Músicas para Drift vol. II não é uma continuação direta do volume 1. Pelo contrário, é um sólido trabalho dentro da discografia crescente do rapper brasileiro, que, nessa mixtape, se aventura pelo trap. As batidas são mais minimalistas, porém mais agressivas, mesclando-se com canções mais lentas e melódicas, por exemplo, Piloto e Califórnia (World Tour).

Nesse ritmo, a mixtape se encontra como a progressão clara dos sons que Yung Buda já havia explorado em singles como Beats by Deus e Hacker DressCode. Dessa forma, ainda que seja diferente do volume 1 lançado em 2017, há uma unidade nos seus lançamentos musicais.

Essa coesão é intensificada com os temas explorados. Sempre falando de mulher e carros velozes, com referências a animes e filmes cult, Yung Buda consegue criar uma estética muito clara que se encaixa como uma luva no zeitgeist da nosso Brasilzão atual.

Apesar de contar com apenas 6 canções, o álbum parece ser mais longevo do que realmente é. A atmosfera criada pelos instrumentais das batidas, muito espaciais e dinâmicos, dá uma impressão de que as músicas são mais longas do que realmente são. Elas ficam ressoando em nossos ouvidos mesmo horas após o seu término.

O flow de Yung Buda nunca esteve tão bem antes e as rimas conseguem ser encaixadas de forma simples, porém impactante, ainda que esse não seja o foco do trap. Yung Buda é um dos poucos que consegue aliar conteúdo com estética musical dentro desse gênero, que eu, particularmente gosto, mas reconhece suas falhas. Acredito que o trap já esteve há tempo suficiente para que comecem a surgir artistas que queiram criar algo além de pura estética dentro do gênero.

Enfim, Músicas para Drift vol. II é uma ótima pedida para os fãs de hip hop brasileiros. Um dos artistas mais ousados dos últimos tempos e que ainda tem muita lenha pra queimar, merece mais reconhecimento do que recebe.

5 pontos