quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Dica literária: “Wise Blood” de Falnnery O'Connor (1952)

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De acordo com a escrita do livro, Flannery O’Connor, esse livro foi escrito com grande entusiasmo e é com grande entusiasmo que esse livro deve ser lido e foi com grande entusiasmo que eu li esse livro.

Seguimos Hazel Motes, um jovem rapaz que volta da guerra para sua casa no interior do sul dos EUA e descobre que não sobrou ninguém na antiga cidade onde morava, então ele compra um terno novo, um chapéu e vai para uma cidade grande, a fictícia Taulkinham. Por causa de seu novo chapéu, Hazel é confundido com um pastor de igreja e então ele revela todo o seu ódio da religião, com raízes na sua criação como filho de um pastor. De saco cheio das pessoas confundirem ele e para desafiar um pregador cego, Hazel decide fundar a “Igreja Sem Cristo”.

Junto com Hazel Motes acompanhamos outros personagens nessa narrativa leve, bem montada e harmoniosa, com um toque de humor negro e muita profundidade religiosa.

O livro é muitas vezes vendido com um livro bem-humorada, mas esse é o meu primeiro ponto de divergência, porque o livro é todo constituído por um humor negro, fruto da ironia com a qual Flannery trata os seus personagens desajustados. Esse humor negro acaba dando ao livro e suas diversas passagens inspiradas um tom melancólico, quase deprimente, como no caso das passagens envolvendo Enoch Emmery, um garoto de 18 anos, perdido na cidade e que se aproxima de Hazel. Por causa de sua solidão, Enoch acaba se alienando e compromete-se numa série de ações impensadas, resultando numa inesperada e cruel reviravolta.

Flannery era uma devota católica, passou a vida inteira no sul dos EUA, uma região religiosa, mas de minoria católica e, provavelmente por isso, ela não perdoa em sua direção dos eventos contados no livro. O final é igualmente cruel e confuso, mas não irônico, pois é intencionalmente ambíguo, como a própria autora revelou em entrevistas.

O livro é também resultado de um longo trabalho de união de fragmentos e percebemos isso em alguns capítulos dispersos, que não contribuem diretamente para a narrativa de Hazel Motes, mas contribuem para a intenção do livro. Intenção essa que não ficou clara para mim e me deixou um pouco decepcionado, confesso, pois comprei o livro quase por impulso, sabendo que Flannery era católica e tendo lido um conto dela (talvez o seu mais famoso, “A good man is hard to find”), esperando uma bela história de redenção a-lá Dostoiévsky, mas me deparo com uma obra do modernismo tardio, recheada de ironia, nebulosa e sinistra, com uma ambiguidade religiosa que perturba.

Ainda assim é dica e por quê? Simples, porque Flannery O’Connor é uma baita duma escritora e a ambiguidade de sua obra abre espaço para uma ampla gama de interpretações que podem muito bem servir para qualquer um. Sua crítica às diversas instituições religiosas por aí, igrejas de esquina, que só se preocupam com o dinheiro é um soco no estômago de muita gente. Sua acidez ao tratar do ateísmo, embora nunca use essa palavra, mas todos sabemos de qual atitude ela está falando, é mordaz. E o caminho que ela traça para a Salvação é um só, é o caminho milenar da Igreja, que pode perturbar, mas a Verdade é dura de se escutar.

Quem não vem pelo amor, vem pela dor.

Sem contar ainda que ela escreve muito bem. Como já disse, a leitura é leve, progride rapidamente, suas descrições são gostosas de ler, seus diálogos, apesar de estranhos, revelam o nível de alienação de seus personagens e tudo isso exalta o humor negro da obra, que foi muito bem escrita.

É dessa forma que concluo a dica de um livro muito bom e que merece ser lido, apesar dos pesares.

4 pontos

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Dica cinematográfica: “No quarto escuro de Satã” (1972)

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Ou “Il tuo vizio è uma stanza chiusa e solo io ho ne la chiave”, título maravilhoso para um filme mais maravilhoso ainda.

Adaptação livre de “Black Cat” do Poe, o filme conta a história de Oliviero, um escrito falido que mora com a esposa, Irene, numa villa em Venetto e o gato deles, Satana. Com a morte de sua amante, Oliviero se torna o principal suspeito do crime e quando a empregada de sua casa também morre, o escritor se desespera e, com a ajuda de sua mulher, esconde o corpo da empregada numa parede da casa. Pouco tempo depois a sobrinha de Oliviero chega, Floriana, causando desordem da frágil relação construída.

O filme é um ótimo exemplo de giallo, contendo todos os elementos numa adaptação muito criativa de um clássico. Li por aí que o diretor é um mestre do cinema italiano, pelo menos dentro do giallo, mas posso atestar quanto a isso. De qualquer forma, o filme carrega todos os elementos que consagraram o gênero, mistério, muito sangue e, claro, belíssimas mulheres!

Edwige Fenech está fantástica nesse filme, usando um corte de cabelo curtíssimo, porém extremamente charmoso, vestindo saias curtas exuberantes e exibindo toda sua beleza natural explicitamente diante das câmeras. O sangue é vibrante, do estilo que era feito naquela época para chamar bastante a atenção, bem característico e mesmo sendo uma adaptação de “Black Cat”, o filme ainda conseguiu me surpreender com seu final.

A direção é realmente muito boa, nos colocando no papel de um espectador impotente quanto ao que está acontecendo, somos nada mais do que voyeurs, como a maioria dos filmes giallo por aí. A trilha sonora, composta de músicas de rock da época, anima o filme e dá uma qualidade nostálgica a ele.

No final, “No quarto escuro de Satã” peca apenas pelo seu tamanho. O filme acaba se estendendo demasiadamente em alguns momentos e isso cansa um pouco o espectador. De qualquer forma, o esforço tomado compensa, principalmente pela sequência final.

4 pontos e meio

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Dica teórica: “The Way of Men” de Jack Donovan (2012)

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Estrelando uma nova dica no blog (pois percebi que esses livros não podem ser inseridos junto com os livros de literatura que leio e indico por aqui) mais uma dica de livro que pode não ser tão bem visto e eu mesmo tenho minhas críticas, mas é uma ótima adição à discussão a que se propõe fazer.

“The Way of Men” é um livro lançado em 2012, escrito por Jack Donovan, um controverso escritor dos EUA, mas que reuniu nesse livro diversos pontos sobre a masculinidade que merece ser reconhecido. Em “The Way of Men”, Donovan propõe-se a encontrar o “caminho dos homens”, explicar o que é isso e qual a importância disso na sociedade atual.

O livro explora questões delicadas sobre a masculinidade e busca respostas em uma série de artigos, livros, documentos e estudos sobre o tema. Desde questões mais subjetivas, como a forma como a masculinidade é tratada por diversas culturas, através do tempo; até questões mais científicas, como questões biológicas do corpo masculino.

A tese que Donovan defende é de o caminho do homem é o caminho do grupo. Todo homem se encaixa dentro de um grupo pequeno de outros homens e esse grupo é parte necessária da sua vida e o que define a sua masculinidade. A masculinidade é regida por 4 virtudes, que são colocadas a prova dentro do grupo em que o homem pertence. Essas virtudes não são morais, como Donovan defende: a força, a coragem, a maestria e a honra.

Definidos esses pontos, Donovan parte para a defesa dessa tese com base na mitologia, estudos sociais e biológicos, fazendo uso de comparações que vão da Fundação de Roma até os grupos de macacos Bonobo.

É um livro muito bom.

No entanto, sua abordagem excessivamente defensiva incomoda. A todo momento, o livro levanta críticas e já as derruba, sempre colocando-se um passo à frente dos supostos críticos. Essa atitude acaba cobrindo boas partes do livro, que poderiam ser utilizadas para explorar mais as questões abordadas no livro. Donovan é um grande admirador do Brett Mckay (que eu também admiro muito), mas em nenhum momento de sua escrita Brett assume a posição defensiva de Donovan. A mesma coisa acontece com Robert Bly e Moore e Gillette. Para se falar de masculinidade, não precisa se defender, afinal, se você tem tanta certeza do que fala, as críticas se consumirão por si só.

Outra diferença entre Donovan e esses outros grandes autores sobre masculinidade é que Donovan assume uma postura apocalíptica nesse livro. Mesmo quando ele chega no final e aborda alternativas para que os homens possam seguir, ele não é direto ao ponto e sua argumentação, consistente até então, torna-se rasa.

Ainda assim, achei interessante encontrar uma similaridade muito grande com outros grandes livros sobre a masculinidade, como “Iron John” e “King, Warrior, Magician, Lover”. As virtudes que Donovan descreve se relacionam perfeitamente com os arquétipos masculinos e a abordagem do caminho do homem como o caminho do grupo vai de encontro com a argumentação de Bly ao dizer que o problema da masculinidade hoje em dia é a falta da iniciação, que depende, exclusivamente, de outros homens.

E é bem por aí... o caminho do homem é o caminho do grupo. Precisamos de um grupo de homens para sermos homem, o caminho do homem é um caminho de construção infinita. Você não nasce um homem, muito menos se torna um. Você cresce e entra no grupo de homens e só o tempo e o reconhecimento dos pares irá dizer que tipo de homem você é.

3 pontos e meio

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Dica cinematográfica: “Giovanna D’Arco al rogo” (1954)

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Esse é um filme que queria assistir a bastante tempo e, quando finalmente assisti, que agradável surpresa tive! Um filmaço!!!

Dirigido pelo excelente Roberto Rossellini, “Giovanna D’Arco al rogo” é mais um dos filmes religiosos que o diretor fez e, como o título já diz, conta a história da santa guerreira da França. Este filme se propõe a ser mais uma cinebiografia, mas acho que pelo fato do gênero não ser ainda tão bem desenvolvido como o é hoje, conta com várias liberdades criativas, como iniciar o filme com Joana já morta, mas acompanhando toda a trajetória de sua vida.

Apesar do elemento fantástico, o filme se encaixa nos preceitos neorealistas de Rossellini, pois para o diretor, o neorrealismo deveria acompanhar um personagem do começo ao fim, sem descanso e nós acompanhamos não apenas a trajetória de Joana, mas as suas próprias reações a trajetória que assiste.

E assim assistimos a um filme montado como uma peça de teatro, onde num primeiro plano ocorre a ação principal e num segundo plano, Joana acompanha a peça, sendo ela mesma a peça principal. Acompanhamos então a criação do mito de Joana D’Arc, não sua história propriamente dita.

Rossellini já inicia o filme com o mito e então nos mostra a genealogia desse mito, a construção dele e os processos que ele foi passando. Para quem estuda mitologia, o filme é um prato cheio que daria uma boa análise. Eu, que estou escrevendo isso antes de jantar, vou poupá-los disso e deixar a análise mais profunda para um dossiê futuro.

Como já disse, o filme tem uma montagem teatral em toda a sua projeção, mais ou menos como “Percival, o gaulês”, então podemos esperar cores vivas, uma câmera fixa acompanhando toda a ação e momentos quase metalinguísticos. A beleza desse filme é inigualável, ainda mais levando-se em conta o momento de sua produção e é um exemplo perfeito da genialidade de Rossellini e o meu favorito dele, até agora.

5 pontos

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Dica literária: “Frost: Poems” (2012)

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Mais uma dica de poesia para contribuir para minha meta de começar a ler poesia pra valer nesse ano e, dessa vez, um dos melhores poetas estadunidenses de todos.

Robert Frost foi um poeta que viveu de 1874 a 1963 (ano em que meu pai nasceu), recebeu 4 prêmios Pulitzer e se tornou uma das maiores vozes da poesia modernista americana e é considerado, por alguns, como o poeta que melhor soube lidar com as dicotomias exploradas pelo movimento modernista americano.

Frost passou a vida toda morando em regiões interioranas dos EUA e isso é muito marcado em sua poesia. Há diversos poemas retratando momentos breves e singelos, típicos da vida do interior e, mais do que isso, da vida no campo, como colher frutas, plantar sementes de flores ou uma caminhada após a missa.

Além dos poemas mais curtos, Frost, como todo bom modernista, elaborou diversos poemas longos, “epiquezando” o ordinário, as atividades comuns e cotidianas. Outros poemas elaboram uma narrativa única, cheia de diálogos entre personagens, mas com poucas descrições, sendo claramente bons exemplos do imagismo. Algo que talvez nem tenha sido intencionado por Frost.

Como leitor ignorante de poesia, ainda me perco muito nos poemas maiores, mas alguns dos poemas menores de Frost realmente me tocaram, como “My November Guest”, em que o início do inverno marca a chegada também das tristezas, algo que poderia ser analisado como um sintoma de “depressão sazonal”. Ou ainda “Wind and Wind-Flower”, em que o poeta transforma dois amantes em elementos da natureza e o relacionamento deles não poderia ser mais diferente e mais harmônico do que isso.

Essa dicotomia entre o romântico e o realista, o velho e o novo, o campo e a cidade está presente em toda a poesia de Robert Frost, mas não é um encontro entre dois rivais miméticos, como o é na poesia de Pound. É mais um encontro entre duplos que se reconhecem como tal, cada um impulsionando o outro para frente.

É um poeta único, de fato e muito bom naquilo que fez. Por sorte recebe hoje um tratamento de primeira. A edição que li de seus poemas é a editada pela “Everyman’s Library”, que publica ótimos livros de poesia num formato de luxo de bolso. No volume de Frost, reuniram 3 de seus livros numa belíssima edição pocket.

Vale muito a pena conferir.

5 pontos

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Dica cinematográfica: “Unforgiven” (1992)

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Mais um filme fantástico que pude aproveitar esses dias. Após muita procura, encontrei diversas listas de filmes na internet que me fizeram entrar em contato com muitas obras cinematográficas que eu ainda não conhecia, mas que já sabia que ia valer a pena. Algumas foram decepcionantes, mas, por enquanto, a maioria têm sido uma ótima surpresa.

Este filme dirigido e estrelado pelo mestre Clint Eastwood, uma instituição cultural vivente, conta a história de um fora-da-lei aposentado e falido, mas que é chamado para um último serviço por um garoto muitos anos mais novo que ele, mas com um ego maior que o mundo. A missão é matar dois cretinos que se cortaram uma prostituta numa cidade pequena e não receberam o devido castigo pelo xerife canalha da cidade. Em meio a tanta podridão, o resultado não poderia ser diferente de muito derramamento de sangue.

Feito em 1992, é claro que o filme tinha que ser uma desconstrução de todo o gênero western e quem melhor para desconstruir o gênero que um dos pilares do gênero? Clint Eastwood interpreta a si mesmo, mas faz uma releitura imaginando o futuro de seus heróis do Velho Oeste num período em que as mitologias já não eram mais tão fáceis de serem criadas. Aqui conhecemos a lenda já depois de ter sido lenda. O personagem de Clint Eastwood, Bill Munny, é uma lenda do Velho Oeste, conhecido por ter matado gente demais, mas se encontra numa situação deplorável, sem mulher, cuidando de porcos, enquanto tenta conseguir dinheiro pra sustentar os seus dois filhos, sem nem conseguir montar num cavalo direito.

Quando ele recebe a proposta de trabalho, a resposta é óbvia, embora tenha o seu devido grau de dramaticidade pra segurar o espectador. Todo o resto do filme acompanha essa desconstrução do gênero, que o próprio Clint Eastwood ajudou a catapultar com seus clássicos ao lado de Sergio Leone e que já havia se desgastado nos anos 90.

As mortes são sangrentas, sem charme e tão rápidas que quase não dá pra sentir, mas é pelo fato de não sentirmos que acabamos sentindo-as. Ao vermos o corpo de um dos personagens principais expostos na frente de um salão, ficamos assustados, pois sequer vimos ele ter sido morto, mas sua exposição crua perturba.

Os personagens dúbios pecam, mas ao mesmo tempo sabem disso e aceitam seu destino cruel, embora com relutância, pois estão sempre lutando para sobreviver, afinal são seres vivos. Essa frieza ao tratar de temas que foram tão romantizados é pesada e feita de um jeito, nesse filme, que espanta de verdade.

No entanto, Bill Munny é imbatível. Apesar de decadente, tanto quanto o cenário que o cerca, ele permanece impassível, como uma ilha num mar de podridão e o que antes era uma desconstrução, só serve para reforçar o gênero e a lenda de Bill Munny.

Vale muito a pena!

Fora isso, temos uma produção impecável. Não é à toa que é um dos melhores filmes do Clint Eastwood e eu ouso dizer que o melhor que ele já dirigiu. A cidade foi criada especialmente para o filme e com um nível de realidade que forçou a recriação dos mínimos detalhes. Os efeitos especiais são todos práticos, reforçando o realismo e a crueza pela qual os acontecimentos são exibidos. Do ponto de vista técnico, é um filme imperdoável, pois não há nada a ser perdoado.

No final, é um filme imperdível.

5 pontos

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Dica literária: “Shakespeare: Teatro da Inveja” (2010)

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Mais um livro do Girard, o primeiro escrito pelo homem que li (completei) e valeu muito a pena.

Em “Shakespeare: Teatro da Inveja”, Girard toma uma posição ousada e promove uma revolução na análise literária ao enquadrar toda a carreira de Shakespeare sob a sua teoria mimética. Focando cada capítulo em um detalhe de alguma peça, algumas peças ocupando mais capítulos do que outras, Girard apresenta todos os pontos necessários de sua teoria mimética, mas com exemplos de Shakespeare e um de James Joyce, retirado do capítulo de “Ulysses” em que Bloom faz uma palestra sobre Shakespeare.

Com uma argumentação clara e concisa, Girard explora todos os temas fundamentais de sua teoria, desde o desejo mimética, a relação triangular que formamos, a rivalidade mimética, a escalada da violência, a crise e, finalmente o sacrifício e o bode expiatório.

Inicialmente planejado para ser uma análise cronológica, Girard percebeu que tal abordagem seria desvantajosa considerando sua teoria, então decidiu se concentrar nas obras, o que foi uma excelente escolha. Ele apresenta as obras fora de ordem, mas ao mesmo tempo apresenta sua teoria da forma mais clara possível, com clássicos exemplos das comédias, tragédias e até sonetos de Shakespeare para ilustrar sua teoria revolucionária.

O livro é um ótimo ponto de partida. Sei disso, pois já tentei ler “Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo”, mas não consegui prosseguir após umas 100 páginas. A linguagem usada é a mais simples possível. O gênero usado é o de um texto argumentativo, mas também uma espécie de diálogo com o leitor, onde Girard apresenta seus pontos, mas nunca deixa de incluir o leitor no mundo, colocando-nos a todo momento dentro da argumentação para que possamos pensar sobre o que nos foi apresenta e poder, através de nossas próprias meditações, chegar aos mesmos resultados.

A obra foi elaborada nos anos em que Girard estava na John Hopkins University e funciona como uma contra-parte do pensamento filosófico francês do qual ele poderia ter se enquadrado, mas (ainda bem) não foi. Girard joga Shakespeare dentro da enorme narrativa que é a do Desejo Mimético e, não satisfeito, faz da própria vida do dramaturgo um participante ativo e consciente dessa grande narrativa, algo não apenas longe do padrão do pensamento filosófico francês de seus contemporâneos (Derrida, Foucault, Baudrillard e outros), mas longe de toda a estrutura de pensamento atual, que rejeita grandes narrativas numa tentativa funesta de “validar” a tudo, mas que acaba por desvalorizar tudo.

Tão cedo como começa, o livro termina num fôlego final que não cessa, deixando para o leitor a conclusão e é dessa forma que encerro também essa dica.

5 pontos

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Dica cinematográfica: “The Soviet Story” (2008)

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É difícil recomendar documentários, porque é difícil eu achar documentários bons. Felizmente encontrei esse aqui.

“The Soviet Story” é um filme de 2008 que visa contar exatamente o que o título diz, a história da União Soviética. O filme começa com a formação da União Soviética em 1922 e logo em seguida com a escalada de Stalin ao poder. A partir daí o filme retrata os horrores instaurados na Rússia, a coletivização da agricultura, os Gulags, o Grande Expurgo, o genocídio do Holodomor, o massacre de Katyn e sua ligação com o partido nazista.

O documentário é mais uma forma de revelação dos podres ocultos da União Soviética, que muitas vezes passam despercebidos pelas grandes narrativas nas quais a URSS passou, como a vitória sobre os nazistas, sua batalha ideológica com os EUA durante a Guerra Fria, a influência sobre a Ásia e a queda do muro de Berlin, enfim... tantos acontecimentos que acabamos esquecendo do que estava por baixo dos panos.

E esse documentário serve para isso, para lembrar alguns, para apresentar a outros e uma pequena parcela pode optar por se ofender e taxar o conteúdo como “propagandista” ou algo do tipo. Não vou esconder que o filme tem um forte teor ideológico, notável pela quantidade de passagens sentimentais, com entrevistas com pessoas que viveram na época e uma atenção grande à suas lágrimas, mas é assim com qualquer documentário sobre crimes de guerra.

A produção foi muito bem feita, com várias e extensas entrevistas, uma pesquisa vasta de acervos com fotos e documentos escritos comprovando o que está sendo afirmado pelos produtores, além de uma qualidade artística muito boa.

Enfim, um documentário necessário, assim como muitos outros.

4 pontos e meio

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O herói africano

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Durante uma aula de literatura, a professora lança a seguinte frase (reproduzida aqui livremente e não literalmente, mas mantendo o sentido): “Meu problema com Pantera Negra é que no final há um herói que salva todo mundo. Não acho que as culturas africanas têm um herói. Isso é uma invenção americana, os africanos resolvem tudo no nível da comunidade”.

Ela não poderia estar mais errada.

Obviamente não me levantei na sala para expor alguns fatos que iriam derrubar essa frase, mas fiquei pensando nisso e tenho que compartilhar isso, afinal, por menor que seja o alcance de meus posts, eles alcançam algumas pessoas e esclarecer alguns pontos acerca da mitologia africana e o nosso conceito de herói, sempre será útil, não importa o alcance.

Comecemos pela própria terminologia da palavra “herói”. Etimologicamente, origina-se do termo grego hrvV, que mais tarde foi para o latim na forma de heros. No entanto, algumas fontes (não muito confiáveis, diga-se de passagem) indicam que um egiptólogo do século 19, Gerald Massey, afirmou que a palavra “herói” vêm do termo egípcio “Ma Haru”, que significa “O Típico Guerreiro” ou “Verdadeiro Herói”1. Provavelmente uma mentira descarada, mas, por experiência própria, sei que a verdade pouco importa no meio acadêmico, o importante é a crítica social.

Uma página de wiki sobre mitologia montou uma espécie de guia para os diferentes seres mitológicos africanos. Na seção “Rules and Heroes” é dito que muitos heróis foram transformados em divindades menores, como Shango, o deus das tempestades dos Yoruba, que pode ter sido um rei guerreiro2. Ou ainda o exemplo do primeiro rei Zulu, que provavelmente foi filho do deus do sol. E não é essa a mesma narrativa de Baco, o deus do vinho da mitologia grega ou Hércules, o filho de Zeus?

Mas além dessas similaridades, temos que buscar informações sobre o conceito de herói, que pode variar de contexto para contexto. Resumidamente, podemos afirmar que o herói é aquele que se sacrifica, tanto literalmente quanto figurativamente, para o bem de uma comunidade e a partir daí é reconhecido como um herói3. O próprio Michaellis reconhece o herói como “alguém conhecido por seus feitos”4. Nós vemos que esses feitos são obtidos através de desafios que o herói passa e ao final ficamos sabendo do que é importante para aquela determinada cultura a qual o herói pertence, como bem explicado por Levi-Strauss em sua Teoria de Oposição Binária5.

É por isso que os heróis geralmente nascem de grandes narrativas, o que nós chamamos de epopeia ou narrativa épica nada mais é do que histórias de (super)heróis e seus feitos6. Se há um herói africano, há um épico africano?7

É lógico que sim e não apenas um!

O primeiro deles e mais famoso é o épico de Mwindo, um exemplo fantástico da tradição oral africana, transcrito 4 vezes desde que chamou a atenção de ocidentais nos anos 508 conta a história de Mwindo, filho de Shemwindo, que tinha 7 esposas e após receber um presságio de que seu filho iria derrubá-lo do trono (já notou a similaridade com um certo mito grego?9), então decretou que todas as suas mulheres deveriam ter filhas. No entanto, sua sétima esposa Nyamwindo, que também era sua favorita, teve um filho. Shemwindo então tenta assassinar o bebê, que devido às suas habilidades sobre-humanas consegue sobreviver, até que é jogado num rio e vai parar na casa de seus tios. Após isso, Mwindo lidera seus tios para a vila de seu pai, mas seus tios destroem tudo e matam todos as pessoas do vilarejo. Mwindo então entra numa jornada pelo mundo dos mortos, a fim de fazer as pazes com seu pai, mas antes enfrenta Muisa, o governante do mundo dos mortos. Quando Mwindo salva seu pai, os dois fazem as pazes e passam a reinar juntos sobre a vila, que Mwindo reconstruiu. Após isso, Mwindo mata um dragão e é castigado pelo deus do trovão. Ele passa um ano de castigo e volta prometendo nunca mais matar um ser vivo, tornando-se um dos mais prósperos e pacíficos governantes. 10

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A história de Mwindo é passada de geração em geração pelo povo Nyanga11, que habita o Congo e nos revela as relações entre o povo Nyanga e o povo Pygmy. Povos distintos, mas que habitaram a mesma região, nem sempre de forma pacífica, mas no épico é celebrada de maneira positiva.

Além de Mwindo, temos ainda o épico de Sundiata12, o rei leão e fundador do Império Mali, que governou uma extensa região do oeste africano entre 1230 e 160013. Confirmado como uma figura histórica, seu personagem ganha ares mitológicos no épico de Sundiata, que segue de maneira bastante fiel a teoria do monomito14. Sundiata é destinado a ser líder do Império Mali, mas tem seu trono usurpado pela madrasta, então é exilado. Sundiata aceita essa condição, sabendo que um dia retornará e em seu exílio cria laços com diversos líderes de outras tribos vizinhas, ganhando o respeito de muitos guerreiros, que um dia viriam a ajuda-lo a ocupar o seu devido lugar no trono de Mali15.

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Sundiata foi conhecido como rei leão quando em vida e sua história realmente se parece com a do filme da Disney, embora o filme seja primariamente inspirado em Hamlet. Isso indica que nossas histórias tradicionais de mitos seguem uma estrutura de pensamento similar em toda a nossa espécie humana. O épico de Sundiata também nos conta a história de uma figura história, embora ficcionalizada. Da mesma forma é o mito de Bayajidda16, que documenta o surgimento do reino Hausa17, que compreende a atual Nigéria18.

Como dá pra se perceber, esses épicos não compreendem apenas uma pequena região africana, mas se espalham por todo o continente. Temos ainda o épico de Miqdada e Mayasa19, que relaciona a cultura Swahili com a cultura muçulmana e o épico de Lyiongo20, épico nacional da cultura Swahili, situada no leste africano21.

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Ainda no leste africano, mas fora do continente (olha só!), temos o épico nacional de Madagascar, Ibonia22, que conta a típica história de um herói real que parte numa jornada para salvar sua amada. Sua tradução já virou domínio público e pode ser conferida aqui.

Como vimos a lista é extensa e esse breve catálogo foi coletado numa pesquisa rápida, mas não apenas de épicos vivem os heróis africanos. A história de Makoma transborda testosterona, não é um épico, foi coletada no livro laranja de conto de fadas de Andrew Lang e conta a história de Makoma, que já nasceu um homem adulto, próximo ao rio Zambesi (que atravessa uma porrada de países, então é difícil saber de onde vem essa história), munido de um martelo, com o qual ele derrota desde crocodilos a gigantes23.

Além dos heróis masculinos, temos ainda a história de Thákane24, um mito sul-africano sobre uma caçadora de dragões25.

Como vimos, o conceito de herói não só encontra uma definição que abrange todos os heróis do mundo, como ainda pode ser encontrado em todos os lugares do mundo, inclusive a África. Aliás, afastar a África do ocidente, apenas porque nossa cultura parte da Europa é um erro gravíssimo. A Europa tem muito da África e vice-versa. Culturas são intercambiáveis e como tal, heróis também.

Nós nos acostumamos com um conceito americanizado de super-herói, com capa e super-poderes, mas muito da essência desse conceito é universal, como sua trajetória de aprendizado e aperfeiçoamento, seus talentos naturais e sua amizade com a vizinhança.

Fontes:

1 https://solarflareark.wordpress.com/2011/07/21/african-origins-for-hero-myths/

2 http://www.mythencyclopedia.com/A-Am/African-Mythology.html

3 https://myhero.com/elie-wiesel-concept-of-heroes

4 http://michaelis.uol.com.br/busca?id=WoVeb

5 https://lewisjoslina2media.wordpress.com/2013/10/12/narrative-theories-claude-levi-strauss-and-binary-opposites/

6 http://faculty.goucher.edu/eng211/epic_traditions_the_hero.htm

7 https://www.britannica.com/art/African-literature/The-riddle#ref1027492

8 http://www.greatbooksguide.com/Mwindo.html

9 https://mitologiagrega.net.br/edipo-e-jocasta-um-romance-proibido/

10 http://www.mythencyclopedia.com/Mi-Ni/Mwindo.html

11 https://www.encyclopedia.com/history/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/mwindo

12 http://editoramelhoramentos.com.br/v2/titulos/sundjata-o-principe-leao/

13 https://www.sahistory.org.za/article/empire-mali-1230-1600

14 https://migreseunegocio.com.br/jornada-do-heroi/

15 https://orias.berkeley.edu/sundiata

16 https://www.naija.ng/624747-exclusive-hausa-history-daura-kusugu-well-bayajidda-myth-photos.html#624747

17 http://dierklange.com/pdf/recent_articles/2012_BAYAJIDDA_MAY_31_Deckblatt_2.pdf

18 https://www.britannica.com/place/Hausa-states

19 http://africanpoems.net/epic/the-story-of-miqdad-and-mayasa/

20 http://africanpoems.net/epic/the-legend-of-liyongo/

21 https://aulazen.com/historia/a-cultura-e-civilizacao-swahili/

22 http://www.oapen.org/search?identifier=646721

23 http://mythfolklore.blogspot.com/2014/06/africa-makoma.html

24 https://www.mythpodcast.com/4317/53-african-folklore-crocodile-tears/

25 https://www.rejectedprincesses.com/princesses/thakane

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Dica literária: “Absalom, Absalom!” (1936)

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Mais uma obra de Faulkner e mais um livro difícil. Capenguei pra ler esse aqui.

“Absalom, Absalom!” é um livro escrito por William Faulkner (um dos favoritos aqui do blog) em 1936 e conta a história de Thomas Sutpen, uma das figuras lendárias da cidade fictícia de Jefferson, no condado de Yoknapathawpha, Mississipi. Conhecemos Sutpen do momento em que ele chega em Jefferson, sem nenhuma possa significativa, compra 100 milhas quadradas de terra, povoa ela com escravos negros obtidos de algum país africano, constrói uma enorme casa e casa com a filha de um mercador da cidade, dando o pontapé no seu plano de iniciar uma dinastia. O problema é que Sutpen é uma pessoa com um passado e ele já teve um filho com uma estrangeira, parte negra, que vira amigo de seu filho “legítimo”, Henry Sutpen, voltando para assombrá-lo, motivado por vingança.

O problema é que essa história inteira é contado do ponto de vista de pessoas externas à história de Sutpen quase meio século após a morte dele. Essa sinopse que eu dei é trapaça, não é assim que ela é apresentada ao leitor, mas foi a única forma que eu encontrei de conta-la, motivada por uma resenha do livro que eu tive que assistir pra me ajudar a ler. Além da resenha, acabei indo até o SparkNotes ao fim de cada capítulo, porque o livro é realmente complicado de acompanhar.

Mas assim como “O Som e a Fúria”, você tem que se deixar levar pela história, tem que se deixar afundar no universo que Faulkner criou para a sua história, você irá pegar apenas fragmentos, mas esses fragmentos são capazes de formar um todo mais ou menos coerente e nem sempre será necessária uma ajuda externa.

Além da narrativa fragmentada, temos ainda um texto expansivo, cheio de adjetivos em cima de adjetivos, com longas descrições e ponderações sobre a história de Sutpen (porque estamos lendo relatos, então há comentários sobre a história dentro da história). Imenso não é um adjetivo que serve pra descrever o que acontece aqui. Uma das passagens no livro é conhecida como a maior sentença em obra literária da língua inglesa, com mais de 1000 palavras!

Vou confessar, esse formato do texto me cansa e pela primeira vez em muito tempo tive que voltar a minha antiga técnica de leitura que é me forçar a ler 5 folhas (ou 10 páginas) por dia, porque ao final de cada folha eu já estava com a vista cansada de tantas palavras numa formatação justificada, com itálicos que entravam no meio do relato e você tem que pensar quem é que está pensando ou o que de fato está acontecendo pro estilo mudar de uma hora pra outra.

Como disse o mesmo resenhista que eu já mencionei, esse livro é o “romance gótico sulista pra acabar com todos os romances góticos sulistas”. Não concordo, porque não li tantos romances góticos sulistas assim, mas realmente, é uma obra gótica sulista essencial. Há todos os elementos do gótico, perfeitamente adaptados na realidade sulista dos EUA, finalizando ainda de uma forma niilista que é de estranhar no Faulkner pós-“Luz em Agosto”, embora isso seja de fácil justificação considerando que é meio que uma prequela a “O Som e a Fúria”.

Essa obra é mais uma daquelas que eu tenho que reler e vou reler ainda um dia, porque tem muitas coisas dentro dela, muitos detalhes, personagens, acontecimentos, enfim... é expansiva. Imensa!

5 pontos

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Dica cinematográfica: “Summer Days with Coo” (2007)

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Esse filme tem mais de 10 anos e eu nunca havia ouvido falar dele até entrar em contato com uma lista de filmes animados do Japão muito bons no Mubi. Foi uma agradavelmente fantástica surpresa!

“Summer Days with Coo” conta a história de um kappa, que após ver seu pai ser morto, ficou preso na terra após um terremoto. Muitos séculos após sua morte, ele é descoberto por Kouichi na forma de um fóssil. Interessado, o menino lava o fóssil e aos poucos o kappa vai acordando. Logo, ele ganha um apelido, Coo e passa a questionar sua situação naquele mundo que é muito diferente do mundo que ele conhecia.

O filme segue uma estrutura típica de um coming-of-age, mas com a figura exótica de um kappa. Tem os diálogos existencialistas, momentos engraçados e uma narrativa que avança e cresce até tomar rumos inesperados, mas finalizando com um final, ao mesmo tempo, feliz e melancólico.

É o tipo de filme que eu gosto, mas que eu entendo quem não gosta.

E este filme sofreu críticas muito rígidas na época de seu lançamento, mas devemos lembrar que era outra época. Talvez o mundo não estivesse pronto para esse filme.

O que importa é que “Summer Days with Coo” é um ótimo filme, muito bom mesmo. Sua narrativa é simples, porém expansiva. O filme tem quase 2 horas de duração e acompanhamos diferentes experiências da vida de Coo, ao mesmo tempo que sua própria família cresce com ele. O desenvolvimento dos personagens é cadenciado e estimulante, não há nenhum momento se torna chato ou enfadonho, exceto o conflito final, que cresce demasiadamente, mas também tem sua função na história, afinal é o momento de maior crise.

Além das características narrativas, o filme ainda entrega uma ótima produção, com imagens muito belas. Dá pra ver que os produtores trabalharam com um alto orçamento.

Unindo imagens belíssimas, trilha sonora decente, uma história fantástica e  personagens mais que carismáticos, “Summer Days with Coo” é uma incrível animação que lança uma perspectiva diferente sobre o gênero coming-of-age, oferecendo novos caminhos para futuras produções.

5 pontos

terça-feira, 2 de outubro de 2018

Dica gourmet: pão Pullman Artesano

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Há alguns meses ganhei uma torradeira. Usada, já quebrada e com outros defeitos menores, não vale uma dica. E por tempos capenguei para encontrar um pão que fosse ideal para a produção de torradas, mas finalmente o encontrei e ele vale uma dica.

Torradas são obras de arte. Não é fácil de se fazer, se passar muito do ponto, ficam duras, secas e sem graça. Se não ficar no ponto, não esquenta o suficiente para se passar a margarina nelas (nunca manteiga!). A maior culpa disso é do pão que utilizamos. A maioria dos pães encontrados por aí são finos demais para serem utilizados na produção de torradas.

Um dos meus segredos são os pães da minha vó. Ela faz pães caseiros e a massa dos pães dela são mais resistentes, fofas e úmidas que as massas de pães de mercado. No entanto, ela mora em outra cidade e nem faz mais pão com tanta frequência, dessa forma, tive que caçar algum novo tipo de pão e meu irmão me apresentou o objeto desta atual dica.

O pão Pulman Artesano é um modelo especial de pão que surgiu nessa última ordem gourmet que assolou o país e se apresenta como um pão mais grosso, de massa mais úmida e com uma cobertura de farinha que dá um toque de carboidrato a mais em cima dele.

Suas fatias são maiores do que as fatias normais, mais grossas e quando ele é posto dentro da torradeira, gera torradas mais macias, ou melhor, torradas com 2 camadas, uma camada externa crocante e quente e uma camada interna, macia, igualmente quente. Essa dicotomia de sensações gera uma explosão de sabor e delícia que causa orgasmos alimentícios incapazes de afastar a mais chata crítica culinária do país. É simplesmente delicioso.

5 pontos

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Dica cinematográfica: “A paixão de Joana D’Arc” (1928)

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Eu sou um hater de filmes mudo. Não os suporto. Não consigo prestar atenção neles, mas esse filme chamou muito a minha atenção e não resisti, tive que ver e o resultado me surpreendeu.

Dirigido por Carl Theodor Dreyer, com roteiro baseado nos documentos históricos do julgamento de Joana D’Arc, heroína francesa, capturada por franceses aliados aos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos e vítima de uma conspiração que culminou com sua morte, retrata os últimos momentos da vida dela, já na prisão, enfrentando o julgamento de corruptos membros da Igreja e do estado francês.

A comparação com Jesus Cristo é justa (as figuras históricas se aproximam, sendo representativas de um mito fundacional e reforçam a tradição cristã de ficar ao lado da vítima) e a interpretação de Maria Falconetti é soberba, transmitindo tantas emoções que fica difícil desgrudar os olhos da tela.

Parte disso se deve a Dreyer que impediu que seus atores usassem maquiagens e, ao utilizar um jogo de câmeras inovador para a época, conseguiu dar mais dramaticidade a cada cena. Essa carga dramática funciona tanto para perturbar (nas cenas de torturas) quanto para relaxar (nas cenas de revelações), sendo super efetivo em suas intenções.

O original do filme se tornou perdido ao longo dos anos, foi banido na Inglaterra e só foi reencontrado (ironicamente, por que Deus existe e ele é um piadista) num sanatório para doentes mentais em Oslo. Essa versão encontra-se na edição da Criterion Collection pela qual assisti essa obra, com acompanhamento musical de Richard Einhorn, que dá o tom perfeito para a transcendentalidade e bravura da obra.

Uma obra-prima do cinema mudo, um clássico e obrigatória para todos os cinéfilos.

5 pontos

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Dica tecnológica: carregador portátil Asus

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Quando comprei meu último celular Asus ganhei esse carregador portátil e por muito tempo não o utilizei, porque a bateria do meu celular aguentava muitas horas de atividade intensa sem precisar de uma recarga. No entanto o tempo passa e as baterias de celular têm sua validade. Não é diferente com os celulares Asus e só agora comecei a utilizar o carregador portátil que ganhei, estando apto para elaborar uma merecida dica.

O carregador portátil Asus acompanha os outros produtos da marca e também tem um nome próprio, “Zenpower”. Sua bateria de 400mAh com células de lítio promete até 4 recargas totais de seu celular, ou seja, você pode fazer o celular chegar a 0% de bateria até 4 vezes antes de ter que recarregar o seu Zenpower. Não parece muito, mas você tem que lembrar que a bateria do Zenfone raramente chega a zero, mesmo após um dia de uso intenso.

Eu diria que é seguro afirmar que com o Zenpower você pode usar o seu celular por uma semana inteira sem ter que usar o carregador normal.

Além disso temos um design elegante e minimalista, com luzes de LED azuis indicando quantas “baterias” restam no Zenpower, um tamanho diminuto, duas entradas USB, uma mini e outra normal para que você possa recarregar seu celular e o Zenpower, mas não vem como o adaptador de tomada e aí vem o ponto negativo.

Na tomada o Zenpower recarrega totalmente em algumas horas, mas no USB do computador por exemplo, você pode deixar uma noite inteira que ele não irá recarregar totalmente. Provavelmente isso acontece com todos os carregadores portáteis, mas é algo que me chamou a atenção quando usei o Zenpower pela primeira vez, isso logo depois que o adquiri.

Assim como outros carregadores portáteis, o Zenpower também esquenta quando carrega, mas não chega a ser um absurdo. Uma vantagem é que seus materiais esfriam rapidamente após o uso.

De qualquer forma, o Zenpower é uma ótima pedida para aqueles que gostam de usar carregadores portáteis (não sei se alguém realmente gosta, mas conheço muita gente que realmente precisa). Atualmente, o modelo que eu tenho, não está mais sendo comercializado no Brasil, mas ele foi substituído por um ainda melhor, o modelo Slim.

É a mesma coisa, mas o modelo Slim é bem mais fino, portanto mais prático, além de ter uma lanterna para emergências, diferente do meu. Tudo isso por menos de 200 reais. Vale a pena.

4 pontos

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Dica cinematográfica: “Santo Agostinho” (1972)

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Feito pelo genial Roberto Rosselini para a TV italiana, essa cinebiografia do santo e filósofo Agotinho de Hipona é uma obrigatória para todos aqueles que admiram ou querem se aprofundar no pensamento agostiniano.

Em “Santo Agostino” somos atirados em Hipona na época em que Agostinho foi nomeado bispo de lá. Acompanhamos sua nomeação e seus primeiros entraves, conflitos com as autoridades romanas, desavenças com outros católicos e membros de outras religiões, enquanto o bispo começa a escrita de uma de suas obras-primas, “A cidade de Deus”.

Ainda não sei qual a posição de Rosselini quanto a religião, mas consigo perceber nele um grande respeito pela tradição católica, não apenas por ter se dado o trabalho de fazer tantas cinebiografias de santos da Igreja, mas também pelo tratamento, digno de um historiador dado aos objetos de suas obras. No caso, temos Santo Agostino, interpretado magistralmente por Dary Berkani, que ao que tudo indica nem era ator, mas soube dar a vivacidade e o ar contemplativo que o papel exigia na medida certa.

A narrativa nos guia pelas ruas de Roma, já decadentes, apresentando essa decadência de diversas formas, mas sem um julgamento moral, ficando a cargo do espectador compreender o que vê como o fim de Roma ou não. Em meio a romanos, estrangeiros, pagãos, invasores e cristãos não muito fiéis, Agostinho nos é apresentado como um pilar de paciência, sabedoria e perseverança, sempre ouvindo a todos, esperando para tirar suas conclusões e apresentando-as de maneira coerente e calma.

O olhar de Rosselini é o olhar de um italiano que admira o seu passado, mas nunca se esquece do presente. Seu jogo de câmeras, as próprias cores utilizadas ao longo do filme e a escolha dos “atores” são mostras de uma genialidade moderna que viria a influenciar uma ampla geração de cineastas, da Nouvelle Vague aos cineastas soviéticos.

É incrível como mesmo sendo um filme para TV, o que é visto com certo preconceito, considerado uma obra de arte menor, com menos recursos, “Santo Agostinho” consegue ser um filme que fica pau a pau com outras cinebiografias, o que apresenta uma questão interessante. A cinecittà da época não era a cinecittà de hoje, era muito mais próspera, farta e até mesmo criativa. Não que hoje seja ruim, mas aquela foi sua época de ouro e até mesmo os filmes para TV eram dignos de obras épicas cinematográficas.

Enfim, um ótimo filme.

5 pontos

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Dossiê “House of Leaves”

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Reli essa obra magnífica, que já foi dica há dois anos atrás, numa semana apenas, porque a obra é simplesmente sensacional e dessa vez pude ler sem tantas confusões mentais. Após mais uma leitura e mais descobertas, merece um dossiê.

A capa: a capa desse livro já é um indicativo do que você irá encontrar. Além da arte que nos apresenta um labirinto em linhas pretas num fundo preto, uma lateral com várias fotos polaroid de casas grandes do interior dos Estados Unidos e a contra capa com apenas uma foto que logo descobrimos ter sido tirado do “Navidson Record”, ela tem uma peculiaridade que sempre me chamou muito a atenção. A capa é menor do que o livro. O formato dela até segue o padrão de livros maiores, mas a diferença é que o miolo do livro é muito maior do que o padrão e a sacada genial já começa aí, afinal o livro conta a história de uma casa cujas medidas internas são maiores que as medidas externas.

O enredo: o livro conta uma história dentro de uma história dentro de outra história. Johnny Truant e seu amigo, Lude entram na casa do falecido Zampanó, vizinho de Lude, e descobrem se tratar de um imóvel peculiar. Johnny leva para casa um monte de papéis que supostamente Zampanó havia escrito e começa a montar o quebra-cabeça: Zampanó escreveu uma análise sobre um documentário, “Navidson Record”.

The Navidson Record: o ponto alto da obra e o que mais chama a atenção. É aqui que tudo de fato acontece. Navidson é um renomado fotógrafo que se muda para uma casa no interior a fim de reatar laços com sua família. Após a descoberta de que as dimensões internas de sua casa são maiores que as externas, inicia-se nele uma paranoica busca pelo oculto naquela casa, que o leva a perder muitas coisas, seu irmão, sua mulher, filhos e partes de seu corpo, enfim... a casa acaba com a vida de Navidson, mas é nesse tenebroso final que o livro revela o seu ponto forte: ser uma história de amor, dentro do horror.

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Mark Z. Danielewski: o criador dessa obra fenomenal lançou o livro na internet, fragmentado, antes de lançar o livro. “House of Leaves” é considerado uma obra seminal dentro dos “romances de hypertexto”, um termo usado para esses livros que usam uma linguagem próxima a da internet para contar as suas histórias. No caso, as conexões que Danielewski faz são um exemplo de hiperlinguagem, mas não apenas isso, a própria estrutura da página, fragmentada, modelando a organização de palavras e letras para que possa representar o que está acontecendo são exemplos únicos dentro do “gênero”. Desconheço outro autor que faça isso. Danielewski, em sua obra mais recente, “The Familiar”, expandiu isso, criando livro que, dizem, tem mais de 600 páginas, mas poderiam ter 300 não fossem essas invenções estilísticas.

Romance de Hypertexto: não sei nem se o termo existe em português, mas estou traduzindo aqui. É um termo que não chega a descrever um gênero, mas serve como um guarda-chuva para abarcar esses livros que apresentam uma narrativa não linear e dão uma escolha ao leitor para seguir o caminho que quiser na leitura. Pense nos contos narrados por diversos autores através de meios distintos como cartas ou relatos nos contos de Borges ou ainda a análise de um único poema que constitui toda a história de “Fogo Pálido”. O leitor não é obrigado a seguir de forma linear o texto, mas a pular páginas, seguir para as notas, se concentrar nas “margens” do texto para poder montar uma coerência narrativa. Os exemplos que dei são antigos e considerados como precursores do “gênero”, que ganhou forma e força a partir do advento da internet, o que possibilitou a autores extrapolares o espaço convencional do texto, além de ferramentas que facilitam esses experimentalismos.

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Borges: uma influência clara de Danielewski na hora de fazer a obra foram os labirintos metafóricos, linguísticos e literais de Jorge Luís Borges. O autor não é citado diretamente, mas toda a construção que leva ao labirinto dentro da casa lembra os contos do autor argentino. A presença do Minotauro, que aí é muito mais metafórico do que literal, só reforça essa ideia.

Derrida: o filósofo francês responsável por cunhar o desconstrutivismo faz uma breve aparição no livro, quando a mulher de Navidson resolve fazer um apanhado de entrevistas com pessoas que viram o documentário. O desconstrutivismo, explicado de maneira bem rasa, é simplesmente a ideia de abandonar pré-conceitos acerca de uma ideia, indo a sua raiz para que se possa criar uma opinião robusta sobre o que se está discutindo ou pesquisando, nem que para isso você tenha que buscar apoio no completo oposto daquela ideia. Muito mal utilizado por muita gente ao longo do século 20, é bem utilizado aqui, nos saltos que os personagens do livro dão. Eles vivenciam diferentes experiências na busca por uma clarificação do que estão vivendo e, ao final, é a desconstrução da linguagem que acaba nos dando a “moral” final da obra.

Essas são apenas mais algumas anotações, complementares à minha dica sobre esse livro, alguns pontos que servem como guia de leitura para quem for se aventurar nessa obra magnífica.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Dica cinematográfica: "Violent" (2014)

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Este é um filme que estava aguardando muito para assistir. É um indie de verdade. Ouvi falar dele num post cheio de cenas do filme, belíssimas por sinal, e me interessei muito, no entanto, o filme, que foi lançado em 2014, nunca viu sucesso e acabou sendo lançado em DVD e em plataformas online para download apenas esse ano, 2018.

“Violent” conta a história de Dagny, uma norueguesa, que sai da casa dos pais e vai viver numa cidade maior, morando em cima da loja de materiais onde trabalhava, afim de poder ficar mais próxima da melhor amiga. O problema é que a melhor amiga está de mudança, para Oslo, deixando Dagny sozinha na cidade “grande” onde passa a viver. Lidando com diferentes personagens e descobrindo soluções para uma tragédia do passado recente, Dagny passa por um período de intenso crescimento pessoal.

Neste filme não temos grandes diálogos, nem grandes interpretações. É um típico coming-of-age centrado numa norueguesa, mas sua atmosfera acaba chamando a atenção. Em nenhum momento nos é jogado, nem mesmo de forma obscura como em “Perks of Being a Wallflower” a tragédia do passado de Dagny. A estrutura do filme é dividida em episódios e cada um deles recebe o nome de um personagem que Dagny encontra, nos exibindo Dagny mais pelo ponto de vista deles ou a forma como eles se relacionam com ela, do que pelo ponto de vista de Dagny, propriamente dito.

É desta forma que Andrew Huculiak, o diretor e roteirista do filme, cria uma atmosfera instigante. A todo momento você fica com a sensação de que há algo mais ali que não está sendo dito ou não está ficando claro para quem assiste. E, de fato, numa rápida troca de mensagens com ele pelo twitter, descobri que esse filme foi criado em uma série de acontecimentos que ocorreram na vida das pessoas que participaram da sua produção, além de representar um desafio que era escrever um filme inteiro numa língua estrangeira (Andrew não é norueguês).

Um desafio autoimposto, um conjunto de experiências pessoais, um projeto quase caseiro e você tem um dos filmes mais sensíveis e belos lançados em tempos recentes. “Violent” não choca, nem cansa, mas é um filme que surpreende, prende a atenção e alça níveis estéticos que força uma mescla de gêneros, muito bem feita aliás. Tudo isso, feito através de um excelente trabalho de arte.

Dessa forma, “Violent” acaba se tornando um desses filmes que pede por uma segunda chance, não que ele precise de uma segunda chance, mas fica lá, no fundo da sua cabeça, tocando uma suave canção que não te deixa esquecer dele. Um filme para ser revisto.

4 pontos e meio

 

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Dica literária: “Os Noivos” de Alessandro Manzoni (1827)

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Em anos recentes pude perceber em primeira mão que literatura é, realmente, uma porta para mundos desconhecidos ao me surpreender com o conhecimento de história, geografia, política e outras tantas áreas do conhecimento humano que pude obter graças aos livros. Em discussões com colegas um pouco mais exigentes, sempre acabo me lembrando de algum livro que li, que sirva de exemplo para ilustrar um argumento ou mesmo que apresente um argumento a ser defendido. E este livro é um ótimo exemplo da influência que livros podem exercer no seu conhecimento de mundo.

“Os Noivos” conta a história de (dã!) dois noivos, Renzo e Lucia, que estão prontos para se casar, mas o padre que ia celebrar a cerimônia do sacramento é ameaçado por um homem muito influente na região da vila onde esses personagens moram. Dom Rodrigo almeja conquistar a pobre Lucia e decide mandar dois de seus empregados, mercenários e homens de má índole, ameaçarem a vida do padre. Dessa forma se inicia a epopeia desses dois jovens noivos, que envolve viagens, outros personagens, tanto mais santos quanto mais assustadores, revoluções e até mesmo a Peste Negra.

A história do livro se situa entre 1628 e 1632, na Lombardia, região ao norte de Itália e é contada para nós como se o autor, Manzoni, tivesse encontrado um velho relato da região e decidisse nos revelar o conteúdo desse manuscrito. Dessa forma (muito moderna, aliás, diga-se de passagem, pois esse será uma forma narrativa muito utilizada pelos modernistas), Manzoni abre a possibilidade de inserir diversos comentários na obra, seja sobre a história dos dois noivos, apresentando personagens, fazendo comentários sobre o que deveria se passar em suas mentes e aprovando ou desaprovando suas ações, seja contextualizando a obra para facilitar a nossa compreensão, apresentando fatos históricos ou tecendo comentários acerca da geografia da região.

É nesse momento que o livro abre diversas portas do conhecimento para o leitor, pois Manzoni realizou uma extensa pesquisa de campo para poder criar um ambiente que fosse o mais próximo possível das condições reais de vida na região e época retratadas no livro. Em muitos momentos, o autor nos apresenta até as fontes para que possamos consultar os dados.

Infelizmente, esse é um louro, mas é também o maior defeito da obra, pois o livro se encaixa na tradição realista de literatura e a escrita de Manzoni é burocrática, o que cansa demais o leitor. Claro que há aqueles que gostam desse estilo de literatura, se não, não existiria tantos fãs de Machado de Assis por aí (que, inclusive, era leitor assíduo de Manzoni), mas eu me canso e enjoo facilmente desse estilo de escrita, com poucos diálogos, descrições secas e nenhum espaço para simbolismo.

Apesar de lenta, a leitura é agradável, pois Manzoni criou personagens extremamente carismáticas, a pobre Lucia é um anjo e seria digna de um Technicolor, como bem comentou Pasolini. A epopeia instiga e te faz ler mais, nem que seja apenas um pouco por dia.

A edição que tenho é a editora Nova Alexandria, belíssima, capa dura e com ilustrações no início de todos os capítulos. Essa edição, além de traduzir o texto completo, ainda contém a enfadonha “História da Coluna Infame”, uma adição necessária, já que é um complemente direto para “Os Noivos”, porém é uma das coisas mais chatas que já li, um relato sobre injustiças cometidas quando a Peste Negra ainda assolava a Europa, cheio de termos jurídicos e extensas notas de rodapé a outros autores que comentaram os mesmos fatos.

Enfim, ao final, é uma história muito boa, engraçada em diversos momentos, instigante (como já disse) e que sobrevive ao tempo e às tendências literárias da época em que foi escrita.

4 pontos

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A arte de fazer um panfleto apresentado por Sonny Liew

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Hoje não é propriamente uma dica, pois não recomendo esse quadrinho a ninguém, mas é algo que merece ser comentado e é o mais novo (talvez, já que os caras lançam quadrinho a cada respirada) quadrinho do Pipoca e Nanquim, “A arte de Charlie Chan Hock Chie”.

Este livro é como se fosse um documentário e sua história já começa na capa interna, nos apresentando dois personagens históricos que serão o centro de todo o quadrinho Lee Kuan Yew e Lim Chin Siong, membros de uma resistência popular que assolou a Singapura, quando ainda pertencia a coroa britânica e que influenciaram enormemente Charlie Chan Hick Chie, o personagem que dá nome ao quadrinho. Hock Chie é um desconhecido, mas extremamente talentoso quadrinista de Singapura e Sonny Liew nos apresenta a sua história profissional e pessoal nesse quadrinho. História que se confunde com a história recente de Singapura.

O país insular, um dos tigres asiáticos, como aprendemos nas aulas de geografia na escola passou por grandes conflitos após a II Guerra Mundial, primeiro por ser uma colônia britânica e os ingleses terem perdido muito de seu poderio militar nessa época e com isso diminuem consideravelmente sua influência na ilha. Segue-se a isso uma forte influência ideológica de esquerda na ilha, pensamento que assolou toda a Ásia na época e a partir daí surgem Lee Kuan Yew e Lim Chin Siong, líderes populares. A história se estende, mas um resumo é que os dois líderes se desentendem, o partido de Lee Kuan Yew ganha as primeiras eleições e, apesar de suas motivações ideológicas, a Singapura cresce, se tornando o tigre asiático que é.

Como bem apresentado por Sonny Liew isso tem um custo, pois Lee Kuan Yew censura a imprensa, cria programas governamentais ridículos e até revoltantes, como o de controle populacional, exercendo uma verdadeira lavagem cerebral, ele próprio se torna uma espécie de ditador populista, fortalecendo um capitalismo de estado que cria uma rede burocrática tão extensa que é praticamente impossível de se imaginar fora dela e, nesse cenário, Sonny Liew, de maneira totalmente ingênua, resolve criar um livro político.

Apesar da forma como o livro se vende, esse é um livro sobre política e o pior, política de esquerda. O que já é chato, fica ainda pior.

Sonny Liew nos apresenta uma história que foi de sucesso, mas a um custo alto, sem nunca condená-la explicitamente, afinal, é um sucesso, mas faz pior ao apresentar Lim Chin Siong, o líder de “esquerda radical”, como ele mesmo diz no livro, como se fosse uma alternativa melhor e que iria fazer tudo do mesmo jeito. E provavelmente fosse fazer mesmo, como Sonny Liew deixa até implícito no final da obra, afinal, os dois são farinha do mesmo saco. A verdade é que Singapura estava entre a panela e a frigideira nessa época.

Sonny Liew entende pouco ou nada de economia ao condenar o governo por se render aos “capitalistas”, embora ele não saiba que privilégios estatais não sejam uma forma muito capitalista de negócio. Sonny Liew deixa de fora a “direita” e os “conservadores”, como se nunca tivessem atuado em Singapura, mencionando-os apenas numa breve nota e que deixa claro que sua atuação foi mais benéfica do que os dois grandes líderes de alguma forma ou outra exaltados nessa obra. Sonny Liew ainda apresenta “diferentes olhares sobre os fatos”, o que de forma alguma é algo ruim, per se, embora isso tenha que ser feito de maneira cuidadosa e eu não fui conferir as fontes para verificar isso. Enfim, Sonny Liew nos apresenta uma obra panfletária que seria nojenta, se não fosse genial.

Kuehnelt-Leddin alerta que a esquerda foi dominando aos poucos as artes, começando por um financiamento das belas artes após a revolução francesa, depois escolas e por fim centros de divulgação cultural e assim eles criam as melhores peças de teatro, os melhores filmes, as melhores músicas e afins. São peças de arte que, apesar de vazias de significado ou com um significado revoltante, são belíssimas e nós temos que dar o braço a torcer e apenas abaixar a cabeça para a sua superioridade artística, enquanto ficamos contando dinheiro, abrindo nossos próprios negócios e tocando a vida. É triste, porque é real e esse livro é uma prova disso.

A escolha narrativa de apresentar uma história dentro de outra, aliado ao talento artístico de Sonny Liew, que domina todos os ramos possíveis das belas artes, de rascunho a pintura com tinta à óleo, faz desse livro uma leitura extremamente prazerosa, se você se liga no lado artístico de um quadrinho. Tá certo que todo quadrinho é uma obra de arte por si, mas nem todos admiram uma arte bem feita e essa arte não é bem feita, é perfeitamente feita.

É o ponto alto e o que salva o investimento, pois essa história não teria graça nenhuma, mas ao vermos ela pelos olhos de um artista que a acompanha de perto e muda o seu estilo conforme as tendências mundiais de quadrinho mudam é um colírio para os olhos. Sem contar as inúmeros referências que satisfazem qualquer nerd.

Sem contar o cuidado fenomenal que o Pipoca e Nanquim dá aos seus livros. Este é mais um capa dura, com sobre capa e detalhes em baixo relevo na capa, feito com um cuidado editorial exemplar e que só mostra o amor que os caras têm pelo material que trazem para o Brasil. Confesso que este é o primeiro livro que compro da editora, porque eles o venderam muito bem no canal deles do Youtube e tenho vontade de adquirir outros, acho que o próximo será o Beasts of Burden, que tô com vontade de ler há tempos.

Enfim, não recomendo esse livro se você é um cérebro pensante, mas se quer ver uma obra de arte admirável, compre-o.

3 pontos

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Dica higiênica: pasta de dente Colgate Luminous White

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Nenhum blog de dicas higiênicas pode passar sua existência sem recomendar em algum ponto esse produto, pois ele é verdadeiramente fenomenal.

A Colgate é outra marca já muito bem estabelecida nesse país e há alguns anos lançou no mercado seu produto que promete clarear os dentes, a Colgate Luminous White, a pasta de dente com micro cristais aceleradores de branqueamento.

Se acelera mesmo o branqueamento eu não sei, mas eu só sei que é um produto extremamente agradável de se usar. É claro que a limpeza bucal depende mais do jeito como você escova os dentes do que os produtos que você usa, mas usar algo que torne essa atividade enfadonha do dia a dia algo mais agradável é sempre uma boa pedida e essa pasta cumpre esse objetivo.

Sua fórmula garante um maior frescor na boca, que dura por várias horas, conferindo uma sensação estável de limpeza que dá muito mais segurança na hora de sorrir e sair bonita1 naquela foto com os amigos ou junto com a família ou sozinho pra postar um stories no instagram.

A Colgate é outra dessas marcas que não esconde qualidade com papo furado e se vende por um preço mais alto que as outras marcas no mercado, mas vale cada centavo gasto, sem contar que eu sempre encontro essa pasta em promoções nos mercados da cidade, com embalagens de compre 3, pague 2 e afins.

Dessa forma, se você quiser um produto, que se promete eficaz e é, de fato, agradável a boca, escolha, sem duvidar, a Colgate Luminous White.

5 pontos

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

23/08/2018 – o dia do melhor programa d’A Praça é Nossa

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Na quinta-feira, dia 23 de agosto de 2018, um evento histórico sacudiu a televisão brasileira, pois foi nesse dia que “A Praça é Nossa”, o melhor programa humorístico da história do Brasil lançou o seu melhor programa no ano.

Já tive a inspiração de fazer um post desse tipo há um tempo atrás, quando assisti um excelente programa d’A Praça, mas apenas com esse último programa é que fiquei motivado, de verdade, para poder escrever esse texto, afinal, nesse programa, todas as partes lançadas no Youtube (plataforma onde assisto os programas e que os divide em 3 seções) tiverem ótimos momentos. Sendo assim, vamos ao pequeno review do melhor programa d’A Praça de 2018.

https://www.youtube.com/watch?v=RBSlDZV5_a8

Tudo começa com o Paulinho Gogó, personagem do comediante Maurício Manfrini, que está há mais de 10 anos sentando ao lado de Carlos Alberto de Nóbrega n’A Praça e já passou por maus bocados. Já contou piadas ruins, já sofreu represálias do politicamente correto, já copiou piadas de outros comediantes e já teve o seu tempo de programa reduzido. No entanto, esse ano ele voltou para a Praça afim de se redimir com os fãs do programa e na semana passada não deu descanso. Começou com uma ótimo contextualização, emendando uma piada sexual atrás de outra, engajando o Carlos Alberto na conversa, como se fosse o encontro casual de velhos amigos (e talvez seja mesmo, após 10 anos, nem sei mais se ele considera aquilo um trabalho mesmo). Ainda citou o grande Dicró, nos lembrou da Nega Juju, incluiu o Paulinho Tuntum, seu filho e terminou com uma piada fantasticamente engraçada.

Depois foi a vez do Sangue, personagem da Marlei Cevada, que é sempre um quadro muito engraçado, mas nesse programa soltou até a palavrão. Como nem tudo são flores, após ele entraram dois novos personagens, interpretados por dois comediantes que há anos não se enquadram n’A Praça e aquele casal que é formado por um dos primas do Café com Bobagem, quadro que deveria voltar, inclusive. Mas a primeira parte terminou com o ótimo Porpetone, interpretando o Calça Grande, que some bastante nesse quadro, mas conseguiu se destacar com ótimas tiradas e piadas de duplo sentido muito engraçadas.

https://www.youtube.com/watch?v=_M47PsNuow0

A segunda parte já começou com um clássico, o deputado João Plenário, que não apresentou uma gostosa no programa, mas conseguiu espaço para fazer ótimas piadas contextualizadas ao âmbito político.

E logo depois, entra o atual diamante d’A Praça, Matheus Ceará, que não perdoou ninguém, emendou uma piada atrás da outra, ousando e inovando, expandindo os limites do humor dentro d’A Praça, com excelentes contextualizações e aquela baixaria caliente que todo brasileiro adora. Foi uma das melhores apresentações dele n’A Praça desde que ele entrou para o programa.

Nem tudo são flores e o nepotismo reina n’A Praça, com uma das netas do Carlos Alberto, que não tem graça, mas é um colírio para os olhos. Para equilibrar, entram os Malandrinhos de Niterói, um trio que nem sempre faz boas apresentações, mas quando fazem, sai de perto, porque serão horas e horas de risadas, lembrando suas ótimas piadas. Eles não são tão boas em contextualizar piadas, mas conseguiram emendar com sagacidade as piadas prontas que utilizaram e ainda improvisaram, provocando a audiência a compreender as implicações que A Praça é Nossa apresenta fora das câmeras. Eles não terminaram muito bem, mas a terceira parte começou de forma surpreendente.

https://www.youtube.com/watch?v=R4bpiDeCw3U

Aparentemente o Rey Biannchi vai fazer parte do elenco fixo d’A Praça e apareceu novamente para fazer uma participação incrível. Rey Biannchi é um artista telentosíssimo e muito inteligente, com um carisma monstruoso, mas n’A Praça acabou mostrando que é dono de piadas extremamente inventivas, apresentando piadas novas num terreno extremamente difícil que é A Praça é Nossa, com suas muitas décadas de existência e com um desafio gigantesco para os comediantes que querem fazer algo novo lá. Rey Biannchi não só fez isso, como fez isso muito bem, galgando um caminho para ser um mestre do humor.

E saindo do ouro para a esmeralda, entrou o Saideira, interpretado pelo talentosíssimo Giovani Braz, junto com um figurante d’A Praça para contextualizar suas piadas de maneira fantástica ao lado de outra figurante. O Saideira então apresentou suas histórias engraçadas com um carisma único que garante o seu lugar n’A Praça há mais de uma década.

E para acabar com chave de ouro, da melhor forma possível, Ari Toledo, esse Godzilla da comédia, voltou para o programa e já atua lá há semanas ensinando os outros comediantes a fazer as pessoas rirem com maravilhosas piadas, ousadas e poderosas, dando um soco de direita no politicamente correto que Carlos Alberto, muito sabiamente, já mostrou ser contra.

Na última noite de quinta-feira, A Praça é Nossa provou ser o melhor programa de comédia atualmente no Brasil e já tem lugar garantido na história. Os melhores humoristas se encontram lá, contando as melhores piadas, da melhor forma possível, mas na última quinta-feira elevaram tudo isso à última potência. Eu não sei que caminho A Praça é Nossa vai seguir a partir daqui, talvez caia um pouco, por já ter alcançado um nível tão alto, mas fico feliz em saber que esse programa continua tão magnífico e sensacional.

Portanto, não deixe de dar audiência para esse programa tão incrível hoje à noite e, se não puder, assista-o em seu canal do Youtube amanhã, porque está valendo muito a pena.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

O que eu perdi: “Five Leaves Left” do Nick Drake (1969)

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Faz muito tempo que admire o trabalho desse fantástico música folk do Reino Unido, mas nunca tinha me inspirado a escrever um texto sobre ele, embora esse não seja o motivo principal para eu escrever essas dicas. Pois bem, agora não só estou inspirado, como estou com tempo livre para tanto e decidi começar uma série de dicas sobre a obra dessa fantástico artista.

“Five Leaves Left” é o primeiro CD lançado por Nick Drake, conta com uma história conturbada de produção, com muitos desentendimentos entre todos que trabalharam em sua produção, desde a equipe que mantinha o estúdio, passando pelo produtor e culminando no próprio Nick Drake, que não ficou nem um pouco contente com o caminho que o álbum seguiu.

No entanto, polêmicas à parte, o álbum é um petardo. Talvez até por tantos desentendimentos, ele tenha uma qualidade superior a outros. O álbum contém uma produção ousada para as ambições de Nick Drake, com arranjos que fazem referências a artistas de música clássica, participação de uma banda para ajudar na construção das músicas, mas ainda contém a aura pela qual Nick Drake ficaria conhecido, muitos anos após a sua morte, já que, em vida, ele nunca foi reconhecido.

O álbum, apesar de toda sua produção, é intimista, reservado e nos mostra um Nick Drake tímido diante de tantos elementos que se sobressaem sobre sua voz. Numa era em que o rock era o centro da música pop, com vocalistas cada vez mais imponentes não admira que este álbum tenha passado despercebido ou, quando percebido, chamando pouca atenção.

Suas letras simples, apresentam elementos narrativos típicos da era em que se situam, com muitas canções que nos retomam histórias, ambientes e personagens, criando um universo único para o álbum. Ainda assim, encontramos elementos que viriam a ser recorrentes nos álbuns de Nick Drake e que dizem muito sobre ele, reforçando o seu grau de intimidade para com os ouvintes, nos revelando seu eterno amor pela Mary Jane, por exemplo.

Ao final, temos uma noção de completude que poucos álbuns conseguem arranjar, muito menos nos dias atuais, tão influenciados por músicas soltas. Aqui, desde os arranjos até as letras, o álbum acaba formando um todo coerente.

Calmo, relaxante e belo são os melhores adjetivos para um álbum tão bem feito.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Dica higiênica: detergente Ypê

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Mais uma dica higiênica para manter a saúde em dia e dessa vez de um item essencial nas cozinhas de todo o país.

A dica é do detergente Ypê, uma marca já tradicional nos lares brasileiros, mas que muitas vezes não recebe a merecida atenção. A razão disso é que muita gente não dá valor aos produtos de limpeza que utilizam para limpar pratos, principalmente porque o importante é tirar a sujeira superficial dos pratos e talheres, mas há outros detalhes envolvidos, como a gordura dos pratos, por exemplo.

Nesse ponto entra uma característica importante dos detergentes, a produção de espuma e a maioria dos detergentes (na falta de palavra melhor) populares do mercado não produzem uma boa quantidade de espuma. A espuma produzida pelo Ypê é mais encorpada, mais volumosa e com uma ação mais rápida, ela cresce e desaparece num instante, tudo depende da pressão exercida sobre o detergente, seja das suas mãos ou da água que sai da torneira.

Em outras palavras: é mais espuma feita de maneira mais rápida e que sai dos pratos num instante. O produto é realmente superior.

Um outro problema que ele enfrente é uma certa elitização do detergente, pois até mesmo em suas propagandas mais antigas ele se dizia mais caro. A propaganda dizia que era melhor gastar alguns reais a mais num produto melhor do que gastar o mesmo em mais produtos de qualidade inferior. É uma boa estratégia, na verdade, mas atrai menos a atenção de quem só se guia pelos preços.

De fato, o detergente Ypê é um pouco mais caro, mas ele faz valer cada centavo gasto com ele. Em suma, dúvida porquê? Detergente é Ypê.

5 pontos

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Dica literária: “The Girard Reader” (1996)

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Já apresentei a teoria mimética de René Girard em outros momentos aqui no blog, mas nunca apresentei nenhum trabalho do grande pensador, o Darwin das ciências humanas, simplesmente porque ainda não havia lido um de seus trabalhos de cabo a rabo. A razão não é apenas a complexidade de seus temas, que não é tão complicado assim, mas também pela raridade de suas obras. Seus livros em português que não estão esgotados, são muito caros, embora a coleção Girard da É Realizações tenha um acervo interessante de seus livros.

Pois bem, esse ano tenho que ler suas obras na íntegra, porque estou iniciando um projeto de iniciação científica e meu trabalho usará a teoria mimética extensamente. Minha orientadora, maravilhosa como só ela consegue ser, me indicou esse livro, que serve como uma introdução não apenas aos estudos miméticos, mas a toda a filosofia de René Girard, apresentando textos em tópicos, que são definitivos para a obra girardiana.

Esses tópicos vão além da simples teoria mimética, passando pela sua explicação do surgimento dos mitos, sua interpretação dos textos bíblicos e, por fim, sua relação com outros dois grandes nomes das ciências humanas, com quem o seu pensamento mais dialogou, Freud e Nietzsche.

Esperava encontrar nesse livro séries de textos de outros pesquisadores sobre sua teoria, mas acabei encontrando seleções de seus próprios textos, oriundos de livros, entrevistas e artigos escritos ao longo de sua carreira, que em 1996 já estava consolidada.

Através dessa obra temos acesso a todas as linhas de pensamento de Girard de forma cronológica, como ele mesmo indica, sua obra passou por três fases de descobrimento, primeiro a relação triangular do desejo, passando por uma análise original da literatura ocidental, depois sua relação com a origem dos mitos e por fim desembocando na sua original leitura dos textos bíblicos. Dessa forma, podemos ter acesos à voz própria do antropólogo e filósofo, em alguns momentos através de passagens muito densas, como as partes extraídas dos livros “Coisas Ocultas desde a Fundação do Mundo” e “Violência e Sagrado”, mas também através de passagens muito simples e até didáticas, como a entrevista no final do livro e o artigo que explica um pouco a origem dos mitos com base num mito de origem africana.

Conhecer sua teoria unificadora da natureza humana é realmente deslumbrante. Sua teoria é revolucionária, ao mesmo que é conservadora, recusa definições ao mesmo tempo em que procura definições bem claras, pode parecer contraditória, mas é por revelar a dualidade de nossas relações humanas que acaba conseguindo se aproximar de polos tão opostos. Tudo isso acaba fazendo parte de nossos relacionamentos.

Acabei de terminar a leitura do livro e ainda precisarei de muito tempo para poder absorver tudo que aprendi, mas por enquanto, deixo-vos com essa dica para que conheçam a obra desse que foi o pensador mais original do século XX.

5 pontos

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Dica literária: "The Menace of the Herd or Procrustes at Large" de Kuehnelt-Leddihn (1943)

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A dica de hoje é de um livro perigoso, mas também um livro muito bom. Não recomendo a todos, mas preciso falar sobre ele, porque afinal, seu conteúdo é de extrema importância para os dias atuais, embora detalhes possam corromper ele quase por inteiro, mas irei explicar meu ponto mais para frente.

"The Menace of the Herd" é um livro escrito por Eric Ritter von Kuehnelt-Leddihn em 1943, logo após a ida desse filósofo austríaco para os EUA, fugindo da invasão ideológica nazista em sua terra natal. O livro é uma obra de filosofia política que trata principalmente da defesa da tese de que o grande mal do século 20 é a "mentalidade de rebanho" ( Herdist sentiment), que ganhou mais fôlego a partir da revolução francesa, mas já tinha suas raízes plantadas no final da Idade Média com os avanços mercantis, principalmente na Itália, o que convencionou-se chamar de início do capitalismo.

A tese de Keuhnelt-Leddihn é a de que essa mentalidade contrasta com o que ele chama de espírito romântico e essa mesma mentalidade é o que afasta o homem de sua natureza, gerando mais conflitos em prol de uma suposta igualdade entre os pares. É interessante falar que embora a mentalidade rebanhista seja mais fortemente associada com movimentos de esquerda por o defenderem abertamente (leia-se "coletivo"), essa mentalidade também esta presente no seu oposto, capitalismo, individualismo, liberalismo, etc... Para a teoria de Keuhnelt-Leddihn são todos farinha do mesmo saco e eu tentarei resumir o por quê.

Com os avanços mercantis no final da idade média, começaram a surgir aglomerações cada vez maiores de pessoas, nos guetos, feudos, etc. Não é novidade que essa aglomeração gerou problemas, de desigualdade econômica, social, pestes e outros tantos conflitos. As promessas de riquezas nas cidades eram grandes, mas o custo moral era maior. No entanto, essa mentalidade rebanhista, que inclui sentimentos cosmopolitas, de se sentir parte de um todo material maior, que busca conforto na vida terrena sempre foi mais atraente, por isso as pessoas continuam caindo em seus encantos. Em fases posteriores, com um estratificação cada vez maior das sociedades os conflitos aumentaram e se tornaram mais violentos, culminando na revolução francesa e no surgimento da esquerda, que não só é uma representação extrema do sentimento rebanhista, como o aceita e o expande a níveis assustadores. O coletivo se sobrepõe ao indivíduo, com isso há uma perda total de identidade individual, nacional e toda forma de agressão passa a ser justificada, em ultima instância gerando formas totalitárias de governo como o nazismo e o comunismo stalinista, duas formas que ainda não haviam sido derrotadas quando esse livro foi escrito. O problema é que as formas de pensamento que surgem como uma reação a isso não são menos rebanhistas, o liberalismo econômico deu asas para formas de pensamento egoístas, que em ultima instância apenas reforçam o isolamento social e todas as suas formas de desigualdade, que destroem o homem a um nível moral, ao contrário do que pensa uma Ayn Rand da vida.

Nessa forma de pensamento, Kuehnelt-Leddihn antecede a teoria de que as ideologias se organizam numa espécie de ferradura, onde os extremos não são tão diferentes assim. Para o filósofo austríaco a resposta encontra-se num outro pólo, não é um meio termo entre os dois e sim algo localizado em outra dimensão de pensamento: o sentimento romântico. Esse sentimento é caracterizado pelo que ele cunha de personalismo, uma forma de identificação do indivíduo consigo mesmo, pela sua habilidade de relacionar-se com o mundo exterior, absorvendo para si o que mais lhe importa. Ao contrário do individualismo, para o personalismo, o homem não é "original", mas uma amálgama de tudo o que ele absorve ao longo da vida. A teoria girardiana do "Interdividual" se aproxima muito dessa noção de personalismo, assim como muitos aspectos do pensamento modernista de T.S. Eliot, por exemplo. Outro aspecto é a rejeição às grandes cidades, a paixão pelo campo, o louvor ao trabalho, a natureza compassiva que leva a doação, sem coerção. A rejeição ao capitalismo é presente, mas em prol de uma economia de comunhão e não qualquer forma de socialismo, que só trabalha através da violência. A igualdade, a seguridade, o nacionalismo é o internacionalismo, a homogeneidade das massas, a ordem horizontal e o sentimento de finitude dão espaço para a liberdade, a diversidade, o livre arbítrio, o supranacionalismo, a aptidão técnica, ao federalismo, a ordem vertical, a hierarquia, a responsabilidade pessoal e ao sentimento de imortalidade.

Não é difícil achar em sua tese uma defesa de valores cristãos, e isso não é a toa, ele era um católico fervoroso e é aí que se esconde o perigo. Kuehnelt-Leddihn se dizia de extrema direita, em um pedaço de seu livro faz uma análise psicanalítica terrível da homossexualidade, utilizando o termo "vício" para falar do assunto e em partes soa "transcendental" demais, mas é preciso compreender. Como austríaco, é óbvia sua ligação com formas de pensamentos mais reacionárias, vale lembrar que a Áustria é, talvez, o país mais conservador da Europa. Esse livro foi escrito antes do final da segundo Guerra Mundial e ao contrário do que muita gente (séria, inclusive!) pensa, não se pode analisar o pensamento de alguém fora de sua época. Eu adoraria falar que esse livro é perfeito, mas não é, no entanto, seus ensinamentos transcendem os poucos detalhes que estão atrelados a época de sua escrita.

Além disso, o livro ainda apresenta uma serie de contextualizados, reforçando a tese principal. Verdadeiras aulas de História estão presentes em suas páginas e tudo muito bem referenciado, para mostrar que ele não tira tudo que fala do rabo dele.

Finalizando, "The Menace of the Herd" é um livro extremamente importante. Já o era em sua época, mas sua importância apenas aumentou com o passar dos anos e apesar dos aspectos pertinentes a época em que foi escrito, seu valor continua incomensurável para entender os movimentos sociais, políticos e econômicos que assolam o nosso planeta desde tempos quase imemoráveis.

4 pontos e meio