quinta-feira, 31 de maio de 2018

A melhor dica do novo álbum do Arctic Monkeys que você lerá esse mês.

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E mais uma vez o Arctic Monkeys lança um novo álbum e mais uma vez eles trocam a pele, dando razão para as minhas opiniões expressas na dica que eu fiz de "AM", um álbum que continua sendo chato, medíocre e DCpcionante como poucos nessa década foram.

No entanto, 5 anos depois, um hiato e um excelente CD do The Last Shadow Puppets no meio, a melhor banda britânica desse século lança mais um álbum, de novo totalmente diferente de tudo que eles haviam lançado no passado, de novo divide opiniões e deixa muita gente brava, mas os fãs de verdade, aqueles que até hoje escutam "Whatever People Say I Am, That's What I'm Not" como se tivesse sido lançado semana passada, deverão adorar essa obra de arte.

O nome do álbum é "Tranquility Base Hotel + Casino" e como o nome indica, é um álbum conceitual, que trata de um complexo hoteleiro na lua. O conceito em si já chama a atenção, mas poderia dar muito errado, não fosse a sonoridade que o acompanha, uma mistura de rock com jazz, que faz lembrar David Bowie e Elton John no seu auge, com influencias psicodélicas, adaptadas para o novo milênio, fazendo deste álbum nada menos que um autêntico produto do século 21, mas que retorna temas e sons do passado.

E então a critica e os fãs não sabem o que pensar e buscam respostas em entrevistas e no passado da banda, criando teorias e leituras que acabam fugindo do cerne da obra, a qual eu irei expor no próximo parágrafo, mas antes um aviso: essa busca por informações e suas leituras subsequentes não estão erradas, apenas incompletas e eu não estou certo, apenas estou chegando um pouco mais perto do cerne da obra. Tire as conclusões que você quiser.

O primeiro verso do álbum é já conhecido de todo mundo que acompanhou o lançamento do álbum, semanas antes de seu vazamento: "I just wanted to be one of The Strokes/Now look at the mess you made me make" é lida como o Alex Turner retomando o seu passado, uma letra autobiográfica, mas essa leitura é apenas superficial e se afasta do conceito que o álbum representa. Esse verso pode ser lido como um verso autobiográfico do álbum, e provavelmente é, mas também se encaixa como uma luva na persona que Alex Turner encarna com esse álbum, o ricaço que cria um hotel na lua com um cassino (seu nome é Mark? Tenho que escutar mais o álbum pra definir isso). Esse mesmo ricaço é o que narra, se não todas, a maioria das musicas no álbum e é a persona assumida por Alex para esse álbum. Esqueça o motoqueiro topetudo de jaqueta de couro e óculos aviador de "AM" e aceite o ricaço perturbado classudo que construiu um hotel na lua pra se sentir no topo do mundo, achou que isso seria o suficiente, mas acabou percebendo que não era. Dessa primeira compreensão podemos traçar a narrativa principal que perpetua todo o álbum. Ele construiu o hotel, continuou se sentindo insatisfeito e, no final do álbum, ficamos sabendo que ele ainda guarda as lembranças da época em que vivia na Terra, lembranças de sua amada, provavelmente, mas pode ser a família, amigos, o inglês nos permite um nível de ambiguidade extremamente alto para essas questões, embora eu ache que o Arctic Monkeys nunca foi uma banda que tratasse de família. Esse narrador, viciado em temas de ficção cientifica desde sua infância, faz da ficção a sua realidade, todo tipo de absurdo acaba virando parte da sua rotina e ele pondera seguir outros caminhos, como virar presidente, mas também se espanta com esse mundo, que em seus sonhos de infância era ideal, mas que o assusta, como o vício em tecnologias escapistas (realidade virtual) e a crise política que assola o mundo (Não, ele não está falando do Donald Trump ou do Brexxit, isso é uma leitura muito superficial, ele está falando da oclocracia disfarçada de democracia dos tempos modernos), se tornando plenamente desgostoso com o que vê, que, no final, era o que ele sempre sonhou. Os sonhos se tornam pesadelos e talvez teria sido melhor manter tudo emoldurado em sua mente.

Acompanhando a criação desse personagem temos toda a sonoridade remanescente de filmes de ficção cientifica, instrumentos de um som tipicamente futurista, embora esse futuro tenha ficado no passado. É interessante um álbum com tal conceito numa época como a nossa, porque temos a possibilidade de ver que o futuro imaginado não é muito melhor do que a situação em que as pessoas que imaginaram esse futuro viviam.

Existem planos reais para se colonizar Marte e as mulheres cristãs ainda morrem apedrejadas em determinados locais do mundo. Pessoas mencionam Kubrick, mas deixam escapar muitas outras referencias, como "Life on a Wire", de onde saiu os acordes de teclado de "Batphone". E são esses os instrumentos importantes, teclado e piano, mas não apenas porque o álbum foi todo construído em torno deles, mas porque eles conseguem construir toda a sonoridade nostálgica e futurista-retrô que o álbum intenciona em levar aos nossos ouvidos.

A sonoridade merece um paragrafo a parte, porque ela é uma bagunça. Cada instrumento parece estar tocando uma música diferente, criando um caos, mas que acaba ganhando uma certa ordem e trazendo bons momentos para o álbum como um todo.

Arctic Monkeys é a banda britânica mais importante dessa década, eles são enormes no Reino Unido e só quem acompanhou o seu crescimento ao longo da década passada é que pode atestar isso. Eis porque "AM" é um lixo, é um álbum feito para o mercado americano, é totalmente comercial, mas a criatividade volta a fluir em "Tranquility Base Hotel + Casino" nos trazendo uma sonoridade nova para a banda, um conceito extremamente criativo e músicas diversas e bem construídas que irão satisfazer em muitos momentos diferentes.

Obrigado por voltar, Macacos Árticos.

4 pontos e meio

terça-feira, 29 de maio de 2018

Dica musical: "Beyondless" do Iceage (2018)

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Já digo de antemão que o Iceage alcançou um novo patamar em sua carreira com esse álbum, que pode ser o melhor de sua carreira até agora.

Depois do inconsistente "Plowing into the field of love", não tinha muito o que esperar de "Beyondless", até porque o álbum inclui elementos que não são comuns a banda, muito menos ao gênero em que pertencem, violino, trompete, saxofone e teclado.

O experimentalismo havia se mostrado infrutífero no último álbum, descaracterizando todo o som da banda, que é marcado por uma sonoridade caótica e apocalíptica. No entanto, para este álbum, vindo de um Iceage mais maduro, o experimentalismo caiu como uma luva e a banda pôde retornar ao som caótico e apocalíptico que os consagraram dentro da cena pós-punk da Dinamarca.

Aqui os teclados, instrumentos de sopro e o violino não são instrumentos desconexos que forçam a banda a seguir um determinado caminho, mas sim, instrumentos que chegam para complementar o som apocalíptico, agregando valor à estética do Iceage.

Em compensação, aqui vemos letras menos misteriosas e mais diretas, algumas ate com teor político, o que não é ruim, se você souber fazer e, infelizmente, o Iceage não sabe. Ou ate sabe, mas não muito bem. Tem uma noção.

Dessa forma, Iceage lança um excelente álbum, honrando sua tradição e surpreendendo novamente, pela união dos diversos elementos sonoros em prol de um ideal comum.

4 pontos

terça-feira, 22 de maio de 2018

Dica especial do melhor livro já escrito por um único ser humano.

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Recentemente terminei o titã chamado "Guerra & Paz". Não é um romance histórico, nem um épico, é um evento.

Tolstoi, um dos poucos autores que debatiam abertamente sobre seus livros, uma vez disse que ele queria que seus livros mudassem as pessoas e eu sinto que ele foi muito bem sucedido nessa empreitada, pois "Guerra & Paz" é um livro que provoca o que há de melhor em você.

Isso tem raízes na filosofia que motivava os russos do século XIX a escreverem obras que são atuais até hoje é só são atuais por causa dessa característica que irei mencionar: eles se consideravam diferentes do resto da Europa e como diferentes (às vezes até superiores), seus livros deveriam ser diferentes também.

Dessa forma, as melhores partes de sua literatura não são encontradas nos grandes conflitos, mas nas reuniões de família, como em "Pais e Filhos", nos funerais em "Os irmãos Karamazov" e nas divagações românticas em "Felicidade Conjugal". Porém, Tolstói dá um passo além e transforma os grandes eventos das Guerras Napoleônicas em momentos ordinários onde heróis nacionais russos, figuras lendárias e membros de toda a realeza europeia se transformam em pessoas comuns, com medo de tiros e explosões, cansados e irritados, fanfarrões e bêbados, mas também humanos e ainda assim com aquele ar de heroísmo, que não é idealista, mas totalmente real. Lendo "Guerra & Paz" você realmente sente aí é pode ser herói e para isso não precisa matar Napoleão, nem liderar um exército na batalha de Borodinó. Você pode ser herói simplesmente sendo humano, com defeitos, perdas, responsabilidades e pequenas vitórias.

Tudo escrito da melhor forma possível. Tolstói encontra jeitos novos e inesperados de contar o que já foi contado um milhão de vezes, o que todo mundo viveu e o que todos já vivemos, dando a esses pequenos acontecimentos um ar de novidade, que irá te fazer querer abraçar seus pais. Eu comecei a ler durante as férias de final de ano e acho que já dá pra ter uma ideia de como ter sido ler esse livro.

Aliás, ele é gigante e assusta, mas uma vez que você entra nele não consegue mais sair. A linguagem é clara e a narrativa, cadenciada, de forma que uma vez que você inicia a leitura, ela se transforma numa bola de neve e vai crescendo e ganhando velocidade e então você leu 50 páginas num dia e nem percebeu e ainda aguentar ler outras 50.

Em meio a tudo isso, temos ainda a apresentação da filosofia histórica de Tolstói, rejeitando a interpretação materialista que ainda está em voga (ao menos nesse canto de mundo abandonado) e também rejeitando as interpretações tradicionalistas, simplistas e que colocavam tudo nas mãos de Deus, através de divagações enormes que ocupam quase que tomos inteiros do livro. Ele não se posiciona de um lado ou de outro, embora você possa interpretar assim se quiser, mas uma leitura atenta e crítica, revela que ele não estava de lado nenhum e também não queria criar nada, mas ele sabia o que estava errado e queria destruir aquilo. Era um niilista, mas do tipo bom, o niilista produtivo que Dostoiévski falava. E ao destruir, ele ia abrindo caminho para algo que fosse certo. Ele pode não ter deixado tudo pavimentado, mas mostrou uma direção e abriu um trecho de terra batida pra gente seguir. Essa sua teimosia, nos leva até o melhor monólogo de encerramento na história da literatura (sim, dane-se Ulisses!!!), mais de 40 páginas que encerram o livro com uma extensa explicação sobre a filosofia histórica de Tolstói.

É um livro, genuinamente, fantástico.

E mais fantástico é se sentir amigo dos membros das 5 famílias centrais da história, ver a beleza nos olhos de Marie, a conversão do príncipe Bolkonski, a beleza serelepe de Natasha, as andanças sem rumo de Pierre, o crescimento de Nicolau, a voluptuosidade de Hėlene, o heroísmo de Kutúzov e todos os outros mais de 500 personagens que aparecem na obra e que não dá pra favoritar apenas um, porque são todos humanos e ao mesmo tempo falhos, mas isso apenas os faz mais próximos de nós.

Esta é uma dica diferente e tem que ser. Como eu disso, isso não é um livro, é um acontecimento. Lê-lo não é um passatempo, é uma viagem e não dá pra deixá-lo do mesmo jeito que você o iniciou. Não valeria uma nota aqui, mas eu lembrei que na criação do blog, criei um sistema de notas que ia além das cinco estrelas, havia uma a mais, a supernova, a estrela que de tão grande deixou de ser estrelas e, no começo do blog, a dei para alguns clássicos absolutos, mas com o passar do tempo, percebi que esse blog era a minha opinião pessoal e não tem como eu disser o que é um clássico absoluto.

No entanto, esse é um clássico absoluto e para esse livro vale a pena ressuscitar essa nota, mas apenas para nunca mais usá-la em nenhuma dica literária de novo.

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

Dica musical: “Czarface Meets Metal Face” do Czarface e MF Doom (2018)

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E graças a Deus, MF Doom está de volta, dessa vez num projeto musical com Czarface, diretamente influenciado por MF Doom, gerando, nesse álbum, um choque de influências gigantesco que só poderia gerar coisa boa.

Czarface é um trio de hip hop formado pelo duo 7LES e o membro do legendário Wu-Tang Clan, Inspectah Deck e desde o primeiro álbum eles não escondem a influência de MF Doom em seu som, criando batidas mais voltadas a velha guarda do hip hop, interlúdios que construíam uma história para essa figura chamada “Czarface”. Já no segundo álbum do grupo, MF Doom fez uma aparição especial e o sonho de todo mundo era um álbum colaborativo, que só veio vários anos depois.

Em “Czarface meets Metal Face” o som do álbum continua sendo mais volta a velha guarda do hip hop, com beats influências por jazz, funk, mas também uma ampla gama de elementos experimentais, encorpando os instrumentos e criando uma atmosfera complexa, mas que não deixa de ser boa de se ouvir.

Não é segredo que o MF Doom não participa de um bom projeto musical há um bom tempo, então a recepção a notícia de seu mais novo trabalho colaborativo não chamou tanta atenção assim, até porque os últimos CD’s do Czarface também não têm sido essas coisas, mas a surpresa é grande.

Não é um retorno à melhor forma, mas é um retorno à boa forma, apesar de o destaque serem as rimas de Inspectah Deck. O MF (THE SUPERVILLAIN!) lança rimas criativas e engraçadas, que fizeram o seu nome famoso e é inegável que ele ainda tem lenha pra queimar.

A produção é incrível, bem experimental, com vários interlúdios “temáticos”, como propagandas e conversas entre os dois personagens, criando uma história para que você possa seguir enquanto escuta o álbum e balança a cabeça pra cima e pra baixo com os beats.

Enfim, “Czarface meets Metal Face” é uma ótima adição ao catálogo de ambos os artistas e um álbum necessário para os tempos de trap music em que vivemos atualmente. 2018 prometia e está cumprindo!

4 pontos

terça-feira, 15 de maio de 2018

Dica Papelarística: cadernetas Cicero

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Iniciando essa dica, que eu estou devendo há um bom tempo, da melhor forma possível, com uma das minhas marcas favoritas. Uma dessas marcas que eu colocaria a mão no fogo, se fosse necessário, de tão boa que ela é.

A Cicero é uma empresa que produz e vende cadernetas estilizadas no formato que ficou consagrado com a famigerada Moleskine, mas muito mais legais.

As cadernetas da Cicero vêm em diversos formatos, pautadas, sem pauta, quadriculadas, de vários tamanhos, de bolso, caderno pequeno, mediano e por aí vai e cada uma seguindo uma temática diferente, que irá influenciar na estilização delas, o que é o grande diferencial da marca, pois cada caderneta, apesar dos formatos se repetirem, terá uma capa diferente e detalhes que corresponderão a essas capas.

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Além disso, a Cicero ainda vende cadernos capa mole (a linha Flex), que lembra aqueles cadernos que o pessoal em filmes Hollywoodianos usam como diários, agendas, estojos e outros itens para você guardar os seus materiais de escrita, desenho, trabalho ou hobby.

A qualidade do material da Cicero é inquestionável, impecável, resistente e muito belo, além de contar com um preço muito camarada. Quando eu conheci a Cicero (e já se vão quase 10 anos, desde então), ainda não era comum encontrar nas livrarias e papelarias cadernetas Moleskine, nem mesmo esse formato era muito conhecido, só os hipster r00ts conheciam mesmo. As cadernetas tinham que ser importadas e isso encarecia muito o produto, então a Cicero era a alternativa perfeita, além de ser um produto mais barato, era muito mais bonito e brasileiro! Hoje em dia a diferença de preço nem é tão grande, mas a qualidade compensa muito mais.

Enfim, comprem Cicero.

5 pontos

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Dica cinematográfica: "Perceval, o Gaulês” (1978)

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Eric Rohmer era um tradicionalista, mas também era um cidadão da segunda metade do século XX, então sua adaptação de um conto medieval francês só poderia gerar um filme descontraído, irônico e, acima de tudo, criativo ao extremo.

Em “Perceval, o Gaulês”, acompanhamos um jovem nobre gaulês que sai de casa onde vivia com a mãe para buscar uma vida de glórias como cavaleiro. Após conhecer o rei Arthur, o jovem fica fascinado com o santo Graal e parte em busca deste, mas antes aprende o real significado da cavalaria, apaixona-se por uma bela princesa e espalha a justiça por planícies e florestas, enquanto vaga na busca do santo Graal.

O filme já chama a atenção logo no começo, onde somos apresentados a um cenário de mentira, todo montado com objetos que parecem papelão, alumínio e papel machê, simulando os mais diversos terrenos, de florestas a planícies, praias e castelos. Num segundo momento, nos chama a atenção o fato dele ser todo narrado e cantado. A todo momento os personagens cantam e narram o que está acontecendo na tela, deixando para a narração os acontecimentos ao invés de mostrar a ação, uma subversão muito simples, porém ousada e criativa das convenções do cinema.

A narração, por si só, já é uma subversão das convenções mais tradicionais do cinema, mas colocar os próprios personagens, narrando os seus atos, num cenário de mentira. Isso é quase um tiro no pé, exceto quando é o Eric Rohmer, que faz isso muito bem feito.

Mas fora os aspectos criativos que são todo mérito do Rohmer e sua equipe criativa (para quem já conhece outros filmes do diretor, irá reconhecer alguns rostos apresentados), temos ainda a própria história de Perceval. Escrito por Chrétien de Troyes durante a Idade Média e inacabado, é um romance com uma complexidade significativa (talvez pela sua incompletude). O romance termina com uma narração de outro cavaleiro da Távola Redonda (Gauvain), que é adaptada dentro do filme, mas Rohmer termina com uma fantástica e simbólica cena da compreensão de Perceval sobre o santo Graal.

Ao final, “Perceval, o Gaulês” é um filme ambíguo, mas muito bem feito e extremamente criativo, revelando a genialidade desse que foi um dos melhores diretores do cinema de todos os tempos.

5 pontos

terça-feira, 8 de maio de 2018

Dica literária: "Felicidade Conjugal" de Liev Tolstói (1859)

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Faz tempo que li essa novela escrita pelo Tolstoi e fiquei devendo aqui no blog, mas antes tarde do que nunca.

Em "Felicidade Conjugal" acompanhamos uma romântica história de amor entre uma garota e um homem mais velho do ponto de vista dela.

Um dos primeiros escritos de Tolstoi, é uma novela que revela o escritor numa forma bem menos crítica, portanto menos moralista. Aqui encaramos a historia do ponto de vista da garota, mas sem julgamentos ou uma moral definida. É romântico e pronto.
Dessa forma, não já também grandes conflitos, como em Guerra e Paz ou mesmo Anna Karienina, mas há momentos angustiantes de tensão e suspense, focados em atividade cotidianas. Por isso é tão identificável.

Vale muito a pena conferir o livro, principalmente se você ainda não leu os outros grandes romances de Tolstoi, pois dá pra se ver, de forma mais ou menos clara, os caminhos que ele trilhou até se tornar, provavelmente, o maior escritor de todos os tempos. É bacana!

Enfim, é uma obra singela e muito gostosa. Pode não mudar a vida, mas é legal.

4 pontos

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Dica musical: "Fake" do Die Nerven (2018)

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Depois que comecei a fazer alemão (e estou gostando bastante) decidi me aventurar pela cultura alemã consumindo mais filmes e musicas. Tenho varias ressalvas, mas acabei encontrando coisas muito boas, como essa banda chamada "Die Nerven".

Lançando seu terceiro álbum de estúdio (se não me engano), Die Nerven nos apresenta um som mais pesado, rasgado, mas com uma produção impecável. A sonoridade é meio rústica, mas isso é intencional, como da pra se notar em musicas como "Fake".

https://www.youtube.com/watch?v=IowD3B72ymM

"Aufgeflogen", uma canção com uma linha de baixo distorcida e "cáustica", não chega a doer nos ouvidos, como seria num álbum menos produzido, muito pelo contrario, a canção revela em sua completude a escolha estética da banda.

Dessa forma, a banda surge como uma das melhores coisas que o rock alternativo/indie pode nos apresentar. Dias atrás, conversava inclusive com um amigo e me convenci de que o Arctic Monkeys não precisa mais lançar um álbum no estilo pós-punk dos primeiros álbuns. Essa lacuna já é preenchida por bandas como o Die Nerven.

Infelizmente não dá para eu comentar muito as letras. Como toda banda alemã menos conhecida, são poucas letras que estão disponíveis na internet (ao menos no momento em que escrevo essa dica) e meu alemão ainda não esta no nível de ouvir musicas e entender tudo. No entanto, dá pra se ter uma ideia geral do álbum, que continua na mesma pegada dos anteriores. Letras confessionais e pessimistas, revelando sentimentos agorafóbicos e paranoicos. Em tempos de guerra informacional, letras assim são bem compreensíveis.

Enfim, Die Nerven continua sólido, apresentando mais um álbum muito bom, capturando a essência do rock e remodelando-a para os tempos atuais.

4 pontos e meio

terça-feira, 1 de maio de 2018

Dica cinematográgica: “Ohayō” (1959)

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Estava com esse filme para assistir a um bom tempo, mas dei prioridade a outros títulos. Que erro...

“Ohayō” é um filme japonês de 1959, dirigido por Yasujiro Ozu, que conta a história de algumas famílias numa espécie de complexo de casas populares no Japão pós-Segunda Guerra Mundial, vivenciando a reconstrução econômica. Focando no ponto de vista das crianças, o filme é bem leve e pode ser considerado uma “comédia” no sentido clássico do termo. Não apenas acompanhamos a vida de pessoas comuns, mas são pessoas comuns menores, as crianças. Além disso, temos diversos elementos humorísticos presentes na obra, como as apostas entre as crianças e suas consequências.

É um filme para todas as idades e é através dele que podemos ver, claramente, a influência de Ozu nas obras de diretores como Truffaut e Wes Anderson.

Foi o primeiro filme colorido de Ozu e cada cena é um colírio para os olhos, garboso e elegante, porém simples e reflexivo, como todo bom elemento da cultura japonesa.

Ozu é chamado de “o diretor mais japonês” de todos e a máxima não é leviana. Esse filme, recheado de reflexões e simplicidade mostra o seu controle sobre a câmera e usando as imagens como mais um elemento narrativo e não dependentes do roteiro.

As imagens ganham vida e o cinema respira.

5 pontos

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “I Kill Giants” (2018)

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Quando eu soube que um dos meus quadrinhos favoritos seria adaptado para filme, fiquei muito contente, mas tratei logo de baixar a bola, pois sabia que a chance de decepção era alta. Felizmente me enganei.

O filme segue a história do quadrinho, que se centra em Bárbara, uma menina complicada, que tem poucos amigos e vive num mundo imaginário, onde ela é uma assassina de gigantes. Quando chega uma menina nova na cidade, Bárbara trata de apresentar os gigantes a ela e isso é o estopim para uma amizade, que é logo ameaçada, tanto com desafios reais, quanto com desafios imaginários, embora estes também tenham uma base muito real.

A história é simples e não tem muitas surpresas, embora algumas reviravoltas no roteiro possam surpreender os mais incautos. Isso acontece na HQ e acontece no filme também. Há, em todo momento, uma suspeita de que a Bárbara cria o seu próprio mundo e nunca fica muito claro o motivo, embora nós sempre suspeitemos de um. Dá pra se fazer uma boa análise psicológica desse filme, mas eu não tenho capacidade, nem tempo para isso agora.

Então vamos falar das diferenças do filme pra HQ, pois elas são poucas, porém pontuais. O filme é um indie e como tal tem aquela atmosfera soturna, situando Bárbara numa cidade bem mais fria do que a cidade da HQ. Isso não incomoda, mas é um detalhe a se considerar. Alguns personagens são cortados e outros sofrem diferenças, mas de uma maneira geral, o filme consegue se assimilar bastante a HQ, embora consiga se manter sozinho. São duas obras diferentes e ambas igualmente boas.

E “I Kill Giants” (o filme) é realmente bom. Eu tinha meu receio por se tratar de uma HQ desconhecida e um filme indie, mas tive uma agradável surpresa. Ao longo do filme, a película só foi me agradando e ao chegar no final, não decepciona. Os efeitos especiais ficaram muito bons, embora não tenha sido tão magnânimo quanto na HQ.

Outra coisa bacana foi a inclusão de um desenho do J.M.Ken Niimura, o artista da HQ. É sempre bom quando uma obra adaptada traz membros da origem para poder participar do projeto de adaptação.

Enfim, “I Kill Giants” é um ótimo filme, vindo de uma ótima HQ, que merece ser assistido.

4 pontos e meio

terça-feira, 24 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “A incrível aventura de Rick Baker” (2016)

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Há um bom tempo me foi recomendado esse filme e eu fiquei enrolando ele pra assistir, achando que ia ser legal, mas não era pra ser assistido com urgência... Ledo engano! Que filmaço eu estava perdendo.

“A incrível aventura de Rick Baker” conta a história de Rick Baker, um delinquente juvenil que nem tem 13 anos e que é levado para viver com um casal de meia-idade que vive numa fazenda no interior da Nova Zelândia. Ao entrar em contato com a simplicidade da vida no campo, Rick Baker começa a melhorar, mas sua “tia” acaba morrendo e então inicia-se uma nova crise em sua vida, acompanhando a crise na vida do “tio”, que resolve fugir para o meio da floresta. Influenciado e perdido, Rick acaba fugindo antes e se perde, mas é encontrado pelo “tio”, Hec Faulkner. O problema é que quando os dois decidem voltar para a civilização, estão sendo procurados pelo polícia e uma série de infortúnios acaba agravando a situação deles, até que ela não pode mais ser suportada.

O filme é uma comédia dramática sobre crescimento, masculinidade e, principalmente, sobre relacionamentos. Não quero me estender muito aqui, até porque isso é fácil de ser notado no filme, mas ele é basicamente um “coming-of-age”, sem os elementos românticos e adicionando elementos masculinos, dando a ele mais robustez e solidificação, pois as crises que Rick e seu tio enfrentam são crises humanas, não indicativos de uma idade apenas, mas de fases da vida, pelas quais podemos passar a qualquer momento e nunca há como se preparar para elas, embora haja uma forma de lidarmos com elas de maneira saudável.

O humor é diverso, variando do refinado para o escrachado, o que acabou me agradando muito e pode agradar tanto a gregos quanto troianos. Você pode até se ofender num momento ou outro, mas isso é passageiro, pois o filme é muito diverso nessa questão e muito maduro também. Apesar de algumas piadas serem bem escrachadas, elas não são tratadas de modo a ofender, mas ocorrem de maneira natural, imitando a vida como ela é.

A narrativa é guiada de forma natural também e o filme cresce de maneira orgânica, embora muitas de suas partes não sejam críveis, se comparadas com a vida real.

Os atores estão todos muito bem em seus papéis, a direção é muito dinâmica, cheia de cortes em momentos ideais e a trilha sonora é recheada de canções clássicas, porém desconhecidas, reforçando esse ar de “coming-of-age” mais cult e maduro.

Enfim, é um excelente filme. Não há o que discutir.

5 pontos

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Dica literária: "Pais & Filhos" de Ivan Turgueniev (1862)

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E continuando meu desbravamento pela literatura russa, decido encarar esse clássico de frente, "Pais & Filhos", a obra prima do escritor Ivan Turgueniev, publicada numa época de grande perturbação social e política no enorme país.

O livro conta a história de dois amigos, Arcádio Kirsánov e Eugênio Bazárov, ambos niilistas, mas Bazárov um pouco mais radical e espécie de mentor de Arcádio nessa "filosofia" de vida. Bazárov é convidado para visitar a família de Kirsánov durante o verão e lá conhece os parentes do amigo, com os quais acaba criando uma certa rivalidade, em especial com o tio de Arcádio, Pavel. Mas é a presença de uma dama, mais velha, viúva e muito bela, a rica Anna Sergueievna Odintsova, que irá desestabilizar, não apenas a amizade dos dois jovens, como o próprio Bazárov e seus preceitos.

Entre mostras do cotidiano russo do século 19 e muitas discussões políticas e filosóficas, o livro desenvolve uma narrativa linear, de fácil leitura e que te guia por suas páginas de forma leve e serena. Li-o em apenas uma semana e com cada livro russo dessa época que leio, fico mais espantado com o talento que seus autores tinham para a narrativa. É fantástica a forma como Turgueniev alia discussões políticas e filosóficas com uma história concisa, de forma que a obra não ganha, sob hipótese alguma, ares de panfletagem.

Mas ela tem uma moral, não se deixe enganar, embora ela só seja esfregada na cara do leitor nas últimas páginas, o que apenas faz com que "Pais & Filhos" ganhe uma força ainda maior, uma obra como poucas, que entretém e ensina ao mesmo tempo.

A história é trágica e, dependendo do seu ponto de vista, poderá ser triste ou feliz. A mim, ficou a impressão de que li um excelente livro, uma bela história moral, muito bem elaborada e construída.

O livro ainda é curto e eu tive contato apenas com uma edição bem antiga e surrada, mas vale a pena adquirir e ter em sua coleção, principalmente se você quiser emprestar para amigos a fim de inicia-los na criativa literatura russa do século 19.

5 pontos

terça-feira, 17 de abril de 2018

Dica televisiva: “O Mecanismo” (2018)

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Numa semana em que uma terrível notícia para o povo brasileiro e uma maravilhosa notícia para todo bandido do país assolou as manchetes dos jornais, saiu também essa série de José Padilha, o mesmo diretor de filmes controversos como “Ônibus 174” e “Tropa de Elite”, com apoio de Elena Soarez no roteiro e Marcos Padro na direção. Uma baita surpresa para mim!

A série é livremente baseada no livro “Lava Jato – O Juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, tomando diversas liberdades criativas para efeito dramático, mas também modificando diversos elementos da vida real, desde os nomes dos envolvidos até as empresas e instituições federais do nosso país. Partindo daí, somos apresentados ao personagem de Marco Ruffo, um policial federal com alguns problemas mentais, que passou a vida toda investigando um doleiro, mas sempre dando com a cara no muro. Sua paranoia o leva a uma indesejada aposentadoria e por fim, sua aprendiz, Verena, continua as investigações de onde ele parou, que a leva até a criar, junto com uma pequena equipe, a Operação Lava Jato.

Primeiro os elogios, pois a série merece muitos. Ainda nos aspectos narrativos, a série merece louvores, pois se trata de um primor nesse aspecto, guiando a atenção do espectador por dois pontos de vista, para então focar no de Verena, criando diversos plot twists já nos primeiros episódios. Há uma narração em off, mas é dos próprios personagens, o que reforça sua atmosfera investigativa classuda, fazendo jus aos melhores filmes policiais que existem por aí.

Quanto aos aspectos técnicos, ela merece ainda mais louvores, pois é um excelente neo-noir gótico classudo, usando e abusando da estética que esses gêneros criaram ao longo dos anos, tanto na literatura, quanto no cinema e “O Mecanismo” mescla tudo isso muito bem. Logo no começo há umas cenas de ação que incomodam, pois Padilha segue uma certa escola de cinema de ação que não é lá muito dinâmica, mas isso é perdoável, já que a série acaba virando um tremendo jogo de intrigas do meio pro final.

E não dá pra deixar de lado as críticas que a série faz ao longo de sua projeção, desde as primeiras narrações de Ruffo, criticando a impunidade do país, até o toma lá da cá de bandidos que acontece em razão dos poderes maiores da justiça brasileira, terminando com um tremendo soco no estômago ao concluir a participação de cada um de nós nesse mecanismo da corrupção brasileira, que não tem fim.

E aqui cabe uma crítica às críticas, pois não demorou para que os esquerdalhas começassem a criticar a série como se ela fosse uma enaltecedora da “direita brasileira” e a série é bem o oposto disso, chegando ao ponto de incluir isso na narração em off do Ruffo nos dois últimos episódios. Isso é fácil de demonstrar por 3 aspectos; (1) logo no começo somos apresentados a dois membros do Ministério Público, um que está mais preocupado com seu doutorado e outro um tremendo machista que faz as coisas quando lhe dá na telha, além de termos um Sérgio Moro adaptado para a série, que é um verdadeiro bundão e vaidoso (ele só começa a trabalhar de verdade pra ajudar a operação quando seu rosto sai nos jornais); (2) essa inatividade dos agentes da lei força os policiais federais a agirem à margem da lei para alcançar os seus objetivos (Ruffo guarda documentos confidenciais em casa, ameaça um empreiteiro e infiltra um espião na sede da polícia em Curitiba), aderindo de verdade a filosofia dos “fins justificam os meios”, derrubando qualquer imagem de herói e, por fim, (3) somos apresentados, minuciosamente, a intrigas políticas, desde do governo até a oposição, todos tirando umas lasquinha de vantagem das investigações e numa interpretação leviana poderia até levar o espectador concluir que a série sustenta o argumento de que houve golpe, mas não houve.

Todos esses aspectos são resquícios de uma narrativa gótica, que se alia a uma estética noir, adaptada para o Brasil do século XXI, que enche os olhos. A cena final no Bingo é um diamante estético e as críticas que muitos estão fazendo a série são simplesmente incabíveis.

Enfim, “O Mecanismo” é a melhor série que a Netflix lançou esse ano. Uma obra corajosa, muito bem produzida e que enche os olhos de quem sabe admirar uma boa arte. Não deixe a ideologia te cegar.

4 pontos

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Dica musical: “Dear Annie” do Rejjie Snow (2018)

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Desde 2013, o rapper irlandês vinha fazendo alarde um álbum e apenas esse ano o seu primeiro álbum de estúdio veio. O resultado não é o que se esperava de 2013, mas também não é uma desagradável surpresa.

Apesar de sempre ter feito alarde de seu primeiro álbum de estúdio, Rejjie Snow passou por diversas mudanças ao longo dos anos. Do som mais old school de Rejovich e suas inúmeras parcerias até o som mais pop de uma série de singles que culminaram em “The Moon & You”, pavimentando o terreno para o lançamento de “Dear Annie”.

Confesso que não era o Rejjie Snow que eu queria, inspirado em MF Doom, com muito espaço para uma instrumentação old school, mas com tantas mudanças ao longo dos anos, pude me acostumar ao terreno onde ele se sente mais confortável hoje em dia, um som mais pop, muito eletrônico, repetitivo, mas com bastante espaço para que ele possa rimar.

É bom ver que ele continua atento a um conceito perpassando suas músicas e que aqui une o álbum inteiro, se colocando como se fosse uma entrevista numa rádio e as músicas sendo os intervalos, que expressam todo o seu amor pela Annie. É uma carta de amor.

No entanto, há uma influência pesada do último álbum do Tyler, the Creator ao longo do álbum, o que me faz questionar a autenticidade de todo o projeto, embora eu ache que ele esteja sendo totalmente sincero ao longo das canções. Ainda assim, incomoda um pouco essa influência pesada.

De uma maneira geral, o álbum agrada, apesar de decepcionar um pouco quem já era fã do cara desde Rejovich. As melhores músicas de “Dear Annie” não chegam aos pés de “Nights Over Georgia”, single que nunca fora lançado num álbum, mas que continua sendo a melhor música que ele já lançou.

3 pontos e meio

terça-feira, 10 de abril de 2018

Dica gourmet: Filé de Peito de Frango Sassami

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Hoje mais uma dica gourmet para vocês e dessa vez alinhada com uma dieta saudável, pois irei falar da receita central de toda dieta de um marombeiro de academia.

Voltei a treinar recentemente (musculação, pois não tenho coordenação motora pra praticar um esporte de verdade), então resolvi fazer algumas mudanças na minha dieta e a principal foi a carne, que não pode faltar nas minhas refeições. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que o quilo de peito de frango, já cortado, é uma das carnes mais baratas do supermercado?

Fiquei contente e já logo adotei a carne branca no meu dia a dia.

A receita que faço é simples, mas muito gostosa, simplesmente frito os cortes de frango, adicionando sal e pimenta do reino em pó depois que a carne já ficou branca. Ele acaba ganhando aquela coloração meio alaranjada que é esteticamente agradável, mas também pode ser feito de outras formas, como com shoyo, o que também é bom, mas eu não gosto tanto do gosto do molho oriental.

5 pontos

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Dica musical: "Wait for Love" do Pianos Become the Teeth (2018)

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Ao longo dos anos, Piano Becomes the Teeth, a banda de Baltimore, formada em 2006, mudou o seu som de forma gradual, indo de um post-hardcore, com influências emo e screamo para um som mais complexo e que só pode ser encaixado embaixo das asas do post-rock e “Wait for Love” é o ápice dessa mudança.

Em “Wait for Love”, todas as influências screamo e hardcore foram abandonadas, dando espaço para um som mais expansivo, dinâmico e complexo, cheio de riffs de guitarra que servem para criar uma atmosfera única, expansiva, por vezes num crescendo quase infindável, mas ora estática e mais pesada.

É um som único, de fato e não é recomendado para todos, porém eu gosto. Acho, inclusive, melhor do que na primeira fase da banda, que, apesar de ser mais fácil de se classificar, era mais genérico e, convenhamos, enchia o saco. Toda a histeria, gritaria e o som excessivamente pesado era apenas uma mostra de imaturidade artística, pois aquilo lá não levava a nada, embora os álbuns fossem bem ambiciosos.

A principal mudança no som da banda é por parte do vocalista, mas aqui ele já se encontra numa área confortável e acaba soando melhor do que nos últimos álbuns, deixando um espaço para que os outros instrumentos possam se desenvolver e favorecer a criação de uma atmosfera e conceito que tornam este o álbum mais ambicioso da banda.

Mas isso não é um sinal de que é um álbum excelente. Embora eu tenha gostado, ainda acho que a banda é limitada e a complexidade do som fica numa área cinza, onde eu não sei se é genialidade ou apenas uma bagunça.

Sendo um ou outro, gostei do álbum e é por isso que ele merece uma dica.

3 pontos e meio

terça-feira, 3 de abril de 2018

Dica cinematográfica: “Real – O Plano por trás da História” (2017)

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Mais um filme reaça lançado ano passado, que merece uma dica d’O Sommelier de Tudo.

Em “Real”, acompanhamos a trajetória de Gustavo Franco, economista responsável pelo Plano Real, que acabou com a hiperinflação que assolava o Brasil nos anos 90 e sua árdua trajetória pelo governo, passando por cargos importantes e culminando numa polêmica investigação conhecida como Banestado.

Já começo dizendo que, assim como o filme da Lava Jato, esse não é um ótimo filme, embora também não seja ruim, é um filme bom e nada mais. Pra começar, ele não entrega o que promete (ao menos o que foi dito nos trailers), porque, pelos trailers, temos a impressão de que irá se tratar de um filme sobe o Plano Real, mas não se engane, esse é um filme sobre Gustavo Franco.

Embora foque nos menos de 10 anos de carreira de Gustavo Franco atuante junto ao governo, é um filme que toca em questões pessoais da vida dele, o seu trato com outras pessoas, familiares e colegas de trabalho, suas posições ideológicas e suas estratégias junto ao governo para ele tentar minar a corrupção e os esquemas de politicagem que sempre existiram no nosso país e acentuaram-se a partir da segunda metade do século XX.

O filme tem ares de panfletagem, embora essa panfletagem se concentre na figura de Gustavo Franco, sendo assim, perdoável. Por exemplo, logo na primeira cena, vemos uma discussão de Gustavo com um amigo seu, carioca, rico e que está pronto para ir trabalhar em Londres para uma multinacional, mas critica Tatcher, a Perestroika, defende programas de incentivo sociais do governo e ainda vota no PT, o típico comunista hipócrita. Essa discussão é recheada de ataques tanto de um lado quanto de outro, embora o lado da esquerda sempre fique mais fraco. Esse tipo de cena ocorrerá outras vezes ao longo do filme, em que Gustavo fica no canto oposto ao seu inimigo e a câmera fica indo de um lado para o outro. É uma sacada interessante da direção e o debate acalorado carrega de tensão a cena, mas quando termina, eu não consegui deixar de sentir um cheirinho de panfletagem no ar.

Mas não é como se não pudesse escapar disso num filme desses, afinal Gustavo Franco é uma figura que divide opiniões, até mesmo pela sua trajetória conturbada, mas o filme lhe garante um status de herói. A narrativa é digna de thrillers de suspense e investigação, como filmes de jornalismo, muito comuns atualmente e prende a atenção. Você pode até não gostar de Gustavo Franco e, nesse caso, irá odiar o filme, mas os produtores, roteiristas e o diretor foram muito competentes em dinamizar uma história que só foi contada de maneira enfadonha, usando para isso tanto recursos narrativos (personagens fictícios, situações que não podem ser comprovadas, etc) e recursos técnicos (a movimentação de câmera de um lado para o outro é um ótimo exemplo disso).

Além disso, o filme conta com uma trilha sonora bacana, é genérica, mas é mais envolvente que a do filme da Lava Jato, auxiliando na dinamização da história contada pelo filme.

Enfim, é um bom filme, contando de forma nunca antes contada uma história que é encarada por todos como algo chato, mas, com esse filme, ficou legal.

3 pontos e meio

quinta-feira, 29 de março de 2018

Dica musical: “Always Ascending” do Franz Ferdinand (2018)

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Olha só que banda clássica está de volta para agraciar os nossos ouvidos! Franz Ferdinand adentra mais uma empreitada, dessa vez por caminhos não conhecidos e a estratégia acaba funcionando.

“Always Ascending” é o álbum mais recente da banda que fez sucesso na época em que ser indie era, genuinamente, legal e logo no começo já nos apresenta uma pegada diferente dos seus últimos lançamentos, que tentavam navegar num mar que já não tinha mais ondas e não sustentava banda alguma, isso ainda em 2013.

Só que lá pra cá muita coisa mudou e a sonoridade que consagrou o Franz Ferdinand se tornou alvo de nostalgia, vide os últimos lançamentos do Choir Vandals e do Los Campesinos, mas ao invés de tentar um espaço entre esses queridos lançamentos nostálgicos, o Franz Ferdinando resolveu enveredar num caminho novo, ousando incluir uma pegada mais pop e dançante ao seu novo álbum. Pegada essa que não é inédita a banda, pois eles já faziam isso, mas dessa vez os teclados e influências de música eletrônica se tornaram mais marcantes e a primeira canção já demonstra isso, embora ela não seja boa, iniciando de maneira discreta até culminar num pop muito eletrônico, que descaracteriza a banda e podia levar a um desastre como o do Fall Out Boy.

Felizmente não é esse caso. A segunda canção, “Lazy Boy” já nos apresenta riffs de guitarra marcantes, um som mais soturno, embora igualmente dançante, que vai crescendo e se tornando magnânimo como o clássico “Take Me Out” e o teclado serve apenas como um auxiliar para manter o ritmo.

E as outras músicas continuam nessa vibe, um ritmo bem marcante, dançante, com teclados que servem para manter o ritmo, riffs de guitarra marcantes e o Franz Ferdinando nunca soou tão classudo como agora. Parece realmente um amadurecimento, embora haja toques eletrônicos irritantes ao longo da maioria das canções, que só servem para quebrar a atmosfera poderosa que as canções têm.

Embora não perfeito, “Always Ascending” é um bom lançamento, apresentando um Franz Ferdinand muito inspirado, maduro e dançante.

3 pontos e meio

terça-feira, 27 de março de 2018

Dica cinematográfica: “Polícia Federal: A lei é para todos” (2017)

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Estava devendo esse filme, que foi uma das pontas da tríada de filmes reaças lançados ano passado (junto com “Real: O plano por trás da história” e “Jardim das Aflições) e, apesar de eu estar focado em assistir todos eles (afinal, um reacinha safado como eu tem que assistir esses filmes), nem todos irão ganhar dicas aqui. Não porque são ruins, mas porque, às vezes, não chama a minha atenção o suficiente para que eu escreva uma dica.

Não é o caso de “Polícia Federal”, filme lançado ano passado e que acabou chamando mais atenção algumas semanas antes de seu lançamento, pelo trailer e pelas críticas dos canais canhotos de informação do país.

Direcionamentos ideológicos à parte, o filme é interessante. Não diria que muito bom, tampouco é mediano, é um filme bom, um thriller policial bem classudo, que não poupa efeitos especiais, carregando o filme de uma atmosfera ultra-moderna (vide as cenas em que os personagens se encontram na sede da PF, cercados de computadores) e músicas genéricas de suspense, que dão um clima bem carregado durante toda a sua projeção.

A obra conta a história do início das investigações da Lava Jato até culminar nas investigações ao ex-presidente Lula, do ponto de vista de personagens fictícios, que servem apenas para representar figuras de dentro da Lava Jato, até porque a operação não passou nas mãos apenas de uma pequena equipe de poucas pessoas.

No entanto, esse é um recurso necessário para contar a história de uma operação que vem se arrastando há anos, descobrindo podres cada vez mais fundos e ligações cada vez mais fantásticas, no sentido de ser algo difícil de acreditar. Logo no começo do filme, somos guiados por investigações que não tinham relações entre si, inicialmente, mas acabaram se encontrando e juntas descobriram um buraco ainda mais fundo, que levou ao maior doleiro do país.

É realmente algo de outro mundo e mostra a magnitude dessa operação, que é considerada por muitos como a maior investigação de corrupção do mundo. E nesse filme, descobrimos que isso não é à toa.

Porque a operação Lava Jato se arrasta por anos, começando com um esquema simples de lavagem de dinheiro, mas chegando até o principal patamar político do país e como brasileiro não leva nada a sério, acabou criando uma mitologia em torno da operação, Sérgio Moro é o Super-homem do Brasil, o Japonês da Federal virou piada, Nestor Cerveró tá com um olho no gato e outro no rato e por aí vai... O filme chega até a enaltecer essa mitologização de suas figuras quando nos agracia com a presença do Japonês da Federal e quando o ex-presidente pergunta ao ser enquadrado “O Japonês não tá aí não, né?”.

Acaba que o filme carrega um certo humor consigo.

Mas é muito mais dramático. Desde a ficionalização das investigações até os momentos em que somos apresentados ao pano de fundo da história de seus personagens. Um dos investigadores votou em Lula e discute com o pai sobre a “perseguição política”. Momentos que não são muito profundos, mas não chegam a cansar, porque o que motiva o filme é realmente o andamento das operações.

E por falar em “perseguição política”, o filme é muito didático nesse quesito, mas sem ser panfletário, embora sofra uma queda pra esse lado no seu final.

Ao longo da projeção de “Polícia Federal” somos guiados pelos caminhos da investigação, avançando muitos anos, com o auxílio de uma narração em off do personagem principal (Ivan) e isso acaba derrubando a acusação absurda que fazem de perseguição política. O filme explica de forma natural as consequências de se investigar o Lula (80% de aprovação quando saiu do governo, não é qualquer um), a questão absurda do foro privilegiado (que deixa livre caras como o Temer e o Aécio Neves) e a importância do vazamento de áudios, que pode ser criticado, mas era um mal necessário para o país naquele momento, afinal, se você tem que arrancar um pedaço do seu corpo pra vencer o câncer, você vai arrancar uma parte do seu corpo, não é?

No entanto, o último terço do filme acaba focando muito na imagem do Lula e o torna quase uma figura central dentro da película, dando a ele (o filme) ares de panfletarismo, o que acaba afastando pessoas com uma visão mais neutra no assunto, mas com tendências a acreditar na conversa pra boi dormir da esquerda.

Outro problema do filme foi logo no começo, quando conectam o problema da corrupção do Brasil com a chegada dos portugueses à América. Ok, o problema da corrupção é inerte ao ser humano, somos animais corruptíveis e tendemos ao mal, pois é através dele (misteriosamente), que alcançamos um prazer imediato, mas bater nessa tecla é enxugar gelo. Afinal, não dá pra mudar a natureza humana, isso é algo que só pode ser feito na consciência de cada um e é inegável que durante a história do Brasil nunca tivemos um Estado tão paternalista quanto o que temos agora. O problema principal surgiu no século XX.

No entanto, superando esse começo e deixando se levar pelo final, “Polícia Federal” se apresenta como um bom filme, mais uma adição de qualidade invejável do cinema nacional, que tem sofrido um bom renascimento nos últimos anos e, o que é melhor ainda, uma virada à direita.

3 pontos e meio

quinta-feira, 22 de março de 2018

Dica literária: “As seis lições” de Ludwig Von Mises (1979)

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Nessas últimas férias decidi pegar mais livros teóricos para ler e entre eles está o “Seis Lições” do Mises, que dizem ser uma boa introdução a economia, de uma maneira geral. Ainda não conversei com meu filtro sobre o assunto (McPhisto), mas acho que esse livro vale uma dica.

“As seis lições” é uma coletânea de palestras dadas em inglês pelo economista austríaco Ludwig Von Mises na Argentina nos anos 50, mas que só foram compiladas após seu falecimento, num projeto encabeçado pela sua mulher, pois, de acordo com ela, se tratavam de palestras que serviriam não só a estudiosos e entusiastas do assunto (Economia), mas também a leigos.

E de fato, é isso mesmo. O livro é dedicado a leigos, pois cada uma dessas lições se foca num tema e acaba introduzindo-o de maneira didática e simples. Ou seja, nada de grandes palavras complicadas ou cálculos mirabolantes e situações hipotéticas que geram outras situações hipotéticas para explicar um fenômeno que pode ou não existir. É simples, curto e grosso, uma explicação de coisas que existem, acontecem e estão presentes no nosso dia a dia. São elas: Capitalismo, socialismo, intervencionismo, inflação, Investimento Externo, Política e Ideias.

Tirando a inflação, que é o capítulo mais complicado, todas são igualmente simples e fáceis de entender, ao menos nas palavras de Ludwig Von Mises e ao final da leitura de cada capítulo, você acaba se tornando um pouco mais capaz para adentrar no campo obscuro que é a Economia, essa área do pensamento humano de que todos falam, mas poucos compreendem, de fato, do que se trata.

Von Mises era um ferrenho crítico do Marxismo e de ideias de esquerda de uma maneira geral, mas nesse livro podemos ver que ele não era um total anarcocapitalista como pintam por aí. Muito pelo contrário, ele aponta para a importância de um governo e mesmo que suas sensibilidades esquerdistas possam se ofender com os dois primeiros capítulos da obra, a leitura vale a pena para compreender a forma como a Economia, como um todo, funciona, não apenas em nosso país, mas no mundo, afinal, o livro se trata de lições universais.

Em suma, “As Seis Lições” é um livro didático, mas com um valor para além da sala de aula, é um livro para ser levado para a vida, ainda que você não goste de Economia, nem se interesse pelo assunto. No mínimo, o livro irá servir para que você tenha uma compreensão um pouco melhor das manchetes de jornais.

4 pontos